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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   DESLOCAMENTOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>Apresenta&ccedil;&atilde;o: deslocamentos, desigualdades  e viol&ecirc;ncia do estado</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>Bela Feldman-Bianco</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Professora colaboradora do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pesquisadora n&iacute;vel 1 do CNPq, coordenadora do Comit&ecirc; Migra&ccedil;&otilde;es e Deslocamentos da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Antropologia e co-coordenadora do Comit&ecirc; Antropologias Mundiais da Associa&ccedil;&atilde;o Americana de Antropologia, entre outras atividades</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Vivemos hoje num mundo globalizado caracterizado por intensos deslocamentos sociais e ecol&oacute;gicos, expuls&otilde;es, brutalidade e precariedade da vida humana (1). Numa conjuntura marcada por um capitalismo corporativo altamente destrutivo, esses deslocamentos e expuls&otilde;es refletem o surgimento de uma nova l&oacute;gica de exclus&atilde;o social que est&aacute; ampliando as desigualdades e criando contingentes de despossu&iacute;dos (2). Simultaneamente &agrave; predomin&acirc;ncia de ideologias e ret&oacute;ricas multiculturalistas ancoradas em "direitos humanos" e no humanitarismo, produzem-se categorias sociais e pol&iacute;ticas de governan&ccedil;a tecnocrata de securitiza&ccedil;&atilde;o, criminaliza&ccedil;&atilde;o e desumaniza&ccedil;&atilde;o da pobreza.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">No cen&aacute;rio atual, os movimentos de capital, signos e a comunica&ccedil;&atilde;o virtual aparentam dissolver fronteiras, enquanto certos fluxos de pessoas, produtos e lugares s&atilde;o focos de pol&iacute;ticas restritivas e de controle seletivo. Estimativas da ONU indicam que o n&uacute;mero de deslocados transnacionais alcan&ccedil;ou cerca de 300 milh&otilde;es em 2011. Esse n&uacute;mero torna-se ainda mais elevado quando adicionamos os cerca de 740 milh&otilde;es de migrantes internos, muitos dos quais foram removidos por projetos desenvolvimentistas e interesses imobili&aacute;rios no campo e nas cidades. N&atilde;o por acaso, quest&otilde;es relacionadas &agrave; circula&ccedil;&atilde;o de migrantes transnacionais, refugiados e solicitantes de ref&uacute;gio s&atilde;o presentemente consideradas priorit&aacute;rias nas agendas p&uacute;blicas de ag&ecirc;ncias multilaterais e de governos nacionais. Igualmente, os deslocamentos internos, seja no que se refere &agrave; remo&ccedil;&atilde;o de territ&oacute;rios ou de pessoas consideradas &agrave; margem do Estado, se tornaram foco de pol&iacute;ticas locais e nacionais que refletem agendas multilaterais.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">A compreens&atilde;o desses processos e seus aparentes paradoxos requer novos olhares e paradigmas capazes de se contraporem &agrave; imanente fragmenta&ccedil;&atilde;o positivista que divide o conhecimento em diferentes campos e temas de estudos e reifica o Estado-na&ccedil;&atilde;o. Assumindo esse desafio, apresentamos, neste N&uacute;cleo Tem&aacute;tico, cinco artigos que, em seu conjunto, trazem &agrave; tona uma perspectiva global dos deslocamentos sociais como porta de entrada para se entender e expor os processos em curso (3). Quer seja examinando quest&otilde;es relacionadas &agrave;s migra&ccedil;&otilde;es transnacionais, deporta&ccedil;&otilde;es, tr&aacute;fico de bens il&iacute;cito, tr&aacute;fico de seres humanos, ref&uacute;gio, desaparecimentos e assassinatos em favelas e periferias urbanas ou, ainda, em antigos regimes ditatoriais, procuramos discernir as rela&ccedil;&otilde;es entre essas diferentes mobilidades e imobilidades e a produ&ccedil;&atilde;o de desigualdades sociais. Buscamos, assim, lan&ccedil;ar as bases comparativas para uma melhor compreens&atilde;o de novas e antigas l&oacute;gicas de exclus&atilde;o social produzidas pelo capitalismo contempor&acirc;neo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Esse paradigma foi elaborado a partir de uma s&eacute;rie de simp&oacute;sios internacionais que reuniram estudiosos cujas pesquisas hist&oacute;ricas ou contempor&acirc;neas focalizaram diversos tipos e escalas dos deslocamentos sociais em v&aacute;rias partes do mundo, seja na Am&eacute;rica do Norte, Am&eacute;rica do Sul, &Aacute;sia, Austr&aacute;lia ou Europa (4). As an&aacute;lises e discuss&otilde;es sobre essas investiga&ccedil;&otilde;es indicaram a inseparabilidade entre