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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br> HIST&Oacute;RIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Al&eacute;m do samba: a m&uacute;sica negra nas Am&eacute;ricas no per&iacute;odo p&oacute;s-aboli&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Leonardo Fernandes</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Entram em fila, figura ap&oacute;s figura, os sexos intercalados, as m&atilde;os dadas por sobre os ombros e, a cada passo de avan&ccedil;o, as cabe&ccedil;as se inclinam - do par &agrave; frente sobre a face do de tr&aacute;s - do par atr&aacute;s sobre a face do da frente. A cada confronto r&iacute;tmico dos rostos, os olhos se fitam, em flertes fugazes, com express&otilde;es moment&acirc;neas de convite, enquanto os l&aacute;bios sorriem...". Era com um misto de empolga&ccedil;&atilde;o e choque que a coreografia da dan&ccedil;a <i>cakewalk</i> era descrita em um artigo publicado em 1904 na glamorosa revista <i>Kosmos</i>, anunciando a moda que chegava dos Estados Unidos e j&aacute; come&ccedil;ava a embalar os sal&otilde;es cariocas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A irrever&ecirc;ncia dos novos passos logo conquistou as elites brasileiras, acostumadas com a rigidez e a formalidade de dan&ccedil;as tradicionais, como as valsas e as polcas europeias. Ironicamente, os movimentos exagerados do <i>cakewalk</i> haviam surgido como uma zombaria, feita pelos escravos, do jeito pomposo com que os senhores se posicionavam durante as quadrilhas. Criado nas senzalas americanas no s&eacute;culo XIX, era praticada geralmente nos dias de descanso, durante as festas promovidas na casa grande em que eram permitidas exibi&ccedil;&otilde;es dos cativos. No come&ccedil;o era uma esp&eacute;cie de competi&ccedil;&atilde;o cruel: os dan&ccedil;arinos tinham que caminhar em linha reta, equilibrando na cabe&ccedil;a um balde d'&aacute;gua enquanto movimentavam o restante do corpo. O <i>cake</i> (bolo, em ingl&ecirc;s), artigo raro em meio &agrave;s priva&ccedil;&otilde;es do trabalho for&ccedil;ado nas planta&ccedil;&otilde;es, ficava como trof&eacute;u para o dan&ccedil;arino mais perform&aacute;tico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A partir do modernismo, as culturas dos povos africanos e afro-americanos passaram a ser apropriadas pelas vanguardas art&iacute;sticas. Logo uma vasta plateia que vivia nas grandes metr&oacute;poles adotaria o "estilo africano" na &acirc;nsia de ser moderna. Em 1890, o <i>cakewalk</i> j&aacute; podia ser assistido nos palcos de Nova York como principal atra&ccedil;&atilde;o de um dos conhecidos teatros musicados, <i>The creole show</i>. No jornal parisiense <i>Le Rire</i>, uma edi&ccedil;&atilde;o especial de 1903 foi dedicada &agrave; dan&ccedil;a, descrita como uma das primeiras formas de entretenimento negro a fazer sucesso na Europa. Aqui no Brasil, foi at&eacute; incorporado nos bailes de carnaval: em 1903 o <i>Jornal do Brasil</i> publicou 17 an&uacute;ncios fazendo refer&ecirc;ncia a festas dedicadas ao ritmo na capital carioca. A febre na &eacute;poca foi tamanha que o m&uacute;sico Pixinguinha comp&ocirc;s uma partitura intitulada <i>Cakewalk</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"O sucesso do <i>cakewalk</i> entre o p&uacute;blico branco, jovem e urbano representava uma fascina&ccedil;&atilde;o racista pelo ex&oacute;tico, al&eacute;m de uma subvers&atilde;o dos velhos valores burgueses. Um processo muito parecido com o sucesso do <i>funk</i> carioca entre a classe m&eacute;dia, por exemplo. A