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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   100 ANOS DO ECLIPS EDESOBRAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O eclipse solar de 1919, Einstein e a m&iacute;dia brasileira</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ildeu de Castro Moreira</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Docente no Instituto de F&iacute;sica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O ECLIPSE DE 1919 E SEU IMPACTO NA CI&Ecirc;NCIA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Neste ano se comemora em todo o mundo o centen&aacute;rio das observa&ccedil;&otilde;es astron&ocirc;micas realizadas durante o eclipse solar de 29 de maio de 1919. As medidas da deflex&atilde;o da luz das estrelas na borda do Sol constitu&iacute;ram uma evid&ecirc;ncia muito forte para a confirma&ccedil;&atilde;o e a aceita&ccedil;&atilde;o da teoria da relatividade geral de Einstein. Essa teoria alterou profundamente a nossa vis&atilde;o sobre o universo. Ela suplantou a teoria gravitacional que Newton havia formulado cerca de dois s&eacute;culos antes e foi um acontecimento de extraordin&aacute;ria import&acirc;ncia na ci&ecirc;ncia. As observa&ccedil;&otilde;es decisivas foram feitas por astr&ocirc;nomos brit&acirc;nicos em Sobral (Cear&aacute;) e na Ilha do Pr&iacute;ncipe (&Aacute;frica Ocidental), ent&atilde;o pertencente a Portugal.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1915, Einstein havia elaborado uma teoria que permitia incluir a gravita&ccedil;&atilde;o no &acirc;mbito das ideias da relatividade &#91;1&#93;. Ele chegou &agrave; sua teoria da relatividade geral baseado na ideia de que a gravita&ccedil;&atilde;o resulta da altera&ccedil;&atilde;o da geometria do espa&ccedil;o-tempo pela presen&ccedil;a da mat&eacute;ria. A partir da&iacute; previu que a luz das estrelas, ao seguir a trajet&oacute;ria mais curta no espa&ccedil;o-tempo curvo, sofreria uma deflex&atilde;o nas vizinhan&ccedil;as do Sol por um valor que seria o dobro do previsto pela teoria newtoniana: o &acirc;ngulo de deflex&atilde;o deveria ser aproximadamente 1,74'' (segundos de arco).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A partir de 1917, astr&ocirc;nomos brit&acirc;nicos iniciaram os preparativos para observar o eclipse solar que aconteceria em 29 de maio de 1919 e testar a previs&atilde;o de Einstein. Para isso, organizaram duas expedi&ccedil;&otilde;es para regi&otilde;es nas quais o eclipse seria total: uma, com Arthur Eddington e Edwin Cottingham, para a Ilha do Pr&iacute;ncipe, e outra, com Charles Davidson e Andrew Crommelin, para Sobral. A escolha de Sobral como ponto de observa&ccedil;&atilde;o no Brasil foi feita por Henrique Morize, diretor do Observat&oacute;rio Nacional do Rio de Janeiro. Ele tamb&eacute;m ficou encarregado de providenciar a infraestrutura para as expedi&ccedil;&otilde;es estrangeiras que viriam para o Brasil.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em Sobral, no dia do eclipse, apesar do tempo inicialmente nublado, as condi&ccedil;&otilde;es ficaram boas na hora do evento, que ocorreu &agrave;s 8:56 h e durou cerca de cinco minutos. As 17 fotografias tiradas com o uso do telesc&oacute;pio com maior di&acirc;metro tiveram um problema de foco e n&atilde;o ficaram boas. Sete chapas, provenientes de um telesc&oacute;pio com lente de quatro polegadas, foram consideradas muito boas; sete estrelas apareciam nelas. J&aacute; na Ilha do Pr&iacute;ncipe o tempo esteve chuvoso e poucas fotografias foram tiradas; delas, s&oacute; duas puderam ser aproveitadas, e levaram a resultados mais incertos que os de Sobral.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A comiss&atilde;o brasileira em Sobral, liderada por Henrique Morize, fez observa&ccedil;&otilde;es sobre a coroa solar durante o eclipse. Medidas do magnetismo terrestre e de eletricidade atmosf&eacute;rica foram feitas pelos norte-americanos Daniel Wise e Andrew Thomson. Os astr&ocirc;nomos estrangeiros ficaram muito agradecidos pela recep&ccedil;&atilde;o e apoio que receberam da comiss&atilde;o brasileira, das autoridades e da popula&ccedil;&atilde;o de Sobral.