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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Freud versus o contratualismo]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br> PSICAN&Aacute;LISE E FILOSOFIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Freud versus o contratualismo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Rafael Rocha Daud</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">As teorias do contrato social, ou contratualismo, constituem, conjuntamente, um procedimento te&oacute;rico surgido no s&eacute;culo XVII, desenvolvido principalmente por Thomas Hobbes, John Locke e, finalmente, Rousseau (1). Parece que as raz&otilde;es do sucesso e preval&ecirc;ncia desse procedimento na explica&ccedil;&atilde;o da forma&ccedil;&atilde;o e manuten&ccedil;&atilde;o dos Estados reside em certos aspectos interessantes, cuja an&aacute;lise, ainda que breve, dever&aacute; nos ajudar a compreender a apropria&ccedil;&atilde;o que Freud, e com ele a psican&aacute;lise, faz dessas ideias.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Em primeiro lugar, cabe observar que o contratualismo cria um mito de origem para os Estados modernos. Com ele, pretende-se, a um tempo, justificar sua legitimidade e definir limites para o poder soberano. Em sua teoriza&ccedil;&atilde;o t&iacute;pica (relevadas as diferen&ccedil;as entre os te&oacute;ricos citados), o Estado funda-se a partir de um contrato, realizado entre indiv&iacute;duos livres, os quais viviam, anteriormente, em um "estado de natureza", submetidos unicamente aos limites que se podiam impor uns aos outros, em especial por meio do uso da for&ccedil;a f&iacute;sica. J&aacute; com vistas a uma colabora&ccedil;&atilde;o maior entre si e a uma limita&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca de suas for&ccedil;as, de tal forma a estarem cada qual protegidos contra a tirania de seus pares, independentemente de sua for&ccedil;a individual, abrem m&atilde;o, livres como eram, de uma parte dos direitos de que gozavam no estado de natureza, transferindo-os a um soberano, que passa a deter, entre outras, a exclusividade no uso da viol&ecirc;ncia. D&aacute;-se o nome de pacto ou contrato social &agrave; lei que institui esse poder soberano, representado pelo Estado.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Conforme as distintas vers&otilde;es do contratualismo, os direitos existentes no estado de natureza - para cuja prote&ccedil;&atilde;o o pacto social &eacute; institu&iacute;do - podem ter sido atribu&iacute;dos ao homem por Deus, provenientes de sua pr&oacute;pria constitui&ccedil;&atilde;o ou ser dedut&iacute;veis racionalmente a partir da ess&ecirc;ncia do car&aacute;ter humano; seja como for, a hip&oacute;tese base, de que se trata de direitos inalien&aacute;veis, ao menos na parcela que restou intocada e preservada pelo pacto social, tem como consequ&ecirc;ncia a necessidade de enumerar tais direitos, ditos ent&atilde;o naturais, para que tenham efeitos positivos, o que se l&ecirc;, por exemplo, nas diversas Declara&ccedil;&otilde;es dos Direitos do Homem redigidas em fun&ccedil;&atilde;o das revolu&ccedil;&otilde;es liberais.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">&Eacute; for&ccedil;oso notar, entretanto, que a despeito de sua influ&ecirc;ncia e atualidade, o contratualismo e a hip&oacute;tese dos direitos naturais, que lhe serve de corol&aacute;rio, continuam sendo nada al&eacute;m disso, ou seja, uma hip&oacute;tese ou <i>d&eacute;marche</i> te&oacute;rica, devendo submeter-se &agrave;s cr&iacute;ticas que eventualmente consideremos pertinentes. Das muitas cr&iacute;ticas dirigidas a essa teoria feitas pelos pensadores do direito e do Estado, parece-nos de superior relev&acirc;ncia aquelas que p&otilde;em em xeque precisamente o car&aacute;ter <i>natural</i> que se atribui ao estado pr&eacute;-contratual.