deslocamentos, racializa&ccedil;&atilde;o, colonialismo, capitalismo e suas estruturas de domina&ccedil;&atilde;o e desigualdades que transpassam os Estados-na&ccedil;&otilde;es. Implicaram tamb&eacute;m na necessidade de teorizar ra&ccedil;a e racismo focalizando um conjunto de atores diversos, sejam eles ind&iacute;genas, afrodescendentes, imigrantes ou refugiados, entre outras categorias, que igualmente tendem a ser estudados separadamente. Dado o protagonismo desses personagens, tornou-se essencial examinar as suas a&ccedil;&otilde;es, rea&ccedil;&otilde;es e mobiliza&ccedil;&otilde;es sociais no que tange &agrave;s ambiguidades entre acesso diferencial e exclus&atilde;o aos direitos humanos e de cidadania. Como corol&aacute;rio, passamos a explorar as rela&ccedil;&otilde;es intr&iacute;nsecas entre deslocamentos, desigualdades, securitiza&ccedil;&atilde;o, militariza&ccedil;&atilde;o e viol&ecirc;ncia de Estado e as mobiliza&ccedil;&otilde;es sociais, atrav&eacute;s de tempos e lugares.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Informado por esses di&aacute;logos transnacionais, este N&uacute;cleo Tem&aacute;tico dedica aten&ccedil;&atilde;o especial &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es entre deslocamentos, desigualdades e viol&ecirc;ncia do Estado a partir da Am&eacute;rica do Sul e especialmente do Brasil. Atrav&eacute;s de abordagens hist&oacute;ricas ou comparativas, os v&aacute;rios artigos visam decifrar as aparentes contradi&ccedil;&otilde;es entre humanitarismo e securitiza&ccedil;&atilde;o no &acirc;mbito de pol&iacute;ticas de governan&ccedil;a migrat&oacute;rias e de ref&uacute;gio, no controle das fronteiras como parte de pol&iacute;ticas desenvolvimentistas e de combate ao tr&aacute;fico de bens il&iacute;citos ou de seres humanos e na gest&atilde;o de conflitos, disputas e assassinatos em favelas e periferias urbanas. Com esse intuito, os autores examinam a constru&ccedil;&atilde;o e desconstru&ccedil;&atilde;o de categorias sociais - como <i>migra&ccedil;&atilde;o-imigrantes legais/ilegais ou regulares-irregulares, deportados-deporta&ccedil;&atilde;o, tr&aacute;fico de bens il&iacute;citos, tr&aacute;fico de seres humanos, ref&uacute;gio-refugiados, moradores de favela, detenidos-desaparecidos, viol&ecirc;ncia de Estado, inimigos internos, seguran&ccedil;a p&uacute;blica, direitos humanos, v&iacute;tima-denunciante</i>, – e os modos pelos quais s&atilde;o acionadas e por quem, assim como seus significados diferenciais em contextos espec&iacute;ficos, seja no que tange ao n&iacute;vel das legisla&ccedil;&otilde;es migrat&oacute;rias, de processos jur&iacute;dicos e administrativos ou das mobiliza&ccedil;&otilde;es sociais. Buscam, assim, revelar os meandros e interst&iacute;cios da domina&ccedil;&atilde;o e da produ&ccedil;&atilde;o de desigualdades.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Essas an&aacute;lises indicam que as pol&iacute;ticas de governan&ccedil;a que priorizam a securitiza&ccedil;&atilde;o e militariza&ccedil;&atilde;o criminalizam protagonistas espec&iacute;ficos - sejam eles migrantes indocumentados, inclusive solicitantes de ref&uacute;gio, assim como prostitutas que est&atilde;o no mercado internacional de trabalho -, ou, ainda, moradores de favela e das periferias urbanas. Essa l&oacute;gica de exclus&atilde;o social, ancorada numa racionalidade tecnocrata e na produ&ccedil;&atilde;o de categorias sociais - cujos componentes jur&iacute;dicos e morais implicam tamb&eacute;m em racializa&ccedil;&atilde;o e desigualdades - descarta pessoas, lugares e bens considerados dispens&aacute;veis ou amea&ccedil;adores negando, no caso de pessoas, inclusive o direito de serem humanos. Cria, assim, contingentes de despossu&iacute;dos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Tendo em vista o panorama atual, n&atilde;o por acaso, as pol&iacute;ticas draconianas de migra&ccedil;&atilde;o e de controle de fronteiras vigentes na Uni&atilde;o Europeia e nos Estados Unidos s&atilde;o as que tendem a atrair maior aten&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia e tamb&eacute;m de pesquisadores, em detrimento do que ocorre no continente sul-americano. Al&eacute;m de um maior controle seletivo na emiss&atilde;o de vistos e passaportes, classifica&ccedil;&otilde;es e categorias dicot&ocirc;micas - como as que diferenciam imigrantes legais/regulares e ilegais/irregulares e, no caso europeu, tamb&eacute;m entre cidad&atilde;os comunit&aacute;rios e extracomunit&aacute;rios - definem quem tem acesso e quem n&atilde;o tem acesso &agrave; circula&ccedil;&atilde;o no territ&oacute;rio norte-americano ou no espa&ccedil;o