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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[José Goldemberg: uma trajetória de sucesso para o desenvolvimento do país]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TEND&Ecirc;NCIAS    <br> ENTREVISTA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Jos&eacute; Goldemberg: uma trajet&oacute;ria de sucesso para o desenvolvimento do pa&iacute;s</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ana Paula Morales</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v70n3/a02fig01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC) foi criada, h&aacute; 70 anos, Jos&eacute; Goldemberg era estudante universit&aacute;rio. Participou das reuni&otilde;es da entidade, que como ele define, eram "como os grandes festivais de m&uacute;sica da &eacute;poca", pois davam oportunidade e voz aos jovens cientistas. Goldemberg graduou-se em f&iacute;sica pela Universidade de S&atilde;o Paulo (USP, 1950), institui&ccedil;&atilde;o em que construiu sua carreia cient&iacute;fica, da qual foi reitor (1986 - 1990) e na qual se tornou professor em&eacute;rito em 2017. Suas pesquisas em f&iacute;sica nuclear, energia, planejamento energ&eacute;tico e meio ambiente lhe renderam notoriedade mundial. Foi presidente da Sociedade Brasileira de F&iacute;sica (1975 - 1979) e da SBPC (1979 - 1981), quando o pa&iacute;s passava pelo processo de abertura pol&iacute;tica. "Eu estou convencido que a posi&ccedil;&atilde;o militante da SBPC ajudou a proteger os cientistas", relata. Goldemberg tem uma trajet&oacute;ria marcante tamb&eacute;m na pol&iacute;tica e na administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. No governo federal, foi secret&aacute;rio da Ci&ecirc;ncia e Tecnologia (1990 - 1991), ministro da Educa&ccedil;&atilde;o (1991 - 1992) e secret&aacute;rio do Meio Ambiente (mar&ccedil;o a julho de 1992). No estado de S&atilde;o Paulo, foi secret&aacute;rio do Meio Ambiente (2002 - 2006) e dirigiu a Companhia Energ&eacute;tica de S&atilde;o Paulo (1982 - 1985). Em 2015, foi nomeado presidente da Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de S&atilde;o Paulo (Fapesp). Com 90 anos completados em maio deste ano, Goldemberg esbanja energia e &acirc;nimo ao falar sobre o passado e o futuro da ci&ecirc;ncia nacional. Nesta entrevista, concedida &agrave; <i>Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura</i>, ele defende que &eacute; preciso mudar o sistema de apoio &agrave; ci&ecirc;ncia e &agrave; tecnologia no Brasil. E afirma que os cientistas brasileiros podem contribuir para o enfrentamento dos problemas do pa&iacute;s colocando a racionalidade no centro das decis&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura (C&amp;C):<i> Como come&ccedil;ou a rela&ccedil;&atilde;o do senhor com a SBPC?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Jos&eacute; Goldemberg (JG):</b> Olha, eu era estudante da universidade quando a SBPC foi criada, em 1948. O Brasil nessa &eacute;poca era outro pa&iacute;s: havia poucos cientistas - a maioria estava concentrada ou em S&atilde;o Paulo, na USP, ou no Rio de Janeiro, no Oswaldo Cruz, Instituto Carlos Chagas, enfim, em poucos lugares. A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e a Unesp (Universidade Estadual Paulista) nem existiam. A SBPC acabou aumentando a comunica&ccedil;&atilde;o entre os cientistas, atrav&eacute;s da reuni&atilde;o anual. Como nos grandes festivais de m&uacute;sica, a reuni&atilde;o anual acabou se transformando em uma oportunidade para os jovens cientistas, estudantes, apresentarem seus trabalhos na presen&ccedil;a de pessoas not&oacute;rias, que &eacute; uma coisa muito importante. Sabe, quando voc&ecirc; est&aacute; come&ccedil;ando a carreira, voc&ecirc; quer ser ouvido para, eventualmente, alguma pessoa com mais experi&ecirc;ncia reconhecer o seu talento. Isso &eacute; o que acontece