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Efetivamente, quando os te&oacute;ricos contratualistas criam seu mito garantindo uma "continuidade entre o direito privado - que as pessoas possuem por causa de sua natureza humana - e o direito p&uacute;blico" (2), sup&otilde;em uma comunica&ccedil;&atilde;o plaus&iacute;vel, sen&atilde;o hist&oacute;rica, entre um anterior "estado de natureza" e o atual estado civilizado, organizado sob a soberania estatal, justificando-a ao modo como est&aacute;. Entretanto, conforme observa Marx em outro contexto (3), ao explicarem o <i>status quo</i>, seu car&aacute;ter e seu limite, referindo-o a um estado natural, perdem de vista todo o aspecto hist&oacute;rico de sua forma&ccedil;&atilde;o. Ainda que possa n&atilde;o haver naquela teoria qualquer pretens&atilde;o de verdade hist&oacute;rica, fundar o car&aacute;ter do Estado atual por apelo ao estado natural tem como consequ&ecirc;ncia indevida tomar como condi&ccedil;&atilde;o eterna e fatal o que n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o uma etapa no desenvolvimento da sociedade.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Enunciando um pacto social como origem e fundamento da organiza&ccedil;&atilde;o social em geral, inventa-se a contrapartida, logicamente necess&aacute;ria, do estado de natureza anterior ao pacto. O apelo feito pelos diversos te&oacute;ricos, ora &agrave; origem divina, ora &agrave; ess&ecirc;ncia humana dos diretos origin&aacute;rios desse estado de natureza, revela a necessidade de encobrir o que aparece nessas teoriza&ccedil;&otilde;es como aporia. O estado de natureza, que sustenta as demais abstra&ccedil;&otilde;es do contratualismo, revela-se uma tautologia. N&atilde;o sendo observ&aacute;vel diretamente, j&aacute; que nos achamos no estado p&oacute;s-contratual, civilizado, podemos apenas pressup&ocirc;-lo teoricamente.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Ora, quaisquer que sejam os pontos de partida para essa pressuposi&ccedil;&atilde;o, certo &eacute; que dizem muito mais respeito ao estado atual de coisas que ao estado de natureza propriamente dito. Este &eacute; apenas derivado, como seu contraponto, a partir do estado atual. O suposto homem natural &eacute;, assim, muito menos um ser origin&aacute;rio que o pr&oacute;prio homem do Estado moderno, liberal, despido artificialmente de suas amarras institucionais. &Eacute; dele que podemos esperar que seja "lobo do pr&oacute;prio homem", n&atilde;o daquele outro, do qual pouco sabemos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">A tautologia do contratualismo est&aacute;, portanto, em descrever um estado de coisas, uma condi&ccedil;&atilde;o humana abstratamente constru&iacute;da e, ao inv&eacute;s de lan&ccedil;&aacute;-la adiante como meta ou utopia a ser alcan&ccedil;ada, lan&ccedil;&aacute;-la para tr&aacute;s como origem e fundamento. Em seguida, esquecer o car&aacute;ter hipot&eacute;tico dessa constru&ccedil;&atilde;o e tom&aacute;-la como natural, inerente ao homem, para que justifique e explique as formas atuais de organiza&ccedil;&atilde;o. O construto te&oacute;rico ganha <i>status</i> de realidade atual.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>O contratualismo no mito do assassinato do pai da horda</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">&Eacute; verdade que os mitos n&atilde;o precisam estar em conson&acirc;ncia com a realidade, nem isentos de tautologias e outros v&iacute;cios da argumenta&ccedil;&atilde;o. Ser&aacute; preciso, entretanto, averiguar as consequ&ecirc;ncias te&oacute;ricas e pr&aacute;ticas, ou seja, no caso da psican&aacute;lise, as consequ&ecirc;ncias cl&iacute;nicas, desses pressupostos metodol&oacute;gicos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">A abordagem operada por Freud nos ensaios de <i>Totem e tabu</i> (4), que nos apresenta a bela hip&oacute;tese do assassinato do pai da horda primitiva, parece-nos reproduzir, em mat&eacute;ria e esp&iacute;rito, a hip&oacute;tese contratualista no que esta tem de mais problem&aacute;tico, ao propor um mito de origem do processo civilizat&oacute;rio.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">N&atilde;o nos interessa opor-nos &agrave; ideia de que "o pai morto tornou-se mais forte do que o fora vivo", pois "o que at&eacute; ent&atilde;o fora interdito por sua exist&ecirc;ncia real foi doravante proibido pelos pr&oacute;prios filhos", criando assim "os dois tabus fundamentais do totemismo, que, por essa mesma raz&atilde;o, corresponderam inevitavelmente aos dois desejos reprimidos do complexo de &Eacute;dipo" (5).