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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n1/a22img01.jpg" /></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>RESENHA</b></font></P>     <P><font size=5><b>O  <small>FEN&Ocirc;MENO DA RIQUEZA EM SUAS DIMENS&Otilde;ES SOCIAIS</small></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Que processos permitem que a riqueza fique concentrada nas m&atilde;os de poucos indiv&iacute;duos? Qual a origem das grandes fortunas? Qual o seu papel na manuten&ccedil;&atilde;o das desigualdades sociais? Essas s&atilde;o algumas perguntas que o soci&oacute;logo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), Antonio David Cattani tenta elucidar em seu mais recente livro, <I>A riqueza desmistificada</I>, publicado em edi&ccedil;&atilde;o bil&iacute;ngue (ingl&ecirc;s/portugu&ecirc;s), no final de 2013, pela editora Marca Visual de Porto Alegre. Para isso o autor prop&otilde;e uma an&aacute;lise da riqueza al&eacute;m da sua dimens&atilde;o puramente econ&ocirc;mica. A riqueza contempor&acirc;nea &eacute;, ao mesmo tempo, totem &#150; quando se mostra, por exemplo, por meio das listas dos mais ricos ou de um mercado de luxo em ascens&atilde;o &#150; e tabu, ao permanecer dissimulada e abstrata, como resultado das for&ccedil;as do mercado, operado por m&atilde;os que se esfor&ccedil;am por permanecerem invis&iacute;veis. Ao desconstruir o mito em torno das grandes fortunas e dos personagens por tr&aacute;s delas &eacute; poss&iacute;vel, segundo o autor, entender a riqueza como um fen&ocirc;meno social total, que comporta dimens&otilde;es culturais, simb&oacute;licas, jur&iacute;dicas e, sobretudo, pol&iacute;ticas. </font></P>     <p><font size="3">Personagens como os &iacute;cones da inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica da era da internet Mark Zuckerberg, Larry Page e Bill Gates ou o italiano Silvio Berlusconi e o mexicano Sebasti&aacute;n Pi&ntilde;era, empres&aacute;rios do setor de m&iacute;dia e tamb&eacute;m importantes pol&iacute;ticos em seus pa&iacute;ses, figuram nas listas, sempre curtas, dos detentores de fortunas estratosf&eacute;ricas. S&atilde;o tamb&eacute;m reverenciados como gurus empresariais e l&iacute;deres intelectuais e pol&iacute;ticos, com grande influ&ecirc;ncia na vida pol&iacute;tica, cultural e econ&ocirc;mica no planeta. Eles encarnam a face tot&ecirc;mica da riqueza. Esses totens se desdobram em outra face, da ordem do tabu. "Quando conv&eacute;m, os indiv&iacute;duos concretos s&atilde;o substitu&iacute;dos por abstra&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ricas tais como 'corpora&ccedil;&otilde;es', os 'grandes bancos' e, especialmente, o 'mercado', todos regidos por for&ccedil;as gerais, mecanismos abstratos e impessoais que asseguram o funcionamento do sistema", escreve o autor. Um sistema que, quanto mais opul&ecirc;ncia gera, mais concentra esse patrim&ocirc;nio nas m&atilde;os de poucos, ao ponto de 10% dos adultos do mundo deter 85% da riqueza global, enquanto a metade mais desfavor&aacute;vel da popula&ccedil;&atilde;o mundial fica com menos de 1% desse montante, segundo dados do World Institute for Development Economics Research (UNU Winder).