na m&uacute;sica o tempo todo, na ci&ecirc;ncia &eacute; a mesma coisa. Eu acho que a cria&ccedil;&atilde;o da SBPC foi um instrumento de dinamiza&ccedil;&atilde;o do sistema cient&iacute;fico brasileiro. N&atilde;o podemos esquecer, &eacute; claro, que logo depois foi criado o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico) e todo esse conjunto de atividades, mas o term&ocirc;metro da atividade cient&iacute;fica nacional eram as reuni&otilde;es anuais da SBPC. Elas acabaram virando uma atividade t&atilde;o importante, que mesmo no governo militar, quando v&aacute;rias organiza&ccedil;&otilde;es civis foram suprimidas, as atividades da SBPC continuaram. O professor &#91;Paulo&#93; Sawaya organizava as reuni&otilde;es anuais de modo que na primeira sess&atilde;o de inaugura&ccedil;&atilde;o falava sempre algum jovem cientista, que era uma maneira de jogar as luzes sobre algum talento nascente. Eu era jovenzinho e ele me convidou para fazer uma dessas palestras. Eu me lembro at&eacute; hoje - e acabei virando presidente da SBPC mais tarde.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> O senhor foi presidente da SBPC de 1979 a 1981. Em sua opini&atilde;o, qual a contribui&ccedil;&atilde;o da SBPC para abertura pol&iacute;tica do Brasil naquele momento?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>JG:</b> Eu acho que ela foi importante e ainda &eacute; subvalorizada. Deixe-me explicar o porqu&ecirc;. Eu fui o presidente da SBPC dois anos ap&oacute;s o governo federal ter tentado impedir a reuni&atilde;o anual da entidade &#91;em 1977&#93;, cortando as verbas etc., e no fim foi o cardeal D. Paulo Evaristo Arns que a salvou, permitindo que a reuni&atilde;o acontecesse na PUC S&atilde;o Paulo. O presidente da SBPC na &eacute;poca era o professor Oscar Sala. Eu assumi o mandato seguinte, em um momento j&aacute; de in&iacute;cio da abertura pol&iacute;tica. Logo depois, o general Figueiredo assumiu o governo e o vice era o Aureliano Chaves, uma pessoa muito mais aberta, um civil, que desejava acelerar o processo de abertura. A&iacute; aconteceu uma coisa muito curiosa. Em 1980, o Figueiredo me convidou para um encontro. Pela primeira vez na hist&oacute;ria do regime militar um cientista, um presidente da SPBC era recebido. Isso tr&ecirc;s anos depois de n&oacute;s termos corrido o risco de ir para a pris&atilde;o, como aconteceu no congresso dos estudantes da UNE (Uni&atilde;o Nacional dos Estudantes), em 1968. O que se esperava em 1977 era que as for&ccedil;as de seguran&ccedil;a invadissem a PUC e prendessem a todos. Tr&ecirc;s anos depois, eu como presidente da SBPC, fui recebido pelo presidente Figueiredo, levado pelas m&atilde;os do Aureliano Chaves.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> E como foi essa reuni&atilde;o?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>JG:</b> A reuni&atilde;o foi interessante porque naquele tempo qualquer pessoa com tend&ecirc;ncia social democrata era vista como comunista e perigosa. Nesse sentido, s&oacute; o fato de ser recebido j&aacute; era significativo. O general Figueiredo me perguntou: "o que os cientistas querem?", e eu disse: "bom, olha, a SBPC, que &eacute; a sociedade que eu represento, ela tem como fun&ccedil;&atilde;o defender o cientista e a ci&ecirc;ncia. Ent&atilde;o, queremos o fim das discrimina&ccedil;&otilde;es", sabe, aquele tipo de a&ccedil;&atilde;o policial, que naquela &eacute;poca ainda ocorria, "e um apoio continuado para a ci&ecirc;ncia". A crise na &eacute;poca n&atilde;o era t&atilde;o grande quanto agora, quer dizer, a quest&atilde;o de dinheiro n&atilde;o era t&atilde;o grave, mas havia tamb&eacute;m dificuldades. E o curioso &eacute; que quando eu sa&iacute;, o vice-presidente Aureliano Chaves me levou at&eacute; a porta do Pal&aacute;cio do Planalto, e a TV Globo estava esperando l&aacute;. Obviamente tinha sido orquestrado. Eu disse ent&atilde;o que era um sinal de abertura, que n&oacute;s est&aacute;vamos contribuindo para a abertura. Esse foi um epis&oacute;dio marcante. Depois h&aacute; um epis&oacute;dio que ningu&eacute;m conhece, que agora voc&ecirc; vai conhecer. Um ano depois, eu j&aacute; n&atilde;o era mais presidente da SBPC, fui nomeado presidente do CNPq, pelo ministro Delfim &#91;Netto&#93;, e o SNI (Servi&ccedil;o Nacional de Informa&ccedil;&atilde;o) vetou a minha posse.