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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TEND&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A reconstru&ccedil;&atilde;o do Museu Nacional: bom para o Rio, bom para o Brasil!</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Alexander W. A. Kellner</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Diretor do Museu Nacional/UFRJ. Contatos: <a href="mailto:kellner@mn.ufrj.br">kellner@mn.ufrj.br</a>; <a href="mailto:kellner@mn.ufrj.br">kellner@KellnerMn</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> No momento no qual escrevo estas linhas, estou na Alemanha e Fran&ccedil;a em busca de ajuda para a reconstru&ccedil;&atilde;o do Museu Nacional, institui&ccedil;&atilde;o alocada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desde 1946. A cada dia fica mais n&iacute;tida a impress&atilde;o de que governos do exterior d&atilde;o mais import&acirc;ncia ao museu do que o nosso. Aqui fui recebido por diversas autoridades, inclusive a ministra de Rela&ccedil;&otilde;es Exteriores da Alemanha, que anunciou a libera&ccedil;&atilde;o de mais uma cota de um valor total de um milh&atilde;o de euros prometidos ao museu. Na Fran&ccedil;a, fui recebido por representantes de diferentes minist&eacute;rios que atuam na &aacute;rea da pesquisa e cultura, todos interessados em saber a quantas anda a reconstru&ccedil;&atilde;o do museu e como eles poderiam ajudar. Enquanto isso, em terras brasileiras, tenho enorme dificuldade em ser ouvido pelo nosso governo. J&aacute; perdi a conta de quantas audi&ecirc;ncias solicitei para mostrar a situa&ccedil;&atilde;o e as necessidades da nossa institui&ccedil;&atilde;o, sem contar os convites enviados para que ministros visitassem o museu e se inteirassem<i> in loco </i>da nossa realidade. Recentemente, houve uma sinaliza&ccedil;&atilde;o positiva de uma audi&ecirc;ncia no Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o (MEC) que, espero, se concretize. Como procuro sempre enfatizar, nem tudo se resume a verbas! Sem o apoio do MEC teremos uma enorme dificuldade em reconstruir o Museu Nacional.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Estando na Fran&ccedil;a, n&atilde;o h&aacute; como n&atilde;o tra&ccedil;ar um paralelo entre a recente trag&eacute;dia que atingiu a catedral de Notre Dame (15/4/2019) e o inc&ecirc;ndio do Museu Nacional (2/9/2018). Praticamente, em menos de 48 horas, a promessa de doa&ccedil;&otilde;es para a catedral da "cidade luz" ultrapassou o valor necess&aacute;rio para a sua reconstru&ccedil;&atilde;o: segundo a Reuters, quase um bilh&atilde;o de euros. Sim, um bilh&atilde;o, e da moeda europeia. Enquanto isso, no caso brasileiro, as doa&ccedil;&otilde;es nacionais somavam at&eacute; 2 de junho, nove meses depois da trag&eacute;dia, R$ 316 mil. Adicionando os R$ 756.106,60 do governo alem&atilde;o, passamos para pouco mais de um milh&atilde;o de reais. Apesar de n&atilde;o se saber exatamente quanto custar&aacute; a recomposi&ccedil;&atilde;o da sede do museu, uma estimativa inicial &eacute; que menos de 15% do valor arrecadado para a catedral francesa seria suficiente. Entretanto, nesse valor n&atilde;o est&aacute; computado o acervo perdido, cuja recomposi&ccedil;&atilde;o ser&aacute; uma luta &agrave; parte - mais longa e mais problem&aacute;tica. Isso porque a destrui&ccedil;&atilde;o de parte das cole&ccedil;&otilde;es do Museu Nacional, infelizmente, extrapola em muito as perdas de Notre Dame. No caso da catedral francesa, al&eacute;m da secular constru&ccedil;&atilde;o em si, n&atilde;o se perdeu praticamente nada do acervo franc&ecirc;s, o que somente foi poss&iacute;vel gra&ccedil;as &agrave; a&ccedil;&atilde;o diligente dos bombeiros e das condi&ccedil;&otilde;es existentes para a conten&ccedil;&atilde;o do fogo. Enquanto isso, no caso brasileiro, n&atilde;o havia &aacute;gua em press&atilde;o suficiente nos hidrantes nas cercanias do museu que pudesse ser utilizada. Por mais absurdo que possa parecer, esse fato n&atilde;o &eacute; o pior! O que realmente chama a aten&ccedil;&atilde;o &eacute; que, mesmo meses ap&oacute;s a trag&eacute;dia, eles continuam n&atilde;o funcionando!