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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASIL    <br>   ENTREVISTA MARIANA TAVARES</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Desastre de Brumadinho e  os impactos  na sa&uacute;de mental</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Claudia Mayorga</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O desastre de Brumadinho possui consequ&ecirc;ncias em todas as dimens&otilde;es da vida das popula&ccedil;&otilde;es atingidas, incluindo a sa&uacute;de mental. Conhecer os impactos nesse sentido e propor pol&iacute;ticas de repara&ccedil;&atilde;o associadas aos direitos humanos &eacute; uma posi&ccedil;&atilde;o apresentada pelo F&oacute;rum Mineiro de Sa&uacute;de Mental (FMSM), que re&uacute;ne diferentes entidades que atuam de forma articulada em defesa da luta antimanicomial e da reforma psiqui&aacute;trica. Mariana Tavares, participante do FMSM e coordenadora da Comiss&atilde;o de Psicologia das Emerg&ecirc;ncias e Desastres do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais entre os anos de 2018 e 2019, falou com a <i>Ci&ecirc;ncia&amp;Cultura</i> sobre formas de mitiga&ccedil;&atilde;o dos impactos do desastre na sa&uacute;de mental da popula&ccedil;&atilde;o atingida. Para ela, trata-se de um desastre ainda em curso no que diz respeito ao sofrimento enfrentado pelas v&iacute;timas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cic/v72n2/a03fig01.jpg"><img src="/img/revistas/cic/v72n2/a03fig01t.jpg">    <br>   <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Em janeiro de 2018, Minas Gerais foi mais uma vez surpreendida por um desastre da minera&ccedil;&atilde;o, dessa vez pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, com impactos socioambientais de grande magnitude. Quais as consequ&ecirc;ncias desse desastre para a sa&uacute;de mental da popula&ccedil;&atilde;o atingida?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Existem indicadores das equipes de sa&uacute;de mental dos munic&iacute;pios impactados pelo desastre de que houve aumento do alcoolismo e uso de drogas, de todos os tipos de viol&ecirc;ncia (em especial a dom&eacute;stica), depress&atilde;o, suic&iacute;dios e tentativas, alguns surtos psic&oacute;ticos, bem como efeitos psicossom&aacute;ticos, tais como press&atilde;o alta, crises al&eacute;rgicas, problemas respirat&oacute;rios, de pele e outros, relacionados ou n&atilde;o &agrave; contamina&ccedil;&atilde;o. Ao longo da calha do rio Paraopeba, de Brumadinho a Tr&ecirc;s Marias, percebem-se efeitos do desastre em grada&ccedil;&otilde;es distintas. Tais efeitos s&atilde;o descritos pelos protocolos conhecidos no campo da psicologia das emerg&ecirc;ncias e desastres e dizem respeito a eventos de certa forma previs&iacute;veis a m&eacute;dio prazo. N&atilde;o se pode esquecer, no entanto, que se trata de um desastre/crime ainda em curso e que a popula&ccedil;&atilde;o se encontra em estado de desola&ccedil;&atilde;o ou em sofrimento &eacute;tico-pol&iacute;tico. Interessa cuidar do sofrimento de cada um, mas n&atilde;o de patologizar ou estigmatizar com CIDs &#91;c&oacute;digos internacionais de doen&ccedil;as, elaborados pela Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de&#93;, dos quais, sabemos, dificilmente um sujeito se liberta. Assim, penso ser mais importante apontar que h&aacute; sofrimento, mais do que doen&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>O F&oacute;rum Mineiro de Sa&uacute;de Mental (FMSM) tem uma participa&ccedil;&atilde;o muito atuante na constru&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas de sa&uacute;de mental do estado de Minas Gerais. A pedido do Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal, a entidade elaborou um relat&oacute;rio t&eacute;cnico sobre os impactos do rompimento da barragem da mina de C&oacute;rrego do Feij&atilde;o na sa&uacute;de mental das popula&ccedil;&otilde;es dos munic&iacute;pios atingidos. Como se deu isso?