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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASIL    <br> ENSINO SUPERIOR</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Crise nas universidades</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sabine Righetti </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quem passou recentemente por alguns dos <i>campi </i>da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), espalhados por sete cidades do estado, deve ter se deparado com mato alto, lixo acumulado, pr&eacute;dios vazios e docentes desolados. S&iacute;mbolo da crise financeira do ensino superior do pa&iacute;s, com situa&ccedil;&atilde;o se agravando h&aacute; dois anos, a UERJ n&atilde;o tem conseguido suprir suas contas b&aacute;sicas. No final de 2016, funcion&aacute;rios e docentes ficaram sem 13º sal&aacute;rio e, no in&iacute;cio de 2017, o governo fluminense tentou um corte de 30% nos sal&aacute;rios, proposta rejeitada em decis&atilde;o judicial. A UERJ, no entanto, n&atilde;o &eacute; a &uacute;nica no vermelho: outras universidades estaduais e federais brasileiras tamb&eacute;m est&atilde;o sem recursos para pagar suas contas e fecham meses consecutivos no negativo. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Brasil tem, hoje, cerca de 2,3 mil institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas de ensino superior das quais menos de 10% s&atilde;o universidades -respons&aacute;veis, de acordo com a legisla&ccedil;&atilde;o nacional, por atividades de ensino, de pesquisa e de extens&atilde;o. Apesar de minoria, s&atilde;o as universidades que concentram a maior parte dos alunos brasileiros do ensino terci&aacute;rio, de acordo com os dados do Censo de Ensino Superior de 2015. A Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), por exemplo, &eacute; quase 40 vezes maior do que a norte-americana Caltech (Instituto de Tecnologia da Calif&oacute;rnia), considerada a melhor do mundo em rankings universit&aacute;rios internacionais. Recentemente houve uma expans&atilde;o significativa no n&uacute;mero de universidades, que chegaram a regi&otilde;es remotas do pa&iacute;s. O problema &eacute; que o or&ccedil;amento federal e estadual n&atilde;o acompanhou o ritmo. "Estamos na maior crise financeira de nossa hist&oacute;ria", diz o reitor da UERJ Ruy Garcia Marques, que se formou em medicina na pr&oacute;pria universidade h&aacute; cerca de 40 anos. Fundada em 1950, a UERJ tem aproximadamente 25 mil alunos. Desses, diz o reitor, 7,5 mil s&atilde;o estudantes de gradua&ccedil;&atilde;o de baixa renda que dependem de bolsa de perman&ecirc;ncia da universidade no valor de R$450 mensais. Assim como os sal&aacute;rios de t&eacute;cnicos e de docentes, os bolsistas tamb&eacute;m est&atilde;o sofrendo com atraso de pagamento.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>INSEGURAN&Ccedil;A E LIXO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> "Muitos docentes j&aacute; n&atilde;o v&ecirc;m mais &agrave; universidade porque est&atilde;o com medo. Falta seguran&ccedil;a", diz a bi&oacute;loga  Gisele Lobo, refer&ecirc;ncia nos estudos de esponjas. Sem recursos, os servi&ccedil;os terceirizados - como seguran&ccedil;a - foram cortados. Tamb&eacute;m n&atilde;o h&aacute; coleta de lixo. "O meu lixo eu levo para a minha casa", diz Gisele. Por onde se anda, os pr&eacute;dios est&atilde;o vazios. "Os alunos de baixa renda arrumaram pequenos bicos e trabalhos, quem tem renda maior est&aacute; migrando para o ensino privado", diz. "Estamos todos muito desanimados".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A oscila&ccedil;&atilde;o das verbas destinadas &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es de ensino superior &eacute; um dos motivos que t&ecirc;m feito com que as universidades estaduais paulistas, por exemplo, estourassem recentemente seu or&ccedil;amento s&oacute; com pagamentos de sal&aacute;rios. Para se ter uma ideia, USP, Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) est&atilde;o na imin&ecirc;ncia de comprometer a totalidade de seus or&ccedil;amentos com o pagamento das folhas de pessoal. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A recomenda&ccedil;&atilde;o legal &eacute; que esse gasto ficasse em 75% e que a fatia menor, de 25%, deveria ser aplicada em manuten&ccedil;&atilde;o, como pagamento de energia, pequenas obras, servi&ccedil;os terceirizados como seguran&ccedil;a e manuten&ccedil;&atilde;o de equipamentos de pesquisa - que, na pr&aacute;tica, acabam entrando na conta das chamadas "reservas t&eacute;cnicas" dos aportes voltados &agrave; ci&ecirc;ncia vindos das funda&ccedil;&otilde;es de amparo &agrave; pesquisa.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DEMISS&Atilde;O</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Para apertar o cinto, a USP promoveu um programa de demiss&atilde;o volunt&aacute;ria que enxugou cerca de 1,5 mil nomes do seu quadro - dentre docentes e funcion&aacute;rios. O corte de pessoal, no entanto, tem afetado o ensino e a pesquisa, dizem os cientistas daquela universidade. De acordo com a geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Genoma Humano, tr&ecirc;s t&eacute;cnicos importantes dos laborat&oacute;rios que coordena, profissionais essenciais nas chamadas "pesquisas de bancada", foram embora na demiss&atilde;o volunt&aacute;ria. "Estamos ficando cada vez mais distantes da ci&ecirc;ncia do primeiro mundo. Os cortes de recursos est&atilde;o vindo de todos os lugares", diz Mayana. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><a href="/img/revistas/cic/v69n2/a03fig01.jpg"><img src="/img/revistas/cic/v69n2/a03fig01thumb.jpg">    <br> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O or&ccedil;amento federal para o financiamento de ci&ecirc;ncia em 2016 (cerca de R$4,6 bilh&otilde;es) foi 40% inferior ao de 2013 (R$7,9 bilh&otilde;es) - isso desconsiderando a infla&ccedil;&atilde;o do per&iacute;odo. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico (CNPq), ligado ao Minist&eacute;rio de Ci&ecirc;ncia, Tecnologia, Inova&ccedil;&atilde;o e Comunica&ccedil;&otilde;es, por exemplo, perdeu cerca de R$ 1 bilh&atilde;o no caixa de 2015 para 2016 (veja dados). Para quem est&aacute; na universidade, esses cortes s&atilde;o percebidos em redu&ccedil;&atilde;o de bolsas de pesquisa na gradua&ccedil;&atilde;o e na p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o. O CNPq, por exemplo, diminuiu em 20% a quantidade de bolsas de inicia&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, destinadas a alunos de gradua&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Sem recursos, alguns cientistas buscam alternativas ao dinheiro p&uacute;blico para o financiamento de suas pesquisas por meio, por exemplo, de vaquinhas coletivas. A bi&oacute;loga Let&iacute;cia Alab&iacute;, mestre pela Universidade Federal do ABC, tentou levantar recentemente R$12 mil em uma plataforma chamada "Entropia coletiva" para conseguir recursos para um trabalho de pesquisa em colabora&ccedil;&atilde;o com o Instituto de Astronomia (IAG), da USP. Conseguiu menos de 10% do que precisava - e diz que pretende passar o chap&eacute;u em breve novamente. "Mas sigo aguardando o resultado da concess&atilde;o das bolsas de pesquisa das ag&ecirc;ncias de fomento", diz. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para o presidente da Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de S&atilde;o Paulo (Fapesp), o f&iacute;sico Jos&eacute; Goldemberg, aumentar os recursos p&uacute;blicos para a pesquisa n&atilde;o ser&aacute; suficiente se o setor privado n&atilde;o der uma contrapartida. "Em pa&iacute;ses desenvolvidos como na Coreia do Sul, 4% do PIB (Produto Interno Bruto) &eacute; destinado para pesquisa. Cerca de metade disso vem do setor produtivo", disse em debate promovido em mar&ccedil;o no jornal <i>Folha de S.Paulo,</i> sobre pol&iacute;tica cient&iacute;fica e tecnol&oacute;gica no Brasil. Aqui, destaca