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Entretanto, n&atilde;o estaria Freud reproduzindo, talvez inspirado por suas leituras, num per&iacute;odo ainda inicial de suas investiga&ccedil;&otilde;es, o equ&iacute;voco contratualista, derivando de seu pr&oacute;prio mito consequ&ecirc;ncias que se fundam para al&eacute;m dele? Lembremos que <i>Totem e tabu</i> foi publicado em 1913, sendo portanto apenas o primeiro de uma s&eacute;rie de textos dedicados a essa investiga&ccedil;&atilde;o, entre os quais salientamos a <i>Introdu&ccedil;&atilde;o ao narcisismo</i> (1914), a <i>Psicologia das massas</i> (1921), <i>O futuro de uma ilus&atilde;o</i> (1927), <i>O mal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o</i> (1930) e <i>Mois&eacute;s e o monote&iacute;smo</i> (1939).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">O crucial da quest&atilde;o reside em opor o estatuto do estado de cultura ao estado de natureza, estabelecendo, ao mesmo tempo, uma continuidade entre eles. Entretanto, em L&eacute;vi-Strauss (6) verificamos que ao estado de natureza n&atilde;o se atribui qualquer positividade, tratando-se t&atilde;o somente de referir-se ao momento inaugural da civiliza&ccedil;&atilde;o, esta sim objeto de pesquisa. O pr&eacute;-cultural n&atilde;o interessa sen&atilde;o como contraste, mas sem relacionar-se propriamente com a cultura.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Para os contratualistas, ao contr&aacute;rio, o estado pr&eacute;-civilizat&oacute;rio interessa positivamente na medida em que oferece as bases sobre as quais se sustentam e justificam as condi&ccedil;&otilde;es sociais atuais, especialmente no que diz respeito ao contrato social e &agrave;s normas. Um contratualista se valer&aacute; de atributos espec&iacute;ficos do estado de natureza para sustentar, a cada vez, a falta de justificativa para a pena de morte ou a legitimidade incontest&aacute;vel da propriedade privada.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Cabe notar ainda que a distin&ccedil;&atilde;o radical estabelecida pelo contratualismo entre o estado de natureza e o estado civilizado seria antes melhor entendida como a exist&ecirc;ncia de dois estados distintos de civiliza&ccedil;&atilde;o, um dos quais aquela teoria visa privilegiar em rela&ccedil;&atilde;o ao outro.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Conforme lemos em Foucault, "a passagem a uma agricultura intensiva exerce sobre os direitos de uso, sobre as toler&acirc;ncias, sobre as pequenas ilegalidades aceitas, uma press&atilde;o cada vez mais cerrada"(7). O cercamento dos campos, introduzindo a propriedade privada onde antes havia um espa&ccedil;o de uso comum, faz entrar para o campo das condutas juridicamente relevantes toda uma s&eacute;rie de toler&acirc;ncias ou pr&aacute;ticas anteriormente consolidadas, como o direito de pasto livre e de recolher lenha, para conden&aacute;-las. A ordem jur&iacute;dica anterior aparece como aus&ecirc;ncia de ordem, ou estado de natureza, quando referida a partir da ordem posterior.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Freud pareceria acompanhar a <i>d&eacute;marche</i> contratualista ao supor a exist&ecirc;ncia de uma comunidade pr&eacute;-cultural, desorganizada, cujas rela&ccedil;&otilde;es se fundam na "guerra de todos contra todos" (8). Apenas o compromisso entre os irm&atilde;os, ap&oacute;s o banquete que se segue &agrave; morte do pai da horda, teria posto fim a esse estado, ao renunciarem ao lugar do pai deposto, submetendo-se, todos e cada qual, a uma lei comum que pro&iacute;be simultaneamente o assassinato e o incesto.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">A similaridade entre o mito freudiano e o mito contratualista, parece-nos, n&atilde;o &eacute; apenas de forma. Tamb&eacute;m no Freud de <i>Totem e tabu</i> o estado pr&eacute;-civilizat&oacute;rio parece carregar uma certa positividade que &eacute; transmitida ao estado civilizado, ao modo de uma esp&eacute;cie de "direito natural". Tal positividade se evidencia quando Freud sustenta a necessidade da "ren&uacute;ncia instintual" (9) que o pacto entre irm&atilde;os passa a exigir como condi&ccedil;&atilde;o de civiliza&ccedil;&atilde;o. Tal ren&uacute;ncia seria estruturalmente equivalente &agrave; ren&uacute;ncia de direitos que exige o pacto social, conforme a hip&oacute;tese contratualista (10).