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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOT&Iacute;CIAS DO MUNDO    <br>   F&Iacute;SICA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Surfando nas ondas gravitacionais</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Victoria Fl&oacute;rio</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Previstas pela Teoria da Relatividade Geral (TRG), de Einstein, as ondas gravitacionais come&ccedil;aram o ano de 2016 chacoalhando a f&iacute;sica. No dia 11 de fevereiro, David Reitze, representante do Observat&oacute;rio de Ondas Gravitacionais por Interfer&ocirc;metro de Laser (LIGO), nos Estados Unidos, confirmou a detec&ccedil;&atilde;o direta dessas ondas. A comprova&ccedil;&atilde;o deve inaugurar uma &aacute;rea de pesquisa na f&iacute;sica com uma perspectiva inteiramente nova: a astronomia de ondas gravitacionais.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A astronomia estuda objetos nos confins do universo a partir de informa&ccedil;&otilde;es que ficam registradas na luz emitida por eles. Tradicionalmente, esses estudos s&atilde;o feitos por meio de observa&ccedil;&otilde;es do universo atrav&eacute;s de ondas eletromagn&eacute;ticas (micro-ondas, r&aacute;dio, luz vis&iacute;vel e infravermelha, raios -X, radia&ccedil;&atilde;o gama) e raios c&oacute;smicos (part&iacute;culas carregadas e neutrinos). As ondas gravitacionais tamb&eacute;m carregam informa&ccedil;&atilde;o sobre sua origem e sobre a natureza da pr&oacute;pria gravidade, dados que, antes da detec&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o poderiam ser obtidos de outra maneira. "Seu uso abre, portanto, um novo canal para o estudo do universo e oferece acesso a fen&ocirc;menos que seriam dif&iacute;ceis de observar com os meios tradicionais", explica Carlos Escobar, do Fermi National Laboratory (Fermilab), nos Estados Unidos, e professor aposentado do Instituto de F&iacute;sica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n2/a07fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A vers&atilde;o final das equa&ccedil;&otilde;es da TRG que previam as ondas gravitacionais foi apresentada &agrave; Academia Prussiana de Ci&ecirc;ncias em 25 de novembro de 1915. Segundo o historiador da ci&ecirc;ncia, David Kaiser, do Massachussetts Institute of Technology (MIT), nos &uacute;ltimos 100 anos a TRG se mostrou incrivelmente bem-sucedida. Aplicada por f&iacute;sicos e astr&oacute;nomos em suas buscas no cosmo, nenhum experimento ou observa&ccedil;&atilde;o revelou qualquer discrep&acirc;ncia na teoria. No entanto, a detec&ccedil;&atilde;o das ondas gravitacionais permanecia como um dos grandes desafios da f&iacute;sica contempor&acirc;nea. Ent&atilde;o, no dia 14 de setembro de 2015, quase que simultaneamente, os detectores g&ecirc;meos do LIGO, localizados em Hanford, no estado de Washington, e em Livigston, Louisiana, revelaram distor&ccedil;&otilde;es no espa&ccedil;o causadas pelas colis&otilde;es de buracos negros. Para Escobar, isso representa outro teste bem-sucedido da TRG em um dom&iacute;nio no qual ela, at&eacute; agora, n&atilde;o havia sido testada: o de campos gravi-tacionais muito intensos, caso da colis&atilde;o de buracos negros.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>AL&Eacute;M DE NEWTON</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Isaac Newton (1643-1727) extraiu uma rela&ccedil;&atilde;o matem&aacute;tica entre as entidades f&iacute;sicas tempo, espa&ccedil;o e massa que explica a queda de uma ma&ccedil;&atilde; e a &oacute;rbita da Lua em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Terra. Para Newton, a mesma for&ccedil;a &eacute; respons&aacute;vel por ambos os movimentos: a gravidade. Einstein questionou a teoria newtoniana em seus alicerces e desenvolveu uma hip&oacute;tese onde espa&ccedil;o e tempo est&atilde;o intrinsecamente conectados. Para ele, o espa&ccedil;o-tempo &eacute; como um tecido cuja topologia se distorce pela presen&ccedil;a de massa. A gravidade &eacute; uma distor&ccedil;&atilde;o na geometria do espa&ccedil;o-tempo e n&atilde;o uma for&ccedil;a. Para Escobar, "a TRG de Einstein vai al&eacute;m da teoria newtoniana porque abandona a ideia de a&ccedil;&atilde;o instant&acirc;nea a dist&acirc;ncia".