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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Diálogos Makii de Francisco Alves de Souza: manuscrito de uma congregação católica de africanos Mina]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br>   RESENHA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Di&aacute;logos <i>Makii</i> de Francisco Alves de Souza: manuscrito de uma congrega&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica de africanos Mina</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Andr&eacute; Rosemberg</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Graduado em direito, doutor em hist&oacute;ria social pela Universidade de S&atilde;o Paulo (USP &ndash; 2008) e p&oacute;s-doutor pelo Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Mar&iacute;lia) e pela PUC-SP na &aacute;rea de hist&oacute;ria social</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dois s&atilde;o os aspectos que fazem de <i>Di&aacute;logos Makii, </i>de Francisco Alves de Souza, com organiza&ccedil;&atilde;o de Mariza de Carvalho Soares (Editora Ch&atilde;o, 2019), uma obra extraordin&aacute;ria. O livro publica de forma in&eacute;dita a obra original, cujo manuscrito dormita desde o s&eacute;culo XIX nos arquivos da Biblioteca Nacional. A edi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica tamb&eacute;m colige notas, anexos e um posf&aacute;cio de autoria da organizadora.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O primeiro aspecto, e o mais evidente, &eacute; sua for&ccedil;a como documento hist&oacute;rico. Escrito, conforme aponta a organizadora, provavelmente em 1785, <i>Di&aacute;logos Makii</i> s&atilde;o um registro raro, rar&iacute;ssimo, de um texto legado pelas m&atilde;os de um escravizado. A biografia do autor alinhavada pela organizadora, substanciada nos documentos dispon&iacute;veis - registro de batismo e casamento e  um testamento -, aponta que Francisco Alves de Souza foi escravizado na Costa da Mina e chegou menino em Salvador, tendo sido vendido para um comerciante carioca em 1748, provavelmente aos doze anos, quando foi levado ao Rio de Janeiro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O segundo aspecto que deve ser destacado &eacute; a for&ccedil;a liter&aacute;ria da obra. A leitura dos <i>Di&aacute;logos Makii </i> seduz as sensibilidades do leitor, que acompanha, em dois relatos distintos, 1) as perip&eacute;cias de personagens "reais", incrustados numa trama de conflitos, dissimula&ccedil;&otilde;es e luta pelo poder, mestramente entretecidas pelo autor, no molde formal dos di&aacute;logos; e 2) um relato hist&oacute;rico da origem do povo Makii, do qual Franciso Alves de Souza &eacute; origin&aacute;rio, e que foi emprestado da obra de Pedro Mariz, <i>Di&aacute;logos de varia historia em que sumariamente se referem muyta...</i>, de 1597.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n1/a19fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No que toca ao seu car&aacute;ter de documento hist&oacute;rico, os <i>Di&aacute;logos Makii</i> s&atilde;o a formaliza&ccedil;&atilde;o por escrito das "regras e estatutos" que comandavam a Congrega&ccedil;&atilde;o Makii, irmandade instalada na igreja de Santo Elesb&atilde;o e Santa Ifig&ecirc;nia, e que vigoravam - de forma t&aacute;cita e oral - desde 1740 (em 1764, depois de um conflito pela lideran&ccedil;a da congrega&ccedil;&atilde;o, a irmandade enviou para Lisboa um pedido de reforma do compromisso. O estatuto que acompanha os <i>Di&aacute;logos</i> &eacute; a formaliza&ccedil;&atilde;o desse &uacute;ltimo pedido).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tamb&eacute;m cuidavam os <i>Di&aacute;logos Makii</i> do processo de entroniza&ccedil;&atilde;o de Francisco Alves de Souza como regente da congrega&ccedil;&atilde;o em substitui&ccedil;&atilde;o ao rei anterior, Ignacio Gon&ccedil;alves do Monte, morto em 1785. A Congrega&ccedil;&atilde;o Makii fazia parte do rol das associa&ccedil;&otilde;es de ajuda m&uacute;tua e assistencial que reuniam os africanos escravizados e desterrados de &Aacute;frica. Elas mimetizavam - com menor ou maior grau de aproxima&ccedil;&atilde;o - as sociedades religiosas leigas que compunham o cen&aacute;rio social do Rio de Janeiro do s&eacute;culo XVIII, tendo como pano de fundo o regime de padroado que impingia o catolicismo como religi&atilde;o oficial do imp&eacute;rio