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Sob alguma alega&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>JG:</b> Ah, os argumentos de sempre sobre os cientistas. Mas voc&ecirc; v&ecirc; que o presidente Figueiredo havia assinado a minha nomea&ccedil;&atilde;o, quer dizer, n&oacute;s t&iacute;nhamos chegado ao ponto em que a SBPC estava integrada no sistema pol&iacute;tico nacional da abertura. N&oacute;s &eacute;ramos todos considerados pessoas perigosas, v&aacute;rios foram presos. Eu estou convencido que a posi&ccedil;&atilde;o militante da SBPC ajudou a proteger os cientistas, porque eu acho que prender o presidente da SBPC, algo que poderia ter acontecido em 1977 &#91;na reuni&atilde;o anual&#93;, ou qualquer um de n&oacute;s, teria dado uma repercuss&atilde;o nacional e internacional t&atilde;o negativa que o governo acabou n&atilde;o fazendo. O que ficamos sabendo depois, com o trabalho do jornalista Elio Gaspari ou por meio dos arquivos da CIA, &eacute; que, dentro do regime militar, havia militares que reconheciam a import&acirc;ncia da ci&ecirc;ncia e da tecnologia para o desenvolvimento nacional e que, portanto, entendiam que deveria haver um limite na persegui&ccedil;&atilde;o aos cientistas. A comunidade cient&iacute;fica tinha sido muito cr&iacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o ao programa nuclear brasileiro, eu em particular, porque antes de ser presidente da SBPC eu fui presidente da Sociedade Brasileira de F&iacute;sica (1975 - 1979), que era contr&aacute;ria ao programa nuclear. De modo que o general Figueiredo me receber era simb&oacute;lico, e o fato de eu ter sido nomeado presidente do CNPq era simb&oacute;lico tamb&eacute;m, mesmo que a minha nomea&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tenha sa&iacute;do, por veto do SNI. Mas nomear um ex-presidente da SBPC, um advers&aacute;rio not&oacute;rio do governo na &aacute;rea nuclear, eu acho que mostra a influ&ecirc;ncia que a SBPC teve dentro do processo de abertura.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Como o senhor avalia o cen&aacute;rio da pesquisa cient&iacute;fica no Brasil?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>JG:</b> O sistema cient&iacute;fico &#91;brasileiro&#93; cresceu muito. O Brasil representa 2,5% das publica&ccedil;&otilde;es mundiais, e metade de tudo que &eacute; publicado na Am&eacute;rica Latina. &Eacute; extraordin&aacute;rio, porque a Am&eacute;rica Latina tem acho que cerca de 20 pa&iacute;ses, de modo que, apesar dos nossos colegas se queixarem, tem havido um apoio razo&aacute;vel ao desenvolvimento das atividades. Veja, o Brasil tem esses programas de bolsas da Capes (Coordena&ccedil;&atilde;o de Aperfei&ccedil;oamento de Pessoal de N&iacute;vel Superior) e da Fapesp (Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de S&atilde;o Paulo), que enviam milhares de estudantes para fora. N&atilde;o s&atilde;o todos os pa&iacute;ses do mundo que t&ecirc;m programas desse tipo! A China, que agora est&aacute; dando enorme valor para o desenvolvimento cient&iacute;fico e tecnol&oacute;gico, no passado ela n&atilde;o tinha um programa como esses. No entanto, nos &uacute;ltimos anos, com a crise econ&ocirc;mica, foram todos atingidos, inclusive o or&ccedil;amento do Minist&eacute;rio de Ci&ecirc;ncia, Tecnologia, Inova&ccedil;&otilde;es e Comunica&ccedil;&otilde;es (MCTIC). Eu estou convencido de que &eacute; preciso