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As ondas gravitacionais, como todos os tipos de onda, s&atilde;o perturba&ccedil;&otilde;es. No caso das ondas gravitacionais, no entanto, a perturba&ccedil;&atilde;o se forma no tecido espa&ccedil;o-tempo. Essas ondula&ccedil;&otilde;es podem ser produzidas por eventos violentos, como a colis&atilde;o de buracos negros e estrelas de n&ecirc;utrons. As ondula&ccedil;&otilde;es se propagam no espa&ccedil;o, chegando a "chacoalhar as coisas" perto do planeta Terra tamb&eacute;m, mas em uma escala muito pequena. Escobar explica que elas s&oacute; podem ser detectadas em experimentos supersens&iacute;veis, como com os interfer&ocirc;metros do LIGO.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"&#91;...&#93; dentre todos os fen&ocirc;menos, o mais excitante, o mais misterioso, o mais violento e mais extremo &eacute; o que tem o nome mais simples, comum, tranquilo e sereno. Trata-se t&atilde;o somente de um 'buraco negro'". Assim o escritor Isaac Asimov descreveu os buracos negros em seu livro <i>O colapso do universo</i> (1977). Um buraco negro &eacute; um objeto que provoca uma distor&ccedil;&atilde;o t&atilde;o grande no espa&ccedil;o-tem-po que nem mesmo a luz consegue escapar de seu horizonte de eventos. N&atilde;o podemos usar a luz (ondas eletromagn&eacute;ticas) emitida por um buraco negro para estud&aacute;-lo, mas podemos usar as ondas gravitacionais! Em 1993, os astrof&iacute;sicos norte-americanos Russell Alan Hulse e Joseph Hooton Taylor Jr. receberam o Nobel de F&iacute;sica por demonstrar, em 1974, que em sistemas bin&aacute;rios (por exemplo, um pulsar orbitando uma estrela de n&ecirc;utrons), a energia escapa no formato de ondas gravitacionais. Por isso o tamanho do pulsar diminu&iacute;a lentamente. Um par de buracos negros em rota&ccedil;&atilde;o, orbitando entre si e ao longo de bilh&otilde;es de anos, come&ccedil;a a perder energia na forma de ondas gravitacionais. Essa perda de energia faz com que os buracos negros se aproximem gradativamente, avan&ccedil;ando de forma mais r&aacute;pida um em dire&ccedil;&atilde;o ao outro, at&eacute; colidirem com velocidade aproximadamente igual &agrave; metade da velocidade da luz. O resultado: forma-se um &uacute;nico buraco negro mais massivo (parte da massa total do par &eacute; convertida em energia seguindo a famosa f&oacute;rmula de Einstein E = mc<sup>2</sup>).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Segundo um relat&oacute;rio da divis&atilde;o de astrof&iacute;sica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Inpe, divulgado logo ap&oacute;s o an&uacute;ncio do achado das ondas gravitacionais, a an&aacute;lise do sinal detectado pelos interfer&ocirc;metros do LIGO permite concluir que as ondas se referem aos &uacute;ltimos 0,2 segundos de &oacute;rbita de dois buracos negros em colis&atilde;o (com massas respectivamente iguais a 29 e 36 vezes a massa do Sol). O buraco negro formado a partir da colis&atilde;o teria uma massa igual a 62 vezes a massa solar. Os dados indicam maior probabilidade de que o evento de colis&atilde;o tenha ocorrido em uma regi&atilde;o do c&eacute;u no hemisf&eacute;rio sul, a uma dist&acirc;ncia aproximada de 1,3 bilh&atilde;o de anos-luz da Terra (um ano-luz &eacute; a dist&acirc;ncia que a luz percorre em um ano, com a velocidade de 300 mil km/s).