</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Evidentemente, temos a consci&ecirc;ncia de que faltou muito mais do que &aacute;gua nos hidrantes para evitar o sinistro, mas acho que aqui cabe aquela anedota da p&oacute;lvora e do canh&atilde;o. Entre os 99 motivos que o soldado queria apresentar ao general para justificar porque o canh&atilde;o n&atilde;o funcionou, ao ouvir o primeiro - a falta de p&oacute;lvora - o militar graduado n&atilde;o precisou escutar mais nada. Sem &aacute;gua n&atilde;o se combate um inc&ecirc;ndio...</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nessa viagem &agrave; Europa tamb&eacute;m ficou evidente algo que muitos no Brasil se perguntam: como foi poss&iacute;vel que uma na&ccedil;&atilde;o deixasse o seu bem cultural maior, com o qual a hist&oacute;ria do pa&iacute;s se confunde, abandonado &agrave; pr&oacute;pria sorte por d&eacute;cadas? O pal&aacute;cio de S&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o abrigou a fam&iacute;lia real portuguesa e a fam&iacute;lia imperial. O nosso segundo imperador, D. Pedro II, nasceu naquele im&oacute;vel, assim como a sua filha, a princesa Isabel, que assinou a Lei &Aacute;urea. Ali morou - e faleceu - Dona Leopoldina, uma mulher esclarecid&iacute;ssima, que tanto influenciou o processo que culminou na independ&ecirc;ncia do Brasil. A nossa primeira imperatriz sabia o valor da ci&ecirc;ncia e tinha uma boa no&ccedil;&atilde;o sobre a import&acirc;ncia do desenvolvimento cultural de um pa&iacute;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Depois tivemos a proclama&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica, em 1889. E onde foi realizada a primeira Assembleia Constituinte Republicana? Exatamente na antiga resid&ecirc;ncia da fam&iacute;lia imperial. Ou seja, at&eacute; mesmo a origem do sistema pol&iacute;tico atual do Brasil teve o seu ber&ccedil;o no pal&aacute;cio do parque da Quinta da Boa Vista, que em 1891 se tornou a sede do Museu Nacional. Se existe uma edifica&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s que deveria contar com a m&aacute;xima aten&ccedil;&atilde;o dos governantes, era esse pal&aacute;cio! Isso sem falar que ele abrigava um acervo extremamente raro e importante.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A perda de parte das cole&ccedil;&otilde;es &eacute;, talvez, o pior aspecto dessa trag&eacute;dia. Estimamos que entre 75% e 78% do acervo foi afetado pelo inc&ecirc;ndio. Havia m&uacute;mias, tanto eg&iacute;pcias como andinas, milh&otilde;es de esp&eacute;cimes representando a biodiversidade atual e do passado da Terra, minerais, documentos raros, como cadernos da imperatriz Leopoldina e o acervo da bi&oacute;loga e ativista feminista Bertha Lutz (1894-1976), e muito mais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um alento &eacute; o fato de que nem tudo foi perdido. As cole&ccedil;&otilde;es dos departamentos de vertebrados, bot&acirc;nica, cole&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas de invertebrados e de arqueologia, como tamb&eacute;m a biblioteca, n&atilde;o foram afetados por estarem em outras