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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O ser-luz: multirrealismo em tempos de crise ambiental</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Rodolfo Eduardo Scachetti<sup>I</sup>; Vanina Carrara Sigrist<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Doutor em sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Fez parte de sua pesquisa doutoral junto ao Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano (CeaQ) da Universidade Paris V. Atualmente &eacute; professor adjunto II da Universidade Federal de S&atilde;o Paulo (Unifesp), campus Baixada Santista    <br>   <sup>II</sup>Doutora em teoria e hist&oacute;ria liter&aacute;ria pela Unicamp e professora de ensino superior 1-A da Faculdade de Tecnologia da Baixada Santista (Fatec-RL)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A luz possibilita a vis&atilde;o. E abre a possibilidade de m&uacute;ltiplas vis&otilde;es sobre si mesma. Explorada pelas artes, filosofia e ci&ecirc;ncias, minuciosamente estudada por pintores e f&iacute;sicos, escultores e astr&ocirc;nomos, eleita como representa&ccedil;&atilde;o de uma ideia, da clareza de um racioc&iacute;nio, ou o elemento ausente de todo um per&iacute;odo hist&oacute;rico condenado &agrave; escassez de conhecimento, considerada essencial &agrave; pr&oacute;pria vida e &agrave; exist&ecirc;ncia das coisas, dos objetos. Muitos enunciados, na cont&iacute;nua sucess&atilde;o de paradigmas cient&iacute;ficos e est&eacute;ticos, defendem a luz como condi&ccedil;&atilde;o de possibilidade do mundo vis&iacute;vel: outrora por sua natureza corpuscular e todo o espectro de cores obtido da refra&ccedil;&atilde;o da luz branca, ora por sua natureza de part&iacute;cula e de onda eletromagn&eacute;tica e suas grandezas de frequ&ecirc;ncia, amplitude e velocidade; ou pela supremacia dos seus 300 mil km/s para qualquer sistema de refer&ecirc;ncia; ou, ainda, por sua n&iacute;tida contraposi&ccedil;&atilde;o &agrave; sombra e os efeitos visuais que surgem desse confronto, na arquitetura e no cinema, por exemplo. Em princ&iacute;pio, em todos esses casos, a luz tornaria vis&iacute;vel a forma.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas tamb&eacute;m, sob outra &oacute;tica, confunde-se com a energia t&atilde;o fundamental &agrave; economia de nossa sociedade, dependente em grau elevado das novas tecnologias e que, h&aacute; alguns anos no Brasil e no mundo, culminou em uma profunda crise - cen&aacute;rio determinante para que a ONU (Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas) e a Unesco (Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Educa&ccedil;&atilde;o, a Ci&ecirc;ncia e a Cultura) declarassem 2015 como Ano Internacional da Luz (e, vale lembrar, das "tecnologias movidas a luz", ou "<i>light-based technologies</i>", de acordo com o site oficial dessas organiza&ccedil;&otilde;es) (1). Oportunidade valiosa de pensar o futuro das na&ccedil;&otilde;es de modo global, tendo como horizonte a t&atilde;o discutida sustentabilidade, por raz&otilde;es financeiras, sociais e ambientais. Estudar novos usos da luz, desenvolver produtos mais rent&aacute;veis em termos energ&eacute;ticos e menos danosos ao ambiente j&aacute; s&atilde;o, h&aacute; um tempo, os principais objetivos de muitos pesquisadores, cientes da iminente cat&aacute;strofe ambiental. Trata-se de uma corrida contra o tempo, n&atilde;o s&oacute; para que nosso planeta permane&ccedil;a amistoso &agrave; vida tal como tem sido concebida, mas tamb&eacute;m para que, numa perspectiva mais radical, a exist&ecirc;ncia do nosso planeta continue poss&iacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Trata-se, portanto, do nosso futuro em todos os sentidos. Tratase, como veremos, ao mesmo tempo, do sublime e do tr&aacute;gico tecnocient&iacute;fico. Do micro ao macro. Das l&acirc;mpadas <i>led</i> que utilizamos em resid&ecirc;ncias e escrit&oacute;rios &agrave; for&ccedil;a c&oacute;smica que incide diretamente sobre nossos corpos. Sendo assim, relembrando que o conhecimento sobre o comportamento da luz tradicionalmente contribui para o conhecimento sobre a mat&eacute;ria, os corpos celestes e o funcionamento do universo, e que essa dimens&atilde;o merece aten&ccedil;&atilde;o nesta ocasi&atilde;o de celebra&ccedil;&atilde;o, iremos propor, a seguir, um trajeto de pensamentos e experimentos. Nesse trajeto, ao lado da luz que surge, de modo evidente, como a garantia da vis&atilde;o dos seres e das coisas, percorreremos outras dimens&otilde;es da luminosidade que possam se somar a essa luz vista como condi&ccedil;&atilde;o do mundo vis&iacute;vel, a essa luz que faz ver seres e coisas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sabemos da proemin&ecirc;ncia do pensamento de Plat&atilde;o sobre o tema das apar&ecirc;ncias e das ess&ecirc;ncias. Proemin&ecirc;ncia cr&iacute;tica &agrave;s primeiras. Em maior ou menor grau, todos aqueles que se preocuparam com o mundo vis&iacute;vel (com a luz, poder&iacute;amos dizer, de modo intuitivo) tiveram de enfrentar o cl&aacute;ssico problema dos dois mundos, da oposi&ccedil;&atilde;o plat&ocirc;nica entre apar&ecirc;ncias e ess&ecirc;ncias. Kant foi um desses fil&oacute;sofos. Nietzsche foi um desses fil&oacute;sofos. Mas tamb&eacute;m, mais recentemente, Souriau, Foucault e Deleuze.