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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br>   MEIO AMBIENTE</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>F&eacute; na ci&ecirc;ncia para salvar a Amaz&ocirc;nia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Diego Freire</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nem sempre aliadas e, n&atilde;o raro, inimigas declaradas, ci&ecirc;ncia e religi&atilde;o deram as m&atilde;os no S&iacute;nodo dos Bispos para a Regi&atilde;o da Pan-Amaz&ocirc;nia, reuni&atilde;o de l&iacute;deres cat&oacute;licos ocorrida em outubro passado, no Vaticano, para discutir respostas da Igreja Cat&oacute;lica a quest&otilde;es ligadas ao meio ambiente e aos povos ind&iacute;genas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">S&iacute;nodos s&atilde;o uma esp&eacute;cie de consulta do papa a especialistas. O documento resultante da reuni&atilde;o, a exorta&ccedil;&atilde;o apost&oacute;lica, &eacute; elaborado ap&oacute;s os convocados debaterem as quest&otilde;es em pauta para que, posteriormente, o papa oriente o clero ao redor do mundo sobre como agir. No S&iacute;nodo da Amaz&ocirc;nia, as diretrizes foram "aumentar a presen&ccedil;a da igreja na regi&atilde;o", "refor&ccedil;ar a defesa da ecologia, defender a demarca&ccedil;&atilde;o de terras ind&iacute;genas", "rejeitar empreendimentos com impactos negativos para os povos" e "incentivar uma maior participa&ccedil;&atilde;o nas discuss&otilde;es pol&iacute;ticas relacionadas", entre outras. De acordo com um dos respons&aacute;veis pela sua elabora&ccedil;&atilde;o, o cardeal Pedro Barreto Jimeno, do Peru, "tudo fortemente pautado por evid&ecirc;ncias cient&iacute;ficas".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n1/a05fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O texto classifica a Amaz&ocirc;nia como "cora&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gico" amea&ccedil;ado. "A ci&ecirc;ncia est&aacute; nos mostrando que esse cora&ccedil;&atilde;o est&aacute; doente e os cientistas n&atilde;o est&atilde;o errados. Dois e dois s&atilde;o quatro em qualquer parte do mundo", defende o cardeal, um dos tr&ecirc;s prelados escolhidos pelo Papa Francisco para supervisionar a organiza&ccedil;&atilde;o do evento. "N&atilde;o podemos combater adequadamente essa degrada&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica se n&atilde;o prestarmos aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s causas diretamente relacionadas a ela, que s&atilde;o humanas - e a ci&ecirc;ncia nos tem fornecido uma importante b&uacute;ssola para isso."</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dessa forma, refer&ecirc;ncias b&iacute;blicas compartilham espa&ccedil;o na exorta&ccedil;&atilde;o apost&oacute;lica com cita&ccedil;&otilde;es da Academia Nacional de Ci&ecirc;ncias dos Estados Unidos: "40% de desmatamento constitui um ponto de inflex&atilde;o do bioma amaz&ocirc;nico rumo &agrave; desertifica&ccedil;&atilde;o, o que significa a transi&ccedil;&atilde;o para uma nova condi&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica geralmente irrevers&iacute;vel", alerta o documento.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SEM CETICISMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para a jornalista ambiental N&aacute;dia Pontes, que cobriu o s&iacute;nodo para a empresa p&uacute;blica de radiodifus&atilde;o alem&atilde; Deutsche Welle, a igreja n&atilde;o tem d&uacute;vida da influ&ecirc;ncia humana na transforma&ccedil;&atilde;o do meio ambiente. "As mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas e sua rela&ccedil;&atilde;o com a atividade humana foram tratadas na ocasi&atilde;o como uma realidade, assim como o papel da