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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n4/sessao(con).jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Artesanato pan-&eacute;tnico atende demanda por produtos ex&oacute;ticos</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Dream catchers </i>ou apanhadores de sonhos s&atilde;o amuletos colocados no quarto de dormir para afastar os pesadelos das crian&ccedil;as. Embora sejam parte da tradi&ccedil;&atilde;o dos &iacute;ndios Ojibwe, que vivem nos Estados Unidos e no Canad&aacute;, eles s&atilde;o produzidos em larga escala na pequena Vila de Tegallalang, que fica na ilha de Bali, Indon&eacute;sia. L&aacute; tamb&eacute;m s&atilde;o fabricados o Didjeridu, um instrumento musical abor&iacute;gine australiano e m&aacute;scaras &eacute;tnicas que, dependendo do lugar, s&atilde;o vendidas como sendo da tradi&ccedil;&atilde;o Asmat, grupo da Nova Guin&eacute;, dos Sasak, que vivem na Ilha Lombok, Indon&eacute;sia, ou ainda como africanas. Todos esses objetos, caracterizados como sendo artesanato &eacute;tnico, s&atilde;o produzidos para serem vendidos no com&eacute;rcio local e tamb&eacute;m s&atilde;o exportados para todo mundo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Usualmente o termo &eacute;tnico &eacute; associado a um grupo cultural ou regi&atilde;o espec&iacute;fica. "O turismo contempor&acirc;neo, no entanto, estabelece um v&iacute;nculo fict&iacute;cio com esses grupos &eacute;tnicos, gerando uma prolifera&ccedil;&atilde;o de s&iacute;mbolos e pr&aacute;ticas est&eacute;ticas: arte, estilos musicais e pr&aacute;ticas espirituais s&atilde;o replic&aacute;veis e tornam-se dispon&iacute;veis para o consumo", explica Jeniffer Esperanza, antrop&oacute;loga do Beloit College, Wisconsin (EUA). Desde 1999, ela investiga esse artesanato popular, tribal ou &eacute;tnico. "Enquanto alguns desses objetos claramente fazem refer&ecirc;ncia a uma tradi&ccedil;&atilde;o &eacute;tnica local, outros s&atilde;o o que eu chamo de pan-&eacute;tnicos porque s&atilde;o baseados em imagens estereotipadas, produzidas por artes&atilde;os locais a partir de fotografias, desenhos e instru&ccedil;&otilde;es dadas a eles por estrangeiros ou comerciantes intermedi&aacute;rios, sem nenhuma conex&atilde;o cultural com esse artesanato", afirma a antrop&oacute;loga. Disso resulta uma cole&ccedil;&atilde;o de s&iacute;mbolos, objetos e pr&aacute;ticas de um grupo cultural que s&atilde;o descontextualizados, reapropriados e realocados, fazendo com que sua origem torne-se irrelevante ou mesmo desconhecida para quem os consome.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa cole&ccedil;&atilde;o de s&iacute;mbolos e pr&aacute;ticas, entretanto, n&atilde;o &eacute; aleat&oacute;ria. O encantamento dos ocidentais por pr&aacute;ticas espirituais como o budismo, reiki, yoga, entre outras, &eacute; reproduzido em camisetas, spas, retiros onde essas pessoas buscam modos de ser e de viver que sejam opostos &agrave; sua pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia de vida, sempre esperando encontrar algo ex&oacute;tico e diferente. "Pergunto a eles: por que n&atilde;o est&aacute;tuas da Virgem Maria ou S&atilde;o Francisco de Assis, e a resposta &eacute; que esses s&iacute;mbolos s&atilde;o muito familiares e, por isso, n&atilde;o atendem as necessidades desse consumidor moderno", conta a pesquisadora.