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">No mesmo sentido, recusar-se a essa ren&uacute;ncia significaria, para o indiv&iacute;duo, uma recusa deliberada do pacto civilizat&oacute;rio. Em termos cl&iacute;nicos, enquanto a ren&uacute;ncia pode resultar em neurose, sua recusa, embora em tese poupe o indiv&iacute;duo da patologia, obriga-nos a consider&aacute;-lo intrat&aacute;vel e fora do alcance da psican&aacute;lise. Sua conduta, conforme esse racioc&iacute;nio, seria melhor agenciada no campo social, seja na forma de san&ccedil;&otilde;es morais, seja na forma de submetimento estatal (11).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">A ideia de um Freud contratualista, portanto, embora parecendo corroborar-se em alguns textos, especialmente naqueles anteriores &agrave; Primeira Grande Guerra, tem como consequ&ecirc;ncia uma leitura moral do estado civilizat&oacute;rio e, ainda mais, a suposi&ccedil;&atilde;o de um ato de vontade envolvido na recusa ou ades&atilde;o de cada indiv&iacute;duo ao pacto social. Tais consequ&ecirc;ncias n&atilde;o parecem ter sido pretendidas por Freud e ser&atilde;o por ele frontalmente contraditadas a partir do momento da Guerra, com as observa&ccedil;&otilde;es e reflex&otilde;es que provoca, registradas em alguns textos que gostar&iacute;amos de examinar brevemente (12).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>A coopera&ccedil;&atilde;o para nos manter aquecidos (13) </b>Freud, analisando o mito prometeico do furto do fogo dos deuses (14), identifica nessa transgress&atilde;o n&atilde;o um crime mas, ao contr&aacute;rio, a exig&ecirc;ncia de uma ren&uacute;ncia instintual feita aos homens no passo entre o estado de natureza e o estado de cultura. Refere-se tal ren&uacute;ncia, especificamente, ao impulso, de fundo viril e homossexual (15), de apagar as brasas com um jato de urina. &Eacute; evidente a import&acirc;ncia, como requisito da cultura, da manuten&ccedil;&atilde;o das brasas acesas, passo primeiro no controle do fogo, o que inclusive permitiu o cozimento da carne e a subsequente reserva proteica necess&aacute;ria ao desenvolvimento da intelig&ecirc;ncia humana. Assim como o uso do pasto e a recolha da lenha, trata-se de etapas na manuten&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es de civiliza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">&Eacute; digno de nota, por&eacute;m, que Freud fa&ccedil;a refer&ecirc;ncia (16) a um grupo social, o dos antigos mong&oacute;is, entre os quais essa mesma proibi&ccedil;&atilde;o, ao inv&eacute;s de mascarada e convertida em transgress&atilde;o pelo mito, apare&ccedil;a explicitada em suas leis. &Eacute; enganoso achar que Freud faz tal refer&ecirc;ncia a fim de corroborar sua hip&oacute;tese. Ao contr&aacute;rio, parece-me que, com ela, ele pretende salientar a disjun&ccedil;&atilde;o radical entre os fundamentos e pr&eacute;-condi&ccedil;&otilde;es da cultura, ren&uacute;ncias de car&aacute;ter absoluto que ecoam no mito prometeico assim como no mito edipiano, e as condi&ccedil;&otilde;es materiais de uma dada civiliza&ccedil;&atilde;o, de acordo com seu particular desenvolvimento tecnol&oacute;gico e social, que inclusive distingue graus de ren&uacute;ncia entre seus diferentes membros.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">&Agrave; parte os antigos mong&oacute;is, nenhuma civiliza&ccedil;&atilde;o necessita jamais se sustentar numa proibi&ccedil;&atilde;o ulterior contra urinar nas brasas. Que fr&aacute;gil nossa confian&ccedil;a numa tal civiliza&ccedil;&atilde;o seria! Conforme o mito, trata-se de uma condi&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via, mas que n&atilde;o se atualiza a cada momento da cultura. Mesmo o incesto e o parric&iacute;dio prescindem disso, e n&atilde;o porque sua proibi&ccedil;&atilde;o esteja suficientemente internalizada em nossa psique, como querem alguns, mas porque a cultura, uma vez estabelecida, j&aacute; conta com os ganhos simb&oacute;licos desse passo, uma vez dado, e se transmite por essa via a todas as suas inst&acirc;ncias, independente das condi&ccedil;&otilde;es particulares em que se achem. Prova e exemplo disso &eacute; a circunst&acirc;ncia, que verificamos, segundo a qual as parcelas das popula&ccedil;&otilde;es de quem se exige as maiores ren&uacute;ncias s&atilde;o tamb&eacute;m, justamente por esse motivo, as que vivem nas condi&ccedil;&otilde;es mais pr&oacute;ximas &agrave; barb&aacute;rie.