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 6 de novembro de 1919, os astr&ocirc;nomos Frank Dyson, Eddington e Davidson expuseram publicamente os resultados das observa&ccedil;&otilde;es de Sobral e da Ilha do Pr&iacute;ncipe. As medidas feitas em Sobral deram o valor aproximado de 1,98'' para o &acirc;ngulo de deflex&atilde;o da luz. Um valor um pouco menor, de 1,61'', e com maior incerteza, havia sido medido nas chapas da Ilha do Pr&iacute;ncipe &#91;2&#93;. O resultado final levou a um &acirc;ngulo pr&oacute;ximo, dentro da margem de erro, daquele previsto pela teoria da relatividade geral: "ambos &#91;os resultados&#93; apontam para a deflex&atilde;o total da teoria da relatividade geral de Einstein, os resultados de Sobral definitivamente, e os resultados do Pr&iacute;ncipe talvez, com alguma incerteza" &#91;2&#93;. Einstein tinha raz&atilde;o!</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esses resultados tiveram um enorme impacto na ci&ecirc;ncia, na cultura e na hist&oacute;ria da humanidade. No livro <i>Modern times: uma hist&oacute;ria do mundo da d&eacute;cada de 1920 a 1980</i>, Paul Johnson inicia o primeiro cap&iacute;tulo com a frase: "O mundo moderno come&ccedil;ou em 29 de maio de 1919, quando fotografias de um eclipse solar na Ilha do Pr&iacute;ncipe, na &Aacute;frica Ocidental, e em Sobral, no Brasil, confirmaram a veracidade de uma nova teoria do universo" &#91;3&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Einstein tamb&eacute;m atestou o significado do eclipse de 1919 para a teoria da relatividade geral. Quando esteve no Brasil, em 1925, fez declara&ccedil;&otilde;es aos jornais do Rio de Janeiro sobre a import&acirc;ncia desse eclipse para a comprova&ccedil;&atilde;o de sua teoria. Escreveu, ent&atilde;o, a seguinte frase: "O problema concebido pelo meu c&eacute;rebro incumbiu-se de resolv&ecirc;-lo o luminoso c&eacute;u do Brasil" &#91;4&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O objetivo deste trabalho &eacute; apresentar um apanhado da cobertura da m&iacute;dia brasileira e de Sobral sobre o eclipse de 1919 e as repercuss&otilde;es de seus resultados, que confirmaram as previs&otilde;es de Einstein. Utilizamos como fonte principal desta investiga&ccedil;&atilde;o a vasta e excelente (embora n&atilde;o completa) base de peri&oacute;dicos brasileiros digitalizados na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional (HDBN).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A COBERTURA MIDI&Aacute;TICA DOS ECLIPSES SOLARES NO BRASIL</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Iniciamos por uma quantifica&ccedil;&atilde;o geral das mat&eacute;rias da HDBN que se referem a eclipses solares desde o in&iacute;cio do s&eacute;culo XIX at&eacute; quase o final do s&eacute;culo XX. O resultado da busca das not&iacute;cias que trazem o termo "eclipse solar" est&aacute; sintetizada na <a href="#fig1">figura 1</a>. Como se pode ver, o interesse pelos eclipses solares cresceu muito na passagem do s&eacute;culo XIX para o XX. Como esperado, ocorreu um n&uacute;mero maior de mat&eacute;rias nos anos em que eclipses solares totais foram observados em territ&oacute;rio nacional, em especial nas regi&otilde;es mais populosas e com maior n&uacute;mero de peri&oacute;dicos, como Sudeste e Sul. Os eclipses solares de 1853 e 1858; o de 1865, observado em Paranagu&aacute;; e o de 1893, observado no Cear&aacute; por uma comiss&atilde;o brasileira e outra brit&acirc;nica, despertaram interesse na m&iacute;dia, mas n&atilde;o particularmente intenso.</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a10fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na segunda d&eacute;cada do s&eacute;culo XX, quando aconteceram os eclipses solares de 1912, que poderia ser observado em sua totalidade no sul de Minas, e o de 1919, observado em Sobral, os eventos tiveram cobertura grande na m&iacute;dia. O n&uacute;mero de not&iacute;cias sobre o eclipse de 1912, cuja faixa ia de Quito a S&atilde;o Paulo, por ter ocorrido na regi&atilde;o Sudeste e atra&iacute;do oito comiss&otilde;es de astr&ocirc;nomos de diversos pa&iacute;ses, foi maior (cerca de 60% das cita&ccedil;&otilde;es da d&eacute;cada). Nota-se ainda no gr&aacute;fico um pico acentuado de cita&ccedil;&otilde;es na d&eacute;cada de 1940, correspondendo ao eclipse solar de 1947, observado em Minas Gerais e que tamb&eacute;m trouxe ao Brasil v&aacute;rias expedi&ccedil;&otilde;es de astr&ocirc;nomos do exterior.