</font></P>     <p><font size="3"><B>BLINDAGEM</b> Conforme explica Cattani, os multimilion&aacute;rios tentam preservar o controle absoluto dos dados e dos fatos concernentes &agrave; origem dos seus rendimentos e patrim&ocirc;nio, dando, eventualmente, visibilidade aos aspectos da vida social que ratificam seu prest&iacute;gio e legitimam suas posi&ccedil;&otilde;es. Usam sua influ&ecirc;ncia e poder pol&iacute;tico para exercer um tipo de gan&acirc;ncia e ambi&ccedil;&atilde;o sem limites, que resulta em um extraordin&aacute;rio processo de transfer&ecirc;ncia de renda. A redu&ccedil;&atilde;o de impostos sobre rendimentos pessoais e sobre heran&ccedil;as &eacute; um dos meios para viabilizar esse processo. Na mesma linha, mesmo enquanto suas empresas rumam &agrave; insolv&ecirc;ncia ou grandes bancos registram preju&iacute;zos significativos, os altos executivos por tr&aacute;s dessas organiza&ccedil;&otilde;es mant&ecirc;m suas finan&ccedil;as pessoais intocadas, blindadas contra as crises econ&ocirc;micas que, porventura, afetem o setor onde eles est&atilde;o atuando. A novidade aqui &eacute; que enquanto em uma equa&ccedil;&atilde;o normal do sistema capitalista os lucros seriam reinvestidos na empresa para gerar mais lucros, parte substantiva deles passa a ser transferida para fortunas pessoais de alguns poucos, &agrave; custa de trabalhadores, pequenos empres&aacute;rios, pequenos acionistas. </font></P>     <p><font size="3">Para o autor, a aus&ecirc;ncia ou o enfraquecimento dos controles sociais e, especialmente, estatais, permitiu a amplia&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas il&iacute;citas. "A luta pela transpar&ecirc;ncia esbarra nos privil&eacute;gios e na impunidade que apenas alguns indiv&iacute;duos poderosos conseguem assegurar, gra&ccedil;as &agrave; escala do seu poder financeiro e pol&iacute;tico", afirma o autor. "Para os super&#45;ricos n&atilde;o existe na&ccedil;&atilde;o, natureza ou futuro", completa. Ele lembra de uma declara&ccedil;&atilde;o do secret&aacute;rio da Receita Federal feita em 2002, &uacute;ltimo ano do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, afirmando que os grandes banqueiros brasileiros n&atilde;o pagavam imposto de renda.</font></P>     <p><font size="3"><B>APROVA&Ccedil;&Atilde;O P&Uacute;BLICA</b> Outra quest&atilde;o levantada na obra &eacute; sobre a legitimidade social em torno dos multimilion&aacute;rios, a despeito da origem da riqueza, muitas vezes, n&atilde;o ser l&iacute;cita. No senso comum, os mega&#45;ricos s&atilde;o associados &agrave; ideia do esfor&ccedil;o e talento, exercidos em uma economia de livre mercado. E os ricos se aproveitam e se esfor&ccedil;am para ampliar essa legitimidade. A filantropia &eacute; uma das estrat&eacute;gias adotadas para que pare&ccedil;am cidad&atilde;os bem intencionados. Nesse sentido, Cattani acredita ser um desafio para as ci&ecirc;ncias sociais entender que por tr&aacute;s de grandes corpora&ccedil;&otilde;es (e grandes fortunas) existem personagens respons&aacute;veis por decis&otilde;es que afetam a vida de milh&otilde;es de pessoas, sendo eles mesmos os grandes beneficiados, em detrimento de uma justa reparti&ccedil;&atilde;o, que traria o bem comum.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O livro tamb&eacute;m se dedica a uma an&aacute;lise do contexto brasileiro, um dos cinco pa&iacute;ses mais desiguais do planeta. Segundo dados apresentados pela revista <I>Exame</I> (2012) existiriam no Brasil 130 mil multimilion&aacute;rios, 65% residiriam em S&atilde;o Paulo e no Rio de Janeiro, n&uacute;meros que revelam "que alguns poucos indiv&iacute;duos controlam as decis&otilde;es cruciais tomadas nos setores estrat&eacute;gicos de comunica&ccedil;&atilde;o, telefonia, minera&ccedil;&atilde;o e do agroneg&oacute;cio e, especialmente, dominam o core do setor banc&aacute;rio e financeiro", afirma Cattani. E essa concentra&ccedil;&atilde;o