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Comecemos por Nietzsche em seus ecos mais contempor&acirc;neos. O fil&oacute;sofo Pierre Montebello (2) nos conta, atrav&eacute;s de suas pesquisas, que a filosofia nietzscheana busca justamente construir esse plano &uacute;nico da apar&ecirc;ncia atrav&eacute;s da aboli&ccedil;&atilde;o da distin&ccedil;&atilde;o entre o sens&iacute;vel e o intelig&iacute;vel, dualismo que tem, como sabemos, algumas fortes decorr&ecirc;ncias, sendo uma das mais destacadas a desvaloriza&ccedil;&atilde;o das artes - vistas negativamente como <i>imitatio</i> da realidade, como simulacro de segundo grau, c&oacute;pia infiel e imperfeita das apar&ecirc;ncias, j&aacute; c&oacute;pias, por sua vez, das ess&ecirc;ncias ou ideias, essas sim perfeitas e verdadeiras. Ora, podemos notar que, desde Plat&atilde;o, o que fundamentalmente est&aacute; em jogo &eacute; o valor dos mundos, no caso, o valor dos dois mundos, das apar&ecirc;ncias e das ess&ecirc;ncias. Esses mundos plat&ocirc;nicos estruturaram e ainda estruturam o pensamento ocidental, seja pelas in&uacute;meras cr&iacute;ticas a que a divis&atilde;o foi submetida, seja pela incr&iacute;vel penetra&ccedil;&atilde;o cotidiana que ainda existe desse dualismo. Afinal, quem n&atilde;o reconhece ecos da filosofia plat&ocirc;nica na dist&acirc;ncia entre amores vividos e o amor ideal? Mundos, nesse sentido, seriam formas de existir, ou, em uma terminologia mais condizente com os autores com os quais ainda conversaremos, modos de exist&ecirc;ncia. Se h&aacute; hierarquia entre o ser ou o modo intelig&iacute;vel e o parecer ou o modo sens&iacute;vel, isso indica que h&aacute; em Plat&atilde;o uma forma (ou ideia) privilegiada de existir - e esse modo de exist&ecirc;ncia exigiria, em suma, que desconfi&aacute;ssemos das meras ilus&otilde;es visuais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A "solu&ccedil;&atilde;o" nietzscheana para o problema da separa&ccedil;&atilde;o em dois modos de exist&ecirc;ncia vai na dire&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria, ou seja, de valoriza&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia est&eacute;tica, contrariando as consequ&ecirc;ncias do ponto de partida plat&ocirc;nico. Montebello, a esse prop&oacute;sito, recupera e discute a tese de Michel Haar que liga a filosofia de Nietzsche &agrave; "fus&atilde;o do Uno e da apar&ecirc;ncia, 'apar&ecirc;ncia generalizada', reino do aparecer luminoso" (3). O que nos interessa &eacute; o modo como uma esp&eacute;cie de "semi&oacute;tica luminosa" parece estar o tempo todo junto &agrave; quest&atilde;o do ser, da exist&ecirc;ncia - indaga&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica fundamental. Nessa leitura de Nietzsche por parte de Haar-Montebello (com pequenas nuan&ccedil;as entre ambos, &eacute; preciso dizer), seria na apar&ecirc;ncia que o ser se manifestaria. E, evidentemente, as artes acabam por trocar de posi&ccedil;&atilde;o: de enganosas c&oacute;pias de segunda ordem conden&aacute;veis em Plat&atilde;o, ganham em Nietzsche um estatuto privilegiado e exigente, pois caberia ao dom&iacute;nio est&eacute;tico, seguindo Montebello (que potencializa Nietzsche com Deleuze), produzir algo como uma gra&ccedil;a, em um sentido pr&oacute;ximo ao religioso. Em suas palavras, "a gra&ccedil;a que as coisas recebem na est&eacute;tica resulta da convers&atilde;o do olhar que faz de um artista um Vidente (...) que v&ecirc; as possibilidades de vida e as inventa ao mesmo tempo" (4).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v67n3/a11fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Atrav&eacute;s da liga&ccedil;&atilde;o de Nietzsche e Deleuze, come&ccedil;amos a compreender que o entendimento generalizado da luz como condi&ccedil;&atilde;o do mundo vis&iacute;vel peca n&atilde;o por falha, mas por falta. Essa luz que a est&eacute;tica e a filosofia perscrutam n&atilde;o se confunde com o simples vis&iacute;vel, n&atilde;o &eacute; apenas aquilo que torna a forma vis&iacute;vel a um sujeito cognoscente; seria uma luz primeira, pura, anterior a toda subjetividade. Veremos adiante que essa luz primeira n&atilde;o revela primordialmente as formas, como se estivessem prontas, mas as instaura (se contaminarmos o agenciamento Nietzsche-Deleuze com uma terminologia de Souriau) (5), instaurando, dentre elas, a pr&oacute;pria forma-luz, resultado de uma esp&eacute;cie de interrup&ccedil;&atilde;o da luminosidade cont&iacute;nua.