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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   100 ANOS DO ECLIPS EDESOBRAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O impacto do eclipse de 1919 na vida e trajet&oacute;ria de Albert Einstein</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Alfredo Tolmasquim</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Diretor de desenvolvimento cient&iacute;fico do Museu do Amanh&atilde;, no Rio de Janeiro</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O  eclipse do Sol de maio de 1919 foi um marco na vida e na carreira de Albert Einstein, definindo seus rumos futuros. Sua carreira acad&ecirc;mica havia come&ccedil;ado 14 anos antes, quando, em 1905, ainda como auxiliar no escrit&oacute;rio de patentes em Berna, e com 26 anos de idade, escreveu e publicou cinco importantes artigos para a f&iacute;sica. Nestes artigos, ele explicava o efeito fotoel&eacute;trico, o movimento browniano, a teoria da relatividade restrita e a famosa equa&ccedil;&atilde;o E = mc<sup>2</sup>. Posteriormente, o ano de 1905 entraria para a hist&oacute;ria da ci&ecirc;ncia como <i>annus mirabilis</i> (ano miraculoso) em refer&ecirc;ncia ao ano de 1666, quando Isaac Newton fez importantes contribui&ccedil;&otilde;es nas &aacute;reas de mec&acirc;nica, &oacute;tica e gravita&ccedil;&atilde;o e foi originalmente caracterizado como <i>annus mirabilis</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A partir da&iacute;, Einstein come&ccedil;ou uma ascens&atilde;o em sua carreira acad&ecirc;mica. Em 1908, ele conseguiu um posto de<i> privatdozent</i> - uma esp&eacute;cie de professor tempor&aacute;rio -, na Universidade de Berna. Pouco tempo depois, foi convidado como professor associado na Universidade de Zurique, em seguida professor titular na Universidade de Praga, retornando &agrave; Zurique em 1912, agora como professor titular. Ele tamb&eacute;m come&ccedil;ava a circular no seleto grupo dos grandes f&iacute;sicos europeus, como Ernst Rutherford, Marie Curie, Hendrik Lorentz, Max Planck, Niels Bohr, entre outros.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A grande mudan&ccedil;a na sua vida foi, contudo, o convite de Max Planck para ele se transferir para Berlim. Nascido no sul da Alemanha, na pequena cidade de Ulm, no reino de W&uuml;rtemberg, ent&atilde;o parte do Imp&eacute;rio da Pr&uacute;ssia, Einstein mudou-se ainda crian&ccedil;a com os pais para Hamburgo, um grande centro comercial da regi&atilde;o e, depois, j&aacute; como adolescente, para Mil&atilde;o, no norte da It&aacute;lia. Em 1896, ele fez os exames e conseguiu ingressar na prestigiosa Escola Polit&eacute;cnica de Zurique. Depois de formado, Einstein foi professor em algumas escolas secund&aacute;rias e deu aulas particulares, at&eacute; conseguir em 1902 o emprego no escrit&oacute;rio de patentes de Berna, para onde se mudou.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando recebeu o convite de Planck, Einstein estava satisfeito com o posto na Universidade de Zurique e a vida que levava na cidade su&iacute;&ccedil;a. Contudo, Berlim era indiscutivelmente o grande centro da f&iacute;sica na &eacute;poca e ele teria uma posi&ccedil;&atilde;o de prest&iacute;gio e uma situa&ccedil;&atilde;o financeira bastante confort&aacute;vel: seria diretor do Instituto Kaiser Wilhelm de F&iacute;sica (hoje Instituto Max Planck), sem obriga&ccedil;&otilde;es de dar aulas, e eleito membro da Academia Prussiana de Ci&ecirc;ncias, o que lhe proporcionaria um bom complemento ao seu sal&aacute;rio. Era, portanto, uma proposta irrecus&aacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Einstein chegou a Berlim em abril de 1914. Poucos meses depois, em agosto daquele ano, a Alemanha invadia a B&eacute;lgica e tinha in&iacute;cio a Primeira Guerra Mundial. &Agrave; semelhan&ccedil;a da maioria da