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>BIG SCIENCE</b></i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Idealizado nos anos 1980 por um grupo de f&iacute;sicos do Instituto deTecnologia da Calif&oacute;rnia (Caltech) e do MIT, o LIGO &eacute; um projeto financiado pela Funda&ccedil;&atilde;o Nacional de Ci&ecirc;ncias (NSF). De acordo com o pesquisador do Inpe, Odylio Aguiar, o projeto custa &agrave; NSF entre U$ 600 milh&otilde;es e um U$ 1 bilh&atilde;o. &Eacute; parte de uma colabora&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica internacional denominada LIGO Scientific Collaboration, ou LSC, com mais de 14 pa&iacute;ses, 90 institui&ccedil;&otilde;es de pesquisa e mais de mil cientistas. Os detectores g&ecirc;meos procuram por ondas gra-vitacionais emitidas por objetos nos confins do Universo usando a t&eacute;cnica de interferometria, baseada em um sistema de espelhos que promove a separa&ccedil;&atilde;o e o encontro entre feixes de laser. Uma onda gravitacional pode deslocar os espelhos, de forma que o padr&atilde;o de interfer&ecirc;ncia dos feixes registre a passagem e a forma das ondas gravitacionais. Todo o sistema &eacute; extremamente sens&iacute;vel a qualquer tipo de vibra&ccedil;&atilde;o e requer minimiza&ccedil;&atilde;o de ru&iacute;dos, que podem alterar o movimento dos espelhos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n2/a07fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma reestrutura&ccedil;&atilde;o que triplicou a sensibilidade dos interfer&ocirc;metros favoreceu a descoberta anunciada este ano. Isso equivale a dizer que eles podem "escutar" ondas gravi-tacionais emitidas h&aacute; mais de 225 milh&otilde;es de anos-luz (antes a capacidade era 65 milh&otilde;es).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASILEIROS NAS ONDAS</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No Brasil, existem duas institui&ccedil;&otilde;es que participam do LSC: o Instituto de Pesquisa Fundamental da Am&eacute;rica do Sul, Universidade Estadual Paulista, (IFT/Unesp) e o Inpe. Na Unesp, o foco do trabalho, coordenado pelo f&iacute;sico Riccardo Sturani, &eacute; a modelagem te&oacute;rica dos sinais emitidos pelos interfer&ocirc;metros e a an&aacute;lise dos dados gerados. J&aacute; o grupo do Inpe, dirigido por Odylio Aguiar e C&eacute;sar Costa, trabalha no aperfei&ccedil;oamento da instrumenta&ccedil;&atilde;o de isolamento vibracional; na futura opera&ccedil;&atilde;o com espelhos resfriados; al&eacute;m de buscar fontes de ru&iacute;do e minimizar seus efeitos nos dados coletados, o que permite que sinais de ondas gravitacionais sejam mais facilmente localizados em meio a um grande conjunto de informa&ccedil;&otilde;es. Segundo Aguiar, esse trabalho foi de fundamental import&acirc;ncia na recente descoberta das ondas, anunciada em fevereiro. As pesquisas, desenvolvidas ao longo dos &uacute;ltimos cinco anos, receberam aproximadamente R$ 1,5 milh&atilde;o de ag&ecirc;ncias de fomento como a Fapesp, o CNPq, a Capes e o Minist&eacute;rio da Ci&ecirc;ncia e Tecnologia e Inova&ccedil;&atilde;o (MCTI).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A pr&oacute;xima fase do projeto foi denominada LIGO Voyager e visa o aperfei&ccedil;oamento e a constru&ccedil;&atilde;o de novos detectores. Uma novidade &eacute; um sistema de criogenia por meio do qual os espelhos ser&atilde;o resfriados a temperaturas de cerca de 70 K para redu&ccedil;&atilde;o do ru&iacute;do t&eacute;rmico. De acordo com Elvis Ferreira, que desenvolve pesquisas no Inpe para aperfei&ccedil;oar o isolamento vibracional dos espelhos dos interfer&ocirc;metros, essas melhorias far&atilde;o toda diferen&ccedil;a nas pesquisas na &aacute;rea de astronomia de ondas gravitacionais.</font></p>      ]]></body>
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