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Podemos estabelecer uma classifica&ccedil;&atilde;o preliminar dos tipos de mat&eacute;rias mais comuns na cobertura desses eclipses solares pela m&iacute;dia. As categorias principais se referem a: i) mat&eacute;rias informativas sobre o eclipse; ii) informa&ccedil;&otilde;es sobre as expedi&ccedil;&otilde;es e seus membros, inclusive entrevistas com eles; iii) textos de divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica; iv) mat&eacute;rias que trazem alertas e discutem cuidados que devem ser tomados na observa&ccedil;&atilde;o do Sol; v) textos que fazem cr&iacute;ticas sociais ou pol&iacute;ticas aproveitando o mote do eclipse ou que discutem a burocracia e os gastos com as expedi&ccedil;&otilde;es; vi) descri&ccedil;&otilde;es de como o eclipse ocorreu; vii) textos que tratam de crendices e medos em rela&ccedil;&atilde;o ao eclipse; viii) mat&eacute;rias que discutem os resultados das observa&ccedil;&otilde;es; ix) mat&eacute;rias que abordam fatos di&aacute;rios relacionados com o eclipse; e x) textos que registram as pol&ecirc;micas e controv&eacute;rsias sobre a teoria da relatividade.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O ECLIPSE DE 1912</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Desses eclipses, o nosso interesse se volta evidentemente para o evento de 1919 e suas repercuss&otilde;es. No entanto, vamos proceder tamb&eacute;m a uma an&aacute;lise preliminar da cobertura do eclipse de 1912 que, apesar de frustrado pela chuva, atraiu muitas expedi&ccedil;&otilde;es estrangeiras. &Eacute; interessante considerar essa cobertura midi&aacute;tica de 1912 como um elemento de compara&ccedil;&atilde;o com a do eclipse de 1919, j&aacute; que ocorreram em regi&otilde;es diferentes do pa&iacute;s e com poucos anos de diferen&ccedil;a. Al&eacute;m disso, no eclipse de 1912 vieram Eddington e Davidson, que desempenhariam papel fundamental nas observa&ccedil;&otilde;es de 1919, e foi nele que se realizou a primeira tentativa frustrada de se medir a deflex&atilde;o da luz das estrelas pela equipe do Observat&oacute;rio Nacional Argentino (C&oacute;rdoba), coordenada por Charles Perrine. Possivelmente foi na intera&ccedil;&atilde;o entre Perrine e Eddington, no Rio de Janeiro, antes do eclipse de 1912, que o astr&ocirc;nomo brit&acirc;nico teve conhecimento da previs&atilde;o de Einstein sobre a poss&iacute;vel deflex&atilde;o do raio luminoso nas vizinhan&ccedil;as do Sol.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A cobertura da m&iacute;dia sobre o eclipse de 10 de outubro de 1912 foi bastante significativa, com cerca de 200 mat&eacute;rias na base da HDBN. Jornais cariocas como <i>A Noite</i> e <i>O Paiz</i> dedicaram muitas mat&eacute;rias ao assunto anteriormente ao eclipse, em especial sobre as expedi&ccedil;&otilde;es estrangeiras, e tamb&eacute;m nos dias pr&oacute;ximos do acontecimento. Vamos destacar alguns aspectos que, de certa forma, se repetiriam na cobertura do eclipse de 1919. Mat&eacute;rias informativas sobre o eclipse, a faixa onde poderia ser visto em sua totalidade e os hor&aacute;rios nas diferentes cidades foram descritos em diversos jornais. Tais informa&ccedil;&otilde;es eram, em geral, provenientes do Observat&oacute;rio Nacional (RJ), que as divulgava com antecipa&ccedil;&atilde;o, ou do servi&ccedil;o meteorol&oacute;gico de S&atilde;o Paulo. O jornal <i>A Noit</i>e, que publicou cerca de duas dezenas de mat&eacute;rias sobre esse eclipse ao longo do ano, especialmente nos dias pr&oacute;ximos ao evento, exibiu uma mat&eacute;ria informativa com o mapa da regi&atilde;o Sudeste com a faixa do eclipse no dia 24 de fevereiro de 1912. Ela tinha como manchete: "Diversos s&aacute;bios ir&atilde;o observar no Brasil o eclipse total do Sol que se dar&aacute; este ano. Algumas informa&ccedil;&otilde;es sobre o fen&ocirc;meno". No dia 6 de outubro, quatro dias antes do eclipse, esse jornal faria uma grande mat&eacute;ria, na primeira p&aacute;gina, contendo tamb&eacute;m o mapa da regi&atilde;o e informa&ccedil;&otilde;es gerais sobre o evento: "Aproxima-se o eclipse. Informa&ccedil;&otilde;es precisas sobre o interessante fen&ocirc;meno". Esse mesmo jornal faria v&aacute;rias mat&eacute;rias sobre o eclipse de 1919, embora em menor n&uacute;mero.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1912, jornais cariocas, em particular <i>A Noite, O Paiz</i> e o <i>Correio da Manh&atilde;</i>, trouxeram v&aacute;rias mat&eacute;rias sobre a chegada dos astr&ocirc;nomos estrangeiros ao Rio de Janeiro em seus trajetos para o sul do estado de Minas Gerais, com repercuss&otilde;es em outros peri&oacute;dicos do pa&iacute;s. Tais mat&eacute;rias traziam quase sempre uma foto e uma pequena biografia dos astr&ocirc;nomos que aqui chegavam. A revista <i>Careta</i> publicou uma bela fotografia, no dia 21 de setembro de 1912, na qual est&atilde;o os astr&ocirc;nomos brit&acirc;nicos Eddington, Davidson e Atkinson logo ap&oacute;s desembarcarem no Rio de Janeiro. A montagem dos acampamentos, os astr&ocirc;nomos presentes e as cenas deles em campo, inclusive o ch&aacute; da tarde dos ingleses foram exibidos em diversas fotografias nas revistas <i>Careta</i> e <i>Fon Fon</i>. Quase todas as fotos eram de autoria do Augusto Soucaseaux, fot&oacute;grafo que acompanhava a expedi&ccedil;&atilde;o brasileira do Observat&oacute;rio Nacional, que ficou sediada na cidade de Passa Quatro.  