nova dan&ccedil;a tamb&eacute;m representava uma mudan&ccedil;a de comportamento: as mulheres passaram a ter mais autonomia na cidade, uma vida com menos restri&ccedil;&otilde;es sociais do que no campo. O mercado logo percebeu o interesse e passou a investir em g&ecirc;neros que tamb&eacute;m fossem dan&ccedil;&aacute;veis", explica Martha Abreu, autora do livro <i>Da senzala ao palco: can&ccedil;&otilde;es escravas e racismo nas Am&eacute;ricas, 1870-1930</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Publicado pela Editora da Unicamp, o <i>e-book</i> faz parte da cole&ccedil;&atilde;o <i>Hist&oacute;ri@ Ilustrada</i> e analisa a ascens&atilde;o, a duras penas, das m&uacute;sicas produzidas por escravos e seus descendentes nas Am&eacute;ricas no per&iacute;odo ap&oacute;s a Aboli&ccedil;&atilde;o at&eacute; o in&iacute;cio da ind&uacute;stria fonogr&aacute;fica, por meio de uma compara&ccedil;&atilde;o das transforma&ccedil;&otilde;es sociais e culturais ocorridas nos Estados Unidos e no Brasil.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>IDEIAS MODERNISTAS, PRECONCEITOS ANTIGOS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A historiadora, professora do Departamento de Hist&oacute;ria da Universidade Federal Fluminense (UFF), ressalta que o interesse pelas can&ccedil;&otilde;es escravas no Ocidente - definidas em sua pesquisa como m&uacute;sicas, dan&ccedil;as e g&ecirc;neros musicais identificados com mem&oacute;rias do cativeiro - era marcado por antigos preconceitos, mesmo que representasse ideais modernos. Vista como atraente, primitiva, sensual e emocional, a cultura negra tornou-se o caminho pelo qual a sociedade branca representava sua pr&oacute;pria superioridade e se sentia autorizada a ridicularizar essas est&eacute;ticas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O mesmo acontecia com os espet&aacute;culos <i>blackface</i> encenados nos Estados Unidos. Ainda que as can&ccedil;&otilde;es escravas fossem populares, a presen&ccedil;a de negros nos palcos de prest&iacute;gio era rara na segunda metade do s&eacute;culo XIX. Menestr&eacute;is brancos costumavam interpretar os pap&eacute;is de negros, pintando o rosto com graxa preta e com l&aacute;bios e olhos exagerados, em caricaturas grotescas. No Brasil, h&aacute; registro de palha&ccedil;os pintados de preto que alcan&ccedil;aram reconhecimento no mundo do circo, fazendo gra&ccedil;a para as plateias brancas. Em uma cr&iacute;tica publicada em 1875 sobre a pe&ccedil;a <i>Dem&ocirc;nio familiar</i>, do escritor Jos&eacute; de Alencar, o jornalista Joaquim Nabuco reprovava o uso de linguajar chulo dos clowns pintados de preto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar da dura realidade, o meio musical ainda apresentava uma das poucas possibilidades de mobilidade para os negros no per&iacute;odo p&oacute;s-aboli&ccedil;&atilde;o. As can&ccedil;&otilde;es escravas impulsionaram todo um mercado, dando visibilidade aos descendentes de africanos. Antes da inven&ccedil;&atilde;o do fon&oacute;grafo por Thomas Edison, em 1877, a ind&uacute;stria musical j&aacute; prosperava com a venda de partituras para pianos. Gra&ccedil;as ao <i>boom</i> da economia cafeeira no final do s&eacute;culo XIX, a sociedade abastada do Rio de Janeiro mostrava seu enriquecimento comprando pianos e um de seus maiores passatempos eram os bailes e os saraus feitos em casa. Em meio &agrave;s valsas e &agrave;s &aacute;rias italianas e francesas, come&ccedil;aram a ganhar cada vez mais espa&ccedil;o na sala de estar das fam&iacute;lias os ritmos afro-brasileiros mais dan&ccedil;antes como