popula&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m os intelectuais e cientistas alem&atilde;es apoiaram a iniciativa b&eacute;lica. Einstein era uma exce&ccedil;&atilde;o. Ele se sentia um cidad&atilde;o do mundo e achava que a ci&ecirc;ncia n&atilde;o devia ficar restrita &agrave;s fronteiras geogr&aacute;ficas dos pa&iacute;ses ou &agrave; pol&iacute;tica de seus governantes. Ele se filiou a um pequeno partido pol&iacute;tico que tinha como principal bandeira o estabelecimento da paz, mas que terminou sendo proibido. Naquele momento, qualquer manifesta&ccedil;&atilde;o contraria ao esfor&ccedil;o de guerra era considerada um ato de trai&ccedil;&atilde;o &agrave; p&aacute;tria e ao imperador.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Independente das quest&otilde;es pol&iacute;ticas, Einstein continuava seu trabalho, principalmente tentando integrar a gravita&ccedil;&atilde;o &agrave; estrutura que ele havia desenvolvido na teoria da relatividade restrita. Os anos da guerra foram tamb&eacute;m de grande produtividade para Einstein. Entre novembro de 1915 e fevereiro de 1917 ele publicou nada menos do que 15 importantes trabalhos cient&iacute;ficos, aprimorando a teoria da relatividade geral e desenvolvendo outros estudos. Em 1911 ele j&aacute; havia previsto um desvio na trajet&oacute;ria da luz de 0,87 segundos de arco quando passasse pr&oacute;xima ao disco do Sol. Por&eacute;m, com o desenvolvimento de seu trabalho, reviu os c&aacute;lculos desse desvio, passando ao valor de 1,75" no artigo de 1915.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com a guerra, a comunica&ccedil;&atilde;o e consequentemente a circula&ccedil;&atilde;o de publica&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas entre a Alemanha e os pa&iacute;ses inimigos, como Inglaterra e Fran&ccedil;a, estava muito prejudicada. Em fun&ccedil;&atilde;o de seu passaporte su&iacute;&ccedil;o, Einstein conseguia, contudo, viajar &agrave; Su&iacute;&ccedil;a, mantendo contato com f&iacute;sicos em Zurique, e &agrave; Leiden, na Holanda, onde estavam seus amigos Paul Ehrenfest e Hendrik Lorentz. Na sua ida a Leiden no ver&atilde;o de 1916, Einstein levava na bagagem seus artigos mais recentes, em especial o "Fundamentos da teoria geral da relatividade", de 1915. Impressionados com os resultados alcan&ccedil;ados por Einstein, Ehrenfest e Lorentz chamaram o astr&ocirc;nomo Willem de Sitter, que poderia opinar na quest&atilde;o astron&ocirc;mica. Este, por sua vez, enviou o artigo para Arthur Eddington, na Inglaterra, e escreveu algumas notas para o <i>Monthly Notices</i> da <i>Royal Astronomical Society</i>. O texto entregue por Einstein a de Sitter foi um dos poucos exemplares de seu artigo - sen&atilde;o o &uacute;nico - que circulou na Inglaterra e Estados Unidos entre 1916 e 1918.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pouco mais de 200 anos antes, Isaac Newton, em uma de suas obras mais importantes - <i>&Oacute;tica</i>, publicada em 1704 -, havia levantado ao final 16 quest&otilde;es, propondo uma agenda para futuras pesquisas. Entre estas, ele perguntava se os corpos tamb&eacute;m poderiam agir &agrave; dist&acirc;ncia sobre a luz (pela for&ccedil;a da gravidade), encurvando seus raios, numa rela&ccedil;&atilde;o em que seriam t&atilde;o mais fortes quando menor a dist&acirc;ncia. Eddington havia aplicado a lei da gravita&ccedil;&atilde;o de Newton &agrave; radia&ccedil;&atilde;o eletromagn&eacute;tica, e havia encontrado o valor de 0,87 segundos de arco, que coincidia com o artigo de Einstein de 1911. Mas o novo artigo da relatividade geral propunha que os corpos de grande massa deformavam o espa&ccedil;o-tempo e tudo que por ele passasse, inclusive a luz. Seu c&aacute;lculo previa um desvio de 1,75 segundos de arco.