comunit&aacute;rio europeu, assim como aos direitos humanos e de cidadania e &agrave;s pol&iacute;ticas multiculturais. Ao mesmo tempo, a prevalecente equa&ccedil;&atilde;o entre migra&ccedil;&atilde;o e crime legitima a produ&ccedil;&atilde;o da ilegalidade intr&iacute;nseca a essas pol&iacute;ticas. Como corol&aacute;rio, a fronteira transformada em campo de batalha, dramaticamente simbolizada por muros de seguran&ccedil;a, como a que separa os Estados Unidos e o M&eacute;xico, torna-se tamb&eacute;m met&aacute;fora de uma globaliza&ccedil;&atilde;o da desesperan&ccedil;a. Com o aumento do controle policialesco e militarizado, homens, mulheres e crian&ccedil;as t&ecirc;m sido presas, deportadas, devolvidas ou confinadas em centros de deten&ccedil;&atilde;o, enquanto outras morrem afogadas ou brutalmente assassinadas em suas tentativas de atravessarem fronteiras, seja para escapar de conflitos violentos, seja em busca da realiza&ccedil;&atilde;o de seus sonhos, esperan&ccedil;as e projetos de uma vida melhor.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Nesse contexto, o artigo de abertura deste N&uacute;cleo Tem&aacute;tico intitulado "Controle da imigra&ccedil;&atilde;o indesej&aacute;vel: expuls&atilde;o e expulsabilidade na Am&eacute;rica do Sul", de Eduardo Domenech, exp&otilde;e, com base em abordagem hist&oacute;rica, a recorrente formula&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m no continente sul-americano, de categorias dicot&ocirc;micas para distinguir entre imigrantes con o branqueamento das na&ccedil;&otilde;es sul-americanas atrav&eacute;s do recrutamento de determinados imigrantes europeus considerados agentes da civiliza&ccedil;&atilde;o e progresso. Essas pol&iacute;ticas classificavam como<i> indesej&aacute;veis</i> os chineses, os doentes f&iacute;sicos e mentais, os "subversivos" - nomeadamente os anarquistas, e os delinquentes, marginais e transgressores de leis jur&iacute;dicas e morais, como as prostitutas, tamb&eacute;m conhecidas como escravas brancas, os traficantes de prostitutas ou ainda de entorpecentes. Apesar de eventuais mudan&ccedil;as de legisla&ccedil;&atilde;o, as pol&iacute;ticas de seguran&ccedil;a nacional se perpetuaram e se intensificaram no decorrer do s&eacute;culo XX. Em contraposi&ccedil;&atilde;o, no limiar do s&eacute;culo XXI, juntamente com o processo de regionaliza&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica migrat&oacute;ria ligado &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o de um regime global de controle das migra&ccedil;&otilde;es internacionais, as pol&iacute;ticas de regula&ccedil;&atilde;o tecnocrata de fluxos migrat&oacute;rios engendraram novas formas de organizar e classificar os fluxos migrat&oacute;rios, adotadas tamb&eacute;m pelos pa&iacute;ses sul-americanos. As antigas categorias e classifica&ccedil;&otilde;es de indesej&aacute;veis foram subsumidas nas "novas amea&ccedil;as" estabelecidas pela comunidade internacional, como o narcotr&aacute;fico, o terrorismo, o tr&aacute;fico de pessoas e a migra&ccedil;&atilde;o indocumentada.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Considerando essas transforma&ccedil;&otilde;es, Domenech argumenta que as pol&iacute;ticas migrat&oacute;rias do passado, relacionando deporta&ccedil;&atilde;o e anarquismo, baseavam-se em uma constru&ccedil;&atilde;o hegem&ocirc;nica dos imigrantes anarquistas enquanto sujeitos perigosos cuja ideologia desafiava o Estado nacional e tornava leg&iacute;tima a viol&ecirc;ncia do Estado. Em compara&ccedil;&atilde;o, as deporta&ccedil;&otilde;es da atualidade se tornaram parte substantiva de um regime de controle das migra&ccedil;&otilde;es que articula "securitiza&ccedil;&atilde;o" e humanitarismo. As diferentes formas de expuls&atilde;o (rejei&ccedil;&otilde;es nas fronteiras, devolu&ccedil;&otilde;es, retornos assistidos e volunt&aacute;rios) se tornaram parte de estrat&eacute;gias para combater os novos<i> indesej&aacute;veis,</i>isto &eacute; aquelas pessoas consideradas, pelo dogma tecnocrata, amea&ccedil;as potenciais que sequer oferecem vantagens para a ordem estabelecida e, portanto, descart&aacute;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Enquanto alguns pa&iacute;ses sul-americanos, como a Argentina e o Uruguai, implementaram novas leis de imigra&ccedil;&atilde;o baseadas na ret&oacute;rica de direitos humanos, no Brasil, o Estatuto do Imigrante em vigor ainda &eacute; o de 1980, da &eacute;poca da ditadura militar, guardando refer&ecirc;ncias &agrave; quest&atilde;o da seguran&ccedil;a nacional do Estado Novo, apesar de algumas poucas modifica&ccedil;&otilde;es introduzidas