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Deleuze, a consci&ecirc;ncia &eacute; essa esp&eacute;cie de anteparo que intercepta o fluxo de luz, e n&atilde;o, como sustentava boa parte da tradi&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica, "um facho luminoso que retirava as coisas de sua obscuridade nativa" (6). Baseando-se em Bergson, Deleuze reconstr&oacute;i nosso entendimento sobre a luz afirmando que, assim como h&aacute; identidade entre imagem e movimento, tamb&eacute;m h&aacute; entre mat&eacute;ria e luz; isso significa, em outros termos, que o olho j&aacute; est&aacute; nas coisas, e n&atilde;o simplesmente &agrave; espreita. &Eacute; essa maquinaria filos&oacute;fica sobre a imagem-luz, especialmente cinematogr&aacute;fica, que Deleuze leva para pensar o problema do vis&iacute;vel nos trabalhos do amigo Foucault, os quais, em seus diferentes prop&oacute;sitos de an&aacute;lise e com maior ou menor dedica&ccedil;&atilde;o, tocam a tem&aacute;tica. O vis&iacute;vel, na obra de Foucault tal como vista por Deleuze (7), configura-se ent&atilde;o n&atilde;o como o regime das formas e dos objetos que s&atilde;o trazidos &agrave; luz, mas como o regime da pr&oacute;pria luz, que comp&otilde;e com o regime do enunci&aacute;vel os dois maiores estratos formadores das diferentes &eacute;pocas hist&oacute;ricas. A hist&oacute;ria seria assim, nessa conjun&ccedil;&atilde;o Foucault-Deleuze, uma captura de fluxos, de movimentos, de intensidades, mas tamb&eacute;m de luz, e ela sempre conviveria com potenciais n&atilde;o atualizados, n&atilde;o capturados, espa&ccedil;os e tempos transist&oacute;ricos que se insinuariam em meio &agrave;s linhas de for&ccedil;as mais vis&iacute;veis, linhas j&aacute; atualizadas. Para Foucault arque&oacute;logo, interessava a dimens&atilde;o do vis&iacute;vel e a dimens&atilde;o do enunci&aacute;vel, relativas de modo simplificado, respectivamente, &agrave;s coisas e &agrave;s palavras, combinandose de maneiras diferentes na forma&ccedil;&atilde;o do saber. A luz, portanto, n&atilde;o seria o elemento que mostraria as coisas, sendo esta apenas uma luz segunda, mas sim aquela que "abriria" as coisas, fazendo ver o que est&aacute; dentro delas, trazendo &agrave; tona outras visibilidades. Em suma, trata-se aqui de uma luz primeira, luz-mat&eacute;ria, formas de luz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assim, se permanecermos unicamente no dom&iacute;nio das coisas, das formas como garantia da exist&ecirc;ncia, outras visibilidades permanecer&atilde;o invis&iacute;veis; mas se deixarmos que emerjam atrav&eacute;s da abertura de um regime n&atilde;o de coisas, mas de percep&ccedil;&otilde;es, mobilizadas pelo ser-luz (ou "&ecirc;tre-lumi&egrave;re", no original), elas poder&atilde;o ganhar espa&ccedil;o dentre os modos de exist&ecirc;ncia. Ent&atilde;o, o regime de luz fundamental &eacute; esse regime de visibilidades (sempre dependente de uma instaura&ccedil;&atilde;o). Distanciando-se dos discursos cient&iacute;ficos, Foucault prop&otilde;e, aos olhos de Deleuze, o ser-luz como um elemento puro, isto &eacute;, o <i>a priori</i> que mostra os complexos multissensoriais que s&atilde;o as visibilidades. Seguindo essa concep&ccedil;&atilde;o, cada forma&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica veria e faria ver o que as suas condi&ccedil;&otilde;es pr&oacute;prias de visibilidade permitissem. Mas, devemos acrescentar, parece cada vez mais valioso tentar buscar o que fica de fora.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apenas para citar um exemplo bastante saliente na obra de Foucault, estudioso de algumas importantes forma&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas e suas respectivas institui&ccedil;&otilde;es, como os pres&iacute;dios e os sanat&oacute;rios, as fachadas e as plantas arquitet&ocirc;nicas revelariam os modos de ver predominantes naqueles contextos, ao inv&eacute;s de serem consideradas os objetos a serem vistos. Como diz Deleuze: "Se as arquiteturas, por exemplo, s&atilde;o visibilidades, lugares de visibilidade, &eacute; porque elas n&atilde;o s&atilde;o apenas figuras de pedra, isto &eacute;, agenciamentos de coisas e combina&ccedil;&otilde;es de qualidades, mas primeiramente formas de luz que distribuem o claro e o escuro, o opaco e o transparente, o visto e o n&atilde;o visto" (8). Estamos aqui no cerne de um problema que interessa ao historiador <i>tout court</i>, mas tamb&eacute;m ao historiador do futuro, pois claramente passamos com Foucault-Deleuze do problema da luz reveladora de formas para as formas de luz como modos de existir ("seres de luz", conforme express&atilde;o frequente em Deleuze), reveladoras das escans&otilde;es visuais em a&ccedil;&atilde;o, e tamb&eacute;m, quem sabe, chaves daquelas por vir, por instaurar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Deleuze, de certo modo, organiza os in&uacute;meros enunciados de Foucault a respeito do regime do vis&iacute;vel, que