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em agosto do ano passado, Edmundo Ant&ocirc;nio Dias, procurador regional substituto dos direitos do cidad&atilde;o em Minas Gerais, do Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal, solicitou ao FMSM um estudo t&eacute;cnico junto aos munic&iacute;pios atingidos pelo rompimento da barragem da mina de C&oacute;rrego do Feij&atilde;o, para elabora&ccedil;&atilde;o de propostas de composi&ccedil;&atilde;o de equipes multiprofissionais e servi&ccedil;os de sa&uacute;de mental e demais necessidades referentes ao assunto, que foram apresentadas em audi&ecirc;ncia na 6ª Vara da Fazenda P&uacute;blica Estadual e Autarquias, em outubro de 2019. O relat&oacute;rio trouxe recomenda&ccedil;&otilde;es bem concretas e detalhadas, elaboradas a partir de uma pesquisa junto &agrave; popula&ccedil;&atilde;o, que avaliamos que devem ser consideradas nas pol&iacute;ticas que ser&atilde;o desenvolvidas junto aos atingidos e atingidas. Tamb&eacute;m foi sistematizado um quadro de demandas de cada munic&iacute;pio para servi&ccedil;os, equipamentos e profissionais de sa&uacute;de mental.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Diferentes perspectivas em sa&uacute;de mental revelam posi&ccedil;&otilde;es e interpreta&ccedil;&otilde;es distintas sobre sa&uacute;de e tratamento. Qual perspectiva orienta a leitura do FMSM sobre o desastre de Brumadinho e tamb&eacute;m sua atua&ccedil;&atilde;o de uma forma mais geral?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em sua origem e trajet&oacute;ria, o FMSM est&aacute; intimamente ligado &agrave; luta antimanicomial e &agrave; reforma psiqui&aacute;trica brasileira. E, portanto, traz para o cen&aacute;rio dos desastres da minera&ccedil;&atilde;o sua perspectiva de enfrentamento das quest&otilde;es de sa&uacute;de mental pelo vi&eacute;s da afirma&ccedil;&atilde;o dos direitos de cidadania das pessoas em sofrimento mental. Em seu entender, essa &eacute; uma abordagem que permite aos usu&aacute;rios dos servi&ccedil;os de sa&uacute;de mental a manuten&ccedil;&atilde;o e recupera&ccedil;&atilde;o de seus la&ccedil;os territoriais, sociais e afetivos, o exerc&iacute;cio de suas potencialidades e a busca da consolida&ccedil;&atilde;o de seu livre circular na cidade como pessoas capazes, criativas e produtivas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para al&eacute;m dos necess&aacute;rios e imprescind&iacute;veis profissionais do ramo, conhecidos como profissionais <i>psi</i>, as equipes de sa&uacute;de mental se comp&otilde;em de um leque amplo de trabalhadores. O mesmo racioc&iacute;nio ampliado se aplica aos diferentes servi&ccedil;os de sa&uacute;de mental, ou seja, s&atilde;o pontos de cuidado diversos para atender &agrave;s diferentes necessidades dos usu&aacute;rios. Os indiv&iacute;duos que est&atilde;o a adoecer cotidianamente - uma vez que os efeitos do desastre insistem sobre suas vidas - precisam de uma abordagem no campo da sa&uacute;de mental que n&atilde;o seja reduzida &agrave; medica&ccedil;&atilde;o para o sono, ao psiquiatra, ao psic&oacute;logo ou mesmo aos equipamentos tradicionais. O artesanato, oficinas culturais, de dan&ccedil;a, teatro, capoeira, tecnologias, bordados, arpilleras etc. s&atilde;o dispositivos eficazes para a reconstitui&ccedil;&atilde;o de la&ccedil;os afetivos e de v&iacute;nculos comunit&aacute;rios, na perspectiva de retomada do fio da pr&oacute;pria hist&oacute;ria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>As universidades e a ci&ecirc;ncia tamb&eacute;m podem ter um papel importante no enfrentamento &agrave;s consequ&ecirc;ncias do rompimento. Como voc&ecirc; analisa essa colabora&ccedil;&atilde;o?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os projetos de pesquisa de v&aacute;rios campos de saber s&atilde;o fundamentais e t&ecirc;m sido relevantes para conhecimento da realidade. Observa-se, no entanto, uma certa fragmenta&ccedil;&atilde;o de iniciativas, tornando-se a bacia do Paraopeba um grande campo de pesquisa, que nem sempre, infelizmente, produz o necess&aacute;rio retorno &agrave; popula&ccedil;&atilde;o. Na minha opini&atilde;o, a produ&ccedil;&atilde;o de conhecimentos deve ser feita de modo que os atingidos sejam sujeitos do conhecimento. Nesse contexto, a pesquisa no campo <i>psi</i> parece ainda ser incipiente. Esse tipo de produ&ccedil;&atilde;o ganha urg&ecirc;ncia frente &agrave; necessidade de compreens&atilde;o dos modos de se fazer lutos coletivos e que busquem o entendimento do papel dos v&iacute;nculos comunit&aacute;rios, bem como dos modos de produ&ccedil;&atilde;o de subjetividades que fa&ccedil;am enfrentamento &agrave;s estrat&eacute;gias de despolitiza&ccedil;&atilde;o e de rebaixamento de cidadania, postas em curso cotidianamente pela Vale. Pesquisas e estudos que desvelem formas de sociabilidade fora dos padr&otilde;es de competividade e isolamento seriam muito bem-vindos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n2/a03fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Qual o papel das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas no enfrentamento dos impactos do desastre na sa&uacute;de mental da  popula&ccedil;&atilde;o?