em 1991. Contudo, com o processo de redemocratiza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s, fortes mobiliza&ccedil;&otilde;es em prol dos migrantes internacionais como sujeitos de direito, iniciadas pelos movimentos sociais de emigrantes brasileiros no exterior por seus direitos no Brasil num contexto de pol&iacute;ticas restritivas e de fechamento de fronteiras no Norte Global, resultaram em a&ccedil;&otilde;es governamentais pontuais tanto no que tange aos emigrantes do Brasil quanto aos imigrantes no Brasil (5). Assim, num contexto de aus&ecirc;ncia de uma legisla&ccedil;&atilde;o baseada em direitos humanos, as v&aacute;rias a&ccedil;&otilde;es governamentais s&atilde;o, em &uacute;ltima an&aacute;lise, resultado de demandas da sociedade civil. Mas essas a&ccedil;&otilde;es se tornaram insuficientes frente aos novos fluxos migrat&oacute;rios que est&atilde;o chegando ao pa&iacute;s.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Se a crise econ&ocirc;mica da d&eacute;cada de 1980 havia direcionado os fluxos migrat&oacute;rios da Am&eacute;rica do Sul para o Norte Global - principalmente para a Europa e Estados Unidos, no bojo da crise de 2008-2009 e de novas mudan&ccedil;as das rotas migrat&oacute;rias -, o Brasil e suas pol&iacute;ticas desenvolvimentistas, assim como outros pa&iacute;ses sul-americanos, passaram a atrair novos imigrantes. Juntamente com o retorno de brasileiros da di&aacute;spora, jovens profissionais europeus e norte-americanos foram atra&iacute;dos pela oferta de trabalho em grandes projetos desenvolvimentistas. Ao mesmo tempo, o pa&iacute;s passou a receber refugiados ambientais do Haiti, solicitantes de ref&uacute;gio da &Aacute;frica e do Oriente M&eacute;dio, assim como contingentes da China, da &Aacute;frica e de outros pa&iacute;ses do continente sul-americano &agrave; procura de uma vida melhor. No entanto, esses rec&eacute;m chegados se confrontam com a falta de pol&iacute;ticas, de estrutura e de assist&ecirc;ncia social. Nesse contexto, o caso dos haitianos que est&atilde;o sendo enviados pelo governo do Acre para S&atilde;o Paulo, &eacute; emblem&aacute;tico. Apesar de ser a primeira cidade do Brasil a contar com uma coordena&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas para migrantes, a prefeitura de S&atilde;o Paulo ainda n&atilde;o tem estrutura para receber imigrantes. Assim, haitianos, africanos, latino-americanos, entre outros imigrantes dependem majoritariamente da assist&ecirc;ncia de ONGs, principalmente daquelas dirigidas secularmente pelos scalabrinianos cat&oacute;licos, como a Miss&atilde;o Paz e a Casa do Migrante. Mas dado que esses imigrantes est&atilde;o chegando diariamente e sem contrato de trabalho, n&atilde;o h&aacute; inclusive espa&ccedil;o suficiente para abrig&aacute;-los. Essa dif&iacute;cil situa&ccedil;&atilde;o motivou a Miss&atilde;o Paz a iniciar uma campanha pela internet "Diga n&atilde;o ao abandono...e, sim, por uma gest&atilde;o migrat&oacute;ria", conclamando por pol&iacute;ticas migrat&oacute;rias, ali&aacute;s uma reivindica&ccedil;&atilde;o de longa data dos movimentos sociais (6).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">&Eacute; certo que essas mobiliza&ccedil;&otilde;es sociais, juntamente com o empenho de representantes governamentais, resultaram no encaminhamento de tr&ecirc;s diferentes anteprojetos de lei ao Congresso Nacional, o primeiro dos quais, ainda em 2009, cujo prazo de vistas j&aacute; se encontra encerrado, o segundo, de 2013, que se encontra em tramita&ccedil;&atilde;o e um terceiro em 2014 (7). Entrementes, o Brasil se alinhou&agrave; nova ordem mundial e &agrave; agenda global no combate ao tr&aacute;fico de drogas, tr&aacute;fico de seres humanos e contrabando. Diante desse cen&aacute;rio, Daniel Hirata, no artigo "Seguran&ccedil;a p&uacute;blica e fronteiras: apontamentos a partir do Arco Norte", utiliza dados de um grande diagn&oacute;stico sobre essa regi&atilde;o realizado no quadro da Estrat&eacute;gia Nacional de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica nas Fronteiras (Enafron, Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a), para examinar a quest&atilde;o da seguran&ccedil;a p&uacute;blica e do militarismo como um <i>problema</i> no &acirc;mbito da atual <i>hibridiza&ccedil;&atilde;o</i> entre pol&iacute;ticas de povoamento, pol&iacute;ticas de desenvolvimento e pol&iacute;ticas urbanas contra o tr&aacute;fico de drogas. Atrav&eacute;s de an&aacute;lise hist&oacute;rica dessa regi&atilde;o que se distingue por grandes e sucessivos projetos de desenvolvimento invariavelmente abandonados, Hirata indica que a