mudar o sistema de apoio &agrave; ci&ecirc;ncia e &agrave; tecnologia no Brasil, como S&atilde;o Paulo fez. Aqui, a Fapesp conta com 1% do ICMS (Imposto sobre Circula&ccedil;&atilde;o de Mercadorias e Servi&ccedil;os). S&atilde;o recursos fixos, esse &eacute; o diferencial em rela&ccedil;&atilde;o ao governo federal, onde o sistema de apoio acabou ficando dependente da situa&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica. No governo FHC e no governo Lula, t&iacute;nhamos o Fundo Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico (FNDCT), que era muito bem suprido de recursos por causa dos fundos setoriais: fundo de petr&oacute;leo, fundo de telecomunica&ccedil;&otilde;es, uma esp&eacute;cie de vincula&ccedil;&atilde;o de recursos &agrave; atividade econ&ocirc;mica. Com a crise de 2008, eles foram contingenciados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: <i>O senhor defende que uma porcentagem do PIB (Produto Interno Bruto) seja destinada &agrave; ci&ecirc;ncia e &agrave; tecnologia?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>JG:</b> Sim, &eacute; claro! Eu acho que &eacute; preciso que &#91;o financiamento da ci&ecirc;ncia e da tecnologia&#93; seja arranjado de uma maneira que n&atilde;o dependesse dos governos de plant&atilde;o, que fosse a longo prazo, porque a atividade cient&iacute;fica tem que ser continuada. &Eacute; como um beb&ecirc; ou uma crian&ccedil;a, voc&ecirc; tem que alimentar todo dia. N&atilde;o adianta voc&ecirc; dizer: "Ah, a situa&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica est&aacute; dif&iacute;cil agora, vamos parar de alimentar durante tr&ecirc;s semanas". N&atilde;o d&aacute;! Com a atividade cient&iacute;fica &eacute; a mesma coisa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Isso tem, de certa forma, uma rela&ccedil;&atilde;o com a sua atua&ccedil;&atilde;o como reitor da USP (1986 - 1990), quando o senhor defendeu fortemente a autonomia universit&aacute;ria. Qual &eacute; a import&acirc;ncia da autonomia para a pesquisa e para a educa&ccedil;&atilde;o?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>JG:</b> Olha, eu acredito que a resposta est&aacute; na explos&atilde;o da atividade cient&iacute;fica na USP. Sozinha, ela representa acho que 20% da atividade cient&iacute;fica nacional, e como ela tem um or&ccedil;amento com o qual voc&ecirc; pode contar, d&aacute; para fazer planejamento. Antes de haver autonomia financeira, com infla&ccedil;&atilde;o alta, que n&atilde;o tem agora, o or&ccedil;amento que era aprovado no come&ccedil;o do ano ficava totalmente desatualizado no final do ano. A&iacute; voc&ecirc; precisava voltar ao governo, negociar, pedir, o reitor vivia de pedir, tentando captar recursos, conversando com os deputados e com os senadores. Isso acabou, quer dizer, a USP e as outras universidades estaduais de S&atilde;o Paulo t&ecirc;m recursos assegurados. Isso n&atilde;o existe ainda para as federais. Eu, quando ministro da Educa&ccedil;&atilde;o, tentei introduzir isso para as federais e n&atilde;o foi poss&iacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Por qu&ecirc;?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>JG:</b> Por dois motivos: os reitores, sobretudo dos estados em que as universidades eram muito influenciadas pelo poder pol&iacute;tico local, preferiam ficar com depend&ecirc;ncia de benesses dos pol&iacute;ticos. A segunda raz&atilde;o &eacute; que o Minist&eacute;rio da Fazenda n&atilde;o queria comprometer recursos vinculados, para dar liberdade ao governo de fazer coisas. Acontece que para atividades como educa&ccedil;&atilde;o e sa&uacute;de, por exemplo, voc&ecirc; tem que vincular.