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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TEND&Ecirc;NCIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A mula e a roseta</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Paulo Markun</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Jornalista, documentarista e escritor</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Esta &eacute;, no curso da minha vida, a hora mais sombria da humanidade - uma grande amea&ccedil;a para o mundo inteiro - e exige que permane&ccedil;amos elevados, unidos e protegendo os mais vulner&aacute;veis de nossos companheiros cidad&atilde;os". Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI. "J&aacute; enfrentamos desafios antes, mas este &eacute; diferente. Desta vez, nos unimos a todas as na&ccedil;&otilde;es do mundo em um esfor&ccedil;o comum. Usando os grandes avan&ccedil;os e ci&ecirc;ncia e nossa compaix&atilde;o instintiva para curar. Teremos sucesso - e esse sucesso pertencer&aacute; a todos e cada um de n&oacute;s. Devemos ter consolo de que, embora tenhamos mais ainda para aguentar, dias melhores voltar&atilde;o". Rainha Elizabeth II. "Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. N&atilde;o nos detivemos perante os teus apelos, n&atilde;o despertamos face a guerras e injusti&ccedil;as planet&aacute;rias, n&atilde;o ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avan&ccedil;amos, destemidos, pensando que continuar&iacute;amos sempre saud&aacute;veis num mundo doente. Agora, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: 'Acorda, Senhor!'" Papa Francisco. "Uma pandemia mostra a interconex&atilde;o essencial da nossa fam&iacute;lia humana. "(...). Estamos todos juntos nesta situa&ccedil;&atilde;o - e juntos vamos super&aacute;-la". Antonio Guterrez, secret&aacute;rio-geral da ONU. "N&atilde;o projeto o futuro. N&atilde;o h&aacute; futuro imagin&aacute;vel. E h&aacute; um certo mist&eacute;rio nessa vida sem planos, nesses dias que n&atilde;o s&atilde;o mais do que dias". Fernanda Torres. "Se essa trag&eacute;dia serve para alguma coisa &eacute; mostrar quem n&oacute;s somos. &Eacute; para n&oacute;s refletirmos e prestar aten&ccedil;&atilde;o ao sentido do que venha mesmo ser humano.  E n&atilde;o sei se vamos sair dessa experi&ecirc;ncia da mesma maneira que entramos. Tomara que n&atilde;o". Ailton Krenak, l&iacute;der ind&iacute;gena e escritor.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar da met&aacute;fora, guerra e pandemia n&atilde;o s&atilde;o a mesma coisa e boa parte da humanidade n&atilde;o tinha vivido nenhuma das duas, at&eacute; hoje. Ao contr&aacute;rio de outras pandemias, nesta os v&iacute;rus circulam muito depressa, mas os dados andam ainda mais r&aacute;pido. Resultado: enquanto os cientistas do mundo todo cooperam na tentativa de avaliar medidas de conten&ccedil;&atilde;o e desenvolver rem&eacute;dios e vacinas, trancados em nossas casas, sem saber o que o amanh&atilde; nos reserva, somos incapazes de separar verdades de mentiras no oceano de not&iacute;cias, rumores, suposi&ccedil;&otilde;es e del&iacute;rios em que submergimos, por horas, dias a fio.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Aplicada em registrar o aqui e agora, &agrave;s voltas com estat&iacute;sticas, m&aacute;scaras, testes, respiradores e medidas de conten&ccedil;&atilde;o, a m&iacute;dia n&atilde;o tem nem ao menos condi&ccedil;&otilde;es de especular como ser&aacute; o mundo p&oacute;s-pandemia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O presidente do Banco Mundial, David Malpass, admite: <i>"</i>Os pa&iacute;ses mais pobres e vulner&aacute;veis provavelmente ser&atilde;o os mais atingidos". O antrop&oacute;logo franc&ecirc;s Bruno Latour radicaliza e diz: "A &uacute;ltima coisa a fazer seria voltar a fazer tudo o que fizemos antes". O fil&oacute;sofo esloveno