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Eddington conseguiu o apoio do astr&ocirc;nomo real sir Frank Dyson para organizar duas comiss&otilde;es que seriam enviadas para observar o eclipse solar, que aconteceria em 29 de maio de 1919, e tentar comprovar o desvio da luz das estrelas quando passasse pr&oacute;xima ao disco solar, conforme proposto por Einstein. Eddington seguiu para a Ilha do Pr&iacute;ncipe, na costa oeste da &Aacute;frica, juntamente com Edwin Cottingham, enquanto Andrew Crommelin e Charles Davidson foram para a cidade de Sobral, no nordeste do Brasil.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na an&aacute;lise das chapas fotogr&aacute;ficas feitas durante o eclipse, eles trabalhavam com tr&ecirc;s possibilidades: que haveria uma meia reflex&atilde;o, significando que a luz era sujeita &agrave; lei da gravita&ccedil;&atilde;o estabelecida por Newton, o que Eddington denominou de "predi&ccedil;&atilde;o newtoniana"; a deflex&atilde;o completa conforme a teoria da relatividade geral, e que seria a "predi&ccedil;&atilde;o de Einstein"; ou que n&atilde;o haveria nenhuma deflex&atilde;o. Newton nunca chegou a calcular ou mesmo a propor a hip&oacute;tese da deflex&atilde;o luz pela for&ccedil;a da gravidade, apenas colocou como uma quest&atilde;o a ser pesquisada no futuro. Por&eacute;m, quando Eddington fez os c&aacute;lculos e denominou de "predi&ccedil;&atilde;o newtoniana", ele estabeleceu, volunt&aacute;ria ou involuntariamente, a quest&atilde;o sobre quem estaria certo: a predi&ccedil;&atilde;o de Newton ou a predi&ccedil;&atilde;o de Einstein. Com isso, o resultado das observa&ccedil;&otilde;es do eclipse se tornou numa disputa fict&iacute;cia entre Newton e Einstein. O longo tempo tomado na an&aacute;lise das chapas aumentava ainda mais a expectativa com rela&ccedil;&atilde;o ao veredito final.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Finalmente, numa sess&atilde;o conjunta da Royal Society e da Royal Astronomical Society, em 6 de novembro de 1919, pouco mais de quatro meses ap&oacute;s a observa&ccedil;&atilde;o do eclipse, era anunciado o resultado das medi&ccedil;&otilde;es. O matem&aacute;tico Alfred Whitehead, que estava presente &agrave;quela sess&atilde;o, assim descreveu o ambiente:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&oacute;s &eacute;ramos o coro, comentando a decis&atilde;o do destino no desenrolar daquele evento supremo. Havia uma qualidade dram&aacute;tica na pr&oacute;pria encena&ccedil;&atilde;o - o cerimonial tradicional, e no fundo a imagem de Newton para nos lembrar que a maior das generaliza&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas estava agora, depois de mais de dois s&eacute;culos, para receber sua primeira modifica&ccedil;&atilde;o.&#91;1&#93;</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Inicialmente, o astr&ocirc;nomo real sir Frank Dyson falou dos objetivos das expedi&ccedil;&otilde;es, dos instrumentos utilizados e os resultados obtidos, mostrando que haviam sido comprovados os valores previstos por Einstein na teoria da relatividade geral. Em seguida, Eddington apresentou os resultados obtidos em Pr&iacute;ncipe, e Crommelin falou sobre as chapas obtidas em Sobral. Ao finalizar a sess&atilde;o, sir Joseph Thomson, presidente da Royal Society, declarou solenemente: "O resultado (das observa&ccedil;&otilde;es) &eacute; uma das maiores conquistas do pensamento humano". Estava dado o tom para a mat&eacute;ria que seria publicada no dia seguinte na primeira p&aacute;gina do jornal <i>Times</i>, de Londres: "Revolu&ccedil;&atilde;o na ci&ecirc;ncia - nova teoria do universo - ideias de Newton derrubadas".