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Isso afasta radicalmente a concep&ccedil;&atilde;o freudiana da hip&oacute;tese contratualista. Para esta &uacute;ltima, o contrato social precisa ser constantemente atualizado e reiterado, sendo pass&iacute;vel de rompimento por um ou outro indiv&iacute;duo, o qual estaria, em consequ&ecirc;ncia de sua pr&oacute;pria recusa em participar dele, desabrigado de sua prote&ccedil;&atilde;o. Para Freud, ao contr&aacute;rio, estamos, para o bem e para o mal, condenados sem sa&iacute;da &agrave; cultura e &agrave; civiliza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">&Eacute; neste sentido que devemos ler o tratamento dado por Freud &agrave; quest&atilde;o dos instintos a partir do per&iacute;odo p&oacute;s-Guerra. Se, por um lado, a ren&uacute;ncia instintual estabelece as bases da civiliza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; nunca completa. Assim, a guerra permite aos homens "atos de crueldade, fraude, trai&ccedil;&atilde;o e barb&aacute;rie t&atilde;o incompat&iacute;veis com seu n&iacute;vel de civiliza&ccedil;&atilde;o, que qualquer um os julgaria imposs&iacute;veis" (17).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Julg&aacute;-los imposs&iacute;veis, entretanto, &eacute; para Freud t&atilde;o somente uma ilus&atilde;o da qual a guerra teve o benef&iacute;cio de nos libertar: "nossos concidad&atilde;os n&atilde;o deca&iacute;ram tanto &#91;da civilidade&#93; quanto tem&iacute;amos, porque nunca subiram tanto quanto acredit&aacute;vamos". Para n&oacute;s, portanto, n&atilde;o se trata de legislar a fim de preservar a civiliza&ccedil;&atilde;o, como queriam os contratualistas, mas de melhor redistribuir as ren&uacute;ncias, para que o excesso destas n&atilde;o torne insuport&aacute;vel a pr&oacute;pria civiliza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Rafael Rocha Daud</b> &eacute; mestre em psicologia social pela Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo (PUC-SP) e bacharel em direito pela Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). Psicanalista e escritor, &eacute; autor de Freud e seus fantasmas: a autoan&aacute;lise e o que os sonhos dizem sobre n&oacute;s e Poemas para o s&eacute;culo XX (no prelo).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Notas e Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">1. Ch&acirc;telet, F. et al. Hist&oacute;ria das ideias pol&iacute;ticas. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092140&pid=S0009-6725201500010001600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">2. Ch&acirc;telet, F., op. cit. p. 47. 2009.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">3. Marx, K. "Bastiat e Carey". In: Grundrisse. Manuscritos econ&ocirc;micos de 1857-1858: Esbo&ccedil;os da cr&iacute;tica da economia pol&iacute;tica. S&atilde;o Paulo: Boitempo, 2011.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092143&pid=S0009-6725201500010001600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">4. Freud, S. (1913). "Totem e tabu". In: Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092145&pid=S0009-6725201500010001600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">5. Freud, S., (1913), op. cit., p. 146-7.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">6. L&eacute;vi-Strauss, C. As estruturas elementares do parentesco. 5. ed. S&atilde;o Paulo: Vozes, 2008.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092148&pid=S0009-6725201500010001600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">7. Foucault, M. Vigiar e punir. 39. ed. Petr&oacute;polis, RJ: Vozes, 2011, p. 82.