Slavoj Zizek espera que outro v&iacute;rus, ideol&oacute;gico, infecte a humanidade: "o v&iacute;rus de pensar em uma sociedade alternativa, uma sociedade al&eacute;m do estado-na&ccedil;&atilde;o, uma sociedade que se atualiza nas formas de solidariedade e coopera&ccedil;&atilde;o global". Para Beata Javorcik, economista-chefe do Banco Europeu de Reconstru&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento, <i>"</i>o coronav&iacute;rus n&atilde;o vai acabar com a globaliza&ccedil;&atilde;o, mas vai mudar. As empresas ter&atilde;o que se adaptar para ter sucesso. &Eacute; isso que os v&iacute;rus nos for&ccedil;am a fazer, inclusive economicamente<i>". </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; perguntas relevantes, ainda sem resposta. Mais que especula&ccedil;&atilde;o est&eacute;ril, &eacute; preciso projetar cen&aacute;rios e, a partir deles, imaginar provid&ecirc;ncias que n&atilde;o podem esperar o dia em que tudo voltar&aacute; a ser como era antes - pois tudo indica que isso n&atilde;o vai acontecer.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O mercado financeiro seguir&aacute; funcionando quase sem v&iacute;nculos com a realidade da economia? No mercado de a&ccedil;&otilde;es, a recompra seguir&aacute; como a regra do jogo que sustentava ganhos aparentemente intermin&aacute;veis? A cartilha do Estado M&iacute;nimo ser&aacute; retomada ao p&eacute; da letra?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Robert J. Schiller, professor de economia na Universidade de Yale, laureado com o Nobel de Economia de 2013, admite que os efeitos psicol&oacute;gicos do que estamos vivendo ser&atilde;o semelhantes ao da quebra de 1929, que influenciaram o mercado por 90 anos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Estaremos vivendo algo t&atilde;o dram&aacute;tico e radical quanto o fim do imp&eacute;rio romano? Recentemente, o historiador norte-americano, Kyle Harper, da Universidade de Oklahoma, publicou um livro (<i>The fate of Rome: climate, disease &amp; the end of an empire.</i> Princeton Univesity, 2018) em que atribuiu o fim do imp&eacute;rio romano &agrave; soma de mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas e de tr&ecirc;s pestes - a de Antonino, Cipriano e Justiniano. Kyle, que andou pelos TEDx da vida falando sobre o livro, define o processo como <i>"</i>o triunfo da natureza sobre as ambi&ccedil;&otilde;es humanas<i>"</i> e acha que os germes foram mais mortais que os b&aacute;rbaros alem&atilde;es. A obra, in&eacute;dita em portugu&ecirc;s, gerou rea&ccedil;&otilde;es contr&aacute;rias, claro, mas j&aacute; foi traduzida para o alem&atilde;o e espanhol.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro historiador, o ingl&ecirc;s Bryan Ward-Perkins, em <i>A queda de Roma e o fim da civiliza&ccedil;&atilde;o</i> (Al&ecirc;theia Editores, 2006) afirma que o fim do mundo romano n&atilde;o foi caracterizado por uma recess&atilde;o ou redu&ccedil;&atilde;o, mas por <i>"</i>uma not&aacute;vel mudan&ccedil;a qualitativa, com o desaparecimento de ind&uacute;strias inteiras e redes comerciais. A economia do oeste p&oacute;s-romano n&atilde;o &eacute; a do s&eacute;culo IV reduzida em escala, mas uma institui&ccedil;&atilde;o muito diferente e muito menos sofisticada".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Diversas habilidades e compet&ecirc;ncias s&oacute; foram reintroduzidas s&eacute;culos depois, como a cer&acirc;mica. Pela simples raz&atilde;o de que n&atilde;o havia mais a quantidade de consumidores com riqueza suficiente para sustentar qualquer especialista em olaria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ward-Perkins reconhece a contribui&ccedil;&atilde;o negativa da peste bub&ocirc;nica no ocaso do imp&eacute;rio romano, mas reafirma que as maiores dificuldades foram causadas pelas chamadas invas&otilde;es b&aacute;rbaras