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> O senhor tem se dedicado &agrave;s energias renov&aacute;veis, &agrave; sustentabilidade, e desempenha um papel fundamental no combate &agrave;s mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas, tendo atuado inclusive com um dos organizadores da Rio 92 (Confer&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento). Como o senhor avalia as negocia&ccedil;&otilde;es internacionais na &aacute;rea?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>JG:</b> A confer&ecirc;ncia de 1992 foi a mais importante depois da reuni&atilde;o de Estocolmo, em 1972. Esta confer&ecirc;ncia estabeleceu a ideia, que foi aceita por praticamente todos os pa&iacute;ses, de que polui&ccedil;&atilde;o ambiental local, qualidade do ar, qualidade da &aacute;gua, redes de recolhimento de lixo, esgoto etc. eram quest&otilde;es que precisavam ser resolvidas, sen&atilde;o a qualidade de vida das pessoas ficaria intoler&aacute;vel. Mas a confer&ecirc;ncia de Estocolmo n&atilde;o tocou no problema da polui&ccedil;&atilde;o global. Foi a Rio 92 que estabeleceu a Conven&ccedil;&atilde;o do Clima. E por que precisava de uma conven&ccedil;&atilde;o do clima? Porque polui&ccedil;&atilde;o local &eacute; algo que &eacute; combatido no local, ent&atilde;o se tem um prefeito bom em Cubat&atilde;o, por exemplo, que era uma cidade polu&iacute;da, ele resolve os problemas de Cubat&atilde;o. Para o prefeito em Bauru ou em Vit&oacute;ria no ES, &eacute; uma outra batalha. Com mudan&ccedil;as globais n&atilde;o h&aacute; isso, porque quando voc&ecirc; emite gases respons&aacute;veis pelo aquecimento global, eles n&atilde;o obedecem a fronteiras. Por isso &eacute; necess&aacute;rio um acordo global. Na &eacute;poca eu era secret&aacute;rio de Meio Ambiente em uma secretaria especial da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, com acesso direto ao presidente. Ent&atilde;o foi poss&iacute;vel mobilizar o governo para que a confer&ecirc;ncia fosse um sucesso e ela estabeleceu as bases. Depois da implementa&ccedil;&atilde;o fica mais dif&iacute;cil, porque custa dinheiro, precisa de tecnologia, de uma por&ccedil;&atilde;o de coisas, e muitos pa&iacute;ses, como a China, n&atilde;o estavam muito entusiasmados, porque eles se colocavam na posi&ccedil;&atilde;o incorreta de que era necess&aacute;rio se desenvolver primeiro, para depois cuidar do meio ambiente. N&atilde;o d&aacute; para fazer isso, voc&ecirc; precisa cuidar do meio ambiente enquanto voc&ecirc; se desenvolve, porque sen&atilde;o os custos ficam elevad&iacute;ssimos, ou ent&atilde;o t&ecirc;m danos irrevers&iacute;veis. Da&iacute; a necessidade de adotar as tecnologias mais adequadas, as energias renov&aacute;veis, porque se voc&ecirc; se desenvolver usando energias renov&aacute;veis no lugar de usar combust&iacute;veis f&oacute;sseis, voc&ecirc; est&aacute; evitando o problema, e o meu trabalho na &aacute;rea do etanol me preparou para isso. O Brasil entrou na confer&ecirc;ncia de 1992 numa posi&ccedil;&atilde;o boa de negocia&ccedil;&atilde;o porque era um pa&iacute;s que estava seguindo uma trajet&oacute;ria adequada. De 1992 para c&aacute;, muitas coisas progrediram, mas muitas outras nem tanto. E agora, realmente, houve um impacto grande, com a posi&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Como a posi&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos afeta a quest&atilde;o global?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>JG:</b> A posi&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos &eacute; de que os oper&aacute;rios americanos que trabalhavam na &aacute;rea de carv&atilde;o, de petr&oacute;leo, de g&aacute;s e de combust&iacute;veis f&oacute;sseis estariam perdendo os empregos, e que seria preciso apoiar essas empresas. Primeiro que &eacute; um contrassenso econ&ocirc;mico, porque a import&acirc;ncia do carv&atilde;o est&aacute; diminuindo, pois existem tecnologias melhores. Isso est&aacute; criando problemas mas, de todo modo, um n&uacute;mero muito grande de ind&uacute;strias nos Estados Unidos j&aacute; entendeu que a