Nesta cidade havia, para cobertura da observa&ccedil;&atilde;o do eclipse de 1912, correspondentes dos jornais <i>A Noite, O Paiz, Correio da Manh&atilde;, A &Eacute;poca</i> e das revistas <i>O Malho</i> e <i>A Vida Moderna</i>, al&eacute;m da <i>Ag&ecirc;ncia Americana</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Houve, em alguns jornais, a descri&ccedil;&atilde;o das atividades astron&ocirc;micas que as diversas comiss&otilde;es iriam cumprir, assim como dos aparelhos utilizados. No entanto, n&atilde;o localizamos not&iacute;cias na m&iacute;dia brasileira que mencionassem a finalidade da expedi&ccedil;&atilde;o do Observat&oacute;rio Nacional Argentino (C&oacute;rdoba), que ficou sediada em Cristina e que tinha como objetivo medir a deflex&atilde;o da luz das estrelas ao passar nas vizinhan&ccedil;as do Sol. Na &eacute;poca essa n&atilde;o era uma quest&atilde;o particularmente importante porque n&atilde;o traduzia um confronto entre duas teorias gravitacionais, como viria a ocorrer em 1919.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O jornal <i>Correio Paulistano</i> publicou muitas mat&eacute;rias, com especial destaque para a comiss&atilde;o paulista sediada em Cruzeiro e coordenada por Jos&eacute; Nunes Belfort Mattos, chefe do servi&ccedil;o meteorol&oacute;gico do Estado. Ele apresentou, na edi&ccedil;&atilde;o de 19 de dezembro de 1912, um relat&oacute;rio das observa&ccedil;&otilde;es que puderam ser feitas, apesar do mau tempo, e com fotos dos membros da comiss&atilde;o. N&atilde;o conseguimos localizar, na m&iacute;dia nacional, fotografias das comiss&otilde;es localizadas em outras cidades, como Cristina e Alfenas. Fotos da comiss&atilde;o argentina em Cristina existem nos arquivos do Observat&oacute;rio Astron&ocirc;mico de C&oacute;rdoba (<a href="#fig2">Figura 2</a>) &#91;5&#93;.</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a10fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra dimens&atilde;o presente em jornais e revistas da &eacute;poca se refere a cr&iacute;ticas sociais relacionadas ao evento astron&ocirc;mico. Em 5 de outubro de 1912, a revista sat&iacute;rica <i>O Malho </i>traz como legenda de uma charge, onde aparecem astr&ocirc;nomos olhando o eclipse por meio de v&aacute;rios telesc&oacute;pios, a seguinte frase: "Astr&ocirc;nomos de todas as partes do mundo, espanto geral, elevadas despesas por parte dos governos e tudo isto por um mero incidente na contradan&ccedil;a dos astros e planetas...". A mesma revista, no dia 7 de setembro, trouxera uma primorosa charge - infelizmente bem atual - na qual mostra Morize, ajoelhado e suplicante, olhando por uma luneta a verba distante e coberta de teia de aranha na comiss&atilde;o de finan&ccedil;as, que tardava a sair (<a href="#fig3">Figura 3</a>).</font></p>     <p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a10fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Houve tamb&eacute;m diversas mat&eacute;rias referentes &agrave; ida das autoridades governamentais para a observa&ccedil;&atilde;o do eclipse em Passa Quatro, em Minas Gerais, j&aacute; que at&eacute; o presidente da rep&uacute;blica Hermes da Fonseca para l&aacute; se dirigiu acompanhado de s&eacute;quito grande. Isso n&atilde;o ocorreria no eclipse de Sobral, em 1919, no qual n&atilde;o houve a presen&ccedil;a de autoridades maiores do estado ou do pa&iacute;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O fracasso molhado, retumbante e em toda a linha das observa&ccedil;&otilde;es do eclipse de 1912, em fun&ccedil;&atilde;o das chuvas generalizadas persistentes no dia do eclipse, repercutiu nos jornais e revistas. O jornal <i>A Noite</i> de 11 de outubro de 1912 trazia em manchete garrafal: "O eclipse n&atilde;o pode ser observado no Brasil". A express&atilde;o "logro formid&aacute;vel" coroava a manchete da longa mat&eacute;ria de <i>A &Eacute;poca</i> (11/10/1912). Uma charge em <i>O Malho</i>, de 23 de outubro de 1912, mostrava astr&ocirc;nomos profissionais e amadores encharcados e tentando observar o c&eacute;u, e resumia: "Um logro completo!". No entanto, as rela&ccedil;&otilde;es e coopera&ccedil;&otilde;es entre v&aacute;rios astr&ocirc;nomos que estiveram naquela regi&atilde;o para observar o eclipse e que interagiram, como Eddington, Perrine, Morize e Davidson, foram importantes e ajudariam na prepara&ccedil;&atilde;o das observa&ccedil;&otilde;es bem sucedidas do eclipse de Sobral, sete anos depois.