Goldemberg, quase todo o financiamento &agrave; ci&ecirc;ncia fica a cargo dos cofres p&uacute;blicos - um problema em tempos de crise econ&ocirc;mica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>FEDERAIS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Diferentemente da UERJ e das estaduais paulistas, a maioria das universidades p&uacute;blicas brasileiras, no entanto, depende do or&ccedil;amento federal para pagar suas contas. Os repasses financeiros, diz o Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o (MEC) em nota, s&atilde;o enviados &agrave;s reitorias de todas as universidades federais "na medida em que a execu&ccedil;&atilde;o da despesa p&uacute;blica vai ocorrendo, mediante sua regular liquida&ccedil;&atilde;o". O or&ccedil;amento, no entanto, tem se mantido est&aacute;vel desde 2015 (ver quadro na p&aacute;gina anterior). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Hoje, o pa&iacute;s conta com 63 universidades federais. Dessas, dez foram criadas desde 2007 em regi&otilde;es do pa&iacute;s consideradas "hiperregionalizadas". &Eacute; o caso, por exemplo, da Universidade Federal do Oeste do Par&aacute; (Ufopa), encravada na regi&atilde;o amaz&ocirc;nica paraense desde 2009. A universidade tem 6.591 estudantes, dos quais 95 s&atilde;o quilombolas e 240 ind&iacute;genas que falam, ao todo, 13 l&iacute;nguas. "Temos os mesmos desafios das universidades do Sudeste, mas contamos com menos recursos e com mais dificuldades", diz a reitora Raimunda Nonata. A Ufopa integra uma rede de universidades amaz&ocirc;nicas que tem feito demandas conjuntas ao governo federal para libera&ccedil;&atilde;o de aportes financeiros e para abertura de vagas de docentes que est&atilde;o congeladas. "Tudo aqui &eacute; mais dif&iacute;cil", diz o reitor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Par&aacute; (Unifesspa), o historiador Maur&iacute;lio Monteiro - primeiro nome a ocupar o cargo m&aacute;ximo na universidade. A Unifesspa foi criada em 2013 em Marab&aacute; - cidade que fica a 600 km de Bel&eacute;m e tamb&eacute;m faz parte da rede de universidades amaz&ocirc;nicas. "Vivo em Bras&iacute;lia pedindo recursos", diz Monteiro.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Quem tamb&eacute;m vive em Bras&iacute;lia &eacute; a biom&eacute;dica Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC). "Eu virei uma esp&eacute;cie de fiscal do governo", diz. Al&eacute;m de tentar mais recursos para os custos de ensino e de ci&ecirc;ncia nas universidades, ela tenta colocar na pauta a regulamenta&ccedil;&atilde;o do chamado Marco Legal da Ci&ecirc;ncia e Tecnologia (Lei 13.243, de 11 de janeiro de 2016). &Eacute; um conjunto de leis sobre atividades espec&iacute;ficas da ci&ecirc;ncia que, dentre outras altera&ccedil;&otilde;es, prev&ecirc; que docentes de universidades p&uacute;blicas, hoje com dedica&ccedil;&atilde;o exclusiva, possam exercer atividades de pesquisa no setor privado com remunera&ccedil;&atilde;o - o que, dizem os cientistas, poderia facilitar a rela&ccedil;&atilde;o entre universidades e empresas no pa&iacute;s. Em universidades de ponta de pa&iacute;ses como os Estados Unidos, por exemplo, diferentemente do que acontece no Brasil, cientistas prospectam no governo e nas empresas em busca de financiamento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Nader defende ainda que cursos de especializa&ccedil;&atilde;o profissional realizados nas universidades p&uacute;blicas possam ser cobrados - o que estava previsto na PEC (Proposta de Emenda &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o) n&uacute;mero 395, derrotada na C&acirc;mara dos Deputados em mar&ccedil;o deste ano. "Todas as boas universidades do mundo cobram cursos de especializa&ccedil;&atilde;o e a p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica segue gratuita. Foi uma p&eacute;ssima not&iacute;cia para as universidades", diz Nader.</font></p>      ]]></body>
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