estariam pulverizados em diferentes livros e em meio &agrave;s abundantes afirma&ccedil;&otilde;es sobre o regime do enunci&aacute;vel. Afinal, &eacute; este regime que teria a primazia sobre o outro no pensamento de Foucault. Ainda assim, desde <i>Hist&oacute;ria da loucura na idade cl&aacute;ssica</i> (9), passando por <i>O nascimento da cl&iacute;nica</i> (10) <i>e Raymond Roussel</i> (11), com destaque tamb&eacute;m a <i>Vigiar e punir</i> (12), o autor nunca teria deixado de tratar das visibilidades. Assim o faz quando, no &uacute;ltimo livro citado, explica como seria seu regime em rela&ccedil;&atilde;o ao Pan&oacute;ptico concebido por Jeremy Bentham no s&eacute;culo XVIII. Discutindo esse desenho anelar de penitenci&aacute;ria, em cujo centro estaria situada a torre de observa&ccedil;&atilde;o de todos os encarcerados, Foucault afirma que tal dispositivo se fundamenta no uso da luz plena, que permite ver incessantemente aqueles que nada veem. Os detentos teriam a consci&ecirc;ncia permanente da visibilidade a que estariam expostos para que o poder exercido sobre eles estivesse assegurado, por&eacute;m estariam, ao mesmo tempo, imersos numa condi&ccedil;&atilde;o de invisibilidade, tanto em rela&ccedil;&atilde;o ao conjunto dos prisioneiros, porque n&atilde;o haveria qualquer comunica&ccedil;&atilde;o visual entre as celas, quanto em rela&ccedil;&atilde;o ao vigia, que tamb&eacute;m n&atilde;o seria visto por ningu&eacute;m. Al&eacute;m disso, Foucault ainda destaca que o vigia, por sua vez, poderia observar as silhuetas dos encarcerados apenas &agrave; contraluz, tendo em vista o modo como todo esse dispositivo de vigil&acirc;ncia trabalharia com a luminosidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa an&aacute;lise ajuda a entender que o que est&aacute; em jogo na obra desse autor realmente n&atilde;o s&atilde;o os lugares em si e a luz que incide sobre eles; mas s&atilde;o as camadas subterr&acirc;neas (arqueol&oacute;gicas, na terminologia daquele momento) da arquitetura aparente, que condicionam os modos de ver e ser visto, e a exist&ecirc;ncia pura de luz, sem a qual n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel ver, atrav&eacute;s de dispositivos, o que est&aacute; sempre em vias de se tornar aparente, sem ainda s&ecirc;-lo plenamente. Loucos e delinquentes revelam, antes de tudo, certo regime de luz que percorre dados estratos hist&oacute;ricos e seus modos de v&ecirc;-los. Tamb&eacute;m nas an&aacute;lises de Foucault de certas pinturas, como as de Vel&aacute;squez (13) e Manet (14), o que ganha destaque &eacute; a vertigem que faz oscilar ao infinito, em um processo de desestabiliza&ccedil;&atilde;o e constante mistura, as posi&ccedil;&otilde;es de sujeito e objeto da observa&ccedil;&atilde;o; similarmente ao diagrama Pan&oacute;ptico, a pintura instaura dispositivos de ver e ocultar, que frequentemente revelam per&iacute;odos hist&oacute;ricos e, simultaneamente, abrem para movimentos, t&iacute;picos daquela imagem j&aacute; citada do artista-vidente, transist&oacute;ricos (15).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Que regime de luz est&aacute; primordialmente abrindo visibilidades &eacute; uma quest&atilde;o que pode ser absolutamente (e corriqueiramente, at&eacute; certo ponto) de an&aacute;lise est&eacute;tica, mas que em Foucault tamb&eacute;m adquire significativa import&acirc;ncia hist&oacute;rico-filos&oacute;fica. Afinal, em sua bela an&aacute;lise do quadro <i>Olympia</i> (Manet, 1863), o que Foucault (16) indica &eacute; uma interessant&iacute;ssima coincid&ecirc;ncia entre a posi&ccedil;&atilde;o do espectador do quadro e da fonte emissora de luz, como se do olhar do espectador emanasse a luz interna ao quadro, que percorreria a figura da cortes&atilde; retratada. Foi esse recurso de implica&ccedil;&atilde;o do espectador que, em sua leitura, teria sido respons&aacute;vel pelo esc&acirc;ndalo que se seguiu, em pleno s&eacute;culo XIX, e n&atilde;o a nudez em si, t&atilde;o frequente na pintura cl&aacute;ssica, uma vez que, seguindo Souriau, aquele modo de existir no plano est&eacute;tico estava sendo inventado, uma nova visibilidade estava sendo recebida ou, em outros termos, uma realidade estava sendo instaurada, realidade que denunciava a presen&ccedil;a do espectador do quadro diante de uma prostituta retratada, antes majoritariamente obliterado pelos dispositivos cl&aacute;ssicos da pintura. N&atilde;o seria mais poss&iacute;vel ser apenas <i>voyeur</i> diante de Manet.