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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br>   ENTREVISTA: PAUL HENRY</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Contra a evid&ecirc;ncia    das oposi&ccedil;&otilde;es</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Mariana Garcia de Castro Alves</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em tempos de crise, a utilidade do conhecimento em geral &eacute; posta em quest&atilde;o. Assim, a rela&ccedil;&atilde;o entre a filosofia e a ci&ecirc;ncia torna-se uma discuss&atilde;o necess&aacute;ria. Para falar sobre o tema, a revista <i>Ci&ecirc;ncia&amp;Cultura</i> traz uma entrevista com Paul Henry,    81, pesquisador do Centre National de La Recherce Scientifique (CNRS) e ex-presidente do Col&eacute;gio Internacional de Filosofia. Bastante conhecido no campo de estudos de linguagem, Henry &eacute; um dos fundadores da an&aacute;lise do discurso francesa - juntamente com Michel P&ecirc;cheux e    Michel Plon - trazida pela linguista Eni Orlandi &agrave;s universidades brasileiras nos anos 1980. Licenciado em ci&ecirc;ncias da matem&aacute;tica em Paris, com certificado de estudos superiores em lingu&iacute;stica geral, etnologia e hist&oacute;ria das religi&otilde;es, Paul Henry encarna a modernidade caracterizada, por ele, pelo questionamento das oposi&ccedil;&otilde;es, inclusive &agrave; suposta entre ci&ecirc;ncias "duras" e "moles".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao transitar, de modo rigoroso, entre &aacute;reas diversas do conhecimento, com o livro <i>A ferramenta imperfeita</i>, de 1977, traduzido pela Editora da Unicamp, o autor parte de uma indaga&ccedil;&atilde;o da l&oacute;gica e chega a uma configura&ccedil;&atilde;o da linguagem ordin&aacute;ria como sendo o imposs&iacute;vel que lhe escapa. Sobre ele e essa obra, o psicanalista Jacques Lacan chegou a afirmar, em janeiro de 1978, que n&atilde;o podia dizer melhor o que Paul Henry dissera sobre a linguagem: "un mauvais outil"(ou seja, uma ferramenta imperfeita, remetendo ao t&iacute;tulo da obra). Em passagem mais recente pelo Brasil, em 2017, deu palestras em diversas cidades e ministrou semin&aacute;rios no curso de Mestrado em Divulga&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica e Cultural, no Laborat&oacute;rio de Estudos Avan&ccedil;ados em Jornalismo, Labjor/Unicamp (com financiamento da Fapesp).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a05fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ci&ecirc;ncia&amp;Cultura: Em um mundo em crise or&ccedil;ament&aacute;ria, a redu&ccedil;&atilde;o de recursos para as ci&ecirc;ncias humanas, as primeiras a serem alvo de cortes, inclusive no Jap&atilde;o, sup&otilde;e a exist&ecirc;ncia da separa&ccedil;&atilde;o entre a filosofia, as ci&ecirc;ncias sociais e as ci&ecirc;ncias "duras", como a matem&aacute;tica, f&iacute;sica, engenharia. Para o senhor, existe separa&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e filosofia?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>P. Henry:</b> &Eacute; necess&aacute;rio questionar a distin&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e filosofia. N&atilde;o &eacute; &oacute;bvio. &Eacute; s&oacute; pensar em Descartes, Leibniz ou Pascal, entre outros, para lembrar que essa distin&ccedil;&atilde;o nem sempre foi feita, que ela tem uma hist&oacute;ria. Essa distin&ccedil;&atilde;o foi estabelecida durante o s&eacute;culo XIX no &acirc;mbito da institui&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria como era ent&atilde;o estruturada. Essa separa&ccedil;&atilde;o tem um car&aacute;ter fundamentalmente acad&ecirc;mico. Todos os grandes avan&ccedil;os cient&iacute;ficos se deram junto com as reconfigura&ccedil;&otilde;es do lado da filosofia. Mas n&atilde;o podemos apenas dizer que esses grandes avan&ccedil;os cient&iacute;ficos for&ccedil;aram retrabalhos na filosofia ou, inversamente, que esta &uacute;ltima, por meio de sua transforma&ccedil;&atilde;o, preparou o caminho para as transforma&ccedil;&otilde;es da ci&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: Por qu&ecirc;?