edifica&ccedil;&otilde;es. Esse era um projeto antigo do museu - retirar as cole&ccedil;&otilde;es e a parte administrativa do pal&aacute;cio, que seria reformado e as exposi&ccedil;&otilde;es ampliadas. Mas o pa&iacute;s priorizou est&aacute;dios de futebol e at&eacute; mesmo a constru&ccedil;&atilde;o de novos equipamentos museais ao inv&eacute;s de cuidar dos antigos e suas valiosas cole&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A maior ironia de toda essa situa&ccedil;&atilde;o &eacute; o fato de que, depois de d&eacute;cadas de descaso, a institui&ccedil;&atilde;o havia finalmente conseguido um financiamento por parte do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ&ocirc;mico e Social (BNDES) que previa, inclusive, sistemas de preven&ccedil;&atilde;o de inc&ecirc;ndios e anti-p&acirc;nico. Infelizmente, tarde demais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por&eacute;m, depois de toda cat&aacute;strofe, sempre h&aacute; o dia seguinte. Sem procurar mitigar os efeitos tr&aacute;gicos do inc&ecirc;ndio, abre-se agora uma nova janela de oportunidade: a de reconstruir o museu, de forma que este sirva de modelo para outras institui&ccedil;&otilde;es! N&atilde;o &eacute; uma meta f&aacute;cil, por&eacute;m ela &eacute; fact&iacute;vel e se encontra no horizonte. Os projetos de reconstru&ccedil;&atilde;o e das novas exposi&ccedil;&otilde;es j&aacute; foram iniciados. As primeiras verbas - com ou sem cortes - j&aacute; foram alocadas pela bancada federal do Rio de Janeiro. Neste momento, tamb&eacute;m temos a oportunidade de repensar a intera&ccedil;&atilde;o entre museu e sociedade, algo que muitas institui&ccedil;&otilde;es museais pelo mundo j&aacute; fizeram. Precisamos fazer do museu um centro onde, ao mesmo tempo, possamos inspirar as pessoas com a beleza da natureza e chamar aten&ccedil;&atilde;o para a sua fragilidade. Baseados na gera&ccedil;&atilde;o de conhecimento de qualidade, n&oacute;s podemos atuar com institui&ccedil;&otilde;es cong&ecirc;neres nas discuss&otilde;es que afetam a nossa sociedade e o futuro do planeta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tamb&eacute;m temos que alertar o governo sobre a import&acirc;ncia de reconstruir o Museu Nacional, um dos poucos exemplos de institui&ccedil;&atilde;o que transcende fronteiras e que pode ser considerada um patrim&ocirc;nio mundial, o que traz enormes benef&iacute;cios, mas tamb&eacute;m demanda responsabilidades. A reconstru&ccedil;&atilde;o desse que &eacute; o museu mais antigo do pa&iacute;s, prestes a completar 201 anos, tem que ser vista como uma das iniciativas que poder&atilde;o devolver vigor e autoestima para o Rio de Janeiro, tanto a cidade quanto o estado, t&atilde;o desacreditados nos dias de hoje. O mesmo vale para o nosso pa&iacute;s, cuja imagem est&aacute; bastante arranhada no exterior, inclusive pelo abandono dos seus bens culturais. Muitas institui&ccedil;&otilde;es internacionais est&atilde;o dispostas a auxiliar na reconstru&ccedil;&atilde;o do Museu Nacional, mas o nosso pa&iacute;s tem que fazer a sua parte. Sempre devemos relembrar aos nossos governantes que um museu que n&atilde;o dialoga com a sociedade est&aacute; condenado &agrave; extin&ccedil;&atilde;o; por&eacute;m uma sociedade que n&atilde;o valoriza e n&atilde;o investe em seus museus j&aacute; est&aacute;, pelo menos em parte, culturalmente extinta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Finalizo com o que talvez possa vir a ser um novo slogan: Reconstru&ccedil;&atilde;o do Museu Nacional – bom para o Rio, bom para o Brasil!</font></p>     ]]></body>
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