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v67n3/a11fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assim, com a dimens&atilde;o est&eacute;tica do pensamento de Foucault, chegamos ao tema do sujeito e do objeto, caro &agrave;s humanidades, pois de sua demarca&ccedil;&atilde;o parecia depender toda a cientificidade. A era moderna parece ter sido a da emerg&ecirc;ncia dessa forma dual de exist&ecirc;ncia: ou se &eacute; sujeito, ou se &eacute; objeto. E, atrav&eacute;s das artes, podemos ver isso nascer e, segundo Foucault, tamb&eacute;m padecer rapidamente. Trata-se aqui da famosa figura do homem para o saber, cuja face se apaga como a de um desenho na areia diante da mar&eacute; (17). E, como &eacute; pr&oacute;prio dos movimentos transist&oacute;ricos, temos voltado no mundo contempor&acirc;neo a acolher com mais hospitalidade seres mitol&oacute;gicos, anteriores &agrave;s fronteiras que separaram seres e coisas, humanos e n&atilde;o-humanos, e tentaram bloquear as passagens entre formas diferentes de existir. Bruno Latour (18), tratando de Souriau, pergunta justamente se a filosofia pode superar esse pensamento dual, contando n&atilde;o somente at&eacute; dois ou tr&ecirc;s (sujeito, objeto e supera&ccedil;&atilde;o do sujeito e do objeto). E tudo isso nos coloca quest&otilde;es sobre o que podemos esperar do futuro, no que tange &agrave;s nossas rela&ccedil;&otilde;es entre o vis&iacute;vel e o invis&iacute;vel, os nossos modos de ver e ser vistos, as nossas subjetividades e os nossos (imprevis&iacute;veis?) destinos. Que futuro (angustiante <i>e</i> potente, tr&aacute;gico <i>e</i> sublime) de visibilidades, de modos de existir, temos diante de n&oacute;s? Mas tamb&eacute;m, diante da crise ambiental, como pensar a quest&atilde;o do fim do mundo, do poss&iacute;vel fim de toda exist&ecirc;ncia?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Melancolia,</i> dirigido por Lars Von Trier (19), alegoriza n&atilde;o exatamente o fim do mundo, como tantos filmes apocal&iacute;pticos dos &uacute;ltimos anos, cujos enredos muito ou pouco veross&iacute;meis, seguem g&ecirc;neros j&aacute; cristalizados na hist&oacute;ria do cinema, insistindo em fazer com que vejamos nossa pr&oacute;pria extin&ccedil;&atilde;o, mas sim o fim de um mundo. <i>Melancolia</i> est&aacute; ancorado no fim do planeta Terra, o fim de todo o mundo que criamos, o "nosso" universo, (ainda) antropoc&ecirc;ntrico. Ao inv&eacute;s de cat&aacute;strofes naturais, como inunda&ccedil;&otilde;es, superaquecimento ou surgimento de uma nova era glacial, dissemina&ccedil;&atilde;o de pestes, ataque de seres alien&iacute;genas ou rebeli&atilde;o massiva de rob&ocirc;s e androides, ao inv&eacute;s de milhares de pessoas desesperadas em diferentes metr&oacute;poles ao redor do globo, gritando e suplicando, monumentos hist&oacute;ricos desabando, crian&ccedil;as sendo soterradas, esfomeados saqueando supermercados, her&oacute;is lutando para sobreviver contra as amea&ccedil;as, Von Trier nos mostra um fim quase silencioso. Fim-luz. Um drama intenso, quase sem esperan&ccedil;a, sem espa&ccedil;onaves e sem imagens espetaculares. Um n&uacute;cleo narrativo composto por poucos personagens e um &uacute;nico cen&aacute;rio - uma propriedade da qual n&atilde;o se pode sair. Os &uacute;ltimos segundos da narrativa mostram, atrav&eacute;s de uma explos&atilde;o de luz na tela, o que quase nenhuma outra ousa mostrar: ocorre a colis&atilde;o entre a Terra e o planeta Melancolia e tudo acaba. Ou ser&aacute; que (re)come&ccedil;a, nessa esp&eacute;cie de religa&ccedil;&atilde;o ao cosmo e ao caos, supera&ccedil;&atilde;o da separa&ccedil;&atilde;o entre o sujeito e o mundo? Um fim que leva um belo nome, "dan&ccedil;a da morte", isto &eacute;, o tra&ccedil;ado um tanto voluptuoso da trajet&oacute;ria do Melancolia, extremamente luminoso e sedutor. Essa sua dan&ccedil;a, temida pelos cientistas, calculistas e racionalistas modernos representados no filme, provoca o fim de <i>um</i> mundo, de <i>um</i> modo de exist&ecirc;ncia baseado no dualismo indiv&iacute;duo-coisa, ou sujeito-objeto. Por isso, &eacute; a personagem Justine, que n&atilde;o se ajusta &agrave;s regras burguesas, que entra em resson&acirc;ncia com o Melancolia. Ela pertence, nesse sentido, &agrave;quela categoria dos loucos, ou videntes. Ela j&aacute; sabia quantos gr&atilde;os de feij&atilde;o havia no pote exposto no hall de entrada da mans&atilde;o onde aconteceria seu casamento, e s&oacute; revela a verdade &agrave; irm&atilde; muito tempo depois. Nenhum outro convidado da festa tinha esse poder, essa intui&ccedil;&atilde;o, todos eles, a seu modo, vestindo com maior ou menor conformismo as m&aacute;scaras hip&oacute;critas do mundo burgu&ecirc;s. Justine n&atilde;o servia para aquilo, na medida em que parecia entender a solid&atilde;o humana diante da inevit&aacute;vel destrui&ccedil;&atilde;o do nosso planeta. N&atilde;o &agrave; toa sua sensibilidade para com os sinais emitidos pelos cavalos da fam&iacute;lia, presos na estrebaria da mesma mans&atilde;o, al&eacute;m da incr&iacute;vel sequ&ecirc;ncia em que suas m&atilde;os est&atilde;o repletas de luz, de eletricidade, mediando uma rela&ccedil;&atilde;o que iria come&ccedil;ar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Justine s&oacute; consegue se desvencilhar do labirinto que se torna essa propriedade da