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>P. Henry:</b> Porque a segmenta&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica n&atilde;o poderia deixar de ser posta em quest&atilde;o. Essa evolu&ccedil;&atilde;o se fez dentro do contexto de um questionamento geral das grandes oposi&ccedil;&otilde;es metaf&iacute;sicas que estruturam tanto a metaf&iacute;sica envolvida no trabalho cient&iacute;fico quanto o discurso filos&oacute;fico em si. A consequ&ecirc;ncia foi que come&ccedil;amos a falar de interdisciplinaridade, de multidisciplinaridade, mas essa era apenas uma maneira superficial de designar as transforma&ccedil;&otilde;es fundamentais do campo do conhecimento que estavam em andamento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: Quais transforma&ccedil;&otilde;es?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>P. Henry:</b> As oposi&ccedil;&otilde;es como natureza e cultura, consciente e inconsciente, masculino e feminino etc., passam a ser questionadas. Essas oposi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o foram pura e simplesmente abandonadas, mas deixaram de parecer &oacute;bvias. Isso, para mim, &eacute; a caracter&iacute;stica do que n&oacute;s podemos chamar de modernidade. Devemos a Jacques Derrida por ter formulado da maneira mais acabada essa transforma&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: Quais s&atilde;o as consequ&ecirc;ncias do questionamento dessas oposi&ccedil;&otilde;es?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>P. Henry:</b> A dimens&atilde;o &eacute;tica e pol&iacute;tica dessa muta&ccedil;&atilde;o p&otilde;e em embara&ccedil;o os dogmatismos e os fanatismos sob todas as suas formas. E, claro, provocou a rea&ccedil;&atilde;o de todos os reacion&aacute;rios dos diversos conservadorismos e fanatismos. Essas rea&ccedil;&otilde;es atualmente assumem formas extremas em todos os lugares. Entre muitas outras coisas, as manifesta&ccedil;&otilde;es contr&aacute;rias massivas suscitadas pelo estabelecimento do casamento para todos na Fran&ccedil;a &eacute; o resultado de tal movimento, ao apresentar uma oposi&ccedil;&atilde;o intang&iacute;vel, de ess&ecirc;ncia, do masculino e do feminino.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: E a filosofia questiona a    ess&ecirc;ncia...</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>P. Henry:</b> A oposi&ccedil;&atilde;o caracteriza a maioria dos fanatismos e conservadorismos presentes, tanto do Daech &#91;Estado Isl&acirc;mico&#93; quanto do movimento contra o aborto, especialmente nos Estados Unidos. Portanto, n&atilde;o &eacute; surpreendente que, nessas condi&ccedil;&otilde;es, estamos atacando as ci&ecirc;ncias humanas e sociais que foram formadas no escopo da modernidade e que lhe s&atilde;o solid&aacute;rias. Tomemos o caso da f&iacute;sica c&oacute;smica com este universo que ela nos diz estar infinitamente em expans&atilde;o sem ter nenhum exterior. Isso n&atilde;o sup&otilde;e que estamos questionando uma oposi&ccedil;&atilde;o t&atilde;o fundamental quanto a do interior e do exterior, a do dentro e do fora? O que poderia estar dentro que n&atilde;o estaria do lado de fora? O que torna poss&iacute;vel conceber isso, de pens&aacute;-lo?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a05fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: Sua forma&ccedil;&atilde;o primeira &eacute; em matem&aacute;tica, mas o senhor foi levado a outros campos como a lingu&iacute;stica e a filosofia. Nos anos 1960, enquanto Althusser propunha que todos fossem fil&oacute;sofos e depois entrassem em &aacute;reas espec&iacute;ficas, Desanti, por outro lado, propunha ir direto para as ci&ecirc;ncias positivas. Como se deu esse tr&acirc;nsito no seu caso?