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092150&pid=S0009-6725201500010001600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">8. Hobbes, T. Leviat&aacute;n o la materia, forma y poder de una rep&uacute;blica, eclesi&aacute;stica y civil. 2. ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econ&oacute;mica, 2007, p. 102.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092152&pid=S0009-6725201500010001600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">9. Freud, S. (1908). "Moral sexual civilizada e doen&ccedil;a nervosa moderna". In: Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. IX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092154&pid=S0009-6725201500010001600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">10. Hobbes T., op. cit., p. 107.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">11. Para uma discuss&atilde;o mais aprofundada dessas consequ&ecirc;ncias, sugerimos a leitura de Enfraquecimento da lei ou aumento do poder punitivo? Uma reflex&atilde;o acerca do discurso psicanal&iacute;tico sobre a crise do simb&oacute;lico na contemporaneidade (Neri, R. In: Tedesco, S.; Nascimento, M. L. (org.). &Eacute;tica e subjetividade. Novos impasses no contempor&acirc;neo. Porto Alegre: Sulina, 2009), assim tamb&eacute;m &Eacute;tica e pol&iacute;tica: a psican&aacute;lise diante da realidade, dos ideais e das viol&ecirc;ncias contempor&acirc;neos (Rosa, M. D.; Carignato, T. T.; Berta, S. L.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092157&pid=S0009-6725201500010001600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> In: &Aacute;gora. Rio de Janeiro, vol. IX, n. 1, jan/jun 2006, pp. 35-48) e,    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092158&pid=S0009-6725201500010001600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> finalmente, nossa pr&oacute;pria disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado, "Incid&ecirc;ncia da lei, norma, ideal e superego. Fundamentos para um di&aacute;logo entre direito e psican&aacute;lise" (Faculdade de Ci&ecirc;ncias Humanas e da Sa&uacute;de, Programa de Estudos P&oacute;s-graduados em Psicologia Social, Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo, S&atilde;o Paulo, 2013).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">12. Uma reflex&atilde;o mais detida sobre essa quest&atilde;o ainda se faz necess&aacute;ria e poderia balizar-se nos textos anteriormente por n&oacute;s apontados, iniciando na Introdu&ccedil;&atilde;o ao narcisismo e finalizando em Mois&eacute;s e o monote&iacute;smo. Ao inv&eacute;s disso, tomaremos como base dois textos menores, &agrave; moda de atalhos, permitindo-nos apontar um caminho que nos parece promissor para desenvolver este tema.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">13. Os textos freudianos em que se baseia a reflex&atilde;o seguinte s&atilde;o A aquisi&ccedil;&atilde;o e o controle do fogo e Reflex&otilde;es para os tempos de guerra e morte. O primeiro foi por n&oacute;s examinado em nossa disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado e o segundo foi-nos trazido &agrave; aten&ccedil;&atilde;o por Joel Birman, em sua confer&ecirc;ncia durante o V Congresso Internacional de Filosofia da Psican&aacute;lise, realizado em outubro/novembro de 2013, refor&ccedil;ando o ponto de vista que ent&atilde;o sustent&aacute;vamos.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">14. Freud, S. (1932). "A aquisi&ccedil;&atilde;o e o controle do fogo". In: Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092162&pid=S0009-6725201500010001600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">15. Notemos o paralelo entre essa condi&ccedil;&atilde;o e aquela reinante na fraternidade da horda primitiva, previamente ao assassinato do pai, cf. Freud, S. (1913), op. cit., p. 144 e ss.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">16. Freud, S. (1932), op. cit., p. 182.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">17. Freud., S. (1915). "Reflex&otilde;es para os tempos de guerra e morte". In: Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 290.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092166&pid=S0009-6725201500010001600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      ]]></body>
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