irm&atilde; e do cunhado onde se passa a trama entrando em conex&atilde;o com Melancolia. E isso se instaura quando ela entrega seu corpo nu &agrave; luminosidade azulada do planeta, no meio da noite, deitando-se pr&oacute;ximo a um riacho, e esbo&ccedil;ando um sorriso. Sorriso extra-humano, ext&aacute;tico. &Eacute; assim que percebemos um outro regime de luz se instaurando, um outro modo de exist&ecirc;ncia, misto de &ecirc;xtase e temor, erotismo e tristeza. &Eacute; um regime de luz n&atilde;o mais estritamente humano no sentido dos modernos. &Eacute; um regime de luz, por assim dizer, "antropoc&oacute;smico", de um prazer frio, gelado, mas sem cinismo nem formalidade como seria a noite de n&uacute;pcias de Justine com Michael, que, de todo modo, sequer acontece. &Eacute; para Melancolia que Justine se entrega, em posi&ccedil;&atilde;o semelhante &agrave; das m&uacute;ltiplas V&ecirc;nus na hist&oacute;ria da pintura ocidental. Mas no filme a luz &eacute; outra, ela n&atilde;o liga sujeito e objeto da observa&ccedil;&atilde;o, e sim sugere uma dissolu&ccedil;&atilde;o, uma mistura entre corpos de escalas muito diferentes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O mesmo corpo que padece os efeitos da aproxima&ccedil;&atilde;o progressiva do Melancolia, a tal ponto debilitado que j&aacute; se mostra incapaz de mobilidade, de apetite e de lucidez, &eacute; o corpo que ganha visibilidade pela luz-planeta, &eacute; a nudez que faz com que vejamos de novo <i>Olympia</i>, com que vejamos de novo uma V&ecirc;nus. Novo esc&acirc;ndalo? Claro. E n&atilde;o &eacute; s&oacute; cinema. Von Trier cria uma pintura e dialoga com a pintura (como em outras cenas marcantes em que a imagem &eacute; t&atilde;o desacelerada que parece um quadro). A figura feminina continua em destaque o filme todo. Tem-se a cria&ccedil;&atilde;o de dois blocos temporais que segmentam as mais de duas horas de filme e que ganham por t&iacute;tulo os nomes de duas protagonistas profundamente sens&iacute;veis e complexas: Justine e Claire, sua irm&atilde;. Claire &eacute; a for&ccedil;a contr&aacute;ria, de resist&ecirc;ncia, que tenta a todo custo manter Justine atada ao mundo terrestre. Irm&atilde; protetora, esposa companheira, m&atilde;e zelosa. &Eacute; a energia que muito se enfraquece e que acaba se rendendo, ao entrar na cabana m&aacute;gica, constru&iacute;da com estacas de madeira por seu filho e por Justine, na cena final.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O fim &eacute; aguardado dentro dessa cabana, com os tr&ecirc;s personagens sentados juntos, em c&iacute;rculo, de m&atilde;os dadas. Uma esp&eacute;cie de sa&iacute;da m&iacute;tica, em clara alus&atilde;o a popula&ccedil;&otilde;es tradicionais, cujo modo de existir foi descrito pelo antrop&oacute;logo Viveiros de Castro (20) como perspectivismo. Inclusive, sua leitura do filme (21) caminha nessa dire&ccedil;&atilde;o, mas enfatiza que o fim do filme &eacute; sim o fim do mundo. S&oacute; que vemos esse fim, tr&aacute;gico e, ao mesmo tempo, sublime, de aceita&ccedil;&atilde;o do inevit&aacute;vel, tamb&eacute;m como abertura contida nos sutis sorrisos extra-humanos de Justine, um fim-luz que parece fim e come&ccedil;o. Reconex&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tal desfecho implac&aacute;vel, que desorganiza o ser como o entendemos atrav&eacute;s da prerrogativa da unidade, seja na ideia, seja na subst&acirc;ncia, certamente n&atilde;o contenta as tecnoci&ecirc;ncias, contempor&acirc;neas ao filme. Sua vis&atilde;o do ser-luz frente &agrave; cat&aacute;strofe ambiental &eacute; outra, apesar de algumas similitudes. Sabemos que o que se busca agora, em uma reedi&ccedil;&atilde;o invertida do projeto cibern&eacute;tico original de adapta&ccedil;&atilde;o do corpo a outros "mundos", &eacute; a extin&ccedil;&atilde;o das limita&ccedil;&otilde;es da vida org&acirc;nica. J&aacute; que os limites do planeta se colocam, por que n&atilde;o explorar as vias seja da fuga do planeta, seja do <i>upload</i> da mente humana em suportes computacionais, recriando o entendimento do que &eacute; o ser vivo? Ou ainda, ambas as sa&iacute;das? Recuperamos essas formas de busca por uma vida transumana por uma raz&atilde;o simples: como afirma Paula Sibilia (22), esse neognosticismo novamente associa ser e luz, mas aqui n&atilde;o mais atrav&eacute;s da liga&ccedil;&atilde;o luz-esp&iacute;rito, mas sim atrav&eacute;s da pr&oacute;pria eletricidade. Uma exist&ecirc;ncia digital n&atilde;o &eacute; outra coisa sen&atilde;o se entregar &agrave;s "cadeias de zeros e uns feitos de luz" (22). Parece que a informa&ccedil;&atilde;o est&aacute; hoje na mesma posi&ccedil;&atilde;o que a luz para os iluministas, e sua base &eacute; el&eacute;trica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v67n3/a11fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Interessante notar como mat&eacute;ria e energia deixaram de se opor nesse