articula&ccedil;&atilde;o entre seguran&ccedil;a e desenvolvimento come&ccedil;a a apresentar descontinuidades a partir do final da d&eacute;cada de 1990, num contexto marcado pela substitui&ccedil;&atilde;o de uma l&oacute;gica bipolar, centrada em guerras entre na&ccedil;&otilde;es, por pol&iacute;ticas globais que intercruzam pol&iacute;ticas de seguran&ccedil;a contra oponentes internos e pol&iacute;ticas de defesa nacional contra inimigos externos em torno do combate &agrave;s drogas, ao crime organizado transnacional, tr&aacute;fico de pessoas e o terrorismo que amea&ccedil;am os espa&ccedil;os urbanos. Esse entrela&ccedil;amento de pol&iacute;ticas voltadas &agrave; prote&ccedil;&atilde;o das fronteiras e ao combate aos chamados il&iacute;citos fronteiri&ccedil;os que abastecem os mercados de drogas nas grandes cidades encontraram resson&acirc;ncia na hist&oacute;ria local refor&ccedil;ando, assim, a tend&ecirc;ncia hist&oacute;rica de povoamento da regi&atilde;o atrav&eacute;s do estabelecimento de bases militares e a centralidade do militarismo. Nesse sentido, argumenta que, ao procurar seguir a agenda e o formato internacional de combate ao tr&aacute;fico de drogas, tr&aacute;fico de pessoas e o contrabando, a atua&ccedil;&atilde;o estatal do Arco Norte deslocou-se de um projeto de desenvolvimento iniciado em 2004 que apenas tangenciava a seguran&ccedil;a p&uacute;blica para um projeto de seguran&ccedil;a p&uacute;blica voltado a combater a circula&ccedil;&atilde;o dos assim chamados bens il&iacute;citos que perigosamente margeia quest&otilde;es relacionadas ao desenvolvimento da regi&atilde;o por seu potencial de entrar em conflito com a economia e o sistema de trocas locais.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Por sua vez, Adriana Piscitelli e Laura Lowenkron, em "Categorias em movimento: a gest&atilde;o de v&iacute;timas do tr&aacute;fico de pessoas na Espanha e no Brasil", voltam-se &agrave; an&aacute;lise comparativa dos regimes discursivos e legais sobre tr&aacute;fico de seres humanos predominantes nesses dois pa&iacute;ses, com base em dois estudos de casos: um, entre prostitutas brasileiras que migraram para a Espanha e, outro, sobre como a no&ccedil;&atilde;o de tr&aacute;fico &eacute; constru&iacute;da e desconstru&iacute;da nos discursos e inqu&eacute;ritos da Pol&iacute;cia Federal brasileira. Dessa perspectiva, dedicam especial aten&ccedil;&atilde;o aos modos pelos quais a no&ccedil;&atilde;o de v&iacute;tima do crime de tr&aacute;fico de pessoas &eacute; produzida e acionada diferencialmente em cada um desses pa&iacute;ses no contexto de seus respectivos posicionamentos geopol&iacute;ticos, pol&iacute;ticas migrat&oacute;rias e marcos legais relativos ao tr&aacute;fico de pessoas. Revelam que, apesar de diferen&ccedil;as significativas no que se refere &agrave; implementa&ccedil;&atilde;o do Protocolo de Palermo (principal instrumento de combate ao tr&aacute;fico de pessoas e de prote&ccedil;&atilde;o aos direitos fundamentais das v&iacute;timas), em ambos os pa&iacute;ses, as pessoas consideradas v&iacute;timas de tr&aacute;fico tendem a ser paradoxalmente categorizadas, no decorrer de procedimentos estatais atrav&eacute;s de fronteiras, como migrantes indocumentadas e, por conseguinte, sujeitas, ao mesmo tempo, &agrave; criminaliza&ccedil;&atilde;o e deporta&ccedil;&atilde;o. Na Espanha, apesar da predomin&acirc;ncia de uma ret&oacute;rica ancorada na prote&ccedil;&atilde;o aos direitos humanos, a imagem essencializada da figura de v&iacute;tima, constru&iacute;da a partir da justaposi&ccedil;&atilde;o de no&ccedil;&otilde;es jur&iacute;dicas e morais, abaliza a intensifica&ccedil;&atilde;o das inspe&ccedil;&otilde;es policiais em locais de prostitui&ccedil;&atilde;o impondo &agrave;s prostitutas um cotidiano de medo devido &agrave; sua prec&aacute;ria condi&ccedil;&atilde;o de migrantes indocumentadas. Dada a persegui&ccedil;&atilde;o, criminaliza&ccedil;&atilde;o e viol&ecirc;ncia estatal &agrave; migra&ccedil;&atilde;o indocumentada, o acesso ao humanitarismo, incluindo direitos &agrave; prote&ccedil;&atilde;o e resid&ecirc;ncia, depende de autorreconhecimento enquanto v&iacute;timas do tr&aacute;fico de pessoas e &agrave;s categorias vinculadas ao combate desse crime, seja como denunciantes ou como testemunhas. Comparativamente, no Brasil, a pr&oacute;pria concep&ccedil;&atilde;o do tr&aacute;fico de seres humanos restringe-se &agrave;s quest&otilde;es de g&ecirc;nero. Mesmo que a condi&ccedil;&atilde;o de v&iacute;tima n&atilde;o esteja vinculada &agrave; den&uacute;ncia, policiais tendem a justapor no&ccedil;&otilde;es jur&iacute;dicas com