Amaz&ocirc;nia para o planeta, e a igreja parece n&atilde;o querer se furtar da import&acirc;ncia de sua presen&ccedil;a na regi&atilde;o na busca por solu&ccedil;&otilde;es", conta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma das iniciativas nessa dire&ccedil;&atilde;o &eacute; o alerta que o documento faz sobre a regi&atilde;o n&atilde;o ser uma fonte inesgot&aacute;vel de recursos, "buscando-se por um novo paradigma de desenvolvimento sustent&aacute;vel, no qual urg&ecirc;ncias comerciais n&atilde;o se sobreponham &agrave; conserva&ccedil;&atilde;o do meio ambiente e aos direitos humanos".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As bases para esse novo paradigma foram fornecidas por cientistas - entre eles, o climatologista brasileiro Carlos Nobre, respons&aacute;vel pela apresenta&ccedil;&atilde;o do conceito de bioeconomia na abertura do s&iacute;nodo, no Vaticano. Nobre integra o Painel Intergovernamental de Mudan&ccedil;as do Clima (IPCC), ganhador do Nobel da Paz de 2007.  A defesa do cientista &eacute; por uma "quarta revolu&ccedil;&atilde;o industrial" iniciada pela bioeconomia, baseada no aprofundamento do conhecimento da biodiversidade local para que seus potenciais sejam plenamente aproveitados por uma economia que mantenha a floresta de p&eacute;. "S&atilde;o muitos os segredos guardados pelas plantas da Amaz&ocirc;nia, como princ&iacute;pios ativos para novos medicamentos, &oacute;leos e ess&ecirc;ncias, uma diversidade incalcul&aacute;vel de mat&eacute;ria-prima para tecnologias do futuro e tudo aquilo sobre o que ainda n&atilde;o se sabe. Derrubar a floresta para convert&ecirc;-la em pasto &eacute; prescindir desse imenso potencial tecnol&oacute;gico para as pr&oacute;ximas d&eacute;cadas e gera&ccedil;&otilde;es", alerta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No <i>Instrumentum Laboris</i>, documento cat&oacute;lico que serviu de base para as discuss&otilde;es do s&iacute;nodo, o Vaticano diz que "a vida na Amaz&ocirc;nia est&aacute; amea&ccedil;ada pela destrui&ccedil;&atilde;o e explora&ccedil;&atilde;o ambiental e pela viola&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica dos direitos humanos elementares da popula&ccedil;&atilde;o amaz&ocirc;nica", e que "a amea&ccedil;a &agrave; vida deriva de interesses econ&ocirc;micos e pol&iacute;ticos dos setores dominantes", denunciando o papel das empresas extrativistas no processo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MAPA CIENT&Iacute;FICO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A convers&atilde;o da mata em nada &eacute; uma realidade para as florestas tropicais ao redor do mundo: menos de 50% de todas que j&aacute; existiram permanecem de p&eacute;, com grande parte da cobertura florestal remanescente afetada pela extra&ccedil;&atilde;o madeireira e por inc&ecirc;ndios, minera&ccedil;&atilde;o e ca&ccedil;a. Um estudo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de S&atilde;o Paulo (Esalq-USP), com a colabora&ccedil;&atilde;o de pesquisadores de institui&ccedil;&otilde;es da Alemanha, da Austr&aacute;lia e dos Estados Unidos, oferece um caminho para a bioeconomia. Foram identificadas nele oportunidades de restaura&ccedil;&atilde;o em paisagens de floresta tropical de diversas regi&otilde;es do planeta, considerando a viabilidade socioambiental de cada uma.