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; bastante prov&aacute;vel que o turista em Bali n&atilde;o saiba que os apanhadores de sonhos n&atilde;o perten&ccedil;am &agrave; cultura da ilha e menos ainda que seu objetivo &eacute; proteger as crian&ccedil;as j&aacute; que, segundo a tradi&ccedil;&atilde;o ind&iacute;gena, os adultos j&aacute; sabem interpretar seus sonhos, sejam eles bons ou ruins. A prolifera&ccedil;&atilde;o desses s&iacute;mbolos e produtos pode gerar associa&ccedil;&otilde;es equivocadas, portanto. Isso aconteceu, por exemplo, em 2002, quando a revista norte- -americana <i>Time,</i> ao noticiar atentados terroristas em Bali, estampou em sua capa uma mulher de cabelos claros que tinha as m&atilde;os adornadas com tatuagens menhdi. Feitas com corantes &agrave; base de henna, elas s&atilde;o comuns entre as mulheres do sul da &Aacute;sia e do Oriente M&eacute;dio, mas n&atilde;o fazem parte da heran&ccedil;a cultural de Bali. De acordo com a pesquisadora, essa pr&aacute;tica chegou &agrave; Indon&eacute;sia na &uacute;ltima d&eacute;cada como um servi&ccedil;o cosm&eacute;tico para turistas. "O que representou Bali naquele momento tr&aacute;gico foram um indiv&iacute;duo e uma pr&aacute;tica simb&oacute;lica que n&atilde;o fazem refer&ecirc;ncia direta ao povo balin&ecirc;s ou &agrave; sua cultura", afirma Jeniffer.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n4/a20img01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>V&Aacute;, ANTES QUE ACABE</b> O uso indevido de s&iacute;mbolos n&atilde;o &eacute; um fen&ocirc;meno novo, especialmente no turismo, esfera privilegiada no sentido de criar imagin&aacute;rios, s&iacute;mbolos e imagens para serem consumidos em um mercado que &eacute; um dos que mais cresce no mundo. Bali &eacute; frequentemente descrita como uma ilha paradis&iacute;aca e ex&oacute;tica. Seu diferencial &eacute; aliar as belezas naturais com costumes ancestrais que n&atilde;o foram contaminados pelo modo de vida ocidental. O <i>Lonely Planet,</i> um dos guias tur&iacute;sticos mais famosos do mundo, afirma que a ilha na Indon&eacute;sia &eacute; mais do que um lugar, &eacute; um modo modo de vida ocidental. O <i>Lonely Planet</i>, um dos guias tur&iacute;sticos mais famosos do mundo, afirma que a ilha na Indon&eacute;sia &eacute; mais do que um lugar, &eacute; um modo de vida. Como essas imagens e interpreta&ccedil;&otilde;es s&atilde;o incorporadas pela popula&ccedil;&atilde;o local? Quais as implica&ccedil;&otilde;es dessa est&eacute;tica pan-&eacute;tnica no modo de vida dos balineses? Para Jeniffer Esperanza, ao longo do s&eacute;culo XX atores estrangeiros (colonizadores, turistas etc), introduziram em Bali diversas produ&ccedil;&otilde;es culturais que diziam mais sobre eles mesmos, do que sobre os balineses. Interessada em manter e ampliar o mercado tur&iacute;stico, a popula&ccedil;&atilde;o local incorporou essas pr&aacute;ticas, refor&ccedil;ando uma falsa no&ccedil;&atilde;o de "n&oacute;s" <i>versus</i> "os outros" ou "moderno" versus "primitivo", que tanto agrada aos turistas. Bali &eacute; mostrada como um modelo cultural oposto ao das sociedades modernas, especialmente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Europa, Am&eacute;rica do Norte, Austr&aacute;lia e Jap&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sua consolida&ccedil;&atilde;o como um dos principais destinos tur&iacute;sticos na Indon&eacute;sia est&aacute; fortemente ligada &agrave; promo&ccedil;&atilde;o da ideia de que a cultura balinesa est&aacute; em perigo de extin&ccedil;&atilde;o. "A cria&ccedil;&atilde;o e promo&ccedil;&atilde;o de um para&iacute;so que est&aacute; quase extinto d&aacute; ao turista uma sensa&ccedil;&atilde;o de nostalgia. Quem visita a ilha tem o privil&eacute;gio de ver um para&iacute;so antes que ela se torne moderna", argumenta Jeniffer. "Muitos turistas com os quais eu conversei ficaram desapontados ao encontrar tanto tr&aacute;fego, telefones celulares, antenas parab&oacute;licas, restaurantes de <i>fast food.</i> O motivo da frustra&ccedil;&atilde;o &eacute; Bali estar ficando muito parecida com o Ocidente", conta. Para ela, essa suposta fragilidade n&atilde;o &eacute; problem&aacute;tica para os balineses. Depois de s&eacute;culos de contato com a Mal&aacute;sia, &Iacute;ndia, China e os Pa&iacute;ses Baixos, a cultura balinesa, dita tradicional &eacute;, na verdade, uma am&aacute;lgama de v&aacute;rias est&eacute;ticas incorporadas ao longo do tempo. "Em outras palavras, pertencer a muitas culturas n&atilde;o &eacute; um conceito novo para os balineses", diz ela.