no&ccedil;&otilde;es morais em sua percep&ccedil;&atilde;o estereotipada do tr&aacute;fico de pessoas, que parece ser mais influenciada por narrativas midi&aacute;ticas e constru&ccedil;&otilde;es estereotipadas do que pela defini&ccedil;&atilde;o legal do C&oacute;digo Penal. Com base nessa compara&ccedil;&atilde;o, as autoras argumentam que, em ambos os casos, a ret&oacute;rica humanit&aacute;ria avaliza o car&aacute;ter de artefato pol&iacute;tico, moral e midi&aacute;tico da no&ccedil;&atilde;o de v&iacute;tima. Mas, ao mesmo tempo, essa no&ccedil;&atilde;o, enquanto categoria administrativa de repress&atilde;o ao crime, tem escassa rela&ccedil;&atilde;o com o discurso humanit&aacute;rio e, por isso, raramente propicia acesso a direitos. Levando em conta que as pessoas caracterizadas como v&iacute;timas raramente se identificam como tais, sugerem que essa nega&ccedil;&atilde;o configura uma forma de resist&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">No&ccedil;&otilde;es de v&iacute;tima e seus significados diferenciais s&atilde;o tamb&eacute;m examinadas por AdrianaVianna e Angela Facundo, em "Tempos e deslocamentos na busca por justi&ccedil;a entre<i> moradores de favelas</i> e<i> refugiados",</i>com base em processos judiciais e administrativos quer relacionados a assassinatos de moradores de favela praticados por policias - os chamados<i> autos de resist&ecirc;ncia -</i>, quer referentes aos tr&acirc;nsitos e condi&ccedil;&otilde;es de perman&ecirc;ncia no Brasil de solicitantes de ref&uacute;gio e reassentados. De um lado, os autos de resist&ecirc;ncia trazem &agrave; tona uma narrativa dominante que define a favela como espa&ccedil;o de desordem caracterizado pela aus&ecirc;ncia ou presen&ccedil;a prec&aacute;ria do Estado. Esta precariedade &eacute; utilizada como justificativa para o estabelecimento de pol&iacute;ticas de pacifica&ccedil;&atilde;o e militariza&ccedil;&atilde;o da favela. Em contraposi&ccedil;&atilde;o, os familiares e militantes buscam construir e denunciar tal morte como homic&iacute;dio e estabelecer, atrav&eacute;s de provas documentais, um outro relato sobre os assassinados capaz de desfazer a narrativa do auto de resist&ecirc;ncia que os categoriza como traficantes, bandidos ou vagabundos para que possam ser reconhecidos como trabalhadores e respeitadores da ordem e ultimamente como<i> v&iacute;timas.</i> Por outro lado, as pessoas que chegam ao territ&oacute;rio nacional como solicitantes de ref&uacute;gio, ou que s&atilde;o transferidas em condi&ccedil;&atilde;o de reassentados, passam por intensos e extensos processos administrativos a fim de provar aos administradores que se diferenciam dos migrantes econ&ocirc;micos por terem escapado de um territ&oacute;rio de guerra e conviverem com o "temor de persegui&ccedil;&atilde;o" e, assim, convenc&ecirc;-los que preenchem a condi&ccedil;&atilde;o de v&iacute;tima - categoriza&ccedil;&atilde;o<i> sine qua non</i> para a concess&atilde;o do status de refugiado. A partir dessa an&aacute;lise comparativa, as autoras argumentam que, em ambos os casos, est&atilde;o lidando com<i> processos de categoriza&ccedil;&atilde;o espacial moral que constroem simultaneamente corpos e territ&oacute;rios,</i> seja a favela (no caso dos assassinatos) ou o espa&ccedil;o nacional distinto definido como territ&oacute;rio de guerra e persegui&ccedil;&atilde;o (no caso dos refugiados e reassentados). Essa produ&ccedil;&atilde;o espacializada de pessoas pressup&otilde;e tamb&eacute;m um conjunto de representa&ccedil;&otilde;es, gest&otilde;es, pr&aacute;ticas e disputas em torno de temporalidades que implicam em rupturas entre um "antes" e um "depois". Os longos per&iacute;odos de espera causados por uma lenta burocracia expressam tamb&eacute;m uma profunda desigualdade entre os diferentes personagens envolvidos nos processos administrativos e revelam a impot&ecirc;ncia, vulnerabilidade e precariedade de vidas (ou de mortes) que precisam ser classificadas como<i> v&iacute;timas.