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>P. Henry:</b> Eu fui formado nesse contexto que acabei de mencionar. Eu achei natural, para n&atilde;o dizer necess&aacute;rio, depois de ter recebido uma forma&ccedil;&atilde;o em matem&aacute;tica (que inclu&iacute;a uma parte importante da f&iacute;sica) complementar esses estudos com lingu&iacute;stica, etnologia, hist&oacute;ria das religi&otilde;es, hist&oacute;ria e filosofia das ci&ecirc;ncias, psicologia.... Conheci os modelos formais das estruturas elementares do parentesco, bem como o status igualmente formal das gram&aacute;ticas gerativas. Tive a sorte de poder estar com os dois p&eacute;s neste campo do saber da modernidade. Sobre a diferen&ccedil;a entre Althusser e Desanti, acho que deve ser levado em conta que Desanti estava interessado em matem&aacute;tica inclusive a partir de um ponto de vista filos&oacute;fico (ele &eacute; o autor de um trabalho fundamental sobre "As idealidades matem&aacute;ticas duras"). Althusser n&atilde;o teve, parece-me, qualquer pr&aacute;tica em matem&aacute;tica. Tudo o que posso dizer hoje &eacute; que a rela&ccedil;&atilde;o entre matem&aacute;tica e filosofia parece-me bastante singular.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a05fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: Como a matem&aacute;tica se reflete no seu trabalho hoje? Se n&atilde;o h&aacute; descontinuidade entre filosofia e ci&ecirc;ncia, como se d&aacute; a rela&ccedil;&atilde;o entre disciplinas?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>P. Henry:</b> Mais recentemente, tenho estado particularmente interessado na distin&ccedil;&atilde;o entre sentido e significa&ccedil;&atilde;o. Essa distin&ccedil;&atilde;o interessa notadamente &agrave; filosofia, &agrave; lingu&iacute;stica e mais amplamente &agrave;s ci&ecirc;ncias da linguagem ou &agrave; psican&aacute;lise. O que eu quero dizer a voc&ecirc; hoje &eacute; que, de repente, tive a intui&ccedil;&atilde;o de que, apelando para o conceito matem&aacute;tico da sequ&ecirc;ncia num&eacute;rica, eu poderia iluminar essa distin&ccedil;&atilde;o que se mostrou promissora e convincente para aqueles aos quais pude apresentar meu trabalho. N&atilde;o vejo qualquer descontinuidade entre as ci&ecirc;ncias chamadas "duras", representadas neste caso pela matem&aacute;tica e pela filosofia ou ci&ecirc;ncias humanas. Isso n&atilde;o significa que n&atilde;o haja diferen&ccedil;as. Eu n&atilde;o "apliquei" o conceito de sequ&ecirc;ncia num&eacute;rica ao problema da distin&ccedil;&atilde;o entre sentido e significa&ccedil;&atilde;o. O que falta reconhecer, segundo penso, &eacute; que n&atilde;o se pode sair de uma disciplina, qualquer que seja ela, para ser capaz de conceber uma s&eacute;rie de quest&otilde;es que nela se enquadram.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: &Eacute; l&iacute;cito pedir utilidade "cient&iacute;fica" para a filosofia?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>P. Henry:</b> N&atilde;o penso que tudo o que se chama filosofia tenha alguma utilidade para as ci&ecirc;ncias, embora eu n&atilde;o goste de falar em termos de utilidade. N&atilde;o &eacute; um argumento de utilidade que hoje &eacute; apresentado para questionar o interesse das ci&ecirc;ncias humanas e da filosofia? Do meu ponto de vista, as ci&ecirc;ncias, quaisquer sejam elas, implicam a filosofia particularmente em suas dimens&otilde;es te&oacute;ricas. Mas h&aacute; filosofia e filosofia. Lembremo-nos de que a ci&ecirc;ncia se tornou moderna essencialmente s&oacute; com Galileu, ao se apoiar sobre as matem&aacute;ticas. Mas isso supunha que f&ocirc;ssemos, ao menos em parte, libertos da filosofia e da metaf&iacute;sica escol&aacute;stica inspirada em Arist&oacute;teles. A filosofia que pode ser &laquo;&uacute;til&raquo; para a ci&ecirc;ncia hoje &eacute; aquela que vem da modernidade, uma filosofia que questiona as oposi&ccedil;&otilde;es fundamentais.</font></p>      ]]></body>
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