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O ECLIPSE DE 1919</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A cobertura do eclipse de 1919 por jornais brasileiros tamb&eacute;m foi intensa, embora n&atilde;o tanto quanto a de 1912. Jornais do Rio de Janeiro, em especial <i>A Noite, O Paiz</i>, o <i>Jornal do Commercio</i> e o <i>Correio da Manh&atilde;</i> trouxeram muitas mat&eacute;rias sobre o eclipse daquele ano. Em outros estados, particularmente do Norte e Nordeste, houve tamb&eacute;m cobertura significativa, em especial pelo <i>Pacotilha</i> (MA), <i>O Jornal </i>(MA), <i>Jornal do Recife</i> (PE) e <i>OEstado do Par&aacute;</i> (PA).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1919 houve uma caracter&iacute;stica nova na cobertura midi&aacute;tica do evento astron&ocirc;mico: jornais locais de Sobral e Camocim (CE) publicaram diversas mat&eacute;rias sobre o assunto antes e durante o eclipse, embora n&atilde;o tenham destacado posteriormente os resultados das observa&ccedil;&otilde;es feitas. Os tr&ecirc;s jornais de Sobral que deram destaque ao eclipse foram <i>A Lucta</i>, com sete mat&eacute;rias entre agosto de 1918 e junho de 1919; <i>Correio da Semana</i>, como 18 mat&eacute;rias entre janeiro de 1919 e janeiro de 1920; e <i>A Ordem</i>, com 12 mat&eacute;rias de mar&ccedil;o de 1919 a agosto de 1919. O jornal de Camocim, <i>Folha do Littoral</i>, produziu tamb&eacute;m 12 mat&eacute;rias entre mar&ccedil;o de 1919 e junho de 1919.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O jornal <i>A Lucta</i> foi fundado em 1914 e circulou at&eacute; 1924. Tinha como diretor-propriet&aacute;rio Deolindo Barreto Lima e, como lema: "Conte-se o caso como o caso foi. O c&atilde;o &eacute; c&atilde;o, o boi &eacute; boi. Diga-se a verdade na Terra embora desabem os c&eacute;us". <i>A Ordem</i> foi fundado em 1916 e correu at&eacute; 1941. Era "&Oacute;rg&atilde;o do Partido Republicano Conservador Sobralense" e tinha como diretor Pl&iacute;nio Pompeu. O <i>Correio da Semana </i>era um jornal ligado &agrave; Igreja Cat&oacute;lica de Sobral e dirigido pelo padre Jos&eacute; de Lima Ferreira. Criado em 1918, circula at&eacute; hoje.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A primeira not&iacute;cia sobre o eclipse nos jornais locais apareceu no <i>Correio da Semana </i>(11/01/1919), mas foi o jornal <i>A Ordem</i> que produziu a primeira entrevista com Morize (21/03/1919), o diretor do Observat&oacute;rio Nacional que havia ido a Sobral para analisar as condi&ccedil;&otilde;es da cidade para receber as comiss&otilde;es astron&ocirc;micas e para escolher locais de observa&ccedil;&atilde;o. Na entrevista, que ocupou metade da primeira p&aacute;gina do jornal, ele respondeu a diversas perguntas n&atilde;o s&oacute; sobre o eclipse solar, mas tamb&eacute;m sobre a seca que assolava a regi&atilde;o e sobre fontes poss&iacute;veis para a energia el&eacute;trica urbana, que a cidade ainda n&atilde;o possu&iacute;a. Morize foi muito elogiado por seu &#147;trato lhano e simples, despido completamente da vaidade que quase sempre acompanha as celebridades, como tamb&eacute;m pelas suas qualidades invej&aacute;veis de fino 'causer'. Outras entrevistas foram realizadas posteriormente com Morize e com outros astr&ocirc;nomos, como Crommelin e Davidson.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nas semanas que antecederam a chegada das comiss&otilde;es a Sobral, um assunto galvanizou jornais e revistas do Rio de Janeiro: o atraso na libera&ccedil;&atilde;o dos recursos, j&aacute; aprovados no or&ccedil;amento do pa&iacute;s, para a comiss&atilde;o brasileira se deslocar para Sobral e preparar a infraestrutura para a recep&ccedil;&atilde;o das outras comiss&otilde;es. De fato, a burocracia brasileira quase impediu as observa&ccedil;&otilde;es do eclipse de Sobral! Como reporta jocosamente <i>O Malho</i> (26/04/1919), o presidente do Tribunal de Contas teria sugerido a Morize, diante de mais uma solicita&ccedil;&atilde;o desesperada para a libera&ccedil;&atilde;o dos recursos: "Adie-se o eclipse"<i>. O Correio da Manh&atilde; (22/04/1919), O Paiz </i>(22/04/1919) e a revista<i> Careta</i> (10/05/1919; <a href="#fig4">Figura 4</a>) criticaram igualmente a lentid&atilde;o burocr&aacute;tica e destacaram que foi a empresa estatal Lloyd Brasileiro que, afinal, emprestou o dinheiro para a expedi&ccedil;&atilde;o da comiss&atilde;o brasileira, por decis&atilde;o de seu presidente Barbosa Lima.