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BALI MODERNA</b> Intelectuais como Edward Said, autor do cl&aacute;ssico <i>Orientalismo</i> (1978) e o norte-americano Dean MacCannell, que estuda o turismo contempor&acirc;neo, j&aacute; discutiram amplamente essa ideia: de que para o Ocidente/moderno existir, deve haver um oposto: o Oriente/ pr&eacute;-moderno. "A ironia desse fen&ocirc;meno &eacute; que o turista &eacute; tratado com servi&ccedil;os de formas de entretenimento trazidos para a ilha exatamente para satisfaz&ecirc;-los", diz. &Eacute; o caso das tatuagens mendhi, de retiros para pr&aacute;tica da terapia japonesa reiki e dos <i>dream catchers</i> norte-americanos, j&aacute; citados. "Tecnologia, economia global e a m&iacute;dia internacional s&atilde;o parte do tecido social e econ&ocirc;mico em Bali, mesmo que isso n&atilde;o seja (ou n&atilde;o queira ser) percebido pelo turista", acredita Jeniffer. O artesanato pan- -&eacute;tnico, esteja ele ou n&atilde;o ligado &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o cultural da ilha, se integra nessa busca pelo que &eacute; antigo e raro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A vila de Tegallalang, localizada no centro da ilha, produz e distribui objetos art&iacute;sticos para o com&eacute;rcio local e para exporta&ccedil;&atilde;o. "Essa ind&uacute;stria permitiu aos artes&atilde;os locais desafiar os estere&oacute;tipos como um lugar ou uma cultura congelados no tempo e intocados pela globaliza&ccedil;&atilde;o", conta Jeniffer. Segundo ela, esses artes&atilde;os n&atilde;o t&ecirc;m uma vis&atilde;o rom&acirc;ntica sobre eles mesmos. Para eles, a capacidade de fazer uma grande variedade de esculturas em madeira e outros produtos exigidos por consumidores em todo o mundo &eacute; motivo de orgulho. "A exporta&ccedil;&atilde;o das artes &eacute;tnicas, ao contr&aacute;rio da ind&uacute;stria do turismo, permite ao balin&ecirc;s local, renegociar sua identidade para se tornar cidad&atilde;o moderno e cosmopolita, ligado &agrave;s redes sociais de todo o mundo e versado em tradi&ccedil;&otilde;es est&eacute;ticas fora das fronteiras de seu Estado-Na&ccedil;&atilde;o", acredita a antrop&oacute;loga norte-americana.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A ARTE DOS OUTROS</b> &Eacute; preciso observar, no entanto, que os objetos pan-&eacute;tnicos produzidos em Bali est&atilde;o repletos de problemas &eacute;ticos de autenticidade e direitos de propriedade intelectual. No processo de reapropria&ccedil;&atilde;o cultural, o abor&iacute;gene australiano, o &iacute;ndio Ojibwe ou a tatuadora indiana n&atilde;o foram consultados, n&atilde;o ganharam nada. "Nesse sentido, esse mercado de produtos artesanais perpetua uma pr&aacute;tica de impor viol&ecirc;ncia simb&oacute;lica sobre grupos &eacute;tnicos minorit&aacute;rios que j&aacute; det&ecirc;m pouco poder econ&ocirc;mico e pol&iacute;tico dentro de seus pr&oacute;prios Estados- Na&ccedil;&atilde;o", aponta Jeniffer.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n4/a20img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para ela, similarmente &agrave;s tatuagens mendhi, deve-se perguntar como esses s&iacute;mbolos e imagens t&ecirc;m sido usados para representar pessoas ou lugares e, mais importante, deve-se fazer uma cr&iacute;tica a ind&uacute;stria do consumo que tenta afirmar nossa pr&oacute;pria subjetividade por meio da mercantiliza&ccedil;&atilde;o da est&eacute;tica &eacute;tnica.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Patr&iacute;cia Mariuzzo</i></font></p>      ]]></body>
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