de renda tem m&uacute;ltiplas dimens&otilde;es: no exerc&iacute;cio direto ou indireto do poder, no financiamento de partidos e de pol&iacute;ticos e, sobretudo, na tomada de decis&otilde;es estrat&eacute;gicas no campo econ&ocirc;mico. A partir de uma breve an&aacute;lise da hist&oacute;ria econ&ocirc;mica brasileira o autor mostra que "a distribui&ccedil;&atilde;o de renda manteve&#45;se praticamente nas mesmas propor&ccedil;&otilde;es durante o regime militar e durante governos corruptos, populistas e neoliberais". No entanto, ele acredita ter havido uma evolu&ccedil;&atilde;o a partir de 2004, no governo de Luiz In&aacute;cio Lula da Silva que iniciou uma pol&iacute;tica social distinta dos seus antecessores, com resultados importantes na redu&ccedil;&atilde;o da mis&eacute;ria.</font></P>     <p><font size="3"><B>O LADO ESCURO DOS RICOS </b>As diversas listas sobre milion&aacute;rios publicadas ao redor do mundo t&ecirc;m em comum o fato de admitir que os valores contabilizados por elas s&atilde;o subestimados, ou seja, o valor real das fortunas &eacute; maior do que registram as estat&iacute;sticas dispon&iacute;veis. O que a subestima&ccedil;&atilde;o revela "&eacute; a incapacidade do fisco em identificar fontes de renda e de tribut&aacute;&#45;las com o mesmo rigor aplicado aos demais contribuintes", aponta Cattani. Essa seria apenas uma das dificuldades para se localizar e nomear os ricos. No Brasil, o quadro &eacute; ainda mais complexo. O sistema judici&aacute;rio, analisa o autor, protege as grandes fortunas e as desregulamenta&ccedil;&otilde;es promovidas pela onda neoliberal dos anos 1990 facilitam a evas&atilde;o fiscal.</font></P>     <p><font size="3">N&atilde;o se produzem listas de multimilion&aacute;rios no Brasil e existem pouqu&iacute;ssimos estudos acad&ecirc;micos sobre o tema. "Os ricos s&atilde;o uma categoria flex&iacute;vel, perme&aacute;vel, composta, em parte, pela 'velha classe', aquela que esteve associada ao controle dos ciclos econ&ocirc;micos brasileiros mais importantes e ao poder p&uacute;blico nas diferentes esferas". Eles seguem exercendo forte influ&ecirc;ncia pol&iacute;tica quando &eacute; necess&aacute;rio, por exemplo, para manter as taxa&ccedil;&otilde;es sobre heran&ccedil;as e sucess&otilde;es como uma das menores do mundo. Ao mesmo tempo, esfor&ccedil;am&#45;se para ficar longe dos holofotes. Um exemplo disso &eacute; a lista produzida em 2011 pelo jornal ingl&ecirc;s <I>The Sunday Times</I> na qual constavam tr&ecirc;s milion&aacute;rios brasileiros que fixaram resid&ecirc;ncia em Londres para obter vantagens fiscais. Outros cinco multimilion&aacute;rios do setor financeiro, segundo o autor, impediram a publica&ccedil;&atilde;o de seus nomes.</font></P>     <p><font size="3"><B>A DESIGUALDADE SOCIAL</b> As classes ricas t&ecirc;m sido muito bem sucedidas em fomentar uma ideia espec&iacute;fica de meritocracia para justificar sua posi&ccedil;&atilde;o no topo da pir&acirc;mide. Heran&ccedil;as, privil&eacute;gios indevidos e fraudes, vantagens obtidas gra&ccedil;as &agrave;s grandes fortunas, enfim, o lado escuro da riqueza, jamais aparece como elemento que explica as posi&ccedil;&otilde;es no topo da escala social. O livro de Antonio David Cattani &eacute; uma importante contribui&ccedil;&atilde;o para desmistificar a riqueza, fen&ocirc;meno ainda interpretado apenas por seu brilho.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="right"><font size="3"><i>Patr&iacute;cia Mariuzzo</i></font></p>      ]]></body>

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