</i></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Finalmente, Liliana Sanjurjo e Gabriel Feltran em "Sobre lutos e lutas: viol&ecirc;ncia de Estado, humanidade e morte em dois contextos etnogr&aacute;ficos", refletem criticamente sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre pol&iacute;tica e viol&ecirc;ncia com base em um di&aacute;logo entre duas pesquisas que se debru&ccedil;am sobre situa&ccedil;&otilde;es que, apesar de suas espacialidades e temporalidades diversas, t&ecirc;m em comum o fato de agentes do Estado terem provocado a morte de "inimigos internos". Uma centraliza aten&ccedil;&atilde;o nos desaparecimentos for&ccedil;ados e assassinatos pol&iacute;ticos durante a &uacute;ltima ditadura argentina e a produ&ccedil;&atilde;o das categorias<i> subvers&atilde;o pol&iacute;tica</i> e<i> detenidos-desaparecidos,</i> enquanto a outra examina o desaparecimento e assassinatos de jovens nas periferias de S&atilde;o Paulo, no contexto de pol&iacute;ticas estatais e criminais respons&aacute;veis pela especificidade paulista na quest&atilde;o de seguran&ccedil;a p&uacute;blica. Continuando a discuss&atilde;o sobre diferentes concep&ccedil;&otilde;es de v&iacute;tima, os autores assinalam uma diferen&ccedil;a fundamental entre os seus protagonistas, observando que, no caso argentino, os opositores do regime ditatorial foram reconhecidos pela comunidade nacional, ainda durante a Guerra Fria, como atores pol&iacute;ticos. Seus desaparecimentos for&ccedil;ados se tornaram assunto pol&iacute;tico nacional e internacionalmente, enquanto os movimentos de familiares denunciando a viol&ecirc;ncia impingida aos seus<i> detenidos-desaparecidos</i> obtiveram legitimidade p&uacute;blica. Da mem&oacute;ria da ditadura, vivenciada por lembran&ccedil;as de injusti&ccedil;a e dor, marcadas pela criminaliza&ccedil;&atilde;o, exterm&iacute;nio e desaparecimento de oponentes pol&iacute;ticos, surgiu um luto coletivo, publicamente legitimado. Em contraposi&ccedil;&atilde;o, no caso brasileiro, a viol&ecirc;ncia de Estado voltada contra grupos de favelados e das periferias est&aacute; centrada numa criminaliza&ccedil;&atilde;o seletiva marcada por clivagens sociais, sendo que, em um aparente paradoxo, as grandes medidas de controle policial em S&atilde;o Paulo foram produzidas pelo mundo do crime. Nesse contexto, enquanto o movimento de familiares na Argentina destaca a identidade pol&iacute;tica dos<i> detenidos-desaparecidos,</i> as mobiliza&ccedil;&otilde;es cong&ecirc;neres do Brasil enfatizam crit&eacute;rios raciais, de classe e de territ&oacute;rio usados pela repress&atilde;o, ao mesmo tempo em que se esfor&ccedil;am em provar que as v&iacute;timas da viol&ecirc;ncia policial eram pessoas honestas e sem rela&ccedil;&atilde;o com o tr&aacute;fico. Ao criminalizar e racializar essas popula&ccedil;&otilde;es pobres das favelas e periferias para, em seguida, pacific&aacute;-las, encarcer&aacute;-las ou mesmo extermin&aacute;-las, as pol&iacute;ticas estatais vigentes trazem &agrave; tona a atual l&oacute;gica de exclus&atilde;o subjacente no capitalismo corporativo contempor&acirc;neo que descarta massas de despossu&iacute;dos consideradas in&uacute;teis e que sequer t&ecirc;m direito a serem humanos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Neste contexto, a ado&ccedil;&atilde;o de uma perspectiva global dos deslocamentos possibilita expor os interst&iacute;cios do poder e da domina&ccedil;&atilde;o na produ&ccedil;&atilde;o de desigualdades nesta conjuntura do capitalismo global. Poder-se-&aacute;, assim, vislumbrar, atrav&eacute;s da leitura dos textos que comp&otilde;e este N&uacute;cleo Tem&aacute;tico, padr&otilde;es similares nas restri&ccedil;&otilde;es e controle dos deslocamentos de protagonistas diversos, sejam eles imigrantes indocumentados, especialmente no caso de profissionais do sexo e solicitantes de ref&uacute;gio, ou moradores de favelas e de periferias urbanas. Ao compasso da atual l&oacute;gica de exclus&atilde;o, ao serem<i> a priori</i> considerados potenciais<i> inimigos</i> do Estado em vez de<i> sujeitos de direitos,</i> esses protagonistas (ou seus familiares, no caso daqueles que foram assassinados ou encarcerados e, portanto, descartados) precisam provar que suas trajet&oacute;rias se encaixam em concep&ccedil;&otilde;es jur&iacute;dicas e morais subjacentes &agrave; categoria<i> v&iacute;tima</i> para eventualmente obterem direitos a direitos ou serem criminalizados, encarcerados ou deportados. Embora exista uma rela&ccedil;&atilde;o intr&iacute;nseca entre forma&ccedil;&atilde;o de capital, estruturas de domina&ccedil;&atilde;o, racializa&ccedil;&atilde;o e desigualdades sociais desde a era colonial, vale notar que durante a Guerra Fria, quando imperava uma polariza&ccedil;&atilde;o entre capitalismo e socialismo, os<i> inimigos</i> do<i> Estado,</i> sujeitos &agrave; viol&ecirc;ncia estatal, eram os que ideologicamente combatiam o sistema pol&iacute;tico estabelecido. N&atilde;o por acaso, como o estudo de caso dos<i> detenidos-desaparecidos</i> do regime ditatorial argentino indica, com a redemocratiza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s, s&atilde;o esses opositores pol&iacute;ticos e os movimentos sociais de seus familiares que adquirem legitimidade p&uacute;blica nacional e internacional e se tornam s&iacute;mbolos da luta pelos direitos humanos. Em contraposi&ccedil;&atilde;o, os<i>inimigos internos e externos</i> de hoje, caracterizados como criminosos comuns e sujeitos &agrave;s pris&otilde;es, deporta&ccedil;&otilde;es, mortes nas fronteiras, assassinatos, s&atilde;o os expelidos da ordem social e econ&ocirc;mica e formam a massa de seres descart&aacute;veis pelo capitalismo corporativo contempor&acirc;neo, n&atilde;o sendo sequer considerados humanos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">1. Sobre precariedade ver, por exemplo,	 Butler, J.