mundo de seres digitais, em que o encontro de luz e mat&eacute;ria nos remete &agrave;quilo que Deleuze j&aacute; dizia acerca das formas de luz. Trata-se de um mundo p&oacute;s-representacional e, nesse ponto, a despeito das tend&ecirc;ncias elitistas ou at&eacute; mesmo neo-eug&ecirc;nicas das tecnoci&ecirc;ncias de ponta, devemos reconhecer que existe potencial nas tecnologias para a produ&ccedil;&atilde;o de outros mundos, de outros seres de luz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Latour &eacute; um desses autores atentos &agrave; problem&aacute;tica dos diferentes modos de exist&ecirc;ncia. Em um de seus trabalhos, comenta a afirma&ccedil;&atilde;o de Souriau de que as formas t&ecirc;m a chave da realidade, afirmando, no entanto, que elas "n&atilde;o abrem nenhuma porta, j&aacute; que a realidade deve ser instaurada" (23). J&aacute; tratamos da instaura&ccedil;&atilde;o antes. O maior cuidado que devemos ter &eacute; o de n&atilde;o associar essa instaura&ccedil;&atilde;o &agrave; mera constru&ccedil;&atilde;o banhada pelas subjetividades e intencionalidades que sempre florescem a cada "nova" esta&ccedil;&atilde;o do pensar. A m&aacute;quina de pensamento Souriau &eacute; por demais complexa para aceitar isso, e sua configura&ccedil;&atilde;o Souriau-Latour &eacute; uma maneira de evitar os trajetos f&aacute;ceis. Mesmo porque a instaura&ccedil;&atilde;o pode fracassar. H&aacute;, para Souriau, ao lado dos modos de existir que possuem amplos direitos de cidadania, como a exist&ecirc;ncia das coisas e dos fen&ocirc;menos, outros que clamam por maior dignidade ontol&oacute;gica, e que dependem de nosso empenho e suporte para receb&ecirc;-los. Isso n&atilde;o significa que sejamos os respons&aacute;veis por sua exist&ecirc;ncia; mais provavelmente, poder&iacute;amos falar de uma responsabilidade <i>diante</i> de sua exist&ecirc;ncia. Instaurar &eacute; inventar, criar, mas inven&ccedil;&atilde;o aqui &eacute; receber, participar da percep&ccedil;&atilde;o e do acolhimento de uma forma em forma&ccedil;&atilde;o, uma forma que n&atilde;o subjuga a mat&eacute;ria.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Latour insiste nesse ponto: para Souriau, nossa exist&ecirc;ncia &eacute; uma esp&eacute;cie de esfor&ccedil;o, de esbo&ccedil;o. O pr&oacute;prio Souriau utiliza a express&atilde;o <i>"demi-jour"</i>, ou meia-luz, para tratar disso. N&atilde;o &eacute; de estranhar que sua filosofia tamb&eacute;m passe ao largo de qualquer preocupa&ccedil;&atilde;o com os polos do sujeito e do objeto, tal como j&aacute; discutimos. "Obra" &eacute;, de fato, uma palavra que aparece nessa filosofia, mas a obra a fazer &eacute;, em larga medida, a do pr&oacute;prio ser, n&atilde;o exatamente a do ser enquanto ser, <i>locus</i> da identidade, mas, na express&atilde;o de Latour, do "ser enquanto outro" (24), enquanto toda a experi&ecirc;ncia, e n&atilde;o menos do que a experi&ecirc;ncia. Esse &eacute; o ponto principal do multirrealismo nesse agenciamento Souriau-Latour: "de quantos modos diferentes podemos dizer que o ser existe?" (25). Vimos com <i>Melancolia</i> a violenta crise de um regime de visibilidades que acredit&aacute;vamos ser o &uacute;nico real, convivendo, quem sabe, com a abertura de um outro ser-luz, um outro modo de exist&ecirc;ncia ainda dif&iacute;cil de entrever, mas que refor&ccedil;a a tese de um multirrealismo real.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Site sobre o Ano Internacional da Luz. <a href="http://www.light2015.org/Home.html" target="_blank">http://www.light2015.org/Home.html</a></font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093920&pid=S0009-6725201500030001100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Montebello, P. "Du platonisme retourn&eacute; &agrave; l'abolition du platonisme". S/d. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.academia.edu/1347733/Nietzsche_Du_platonisme_retourn%C3%A9_%C3%A0_labolition_du_platonisme" target="_blank">https://www.academia.edu/1347733/Nietzsche_Du_platonisme_retourn%C3%A9_%C3%A0_labolition_du_platonisme</a>. Acesso em: 15 mar 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093921&pid=S0009-6725201500030001100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Ibid., p.9.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Id., "Gr&acirc;ce et lumi&egrave;re chez Deleuze". S/d, p.13. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.academia.edu/1401290/Gr%C3%A2ce_et_lumi%C3%A8re_chez_Deleuze" target="_blank">https://www.academia.edu/1401290/Gr%C3%A2ce_et_lumi%C3%A8re_chez_Deleuze</a> (acesso em: 22/01/2015).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093924&pid=S0009-6725201500030001100003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Souriau, E. Les diff&eacute;rents modes d'existence. Pr&eacute;face d'Isabelle Stengers et Bruno Latour. Paris: PUF, 2009.