</font></p>     <p><a name="fig4"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a10fig04.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um ponto de destaque na cobertura dos jornais da regi&atilde;o sobralense foram as mat&eacute;rias de divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica de boa qualidade que produziram. A primeira delas, escrita especialmente por Morize, com explica&ccedil;&otilde;es sobre o eclipse, a coroa solar e as pesquisas que seriam feitas pelos brasileiros, foi publicada na <i>Folha do Littoral</i>, de Camocim, no dia 23 de mar&ccedil;o de 1919. O texto de maior destaque, do ponto de vista da divulga&ccedil;&atilde;o das observa&ccedil;&otilde;es que seriam feitas sobre a deflex&atilde;o da luz, "O pr&oacute;ximo eclipse total do Sol", foi publicado em <i>O Estado do Par&aacute;</i> (24/04/1919) e depois reproduzido na <i>Folha do Littoral</i> (11/05/1919), no <i>Correio da Semana</i> (22/05/1919, este com algumas diferen&ccedil;as em rela&ccedil;&atilde;o ao primeiro) e no <i>Jornal do Commercio </i>(29/05/1919). O artigo foi escrito por Crommelin e Davidson, que explicaram as observa&ccedil;&otilde;es que fariam e mencionaram, pela primeira vez no Brasil (e talvez na Am&eacute;rica do Sul), o nome de Einstein e, de forma muito gen&eacute;rica, o espa&ccedil;o-tempo da nova teoria da relatividade. "A teoria do universo recentemente proposta pelo sr. Einstein envolve essa dupla diferen&ccedil;a como consequ&ecirc;ncia &#91;o &acirc;ngulo de deflex&atilde;o previsto por Einstein deveria ser duas vezes maior do que a previs&atilde;o proveniente da f&iacute;sica newtoniana&#93;". Como destacou Crispino &#91;6&#93;: "este texto, assinado conjuntamente por A. C. D. Crommelin e C. Davidson, consistiu na introdu&ccedil;&atilde;o das ideias de Einstein sobre a sua teoria relatividade na Amaz&ocirc;nia". Trata-se possivelmente do primeiro artigo de divulga&ccedil;&atilde;o sobre a teoria de Einstein publicado no Brasil. Registre-se que o primeiro artigo nas Am&eacute;ricas a mencionar a teoria da relatividade geral e as observa&ccedil;&otilde;es relativas &agrave; deflex&atilde;o da luz prevista por ela foi possivelmente "Test of the Einstein Theory ", publicado pelo <i>The New York Times</i> no dia 10 de junho de 1918.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No dia 16 de maio de 1919, o jornal <i>A Ordem</i> dedicou quase toda a sua primeira p&aacute;gina para uma extensa e detalhada mat&eacute;ria sobre o que era o eclipse solar, a chegada das comiss&otilde;es estrangeiras e seus objetivos, a explica&ccedil;&atilde;o da deflex&atilde;o da luz prevista na teoria de Einstein e o que os astr&ocirc;nomos brit&acirc;nicos tentariam medir (<a href="#fig5">Figura 5</a>).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig5"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a10fig05.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Segundo o jornal assinala, "a nossa reportagem nos foi fornecida pelo reputado ge&oacute;logo Theophilo Lee, da comiss&atilde;o brasileira". Nos dias seguintes os jornais locais trouxeram artigos nos quais se destacam os cuidados com a observa&ccedil;&atilde;o do eclipse e a necessidade do uso de vidros enfuma&ccedil;ados para se olhar o Sol. Um artigo particularmente interessante de Morize foi publicado em <i>A Ordem</i> (24/05/1919); ali ele descreve o eclipse como um fen&ocirc;meno natural, menciona os temores a ele associados pelos povos "selvagens" e conclama a popula&ccedil;&atilde;o a se manter em completa calma e em perfeito sil&ecirc;ncio e a n&atilde;o promover toque de bandas de m&uacute;sica ou lan&ccedil;ar fogos de artif&iacute;cio durante o eclipse, o que prejudicaria as observa&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No dia anterior ao eclipse e em 29 de maio, dia do evento, muitos jornais pelo pa&iacute;s afora destacaram em primeira p&aacute;gina o acontecimento. Alguns trouxeram o mapa do Brasil indicando as faixas do eclipse, como o <i>Jornal do Commercio</i> (AM) e o <i>Jornal do Recife</i>. Este mencionou as observa&ccedil;&otilde;es de deflex&atilde;o da luz das estrelas que poderiam ou n&atilde;o confirmar a previs&atilde;o de Einstein (grafado incorretamente, como em alguns outros jornais, de "Eustein").