<i> Vida precaria: el poder del duelo y la violencia.</i> Buenos Aires: Paidos, 2006.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092663&pid=S0009-6725201500020000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">2. Sassen,	 S.<i> Expulsions: brutality and complexity in the global economy.</i>Cambridge, MA, Londres: Harvard University Press, 2014;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092665&pid=S0009-6725201500020000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Piketty, T.<i>Capital in the twenty-first century.</i> Cambridge, MA, Londres: Harvard University Press, 2014.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092666&pid=S0009-6725201500020000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">3. Esses textos foram originalmente apresentados na mesa-redonda "Deslocamentos, desigualdades e viol&ecirc;ncia de Estado". Feldman-Bianco, B. &amp; Feltran, G. (Orgs.) 29º Reuni&atilde;o Brasileira de Antropologia, ABA, Natal, agosto de 2014.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092668&pid=S0009-6725201500020000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">4. Como, por exemplo, "Displacements and inequalities: comparative perspectives on global capitalism". Feldman-Bianco, B.; Narotzky, S. &amp; Heller, M. (Orgs.).<i> American Anthropological Meetings,</i> San Francisco, November 2014;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092670&pid=S0009-6725201500020000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Displacements and immobility: international perspectives on global capitalism. Feldman-Bianco, B. (Org.), Reuni&atilde;o da IUAES, Manchester, Setembro de 2013;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092671&pid=S0009-6725201500020000900006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><i> Deslocamentos: ra&ccedil;a e racismo em perspectiva comparativa,</i> Feldman-Bianco, B. &amp; Rial, C. (Orgs.), 29º RBA, ABA, Natal. Agosto de 2014.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092672&pid=S0009-6725201500020000900007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 5. Ver Feldman-Bianco, B. "Caminos de ciudadan&iacute;a: emigraci&oacute;n, movilizaciones sociales y pol&iacute;ticas del Estado brasile&ntilde;o". In: (Org. Feldman-Bianco, B.; Rivera-Sanchez, L.; Stefoni, C. &amp; Villa Martinez, M. I.)<i> La construcci&oacute;n social del sujeto migrante en Am&eacute;rica Latina: Pr&aacute;cticas, Representaciones y Categorias</i> . Quito: Flacso, Clacso y Universidad Alberto Hurtado, 2011, pp.235-280.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092674&pid=S0009-6725201500020000900008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 6. Ver <a href="https://www.facebook.com/missaopazsaopaulo?fref=ts,missao-paz-lanca-peticao-online-por-gestao-migratoria-nacional-e-contra-o-abandono-de-imigrantes" target="_blank">https://www.facebook.com/missaopazsaopaulo?fref=ts,missao-paz-lanca-peticao-online-por-gestao-migratoria-nacional-e-contra-o-abandono-de-imigrantes</a>. Ver tamb&eacute;m novas solu&ccedil;&otilde;es  pontuais em <a href="http://migramundo.com/2015/03/14/carteira-de-trabalho-comemoracao-e-tristeza-ao-mesmo-tempo/" target="_blank">http://migramundo.com/2015/03/14/carteira-de-trabalho-comemoracao-e-tristeza-ao-mesmo-tempo/</a></font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092676&pid=S0009-6725201500020000900009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 7. A saber PL 5655/2009, conhecido como projeto Lula; PLS 288/2013 do senador Alu&iacute;sio Nunes em tramita&ccedil;&atilde;o desde dezembro de 2014, na Comiss&atilde;o de Rela&ccedil;&otilde;es Exteriores e Defesa Nacional; e o Anteprojeto de Lei das Migra&ccedil;&otilde;es e Promo&ccedil;&atilde;o dos Direitos dos Migrantes no Brasil, formulado em 2014 por uma "comiss&atilde;o de especialistas", criada no &acirc;mbito da Secretaria Nacional de Justi&ccedil;a, do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a.</font></p>      ]]></body>
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