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ap&oacute;s quatro anos de an&aacute;lises de imagens de sat&eacute;lites cruzadas com dados socioecon&ocirc;micos das regi&otilde;es inclu&iacute;das no estudo, os pesquisadores cobriram um conjunto de dados espaciais em escala global. "A ideia &eacute; que esses dados ajudem a atingir benef&iacute;cios socioambientais, com consequ&ecirc;ncias diretas e indiretas para a natureza, as economias e o bem-estar humano", conta o engenheiro-agr&ocirc;nomo Pedro Brancalion, do Departamento de Ci&ecirc;ncias Florestais da Esalq. Os dados foram publicados em 2019, na <i>Science Advances</i> e apontam que a &aacute;rea global restaur&aacute;vel em paisagens tropicais &eacute; de 863 milh&otilde;es de hectares (Mha), um territ&oacute;rio maior que o do Brasil. Para Carlos Nobre, esse &eacute; apenas um dos caminhos que a ci&ecirc;ncia oferece. "&Eacute; preciso ouvir nossos cientistas, t&atilde;o sens&iacute;veis e dedicados &agrave; Amaz&ocirc;nia, assim como os povos que a habitam desde os tempos ancestrais."</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PROTAGONISMO IND&Iacute;GENA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por conta do que apontam os cientistas sobre a gravidade do desmatamento e da influ&ecirc;ncia humana nas mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas, entre outros perigos para a floresta, o S&iacute;nodo da Amaz&ocirc;nia recebeu fortes cr&iacute;ticas do governo brasileiro. Outra quest&atilde;o &agrave; qual a igreja se dedicou tamb&eacute;m diz respeito &agrave; postura do Estado na regi&atilde;o, apontou o bispo em&eacute;rito do Xingu, Dom Erwin Kr&auml;utler, em entrevista &agrave; jornalista N&aacute;dia Pontes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De acordo com ele, "o S&iacute;nodo da Amaz&ocirc;nia colocou ind&iacute;genas no centro da aten&ccedil;&atilde;o e a Igreja Cat&oacute;lica vai exigir que o governo brasileiro os proteja". Para o cl&eacute;rigo, a raz&atilde;o do descaso com a regi&atilde;o e seus povos &eacute; financeira. "O presidente coloca na cabe&ccedil;a que temos que abrir a Amaz&ocirc;nia para a exporta&ccedil;&atilde;o. E o que s&atilde;o as exporta&ccedil;&otilde;es? Soja e carne. Ent&atilde;o, derruba-se a floresta para conseguir pasto para o gado, e a soja vai entrando pelos fundos. A ideia &eacute; aumentar a exporta&ccedil;&atilde;o em detrimento da pr&oacute;pria sobreviv&ecirc;ncia dos povos que est&atilde;o na Amaz&ocirc;nia. E, desse jeito, os ind&iacute;genas n&atilde;o v&atilde;o sobreviver culturalmente e mesmo fisicamente."</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n1/a05fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n1/a05fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A exorta&ccedil;&atilde;o da igreja faz o <i>mea culpa</i> ao revisitar seu passado colonial e lembra que "o Papa Francisco pediu humildemente perd&atilde;o n&atilde;o s&oacute; pelas ofensas da pr&oacute;pria igreja, mas tamb&eacute;m pelos crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da Am&eacute;rica". O documento diz ainda que "abusos provocaram feridas nas comunidades e ofuscaram a mensagem da Boa Nova" e que "o an&uacute;ncio de Cristo se realizou frequentemente em coniv&ecirc;ncia com os poderes que exploravam os recursos e oprimiam popula&ccedil;&otilde;es".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m do pedido de desculpas, a igreja recomenda que o clero "assuma sem medo a aplica&ccedil;&atilde;o da op&ccedil;&atilde;o preferencial pelos pobres na luta dos povos ind&iacute;genas, das comunidades tradicionais, dos migrantes e dos jovens (...), rejeitando a alian&ccedil;a com a cultura dominante e o poder pol&iacute;tico e econ&ocirc;mico, para promover as culturas e os direitos dos ind&iacute;genas". Uma reconcilia&ccedil;&atilde;o a exemplo do que vem ocorrendo entre a S&eacute; e ci&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O documento final do S&iacute;nodo da Amaz&ocirc;nia pode ser acessado no <i>Vatican News</i>, portal oficial de not&iacute;cias do Vaticano.</font></p>      ]]></body>
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