<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252020000100002</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.21800/2317-66602020000100002</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A rejeição ao programa Future-se]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Salles]]></surname>
<given-names><![CDATA[João Carlos]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="AFF"/>
<xref ref-type="aff" rid="AAF"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="AF1">
<institution><![CDATA[,UFBA  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="AF2">
<institution><![CDATA[,Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições de Ensino Superior  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>01</month>
<year>2020</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>01</month>
<year>2020</year>
</pub-date>
<volume>72</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>04</fpage>
<lpage>05</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252020000100002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252020000100002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252020000100002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TEND&Ecirc;NCIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="nta"></a><b>A rejei&ccedil;&atilde;o ao programa Future-se<a href="#nt"><sup>*</sup></a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Jo&atilde;o Carlos Salles</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professor de filosofia, reitor da UFBA e presidente da Associa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Dirigentes de Institui&ccedil;&otilde;es de Ensino Superior (Andifes). Pesquisador 1B do CNPq, foi presidente da Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Filosofia (Anpof) e da Sociedade Interamericana de Filosofia (SIF). Entre outros livros, publicou A gram&aacute;tica das cores em Wittgenstein (2002), O c&eacute;tico e o enxadrista (2012) e A cl&aacute;usula zero do conhecimento (2017)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">At&eacute; quando o governo federal h&aacute; de ignorar a voz das universidades em cujo socorro afirma orientar-se? Afinal, as universidades federais rejeitaram o Programa Universidades e Institutos Empreendedores e Inovadores &mdash; Future-se. As manifesta&ccedil;&otilde;es formais das institui&ccedil;&otilde;es indicaram ser tal programa, nas primeiras vers&otilde;es apresentadas e julgadas por nossas inst&acirc;ncias, uma amea&ccedil;a ao inteiro sistema federal de ensino superior. N&atilde;o obstante, o governo faz ouvidos moucos e volta a apresentar mais uma vers&atilde;o de seu programa. Elas variam, mas todas reiteram uma radical incompreens&atilde;o da natureza da universidade p&uacute;blica e de seu papel em nosso pa&iacute;s.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em qualquer delas, atenta-se contra a autonomia de gest&atilde;o, por exemplo, introduzindo a figura de um contrato de desempenho e retirando das administra&ccedil;&otilde;es centrais parte de seus contratos. Quase como uma provoca&ccedil;&atilde;o, a autonomia &eacute; reduzida, pretextando-se, retoricamente, que seria ampliada. Mais ainda, como por ironia, incluem-se procedimentos que inibem a gest&atilde;o ao lado de men&ccedil;&otilde;es expl&iacute;citas &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o Federal &mdash; em particular, a seu artigo 207. Tal men&ccedil;&atilde;o j&aacute; pareceria por si um v&iacute;cio l&oacute;gico, como se algum projeto de lei pudesse garantir ou suprimir um preceito constitucional; e, com efeito, o que a l&oacute;gica sugere ser um v&iacute;cio a an&aacute;lise jur&iacute;dica n&atilde;o h&aacute; de mostrar como virtude. Pelo texto constitucional, &eacute; conferida &agrave;s universidades uma autonomia que n&atilde;o pode nem precisa ser ampliada. Seu limite &eacute; o horizonte da Constitui&ccedil;&atilde;o, mas &eacute; especial, n&atilde;o se assemelhando &agrave;quela atribu&iacute;da</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">a outros entes da Administra&ccedil;&atilde;o Indireta exatamente por ser constitucionalmente qualificada, da mesma forma que a conferida aos entes pol&iacute;ticos na Federa&ccedil;&atilde;o brasileira, encontrando-se, portanto, entrincheirada e submetida a verdadeira blindagem constitucional que recha&ccedil;a qualquer medida tendente a aboli-la ou mesmo a mitig&aacute;-la. &#91;1&#93;</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em outras palavras, seu estatuto &eacute; o de um preceito