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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TEND&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>50 anos do golpe militar a SBPC nalutapela democratiza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Helena B. Nader</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Cerca de 30 mil s&oacute;cios. Foi essa a marca surpreendente de associados que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia, a SBPC, atraiu durante o per&iacute;odo da ditadura militar no Brasil. Um reflexo transparente do que a entidade significou para estudantes, professores, pesquisadores e para a sociedade brasileira naquele per&iacute;odo de aus&ecirc;ncia de liberdade de manifesta&ccedil;&atilde;o e express&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De fato, desde sua funda&ccedil;&atilde;o, em 8 de julho de 1948, a SBPC tem desenvolvido sua hist&oacute;ria em profunda sintonia com os processos de evolu&ccedil;&atilde;o social, pol&iacute;tica e econ&ocirc;mica no pa&iacute;s. Ao longo dos seus quase 66 anos, deixou de ser uma entidade voltada apenas para as discuss&otilde;es dos temas relativos ao desenvolvimento cient&iacute;fico e tecnol&oacute;gico nacional, para se transformar tamb&eacute;m num f&oacute;rum privilegiado e prop&iacute;cio aos debates sobre as quest&otilde;es de interesse mais amplo da sociedade. Logo nos anos 1950 a SBPC passou a ampliar sua inser&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, processo intensificado a partir do golpe militar de 1964, quando se viu como uma das poucas entidades representativas da sociedade brasileira com possibilidade de permitir a manifesta&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica frente ao autoritarismo vigente.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante os 20 anos do regime militar (1964-1984) a institui&ccedil;&atilde;o representou um f&oacute;rum democr&aacute;tico de cr&iacute;tica ao regime. Nesse per&iacute;odo, a SBPC cumpriu um papel fundamental de resist&ecirc;ncia ao governo militar, sobretudo manifestando-se contra persegui&ccedil;&otilde;es a professores, pesquisadores e estudantes, e contra a interfer&ecirc;ncia nos sistemas educacional e cient&iacute;fico, que pudessem ferir a autonomia das universidades.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na d&eacute;cada de 1970 a SBPC internalizou temas que evidenciavam a responsabilidade social do cientista, como o impacto da energia nuclear, o apoio &agrave; luta dos povos ind&iacute;genas, o combate &agrave; fome e &agrave; desnutri&ccedil;&atilde;o, e muitos outros que refletiam a import&acirc;ncia das humanidades como componente do crescimento do pa&iacute;s. Nessa &eacute;poca, quando o poder militar enfatizava o desenvolvimento tecnol&oacute;gico em detrimento da busca do conhecimento cient&iacute;fico, ocorreram fortes confrontos entre o governo e os cientistas, face &agrave;s restri&ccedil;&otilde;es &agrave; liberdade e &agrave; redu&ccedil;&atilde;o de recursos para as universidades.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pessoalmente, como estudante universit&aacute;ria na &eacute;poca, acompanhei de perto a retirada de colegas das salas de aulas, professores sendo arrancados de suas casas, as torturas e os desaparecimentos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nossa professora de gen&eacute;tica, Heleneide Nazar&eacute;, foi torturada na Opera&ccedil;&atilde;o Bandeirantes (Obam), e sua irm&atilde;, Helenira, que estava no congresso da UNE em Ibi&uacute;na, foi presa, entrou na guerrilha do Araguaia e, como muitos, nunca mais foi encontrada. As escolas e universidades, pelo car&aacute;ter formativo, de constru&ccedil;&atilde;o do pensamento, da pesquisa e da reflex&atilde;o, foram algumas das institui&ccedil;&otilde;es mais atacadas e prejudicadas durante o regime militar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o podemos esquecer que professores do ensino b&aacute;sico tamb&eacute;m foram perseguidos pela ditadura, muitos torturados e desaparecidos. Aos estudantes foram impingidas no curr&iacute;culo as disciplinas obrigat&oacute;rias Organiza&ccedil;&atilde;o Social e Pol&iacute;tica Brasileira (OSPB) e Educa&ccedil;&atilde;o Moral e C&iacute;vica, para promover a doutrina do governo militar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi nesse cen&aacute;rio, de absoluta aus&ecirc;ncia de espa&ccedil;os para o exerc&iacute;cio da liberdade de express&atilde;o, que as reuni&otilde;es anuais da SBPC se fortaleceram e se transformaram em palco de debates, permitindo questionamentos de fundo ao modelo econ&ocirc;mico social imposto pela coaliz&atilde;o de classes que sustentou a ditadura. Por isso, a institui&ccedil;&atilde;o se consolidou no regime, quando os eventos eram abertos &agrave;s manifesta&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas. Com outros canais fechados pelo governo, a SBPC passou a ser o &uacute;nico espa&ccedil;o onde as vozes discordantes podiam se manifestar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No entanto, houve momentos dram&aacute;ticos na hist&oacute;ria. Em 1977, por exemplo, essa "liberdade" foi amea&ccedil;ada e quase que a 29ª Reuni&atilde;o Anual n&atilde;o aconteceu. O governo exigiu da SBPC o adiamento do evento programado para Fortaleza, sob a alega&ccedil;&atilde;o de que a Uni&atilde;o Nacional dos Estudantes (UNE) organizava um movimento simult&acirc;neo. O adiamento foi recusado pelo presidente da SBPC na &eacute;poca, o f&iacute;sico nuclear Oscar Sala, e a reuni&atilde;o