ado&ccedil;&atilde;o de energias renov&aacute;veis &eacute; o caminho a seguir. Estados inteiros, como a Calif&oacute;rnia, t&ecirc;m pol&iacute;ticas excelentes. Ent&atilde;o, eu acho que essas dificuldades que estamos enfrentando agora s&atilde;o passageiras, elas v&atilde;o ser superadas e isso vai permitir cumprir o que se pretendeu fazer em 1992: evitar que a temperatura global aumente mais que 1,5ºC. N&oacute;s estamos engajados nisso, h&aacute; muito trabalho cient&iacute;fico sendo feito na &aacute;rea, e h&aacute; at&eacute; um esfor&ccedil;o de trazer a COP, a Confer&ecirc;ncia das Partes, do pr&oacute;ximo ano, para o Brasil. O que seria &oacute;timo, teria um impacto positivo nos pol&iacute;ticos que n&atilde;o est&atilde;o interessados em mudan&ccedil;as globais, porque a aten&ccedil;&atilde;o deles est&aacute; sendo toda dirigida para a criminalidade no Rio, para o tr&aacute;fico de drogas, e por a&iacute; afora. Esses s&atilde;o problemas importantes, mas voc&ecirc; n&atilde;o pode s&oacute; cuidar do presente e esquecer o que vem por a&iacute;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> De que forma a comunidade cient&iacute;fica pode ajudar na cria&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>JG:</b> Olha, a minha experi&ecirc;ncia na administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e como cientista me mostrou que, quando voc&ecirc; faz uma proposta, voc&ecirc; faz aquela proposta, n&atilde;o faz 17 propostas ao mesmo tempo! At&eacute; mesmo porque em uma proposta h&aacute; que se pensar em como ela vai ser implementada. Por exemplo, uma pol&iacute;tica p&uacute;blica que foi festejada por todo mundo: reflorestar 12 milh&otilde;es de hectares aqui no Brasil. Todo mundo concorda com isso. Mas tem que combinar isso com todos os envolvidos. Eu acho que a comunidade cient&iacute;fica brasileira, que est&aacute; cheia de talentos, ainda n&atilde;o conseguiu convergir, ela faz propostas que s&atilde;o um pouco dispersas e difusas. Nos &uacute;ltimos anos, a comunidade cient&iacute;fica acabou se envolvendo em &aacute;reas nas quais ela n&atilde;o pode contribuir muito. A Fapesp tem um programa pequeno, que n&atilde;o tem nem demanda, de pesquisa em pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. N&oacute;s estamos ampliando esse programa para atrair mais talentos, de modo que o nosso pessoal que &eacute; qualificado possa fazer efetivamente propostas de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Quais ser&atilde;o os grandes desafios enfrentados pela nossa sociedade nos pr&oacute;ximos anos?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>JG:</b> Olha, n&atilde;o d&aacute; nem vontade de responder devido ao quadro eleitoral, que &eacute; uma confus&atilde;o total. Mas a expectativa &eacute; a seguinte: eu acho que a racionalidade vai acabar ajudando o Brasil. Por defini&ccedil;&atilde;o, o cientista &eacute; uma pessoa que tem que ser racional. Ent&atilde;o, veja esses problemas da Petrobras, em que durante seis ou sete anos o governo n&atilde;o fez uma licita&ccedil;&atilde;o de explora&ccedil;&atilde;o do pr&eacute;-sal. No fundo, isso d&aacute; a entender que &eacute; melhor deixar o petr&oacute;leo l&aacute; embaixo do que retirar. &Eacute; irracional! Eu acredito que as dificuldades que o Brasil est&aacute; enfrentando v&atilde;o acabar dando mais import&acirc;ncia para solu&ccedil;&otilde;es racionais, ao inv&eacute;s de solu&ccedil;&otilde;es corporativistas, que beneficiam um grupo aqui, um grupo l&aacute;. Como esses caminhoneiros agora. Pode at&eacute; ser leg&iacute;timo, mas eles conseguiram conquistas que o resto da sociedade vai pagar. Ent&atilde;o eu acho que o que &eacute; importante, e nisso os cientistas podem contribuir, &eacute; realmente tentar colocar a racionalidade no debate.</font></p>     ]]></body>

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