do s&eacute;culo V: <i>"</i>Os invasores entraram no imp&eacute;rio com um desejo de compartilhar seu alto padr&atilde;o de vida, n&atilde;o de destru&iacute;-lo; (havia) ostrogodos vivendo em pal&aacute;cios de m&aacute;rmore, cunhando moedas de estilo imperial e sendo servidos por ministros romanos altamente educados. Mas, embora n&atilde;o fosse a inten&ccedil;&atilde;o dos povos germ&acirc;nicos, suas invas&otilde;es, a disrup&ccedil;&atilde;o que causaram e o consequente desmembramento do estado romano foram, sem d&uacute;vida, a principal causa de morte da economia romana. Os invasores n&atilde;o eram culpados de assassinato, mas eles cometeram homic&iacute;dio culposo".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Perkins reconhece que hoje, para suprir nossas necessidades, somos totalmente dependentes de milhares, na verdade centenas de milhares de outras pessoas espalhadas pelo mundo, cada uma fazendo suas pr&oacute;prias coisas e que &eacute; complicado imaginar uma simplifica&ccedil;&atilde;o da sociedade semelhante &agrave; que aconteceu, quando o poder de Roma foi afinal liquidado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas estamos, portanto, em meio a uma freada de arruma&ccedil;&atilde;o? Haver&aacute; em algum ano no futuro, para ficar em exemplos menos importantes, mas ic&ocirc;nicos, cinco milh&otilde;es de turistas em Veneza, como em 2017? Ou 30 mil visitantes por dia em busca da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, no Museu do Louvre? Quem ter&aacute; serenidade suficiente para destinar 10% de seu or&ccedil;amento anual para as f&eacute;rias? Quantos ser&atilde;o capazes de gastar um sal&aacute;rio m&iacute;nimo numa refei&ccedil;&atilde;o? Iremos trocar de carro, comprar sapatos ou bolsas que n&atilde;o necessitamos, consumir mais que o necess&aacute;rio, jamais limpar o banheiro ou arrumar a cama... ou s&atilde;o apenas sonhos de quem n&atilde;o pode rosetar?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para os mais novos, o verbo popularizou-se no carnaval de 1947, com a marchinha de Haroldo Lobo e Milton Oliveira, na voz de Jorge Veiga. Ouvi muito meu pai cantando. A letra me parecia ing&ecirc;nua: <i>Por um carinho seu, minha cabrocha/ Eu vou a p&eacute; ao Iraj&aacute;/Que me importa que a mula manque/Eu quero &eacute; rosetar/ Fa&ccedil;o qualquer neg&oacute;cio/ Com voc&ecirc; cabrocha/ Tanto faz ser l&aacute; no Rocha ou Jacarepagu&aacute;/ Pode at&eacute; a mula mancar que eu vou a p&eacute; pra l&aacute;/ Que me importa que a mula manque/Eu quero &eacute; rosetar.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Roseta &eacute; uma esp&eacute;cie de espora. A m&uacute;sica, censurada, fez enorme sucesso. O duplo sentido, que garoto, jamais percebi, teria levado o prefeito de uma cidade do interior a proibir a circula&ccedil;&atilde;o de um caminh&atilde;o cujo para-choque exibia a disposi&ccedil;&atilde;o subversiva. O caminhoneiro n&atilde;o se rendeu: trocou os dizeres por <i>"</i>Continuo querendo..."</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Voltando aos dias de hoje, impens&aacute;veis, surreais, com os recursos tecnol&oacute;gicos dispon&iacute;veis, &eacute; poss&iacute;vel reunir cabe&ccedil;as pensantes do Rocha, do Iraj&aacute; ou de Jacarepagu&aacute; (e de outros tantos lugares), mesmo ou justamente em raz&atilde;o de nossas atuais dificuldades e limita&ccedil;&otilde;es, sem que a mula manque ou que tenhamos de ir a p&eacute; at&eacute; Campinas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por isso, vale refor&ccedil;ar a disposi&ccedil;&atilde;o do Idea, Instituto de Estudos Avan&ccedil;ados, da Unicamp, de promover um semin&aacute;rio para pensar &ldquo;Depois do futuro&rdquo;. H&aacute; muito a especular, se quisermos um mundo melhor.</font></p>      ]]></body>
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