transferida para S&atilde;o Paulo, na Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo (PUC-SP), a convite de Dom Paulo Evaristo Arns. Primeiro houve a tentativa de realizar a reuni&atilde;o na USP, mas a reitoria n&atilde;o autorizou. Apesar de todos os empecilhos, e embora mais de 800 trabalhos inscritos n&atilde;o tenham sido apresentados, por estarem os seus autores proibidos de participar, a reuni&atilde;o teve grande sucesso e repercuss&atilde;o. Foi a nossa primeira reuni&atilde;o no exterior, pois sendo a PUC territ&oacute;rio do Vaticano, os militares n&atilde;o puderam coibir a realiza&ccedil;&atilde;o do evento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o podemos esquecer ainda de eventos lament&aacute;veis para a ci&ecirc;ncia brasileira, como o Massacre de Manguinhos, termo cunhado por Herman Lent, um dos dez pesquisadores da Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz (Fiocruz) que tiveram seus direitos pol&iacute;ticos cassados pela ditadura. Lent, que foi um dos fundadores da SBPC, publicou um livro sobre o epis&oacute;dio, e os cassados da Fiocruz foram reintegrados &agrave; institui&ccedil;&atilde;o em agosto de 1986, com o retorno da democracia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os diretores e presidentes da SBPC durante o regime militar foram exemplos de determina&ccedil;&atilde;o, coragem e dignidade em defesa das liberdades democr&aacute;ticas, por entenderem que somente em um ambiente livre pode a ci&ecirc;ncia evoluir. Carolina Bori, que foi a primeira mulher a presidir a SBPC, de 1985 a 1989, depois de ocupar outros cargos na diretoria, teve um papel fundamental para o desempenho da entidade, principalmente nos anos de resist&ecirc;ncia das sociedades cient&iacute;ficas &agrave; ditadura militar entre 1973 e 1977. Mesmo sob as tens&otilde;es do per&iacute;odo, ela foi uma das respons&aacute;veis por organizar e dar condi&ccedil;&otilde;es que transformaram as reuni&otilde;es anuais da SBPC em um espa&ccedil;o de resist&ecirc;ncia ao sistema, com participa&ccedil;&atilde;o de intelectuais e cientistas, a favor da redemocratiza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s e na defesa dos direitos humanos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Oscar Sala, que presidiu a SBPC por tr&ecirc;s mandatos durante a ditadura militar, desempenhou um papel fundamental na defesa dos interesses da comunidade cient&iacute;fica e dos princ&iacute;pios da democracia. Seu lema de atua&ccedil;&atilde;o sempre foi o desenvolvimento da ci&ecirc;ncia em S&atilde;o Paulo e no Brasil. Dizia que nunca se ligara a partidos pol&iacute;ticos, nem pertenceu &agrave; esquerda ou &agrave; direita, o que facilitou a media&ccedil;&atilde;o com os governos militares em defesa da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. Sua postura era moderada, por&eacute;m sempre firme em defesa dos princ&iacute;pios da democracia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m do trabalho na defesa e na divulga&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia, a institui&ccedil;&atilde;o contribuiu fortemente para sua institucionaliza&ccedil;&atilde;o e para a formula&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica cient&iacute;fica nacional. Na Constituinte de 1986, por exemplo, ela teve atua&ccedil;&atilde;o destacada na defesa dos tr&ecirc;s espa&ccedil;os nacionais - terrestre, a&eacute;reo e subsolo; na prote&ccedil;&atilde;o ao meio ambiente; na defesa do direito de todos &agrave; sa&uacute;de e &agrave; educa&ccedil;&atilde;o; nos direitos das popula&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas; e na responsabilidade do Estado em promover o desenvolvimento cient&iacute;fico e tecnol&oacute;gico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sempre presente em momentos hist&oacute;ricos, a participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica da SBPC se manteve nos anos 1980 e 1990, induzindo a realiza&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios estudos sobre a anistia e manifestando-se pela ren&uacute;ncia do presidente Fernando Collor de Mello, em 1992. Com a amplia&ccedil;&atilde;o dos espa&ccedil;os de manifesta&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica, a SBPC continua a participar das lutas sociais sobre temas como a cria&ccedil;&atilde;o do C&oacute;digo Nacional de Ci&ecirc;ncia, Tecnologia e Inova&ccedil;&atilde;o, Plano Nacional de Educa&ccedil;&atilde;o (PNE), al&eacute;m de denunciar junto &agrave; sociedade e ao governo a precariedade do sistema educacional e os empecilhos que ainda emperram a atividade cient&iacute;fica no Brasil.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Desde o fim da ditadura, em 1985, o Brasil ganhou outros ares, mas muitas entidades ainda lutam para construir, ampliar e consolidar a democracia, e n&atilde;o permitir que, nunca mais, um regime de exce&ccedil;&atilde;o, censura e cerceamento &agrave;s liberdades se instale no pa&iacute;s. A SBPC certamente sempre estar&aacute; nesta luta, pois entende que o exerc&iacute;cio do desenvolvimento da educa&ccedil;&atilde;o e da ci&ecirc;ncia s&oacute; pode progredir em um ambiente social e pol&iacute;tico de plenas liberdades democr&aacute;ticas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><i>Helena B. Nader</i></b> <i>&eacute; biom&eacute;dica, professora titular da Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal do Estado de S&atilde;o Paulo (EPM-Unifesp), e presidente da SBPC.</i></font></p>      ]]></body>

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