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nos Estados Unidos n&atilde;o havia surgido at&eacute; ent&atilde;o um interesse maior pela teoria da relatividade - talvez faltasse l&aacute; algu&eacute;m como Eddington, que fez um importante papel de disseminar e discutir a relatividade no meio cient&iacute;fico brit&acirc;nico. O astr&ocirc;nomo americano William Campbell chegou a observar um eclipse total do sol vis&iacute;vel na costa oeste dos Estados Unidos, em 1918, mas n&atilde;o havia identificado nenhum desvio da luz, provavelmente pela precariedade dos instrumentos utilizados. Mas, a partir daquele momento, tamb&eacute;m o americano <i>New York Times</i> dava um grande espa&ccedil;o para divulgar a comprova&ccedil;&atilde;o da teoria da relatividade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A mat&eacute;ria do <i>Times</i> foi reproduzida em v&aacute;rios pa&iacute;ses. Os jornais locais procuravam os cientistas para explicar a nova teoria. No dia 12 de novembro, apenas cinco dias ap&oacute;s a not&iacute;cia no peri&oacute;dico ingl&ecirc;s, o matem&aacute;tico brasileiro Manoel Amoroso Costa publicava n'<i>O Jornal</i>, um peri&oacute;dico da capital, um artigo intitulado "A teoria de Einstein", explicando no que consistia a teoria da relatividade. Amoroso Costa e Roberto Marinho de Azevedo foram respons&aacute;veis por disseminar a nova teoria no meio cient&iacute;fico brasileiro. Eles deram palestras na Escola Polit&eacute;cnica do Rio de Janeiro, falaram em sess&otilde;es da Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias e publicaram artigos na <i>Revista Brasileira de Engenharia</i> e na <i>Revista de Sciencias</i>, da pr&oacute;pria academia. Tamb&eacute;m Henrique Morize, presidente da comiss&atilde;o brasileira que observou o eclipse, apresentou os resultados da expedi&ccedil;&atilde;o astron&ocirc;mica na Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias e publicou um artigo em sua revista.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Diferentemente da Inglaterra, Estados Unidos e demais pa&iacute;ses, os resultados da observa&ccedil;&atilde;o do eclipse e da comprova&ccedil;&atilde;o da teoria da relatividade j&aacute; eram conhecidos e festejados no meio cient&iacute;fico alem&atilde;o antes do an&uacute;ncio formal na sess&atilde;o da Royal Society. Eddington havia informado o astr&ocirc;nomo dinamarqu&ecirc;s Ejnar Hertzsprung dos resultados obtidos que, por sua vez, fez chegar a Einstein a boa nova. Este, por sua vez, compartilhou com seus colegas em Berlim. Por&eacute;m esse reconhecimento permanecera restrito ao meio cient&iacute;fico, especialmente o dos f&iacute;sicos. Somente semanas mais tarde, em 14 de dezembro, o peri&oacute;dico alem&atilde;o <i>Berliner Illustrirte Zeitung</i> estampou em sua primeira p&aacute;gina uma foto de Einstein com o t&iacute;tulo "Um novo gigante na hist&oacute;ria mundial: Albert Einstein, cujas pesquisas significam uma completa derrubada de nossa compreens&atilde;o da natureza e se coloca no mesmo n&iacute;vel que as descobertas de Cop&eacute;rnico, Kepler e Newton". A partir daquele dia, Einstein descobria o que &eacute; ser famoso. Ele passou a ser reconhecido nas ruas e efusivamente cumprimentado por pessoas que nunca tinha visto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m do significado cient&iacute;fico, a comprova&ccedil;&atilde;o da teoria da relatividade, na forma como havia ocorrido, tinha um forte significado pol&iacute;tico: era a teoria de um alem&atilde;o, comprovada por astr&ocirc;nomos ingleses. Isso era muito simb&oacute;lico naquele per&iacute;odo p&oacute;s Primeira Guerra Mundial. Para se ter ideia da situa&ccedil;&atilde;o naquela &eacute;poca, em julho daquele ano de 1919 havia sido criada a Uni&atilde;o Astron&ocirc;mica Internacional, mas n&atilde;o foi permitida a afilia&ccedil;&atilde;o dos astr&ocirc;nomos alem&atilde;es ou de pa&iacute;ses aliados &agrave; Alemanha. Ap&oacute;s o an&uacute;ncio da comprova&ccedil;&atilde;o da deflex&atilde;o da luz durante o eclipse, a Royal Astronomical Society chegou a cogitar o nome de Einstein para receber a medalha de ouro da associa&ccedil;&atilde;o de 1919/1920, mas um boicote dos membros impediu que a vota&ccedil;&atilde;o fosse realizada, e n&atilde;o houve escolha do premiado naquele ano. O clima de beliger&acirc;ncia continuava muito forte mesmo ap&oacute;s o final da guerra.