portugu&ecirc;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os Makii, por sua vez, eram um grupo &eacute;tnico origin&aacute;rio da &Aacute;frica Ocidental, que ocupava um territ&oacute;rio adjacente ao dos Daom&eacute;, ainda que haja, conforme atesta Mariza de Carvalho Soares, v&aacute;rias lacunas na historiografia sobre esse povo, o que dificulta precis&otilde;es. Num recorte did&aacute;tico, podemos enquadrar os Makii no grande grupo de cativos que foram embarcados para o Brasil a partir dos v&aacute;rios portos que polvilhavam o golfo da Guin&eacute;, denominado pelos traficantes como Costa da Mina, em refer&ecirc;ncia ao forte S&atilde;o Jorge de Mina, constru&iacute;do no que hoje &eacute; o litoral de Gana.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os <i>Di&aacute;logos Makii </i>foram estruturados a partir da interlocu&ccedil;&atilde;o de duas figuras: o regente da congrega&ccedil;&atilde;o, Francisco Alves de Souza, e o secret&aacute;rio da entidade, o alferes Gon&ccedil;alo Cordeiro. O relato t&ecirc;m como objetivo afirmar a necessidade de a congrega&ccedil;&atilde;o se manter alheia "de todo o abuso gent&iacute;lico, e supersticioso" (pr&aacute;ticas n&atilde;o-crist&atilde;s associadas &agrave; feiti&ccedil;aria). Os estatutos, estabelecidos no fim do texto, regulavam principalmente a conduta esperada dos membros em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s caridades praticadas no seio da comunidade Makii e o "sufr&aacute;gio &agrave;s almas", isto &eacute;, a elabora&ccedil;&atilde;o e a organiza&ccedil;&atilde;o dos rituais f&uacute;nebres que sucediam ao falecimento de algum dos membros da irmandade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com rela&ccedil;&atilde;o ao aspecto liter&aacute;rio da obra, os <i>Di&aacute;logosMakii</i> se vinculam a uma tradi&ccedil;&atilde;o que remonta &agrave; antiguidade cl&aacute;ssica. Os di&aacute;logos s&atilde;o um recurso ret&oacute;rico, utilizado para expor controv&eacute;rsias de ideias pol&iacute;ticas, religiosas e econ&ocirc;micas, conforme relata Mariza de Carvalho Souza no posf&aacute;cio. O mais interessante nos <i>Di&aacute;logos Makii</i> &eacute; perceber, nas brechas do formalismo que marca os requisitos do instrumento, o engenho de Francisco Alves de Souza no manejo de uma linguagem liter&aacute;ria, de que ele lan&ccedil;a m&atilde;o com o fito de realizar sua miss&atilde;o persuasiva.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em muitas passagens, as met&aacute;foras, as perip&eacute;cias dos personagens e as dissimula&ccedil;&otilde;es e nega&ccedil;as em que se empenham os interlocutores aproximam o texto de uma estrutura narrativa de car&aacute;ter ficcional, principalmente quando s&atilde;o relatados os empecilhos impostos pela vi&uacute;va do rei morto (que n&atilde;o &eacute; nomeada, mas que o empenho historiogr&aacute;fico identificou como sendo Victoria Correa) em ceder a primazia do trono a Francisco, bem como a recusa de lhe entregar as "tralhas" deixadas pelo falecido e que pertenceriam &agrave; congrega&ccedil;&atilde;o. Se n&atilde;o, veja essa passagem da p&aacute;gina 22, quando o alferes Cordeiro se esfor&ccedil;a para convencer Francisco Alves de Souza a assumir a reg&ecirc;ncia da congrega&ccedil;&atilde;o: "N&atilde;o seja importuno, e veja que h&aacute; de morrer, ou&ccedil;a-me gl&oacute;rias, que h&atilde;o de ser de t&atilde;o pouca dura, para que &eacute; possu&iacute;-las? Vida que t&atilde;o brevemente se acaba, para que press&aacute;-la? Finalmente para que &eacute; fazer tanto apre&ccedil;o e estima&ccedil;&atilde;o de uma exala&ccedil;&atilde;o que desaparece, de uma seta que rompe o ar, de uma ave que voa, que n&atilde;o tem jazigo? &#91;...&#93;".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como se v&ecirc;, em qualquer dos dois aspectos citados, os Di&aacute;logos Makii s&atilde;o um documento essencial que ajuda na compreens&atilde;o dos modos de sociabilidade dos escravizados no Rio de Janeiro do s&eacute;culo XVIII, al&eacute;m de remarcar o protagonismo da popula&ccedil;&atilde;o escrava na organiza&ccedil;&atilde;o de seu cotidiano numa sociedade escravista do antigo regime e, para finalizar, demonstra como esses atores operavam e manejavam as institui&ccedil;&otilde;es dispon&iacute;veis, algumas delas imputadas pelo senso comum como sendo privativas do mundo dos brancos.</font></p>      ]]></body>
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