fundamental, que vincula aos princ&iacute;pios de liberdade de express&atilde;o e manifesta&ccedil;&atilde;o do pensamento - comuns a qualquer ente - a distin&ccedil;&atilde;o das universidades, por constitu&iacute;rem um lugar especial de produ&ccedil;&atilde;o do pensamento, em que a autonomia se associa &agrave; obedi&ecirc;ncia de um princ&iacute;pio, pelo qual ensino, pesquisa e extens&atilde;o s&atilde;o indissoci&aacute;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Eis o texto do artigo 207 da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As universidades gozam de autonomia did&aacute;tico-cient&iacute;fica, administrativa e de gest&atilde;o financeira e patrimonial, e obedecer&atilde;o ao princ&iacute;pio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extens&atilde;o.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A estrutura l&oacute;gica do artigo permite estabelecer com precis&atilde;o suas condi&ccedil;&otilde;es de verdade. Uma conjun&ccedil;&atilde;o principal o divide em duas partes. A primeira se resolve em outras conjun&ccedil;&otilde;es, enquanto a segunda conjuga em um todo indissol&uacute;vel um princ&iacute;pio a ser obedecido. De um ponto de vista l&oacute;gico, a verdade de uma proposi&ccedil;&atilde;o conjunta &eacute; fun&ccedil;&atilde;o da verdade de suas proposi&ccedil;&otilde;es componentes. S&oacute; ser&aacute; verdadeira a conjun&ccedil;&atilde;o, se todas as suas componentes forem verdadeiras.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assim, tanto pela natureza l&oacute;gica do enunciado da regra, quanto pela da institui&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o tem sentido uma autonomia did&aacute;tico-cient&iacute;fica sem uma autonomia administrativa etc., assim como a autonomia tem sua justificativa na natureza mesma da institui&ccedil;&atilde;o, cuja maturidade deliberativa resulta do modo como produz e transmite conhecimento, al&eacute;m de relacion&aacute;-lo com o interesse da sociedade. Tamb&eacute;m essa conjun&ccedil;&atilde;o bem estabelecida entre autonomia e natureza institucional solicita a garantia de recursos pelo Estado, de sorte que temos a determina&ccedil;&atilde;o de autonomia de gest&atilde;o financeira. Uma proposta que amesquinhe qualquer um dos lados dessa grande conjun&ccedil;&atilde;o, ou que subtraia algum de seus componentes, estar&aacute; agredindo a Constitui&ccedil;&atilde;o. Em caso de apresentar-se de forma dissimulada, em que se retira exatamente o que se menciona, temos um indicativo ainda mais grave de burla sorrateira &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tal burla &eacute; evidente no empobrecimento dos eixos tem&aacute;ticos do Future-se. Al&eacute;m de estarem reduzidos a tr&ecirc;s &mdash; 1) pesquisa, desenvolvimento tecnol&oacute;gico e inova&ccedil;&atilde;o; 2) empreendedorismo; 3) internacionaliza&ccedil;&atilde;o &mdash;, h&aacute; o agravante de se determinarem ora pela fonte de financiamento, ora pela descri&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&otilde;es pragm&aacute;ticas, sem que estejam regidos pelo princ&iacute;pio da indissociabilidade de ensino, pesquisa e extens&atilde;o. Em especial, &eacute; empobrecida a vis&atilde;o de empreendedorismo que o programa tanto louva. Universidades p&uacute;blicas n&atilde;o s&atilde;o empresas. Nelas, portanto, as a&ccedil;&otilde;es empreendedoras n&atilde;o se podem reger por princ&iacute;pios estranhos &agrave; sua natureza p&uacute;blica ou ao seu projeto institucional. Precisamente isso, o mais elevado interesse da educa&ccedil;&atilde;o superior p&uacute;blica, a Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de 1988 expressou. O legislador teve a felicidade de associar a afirma&ccedil;&atilde;o da autonomia universit&aacute;ria a um projeto de institui&ccedil;&atilde;o, espelhado no conv&iacute;vio e na colabora&ccedil;&atilde;o entre as m&uacute;ltiplas dimens&otilde;es e &aacute;reas da vida universit&aacute;ria. Quem afirma a obedi&ecirc;ncia &agrave; autonomia prevista no artigo, mas desconsidera o projeto pleno de universidade a ele associado, pratica uma esp&eacute;cie de contradi&ccedil;&atilde;o perform&aacute;tica; comporta-se como aquele <i>mohel</i> que pendura um grande rel&oacute;gio na entrada de sua loja, mesmo sabendo n&atilde;o ser esse o seu neg&oacute;cio.