</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nos dias seguintes ao eclipse v&aacute;rios jornais descreveram como ocorreram as observa&ccedil;&otilde;es em diversas cidades do pa&iacute;s, particularmente no Cear&aacute;. No dia 8 de junho de 1919, a <i>Folha do Littoral </i>trouxe uma detalhada mat&eacute;ria sobre o dia do eclipse e as observa&ccedil;&otilde;es ali feitas pelas tr&ecirc;s comiss&otilde;es. O jornal <i>A Noite</i>, por meio de um servi&ccedil;o especial em Sobral, destacou em manchete no dia 30 de maio: "Maravilhoso espet&aacute;culo do eclipse em Sobral. Os trabalhos dos s&aacute;bios estrangeiros e nacionais. Magn&iacute;ficos os resultados obtidos". Sem qualquer base nos c&aacute;lculos que seriam efetuados ainda por v&aacute;rios meses, antes de se chegar &agrave; comprova&ccedil;&atilde;o da previs&atilde;o de Einstein sobre o &acirc;ngulo de deflex&atilde;o da luz, mas com ousadia jornal&iacute;stica exagerada, o jornal j&aacute; anunciava: "As comiss&otilde;es mostram-se satisfeitas com o resultado das observa&ccedil;&otilde;es. A comiss&atilde;o inglesa, que obteve 24 fotografias, reuniu mais elementos que constatam a teoria de Einstein sobre a gravidade da luz." (<a href="#fig6">Figura 6</a>).</font></p>     <p><a name="fig6"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a10fig06.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A premoni&ccedil;&atilde;o sobre o resultado das observa&ccedil;&otilde;es dos astr&ocirc;nomos brit&acirc;nicos se repetiria posteriormente em dois outros jornais: no <i>Correio Paulistano</i> (02/08/1919) e no <i>Jornal do Recife</i> (26/08/1919), com sua manchete j&aacute; definitiva: "A luz tem peso" (<a href="#fig7">Figura 7</a>). As afirma&ccedil;&otilde;es otimistas n&atilde;o decorreram dos astr&ocirc;nomos brit&acirc;nicos, que foram bastante cuidadosos com coloca&ccedil;&otilde;es sobre qual seria o valor do &acirc;ngulo de deflex&atilde;o da luz, mesmo porque ainda n&atilde;o haviam feito as fotografias de compara&ccedil;&atilde;o do fundo estelar - o que seria feito no in&iacute;cio do m&ecirc;s de julho, em Sobral. Em interessante entrevista que concederam, no dia 3 de agosto de 1919, ao jornal <i>Estado do Par&aacute;</i> - e que seria reproduzida em parte nos jornais<i> A Noite </i>e <i>Jornal do Commercio</i> - eles responderam ao jornalista que perguntara se ficaria comprovada a teoria de Heinstein &#91;sic&#93;: "Nada podemos dizer enquanto n&atilde;o medirmos as fotografias, umas com as outras. Este servi&ccedil;o faremos com o aux&iacute;lio de um micr&ocirc;metro, que &eacute; um microsc&oacute;pio, munido de uma escala de linhas muito finas, presa a uma moldura. A marca&ccedil;&atilde;o das dist&acirc;ncias &eacute; feita por meio de um parafuso muito delicado que aciona essa escala. Em &#91;sic&#93; resultado dessas medidas esperamos poder ver se a posi&ccedil;&atilde;o das estrelas nas chapas do eclipse concorda com a das outras chapas, ou se h&aacute; alguma diferen&ccedil;a. Nenhum resultado poder&aacute; ser publicado t&atilde;o cedo, por&eacute;m esperamos que com nossas fotografias poderemos determinar, de uma vez para sempre, qual das tr&ecirc;s possibilidades em quest&atilde;o &eacute; verdadeira. Se tal acontecer, consideraremos que fomos coroados de sucesso" &#91;6&#93;.</font></p>     <p><a name="fig6"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a10fig07.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Note-se que a primeira divulga&ccedil;&atilde;o na Europa sobre o fato de as observa&ccedil;&otilde;es favorecerem a teoria de Einstein seria feita por ele mesmo, ao publicar uma pequena nota no <i>Die Naturwissenschaften</i>, em 9 de outubro de 1919.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Curiosamente, o an&uacute;ncio dos resultados das observa&ccedil;&otilde;es das comiss&otilde;es brit&acirc;nicas em Sobral e na Ilha do Pr&iacute;ncipe, realizado em Londres no dia 6 de novembro de 1919 por Eddington, Crommellin e Frank Dyson, com pompa e circunst&acirc;ncia, gerou pouca repercuss&atilde;o no Brasil. Nos dias seguintes ao an&uacute;ncio, jornais da Inglaterra (<i>The Times</i>, 7 e 8/11/1919) e dos Estados Unidos (<i>The New York Times</i>, 10/11/1919 e nos dias seguintes) estamparam em manchetes que ocorrera uma revolu&ccedil;&atilde;o na ci&ecirc;ncia: a teoria de Einstein suplantara a de Newton. O acontecimento fez com que Einstein, um pesquisador at&eacute; ent&atilde;o conhecido apenas por seus colegas f&iacute;sicos na Europa, se tornasse o cientista mais famoso de todos os tempos. No Brasil, o an&uacute;ncio de Londres recebeu t&iacute;mida not&iacute;cia da ag&ecirc;ncia estrangeira <i>Havas </i>(08/11/1919), publicada no dia 9 de novembro nos jornais <i>O Paiz</i> e <i>Correio Paulistano</i>. Ela dizia, de forma herm&eacute;tica e confusa: "Os resultados obtidos pelas miss&otilde;es, que foram ao Cear&aacute; e &agrave; Ilha do Pr&iacute;ncipe observar o eclipse solar de maio &uacute;ltimo, est&atilde;o causando o mais vivo interesse nos c&iacute;rculos cient&iacute;ficos porque esses resultados vem confirmar uma das leis de reflex&atilde;o do professor su&iacute;&ccedil;o Einstein, cujas novas teorias sobre o universo n&atilde;o admitem as leis de Newton". N&atilde;o consegui localizar em jornais de Sobral qualquer men&ccedil;&atilde;o ao an&uacute;ncio dos resultados que havia sido feito em Londres.