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</front><body><![CDATA[ <P ALIGN="CENTER"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/prosa.jpg"></P>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3">U<small>RARIANO</small> M<small>OTA</small></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <P ALIGN="CENTER"><font size="3"><b><a name="title"></a>MAIS QUE IRM&Atilde;OS<a href="#nt"><sup>*</sup></a></b></font></P>     <p><font size="3">Os seus olhos de sede bebem aquela cozinhazinha, da casinha, da salinha, do casalzinho onde est&aacute; a mesinha para dois baixinhos g&ecirc;meos. Os dois reflexos na sua determina&ccedil;&atilde;o. Ele soube depois, Maciel t&atilde;o macho para Maria, t&atilde;o pouco macho para outros homens,  para o trabalho, para a vida. Sempre a olhar para baixo, para o ch&atilde;o, nas horas de enfrentamento. E com isso construindo uma sobreviv&ecirc;ncia custosa e repleta de humilha&ccedil;&atilde;o, mas sobreviv&ecirc;ncia, porque de algum modo as pessoas t&ecirc;m que sobreviver, "n&atilde;o &eacute;? n&atilde;o &eacute;?" Maciel sempre falar&aacute; na velhice, a pular os momentos dram&aacute;ticos de vexame e submiss&atilde;o. Maria, no entanto, o seu outro lado no espelho, na medida do poss&iacute;vel fala por ele. Isso quer dizer, Maria fala no limite da sua condi&ccedil;&atilde;o aprisionada de mulher, condi&ccedil;&atilde;o a que se somam outras, tidas como insultos: pobre e gorda, de cora&ccedil;&atilde;o valente. </font></P>     <p><font size="3">Na do seu destino naquelas horas, Maria fala como Maciel deve agir. Isso n&atilde;o &eacute; imagem ou frase corrida. O menino ouviu, muitas vezes, que depois de escutar e escutar as queixas de Maciel, sua m&atilde;e assim come&ccedil;ava, como resposta: </font></P>     <p><font size="3">&#151; Eu, se fosse voc&ecirc;, agia assim.</font></P>     <p><font size="3">E delineava, na medida do seu entendimento, um programa de a&ccedil;&atilde;o, como gostaria de dizer o Jimeralto maduro, nos encontros clandestinos de milit&acirc;ncia. "Eu, se fosse voc&ecirc;, agia assim". Parecia ent&atilde;o lhe dizer Maria, e Jimeralto compreendeu passados muitos e muitos dias no outro s&eacute;culo, que o programa de Maria se filtrava em uma &uacute;nica frase: "Maciel, seja homem". E nisso a irm&atilde; g&ecirc;mea, espelho, n&atilde;o fazia a Maciel qualquer recrimina&ccedil;&atilde;o ao lado f&ecirc;mea dele, seu reflexo. Ela queria apenas dizer, "Maciel, n&atilde;o se deixe humilhar, Maciel, reaja, Maciel, mate, mate se n&atilde;o puder agir de outra maneira. Se for preciso, mate para ser um homem, Maciel. Mate como o nosso outro irm&atilde;o. Mate para n&atilde;o se matar". E tio Maciel, o espelho, baixava os olhos enquanto Maria falava. Jimeralto n&atilde;o sabia, demorou muito a saber, demorou muito at&eacute; o dia da medita&ccedil;&atilde;o sobre uma verdade que sua m&atilde;e j&aacute; lhe ensinara, mas o partido nunca aceitou, vale dizer, o sentido magn&iacute;fico do que ele descobriu ao refletir sobre Maria: falar &eacute; um modo de agir. Falar &eacute; um programa de a&ccedil;&atilde;o. Em vez do fala, fala, falador, fala fal&aacute;cia palavras n&atilde;o mais que palavras, Maria lhe mostrou que falar era um plano de futuro. Porque nela, pessoa nada ilustrada, assim como em todas as pessoas de escassa ou nenhuma leitura, os verbos no futuro tinham, t&ecirc;m o dom da profecia. Eram, s&atilde;o o momento anterior de uma transforma&ccedil;&atilde;o em atos. Assim como Deus manifestou "fa&ccedil;a&#45;se a luz", e a luz se fez, quando ela dizia, para as tarefas da vida, "vou fazer", ela de fato anunciava a vinda da luz, n&atilde;o t&atilde;o imediata quanto para Deus, mas mediata, pois a luz chegava dias, meses ou anos depois. "Mate para n&atilde;o se matar", ela jamais disse. Mas havia um ambiente, um cen&aacute;rio a envolver Maciel, que assim o exigia, enquanto ele diante disso respondia com um encolhimento.