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a12fig01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a12fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Arthur Eddington, Robert W. Lawson e outros cientistas europeus favor&aacute;veis &agrave; supera&ccedil;&atilde;o dos conflitos entre os pa&iacute;ses e o retorno &agrave; plena coopera&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica internacional consideravam que aquele eclipse tinha sido uma grande contribui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&oacute; &agrave; ci&ecirc;ncia, mas &agrave; humanidade, por ter aproximado cientistas ingleses e alem&atilde;es. Numa entrevista dada ao <i>Times</i> de Londres, dias depois, em 28 de novembro, Einstein aproveitou para alfinetar os ingleses:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Depois da lament&aacute;vel interrup&ccedil;&atilde;o nas antigas rela&ccedil;&otilde;es internacionais existentes entre os homens da ci&ecirc;ncia, &eacute; com alegria e gratid&atilde;o que aceito esta oportunidade de comunica&ccedil;&atilde;o com astr&ocirc;nomos e f&iacute;sicos ingleses. Foi em fun&ccedil;&atilde;o da alta e orgulhosa tradi&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia inglesa que os cientistas ingleses deram seu tempo e trabalho, e as institui&ccedil;&otilde;es inglesas forneceram os meios materiais para testar uma teoria que foi conclu&iacute;da e publicada no pa&iacute;s de seus inimigos no meio da guerra. &#91;2&#93;</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Havia tamb&eacute;m o assombro e o encantamento que os eclipses sempre produziram nos seres humanos ao longo de toda a hist&oacute;ria. A comprova&ccedil;&atilde;o da relatividade vinha acompanhada da imagina&ccedil;&atilde;o da luz se encurvando no espa&ccedil;o sideral. Uma das mais bonitas explica&ccedil;&otilde;es do significado daquele evento para a humanidade, em especial para a Europa, coube ao f&iacute;sico polon&ecirc;s e amigo pessoal de Einstein, Leopold Infeld:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi logo ap&oacute;s o fim da guerra. As pessoas estavam cansadas do &oacute;dio, da matan&ccedil;a e das intrigas internacionais. As trincheiras, bombas e assassinatos tinham deixado um gosto amargo. Livros sobre a guerra n&atilde;o vendiam. Todos buscavam uma nova era de paz e queriam esquecer a guerra. Aqui havia alguma coisa que capturava a imagina&ccedil;&atilde;o: olhos humanos olhando, a partir de uma terra coberta com t&uacute;mulos e sangue, para o c&eacute;u coberto de estrelas. O pensamento abstrato levando a mente humana para longe da triste e desapontadora realidade. O mist&eacute;rio do eclipse do Sol e a for&ccedil;a penetrante da mente humana. Um cen&aacute;rio rom&acirc;ntico, uma olhada diferente para o sol eclipsado, um quadro imagin&aacute;rio da curvatura dos raios do Sol, tudo removido da opressiva realidade da vida. Uma raz&atilde;o adicional, talvez ainda mais importante, um novo evento era previsto por um cientista alem&atilde;o - Einstein - e confirmado por astr&ocirc;nomos ingleses. Cientistas pertencentes a duas na&ccedil;&otilde;es advers&aacute;rias tinha colaborado novamente. Parecia o in&iacute;cio de uma nova era. &#91;3&#93;</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Possivelmente, devido &agrave; dificuldade de explicar aqueles conceitos complicados ao p&uacute;blico n&atilde;o especializado, os jornalistas centravam suas mat&eacute;rias sobre o cientista - Einstein. Quando Einstein esteve no Brasil em 1925, o <i>O Jornal</i> estampou em sua primeira p&aacute;gina o t&iacute;tulo "Um g&ecirc;nio com uma parcela