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na perspectiva do FMSM, as especificidades do desastre/crime e suas implica&ccedil;&otilde;es sobre as popula&ccedil;&otilde;es e sobre cada sobrevivente culminam na necessidade de cada um dos munic&iacute;pios atingidos serem providos, em quantidade e qualidade, de equipamentos, pessoal e servi&ccedil;os capazes de oferecer &agrave; popula&ccedil;&atilde;o a escuta necess&aacute;ria e as abordagens que permitam requalificar as vidas afetadas, reconstruindo la&ccedil;os e projetos capazes de dar-lhes um novo sentido. A empresa Vale, nesse contexto, deve figurar como a provedora dos recursos necess&aacute;rios a suprir as demandas municipais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Quais cuidados voc&ecirc; considera necess&aacute;rios na implementa&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas de repara&ccedil;&atilde;o &agrave;s v&iacute;timas da trag&eacute;dia de Brumadinho?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em primeiro lugar &eacute; importante retirar a Vale da mesa de negocia&ccedil;&atilde;o. As pol&iacute;ticas de repara&ccedil;&atilde;o dever&atilde;o ser propostas pelas assessorias t&eacute;cnicas, pelas comiss&otilde;es de atingidos, pelos poderes p&uacute;blicos em suas inst&acirc;ncias locais, regionais e estaduais, pelo judici&aacute;rio e pelos trabalhadores das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas dos munic&iacute;pios, que v&ecirc;m tomando a seu cargo o cuidado com essas popula&ccedil;&otilde;es. Tais pol&iacute;ticas n&atilde;o podem estabelecer prazos curtos. &Eacute; preciso criar mecanismos legais para que nunca mais aconte&ccedil;am trag&eacute;dias como essa, e para que nunca se esque&ccedil;a o ocorrido. &Eacute; preciso nomear e punir os culpados. A impunidade aumenta ainda mais o esgar&ccedil;amento de sentido que as popula&ccedil;&otilde;es vivem.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Qual rela&ccedil;&atilde;o se pode estabelecer entre as consequ&ecirc;ncias das trag&eacute;dias de Mariana, em novembro de 2015, e de Brumadinho, em 2018, e os desafios para a pol&iacute;tica nacional de sa&uacute;de mental hoje?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse cen&aacute;rio de enorme gravidade decorrente dos desastres nas duas bacias apenas evidencia a l&oacute;gica que vivenciamos hoje no pa&iacute;s. A impunidade aos respons&aacute;veis &eacute; da mesma ordem da  naturaliza&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia que extingue direitos. O retorno do discurso segregacionista, medicalizante e excludente presentes na cena nacional, ao propor interna&ccedil;&otilde;es compuls&oacute;rias, comunidades terap&ecirc;uticas de cunho moral-religioso altamente patologizante, lan&ccedil;am luz e nos alertam para os perigos da l&oacute;gica manicomial, que fareja possibilidades. Para tanto, a constru&ccedil;&atilde;o de uma narrativa segundo a qual os atingidos s&atilde;o doentes, fr&aacute;geis, drogados, suicidas, deprimidos parece ser bem apropriada para a argumenta&ccedil;&atilde;o manicomial. Se os desastres/crimes de Brumadinho e Mariana mostram a face do horror, &eacute; preciso investir toda a intelig&ecirc;ncia e afeto na defesa da rede de aten&ccedil;&atilde;o psicossocial, em toda sua radicalidade. N&atilde;o se deve colocar em quest&atilde;o os princ&iacute;pios de rede, de servi&ccedil;os substitutivos, da territorialidade e v&iacute;nculo. Penso que um dos maiores desafios &eacute; manter a defesa intransigente deste entendimento, mesmo frente aos discursos tecnicistas e pragm&aacute;ticos.</font></p>      ]]></body>
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