</font></P>     <p><font size="3">Ao refletir sobre esse encolhimento do tio, Jimeralto passou a ter um entendimento mais largo, que se dirigia para a generosidade, e de tal modo que pulava a repulsa &agrave;quele olhar de malicioso convite que a tudo e a todos abarcava. Ele via como se fosse hoje, agora, a rea&ccedil;&atilde;o de Maciel frente aos berros, descomposturas do pai, marido de Maria. T&atilde;o pequeno ele era, Jimeralto, t&atilde;o pequeno ele era, Maciel, ante a voz trovejante de Filadelfo, o negro que odiava homossexuais. Maciel se urinava de pavor diante do poderoso. Que dor no cora&ccedil;&atilde;o lhe dava essa lembran&ccedil;a, ao reeceber a consci&ecirc;ncia de que Maciel, homem feito, se urinara diante do pai, um negro macho repleto de ressentimento. Ent&atilde;o Maciel baixou os olhos, desceu os longos c&iacute;lios para a terra, para o ch&atilde;o, e se molhou nas cal&ccedil;as, as cal&ccedil;as que, segundo Filadelfo, para Maciel eram in&uacute;teis. Essas coisas Jimeralto recordava como uma passagem para a cruz, quando n&atilde;o a pr&oacute;pria cruz, porque n&atilde;o podia ser feliz com essa carga, com a qual teria que atravessar o G&oacute;lgota. E Filadelfo gritara: </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">&#151; Maria, esse teu irm&atilde;o baba na cama!</font></P>     <p><font size="3">E a cama era um leito de lona, sobre paus cruzados em X. Maciel n&atilde;o tinha onde dormir, n&atilde;o tinha mulher, casa ou casamento, ali estava na qualidade prec&aacute;ria de irm&atilde;o de Maria. Dormindo de esmola, vale dizer. E Maria respondera: </font></P>     <p><font size="3">&#151; Que &eacute; que tem? Quem limpa sou eu. </font></P>     <p><font size="3">Para qu&ecirc; Maria respondeu dessa maneira? Filadelfo entrou num processo irrevers&iacute;vel de raiva, que foi crescendo:</font></P>     <p><font size="3">&#151; N&atilde;o &eacute; sua obriga&ccedil;&atilde;o limpar sujeira de irm&atilde;o. A sua obriga&ccedil;&atilde;o &eacute; com quem lhe d&aacute; de comer. A sua obriga&ccedil;&atilde;o &eacute; pra quem voc&ecirc; pariu. </font></P>     <p><font size="3">Essas coisas se passavam diante de Maciel, que apenas olhava. P&aacute;lido, ele estremecia no piso de cimento puro da sala, enquanto se mijava pela f&uacute;ria que tomava conta de Filadelfo. E Filadelfo percebia, n&atilde;o lhe passava sem aten&ccedil;&atilde;o o terror no cunhado, e por isso mais se arrojava na altura da raiva: </font></P>     <p><font size="3">&#151; Quem j&aacute; viu homem babar feito menino? Isso &eacute; falta de chupeta. Isso &eacute; falta de chupeta mais grossa. </font></P>     <p><font size="3">A isso inflamada, vermelha, de raiva e vergonha pelo que sabia ter sido atingida uma ess&ecirc;ncia do irm&atilde;o, Maria lan&ccedil;ou um copo no marido. Que se esquivou, mas viu os estilha&ccedil;os de vidro contra a parede. Ao que Filadelfo mais furioso, sabedor do que mais a ferira, trovejou para Maciel: </font></P>     <p><font size="3">&#151; Est&aacute; vendo o que voc&ecirc; fez, bab&atilde;o? Fora! Fora! </font></P>     <p><font size="3">E Maria, chorando, partiu para arrumar os pr&oacute;prios trapos, que chamava de roupas: </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">&#151; Onde n&atilde;o cabe meu irm&atilde;o, n&atilde;o me cabe. </font></P>     <p><font size="3">&#151; Est&aacute; vendo, bab&atilde;o? Quer me tomar da sua irm&atilde;? </font></P>     <p><font size="3">Ent&atilde;o Maciel, mijado, apenas sussurrou baixinho para Maria, num fio de fala: </font></P>     <p><font size="3">&#151; O enjeitado sou eu, Maria. N&atilde;o destrua o seu casamento. Vou&#45;me embora.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><a name="nt"></a><a href="#title">*</a><i> Do romance </I>O filho renegado de Deus, <i>publicado pela Bertrand Brasil, 2013. </i></font></P>     <p><font size="3"><i>Urariano Mota &eacute; escritor e jornalista nascido no Recife em 1950. Autor dos romances</i> Os cora&ccedil;&otilde;es futuristas<I>, pela Baga&ccedil;o, </I>Soledad no Recife<I>, pela Boitempo,  e </I>O filho renegado de Deus, <i>pela Bertrand Brasil. </i></font></P>     <p><font size="3"><i>O jornalista e escritor Jos&eacute; Carlos Ruy observou que em </i>O filho renegado de Deus<I> o romancista "n&atilde;o se ilude; n&atilde;o confunde a vida imaginada no pensamento, com o vivido. 'A vida n&atilde;o era conceito'; ela 'sempre pula do conceito, a vida &eacute; mais magn&iacute;fica e surpreendente que o maior e melhor enquadramento dial&eacute;tico'. Com este material e esta certeza, produziu um romance memor&aacute;vel".</i></font></p>      ]]></body>
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