de divindade" &#91;4&#93;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas nem tudo era festa para Einstein. Ao mesmo tempo em que muitos se interessavam pela nova teoria f&iacute;sica ou celebravam o in&iacute;cio de novos tempos, havia muitas cr&iacute;ticas &agrave; relatividade e ao pr&oacute;prio Einstein. Havia astr&ocirc;nomos que criticavam a comiss&atilde;o do eclipse de 1919 e os c&aacute;lculos realizados, que consideraram inadequadas v&aacute;rias placas fotogr&aacute;ficas, as quais poderiam ter alterado o resultado &#91;5&#93;. Alguns f&iacute;sicos tamb&eacute;m tinham resist&ecirc;ncia &agrave; nova teoria, que achavam que estava mais para metaf&iacute;sica do que para ci&ecirc;ncia de fato. E por fim, aqueles que viam em Einstein um traidor da Alemanha e do imperador por ter sido contr&aacute;rio &agrave; guerra, por ter abdicado da nacionalidade alem&atilde; quando era jovem, por estar se relacionando com cientistas de pa&iacute;ses inimigos, ou simplesmente pelo fato de ser judeu.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Einstein denominou esse movimento de "campanha anti-relatividade". Os ataques foram aumentando, passando para amea&ccedil;as de agress&atilde;o e morte. Einstein pensava em abandonar a Alemanha e retornar para a Su&iacute;&ccedil;a ou ir para a Holanda. Max Planck e outros cientistas tentaram demov&ecirc;-lo da ideia afirmando que aquele movimento todo ia passar, al&eacute;m disso, Berlim continuava sendo o centro da f&iacute;sica no mundo. Paralelamente, Einstein come&ccedil;ou a perceber seu grande acesso &agrave; m&iacute;dia, aos pol&iacute;ticos e governantes. Ele, que tinha a ideia de que o cientista n&atilde;o devia ficar fechado em seu meio, mas tornar o conhecimento acess&iacute;vel &agrave; popula&ccedil;&atilde;o e atuar pelas causas que achavam importantes, resolveu utilizar seu prest&iacute;gio para lutar pelo pacifismo, pela maior coopera&ccedil;&atilde;o entre os cientistas de todo o mundo e pela constru&ccedil;&atilde;o de um lar nacional judaico. Ele fez v&aacute;rias viagens com esses objetivos e deu entrevistas para r&aacute;dios e jornais levantando esses temas. Suas palestras e cursos na universidade eram abertos n&atilde;o s&oacute; a alunos e pesquisadores, mas a qualquer um que quisesse assistir suas aulas. Suas manifesta&ccedil;&otilde;es em favor da paz e dos direitos humanos continuaram nos Estados Unidos, para onde emigrou ap&oacute;s a ascens&atilde;o do nazismo. Seu &uacute;ltimo ato antes de falecer em 1955 foi subscrever um manifesto junto com Bertrand Russell sobre os perigos de uma guerra nuclear.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dessa forma, o escuro produzido pelo eclipse do Sol em 1919 serviu n&atilde;o s&oacute; para mudar radicalmente a f&iacute;sica, mas tamb&eacute;m para lan&ccedil;ar Einstein &agrave; ribalta e ao centro de grandes eventos que marcariam o s&eacute;culo XX.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1.	Folsing, A. <i>Albert Einstein.</i> New York: Penguin Books. pp.442-443. 1998.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2.	Idem. p.450.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3.	Clark, R. <i>Einstein: the life and times.</i> London: Hodder &amp; Stoughton. p.243. 1973.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4.	Tolmasquim, A. T. <i>Einstein - o viajante da relatividade na Am&eacute;rica do Sul.</i> Rio de Janeiro: Vieira &amp; Lent. 2003.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5.	Kennefick, D. "Not only because of theory: Dyson, Eddington, and the competing myths of the 1919 eclipse expedition". In: Lehrer, C.; Renn, J.; Schemmel, M. (eds.). <i>Einstein and the changing worldviews of physics.</i> New York: Springer / Birkh&auml;user. 2012. pp. 201-232.    </font></p>      ]]></body><back>
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