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A primeira mat&eacute;ria de qualidade sobre os resultados do eclipse e sobre a teoria da relatividade geral viria da pena de Manoel Amoroso Costa e seria publicada em <i>O Jornal </i>no dia 12 de novembro de 1919, apenas seis dias ap&oacute;s o an&uacute;ncio londrino. Com o t&iacute;tulo <i>Theoria de Einstein</i> (<a href="#fig8">Figura 8</a>), &eacute; um texto curto e preciso de divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica que termina com a constata&ccedil;&atilde;o: "&eacute; a primeira grande not&iacute;cia da ci&ecirc;ncia pura que nos manda, depois da guerra, a Europa sempre fecunda". Engenheiro e matem&aacute;tico, professor da Escola Polit&eacute;cnica do Rio de Janeiro, Amoroso escreveria tr&ecirc;s anos depois um pequeno e precioso livro sobre a nova teoria, a partir de confer&ecirc;ncias que realizara.</font></p>     <p><a name="fig8"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a10fig08.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Morize publicaria um artigo no <i>Correio da Manh&atilde;</i> de 27 de fevereiro de 1920, proveniente de uma confer&ecirc;ncia na Sociedade Brasileira de Ci&ecirc;ncias (que se transformaria na Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias dois anos depois), sobre as observa&ccedil;&otilde;es feitas durante o eclipse de Sobral pela comiss&atilde;o brasileira. Ali ele se refere tamb&eacute;m aos resultados dos astr&ocirc;nomos brit&acirc;nicos que confirmaram que "revela completo acordo com o que a teoria de Einstein havia previsto".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Agrave; guisa de finaliza&ccedil;&atilde;o, apresento, no gr&aacute;fico da <a href="#fig8">figura 8</a>, a evolu&ccedil;&atilde;o do n&uacute;mero de cita&ccedil;&otilde;es que o nome Einstein recebeu nos peri&oacute;dicos brasileiros a partir de 1919 (d&eacute;cada de 1910) at&eacute; a d&eacute;cada de 1980.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ele exibe o surgimento de um personagem de grande import&acirc;ncia no cen&aacute;rio da ci&ecirc;ncia e da cultura. Possivelmente dados similares poder&atilde;o ser obtidos se se computar a presen&ccedil;a de Einstein na m&iacute;dia de outros pa&iacute;ses. O crescimento vertiginoso de sua popularidade, estudada e analisada por v&aacute;rios estudiosos e ocasionada por diversos fatores, est&aacute; fortemente correlacionada, como vimos, com o eclipse observado em Sobral em 29 de maio de 1919.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. 	Einstein, A. "Die Grundlage der allgemeinen Relativit&auml;tstheorie". <i>Annalen der Physik</i> 49, 769-822, 1916.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. 	Dyson, F. W.; Eddington, A. S. and Davidson, C. "A determination of the deflection of light by the Sun's gravitational field, from observations made at the total eclipse of may 29, 1919". <i>Philosophical Transactions of the Royal Society of London</i>. CCXX-A 579: 291-333, 1920.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. 	Johnson. P. <i>Modern times: the world from the twenties to the nineties</i>. New York: Harper Perennial, 1991.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. 	Moreira, I. C. e Videira, A. A. P. (orgs.). <i>Einstein e o Brasil</i>. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1995.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. 	Paolantonio, S.; Pelliza, L.; Mallamaci, C. C.; Camino, N.; Orellana, M.; Garcia, B. "The Argentinean attempts to prove the theory of general relativity: the total solar eclipses of 1912, 1914 and 1919. Under one sky." <i>The IAU Centenary Symposium Proceedings IAU Symposium</i> (Valls-Gabaud, D.; Hearnshaw, J. &amp; Sterken, C., eds.), n. 349, p. 1 - 5, 2018.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6.	Crispino, L. C. B.; Lima, M. C. "A teoria da relatividade de Einstein apresentada para a Amaz&ocirc;nia". <i>Revista Brasileira de Ensino de F&iacute;sica</i>, vol. 38, nº 4, e4203, 2016.    </font></p>      ]]></body><back>
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