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093926&pid=S0009-6725201500030001100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Deleuze, G. Cin&eacute;ma I: L'image-mouvement. Paris: Les &Eacute;ditions de Minuit, 1983, p.89.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093928&pid=S0009-6725201500030001100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Id., Foucault. Paris: Les &Eacute;ditions de Minuit, 2004.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093930&pid=S0009-6725201500030001100006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Ibid., p.64.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. Foucault, M. Histoire de la folie &agrave; l'&acirc;ge classique. Folie et d&eacute;raison. Paris: Gallimard, 1972.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093933&pid=S0009-6725201500030001100007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. Id., Naissance de la clinique. Paris: PUF, 1963.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093935&pid=S0009-6725201500030001100008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11. Id., Raymond Roussel. Paris: Gallimard, 1963.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093937&pid=S0009-6725201500030001100009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">12. Id., Surveiller et punir. Paris: Gallimard, 1975.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093939&pid=S0009-6725201500030001100010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">13. Vel&aacute;squez, D. Las meninas. Pintura, &oacute;leo sobre tela. 310 x 276 cm. Madri: Museo Nacional Del Prado, 1656.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093941&pid=S0009-6725201500030001100011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">14. Manet, C. Olympia. Pintura, &oacute;leo sobre tela. 130.5 x 190 cm. Paris: Mus&eacute;e d'Orsay, 1863.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093943&pid=S0009-6725201500030001100012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">15. Scachetti, R. E. "O espelho virtual: proleg&ocirc;menos de uma arqueologia do futuro do humano". Tese de doutorado. Campinas, SP, 2011.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093945&pid=S0009-6725201500030001100013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">16. Foucault, M. "A pintura de Manet". Trad. Rodolfo Eduardo Scachetti. In: Visualidades (Goi&aacute;s), Goi&aacute;s, v. 9, n.21, p. 259-284, 2011.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093947&pid=S0009-6725201500030001100014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">17. Id., Les mots et les choses: une archeologie des sciences humaines. Paris: Gallimard, 1966.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093949&pid=S0009-6725201500030001100015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">18. Latour, B. "Sur un livre d'Etienne Souriau: les diff&eacute;rents modes d'existence". 2006, p.4. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.bruno-latour.fr/node/207" target="_blank">http://www.bruno-latour.fr/node/207</a>. Acesso em: 10 fev 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093951&pid=S0009-6725201500030001100016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">19. Melancolia. Dire&ccedil;&atilde;o e roteiro: Lars Von Trier. Dinamarca; Su&eacute;cia, 2011 (130 min.) T&iacute;tulo Original: Melancholia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093953&pid=S0009-6725201500030001100017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">20. Viveiros de Castro, E. "Os pronomes cosmol&oacute;gicos e o perspectivismo amer&iacute;ndio". Mana (Rio de Janeiro), Rio de Janeiro, v. 2, n.2, p. 115-144, 1996.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093955&pid=S0009-6725201500030001100018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">21. Danowski, D.; Viveiros de Castro, E. H&aacute; mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florian&oacute;polis: Cultura e Barb&aacute;rie, 2014, v. 1.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093957&pid=S0009-6725201500030001100019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">22. Sibilia, P. O homem p&oacute;s-org&acirc;nico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais. Rio de Janeiro: Relume Dumar&aacute;, 2002, p.83.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093959&pid=S0009-6725201500030001100020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">23. Latour, B.; Stengers, I. "Le sphinx de l'oeuvre". 2009, p.19. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.bruno-latour.fr/node/142" target="_blank">http://www.bruno-latour.fr/node/142</a>. Acesso em: 10 fev 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093961&pid=S0009-6725201500030001100021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">24. Id., "Sur un livre d'Etienne Souriau", op. cit., p.11.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">25. Ibid., p.6.</font></p>      ]]></body>
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