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Significa ademais uma burla &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o afirmar que tal autonomia possa ser ampliada (como se o pleno pudesse ser mais pleno), pois isso se dar&aacute; ao pre&ccedil;o de uma diminui&ccedil;&atilde;o na aplica&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio. A amea&ccedil;a &agrave; autonomia universit&aacute;ria pode, ent&atilde;o, ser direta pela restri&ccedil;&atilde;o ao direito de autorregula&ccedil;&atilde;o da universidade, mas tamb&eacute;m pela diminui&ccedil;&atilde;o do projeto mesmo da universidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Agora, o governo surpreende com o mesmo, publica uma nova vers&atilde;o do Future-se (DOU, 03/01/2020). E mant&eacute;m, sim, suas convic&ccedil;&otilde;es; t&atilde;o fortes que n&atilde;o recua mesmo em pontos j&aacute; intensamente questionados. A &ecirc;nfase em retribui&ccedil;&atilde;o por desempenho continua, inclinando a gest&atilde;o por uma esp&eacute;cie de refor&ccedil;o operante, alimentado por retornos mais imediatos; e substituir "contrato de desempenho" por "contrato de resultado" n&atilde;o muda o sentido da express&atilde;o, que &eacute; o de diminuir o papel das administra&ccedil;&otilde;es centrais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mant&eacute;m-se a ideia de "sociedade de prop&oacute;sito espec&iacute;fico" e a indistin&ccedil;&atilde;o entre institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas e privadas na revalida&ccedil;&atilde;o de diplomas, al&eacute;m do uso de termos impr&oacute;prios em uma legisla&ccedil;&atilde;o, como o de "facilita&ccedil;&atilde;o" de acredita&ccedil;&atilde;o de disciplinas. Continua a ideia de ades&atilde;o, porque condicionado o programa &agrave; celebra&ccedil;&atilde;o de um contrato, com o que se quebra a unidade das pol&iacute;ticas destinadas ao conjunto do sistema de ensino superior. Continua, portanto, a interfer&ecirc;ncia na gest&atilde;o de contratos, mas tamb&eacute;m na orienta&ccedil;&atilde;o did&aacute;tico-cient&iacute;fica, com a indica&ccedil;&atilde;o de disciplinas a serem oferecidas ou acrescentadas ou de focos tem&aacute;ticos priorit&aacute;rios.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; inclusive uma press&atilde;o pol&iacute;tica nova e estranha, pois a proposta subordina, preferencialmente, a concess&atilde;o de recursos da Coordena&ccedil;&atilde;o de Aperfei&ccedil;oamento de Pessoal de N&iacute;vel Superior (Capes) ao programa Future-se e n&atilde;o &agrave; necessidade e &agrave; pol&iacute;tica mais ampla de aperfei&ccedil;oamento e forma&ccedil;&atilde;o. Por isso, unilateral e focada em uma concep&ccedil;&atilde;o de empreendedorismo estreita, a proposta n&atilde;o est&aacute; &agrave; altura da riqueza e da diversidade de nossas institui&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A extens&atilde;o universit&aacute;ria &eacute; ignorada; o foco &eacute; maior na inova&ccedil;&atilde;o do que na pesquisa que a possibilita; e o interesse do mercado parece mais relevante que a produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento, quando, ao contr&aacute;rio, ela envolve rela&ccedil;&otilde;es mais amplas, diversas e generosas com a sociedade, n&atilde;o podendo ser reduzida a indicadores de empregabilidade. Nossas institui&ccedil;&otilde;es, entretanto, v&atilde;o analisar a nova proposta. &Eacute; o nosso m&eacute;todo. Para o governo, o programa passou a ser sua pr&oacute;pria meta, de modo que seus indicadores n&atilde;o precisam sequer referir-se &agrave; expans&atilde;o e &agrave; qualidade do sistema de educa&ccedil;&atilde;o j&aacute; pactuadas. A proposta atual, como as anteriores, atenta contra a autonomia universit&aacute;ria, indica descompromisso do Estado com o financiamento p&uacute;blico da educa&ccedil;&atilde;o superior e agride a plenitude, a integridade e a unidade de cada institui&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria e do inteiro sistema de ensino superior federal. Qualquer a justificativa ret&oacute;rica (ou, mais ainda, por sua ret&oacute;rica de guerra), a natureza do programa &eacute; clara, devendo, portanto, ser mais uma vez rejeitado.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Notas</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Cf. Parecer da Comiss&atilde;o para An&aacute;lise do Programa Future-se, Faculdade de Direito da UFBA.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="nt"></a><a href="#nta">*</a> Este texto &eacute; uma vers&atilde;o reduzida do documento que apresentou as raz&otilde;es da rejei&ccedil;&atilde;o un&acirc;nime do Future-se pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).</font></p>      ]]></body>
</article>