lundus, tangos, batuques, jongos, maxixes e sambas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><a href="/img/revistas/cic/v70n4/a17fig01.jpg"><img src="/img/revistas/cic/v70n4/a17fig01thumb.jpg">    <br> <font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>"O PRETO J&Aacute; &Eacute; LIVRE"</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Eduardo das Neves (1874-1919) foi um dos cantores de maior sucesso no Brasil nesse per&iacute;odo, mesmo antes da chegada do r&aacute;dio ou do disco. Conhecido como o "rei do lundu", comp&ocirc;s 300 partituras ao longo da carreira, tornando-se o primeiro cantor negro a gravar um disco no in&iacute;cio dos anos 1900. "O sucesso de m&uacute;sicos como Eduardo das Neves n&atilde;o pode ser pensado apenas a partir do interesse de intelectuais modernistas ou de interesses mercadol&oacute;gicos. Al&eacute;m do talento, sua proje&ccedil;&atilde;o &eacute; fruto da luta de gera&ccedil;&otilde;es para ter acesso &agrave; cidadania", define Abreu.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">E o "crioulo Dudu", como se autointitulava, fazia quest&atilde;o de mostrar o quanto era bem sucedido. Propriet&aacute;rio do Circo Brasil, era conhecido pela eleg&acirc;ncia: fez do fraque azul e da cartola sua marca registrada. As suas m&uacute;sicas tamb&eacute;m refletem o orgulho de suas ra&iacute;zes africanas de uma forma ufanista, como &eacute; o caso de seu maior <i>hit</i> o lundu <i>Canoa virada</i>, lan&ccedil;ado em 1907 em homenagem &agrave; aboli&ccedil;&atilde;o da escravatura. Nos versos, Dudu, com seu vozeir&atilde;o, clama: "o preto j&aacute; &eacute; livre, j&aacute; n&atilde;o tem senhor". Tamb&eacute;m influenciou toda uma gera&ccedil;&atilde;o de m&uacute;sicos que iriam se tornar futuros astros do samba nos anos 1920. Jo&atilde;o da Baiana trabalhou no circo de Dudu como palha&ccedil;o. Sinh&ocirc;, que depois recebeu o t&iacute;tulo de "rei do samba", acompanhou Eduardo das Neves portando a bandeira brasileira numa famosa homenagem a Santos Dumont, em 1903. Mas isso n&atilde;o impediu que, ap&oacute;s a sua morte, Eduardo das Neves tenha se tornado um ilustre desconhecido. "A emerg&ecirc;ncia do samba como g&ecirc;nero nacional vai varrer todo um passado musical para debaixo do tapete. Dudu foi um desses m&uacute;sicos a quem n&atilde;o foi atribu&iacute;do um papel mais significativo. Foi menosprezado ap&oacute;s sua morte, relegado pela hist&oacute;ria apenas por ter sido int&eacute;rprete de lundus e can&ccedil;&otilde;es ufanistas", afirma Abreu.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar de o cantor n&atilde;o receber o merecido reconhecimento, o impacto do trabalho de artistas pioneiros como ele ecoa alto at&eacute; hoje. "O sucesso de m&uacute;sicos como Eduardo das Neves n&atilde;o pode ser pensado apenas a partir do interesse de intelectuais modernistas ou de interesses mercadol&oacute;gicos. Al&eacute;m do talento, sua proje&ccedil;&atilde;o &eacute; fruto da luta de gera&ccedil;&otilde;es para ter acesso &agrave; cidadania. E se o racismo ainda teima em permanecer, &eacute; justamente no campo musical que parece residir uma das melhores formas de resist&ecirc;ncia e subvers&atilde;o. O impacto das imagens e dos movimentos do videoclipe dos cantores norte-americanos Beyonc&eacute; e Jay-Z, gravado no Louvre e lan&ccedil;ado em junho deste ano, n&atilde;o poderia ser melhor exemplo da luta dos m&uacute;sicos negros por outra representa&ccedil;&atilde;o no campo art&iacute;stico", conclui a historiadora.</font></p>      ]]></body>
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