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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   BRUMADINHO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Apresenta&ccedil;&atilde;o: </b></font></p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Mais uma barragem se rompe:  qual o papel da ci&ecirc;ncia?</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Claudia Mayorga<sup>I</sup>; Z&eacute;lia Profeta<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Doutora em psicologia social pela Universidade Complutense de Madrid e professora do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Psicologia e do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente &eacute; pr&oacute;-reitora de extens&atilde;o da UFMG (2018-2022)    <br>   <sup>II</sup>Doutora em parasitologia pela UFMG, professora do Programa de P&oacute;s- Gradua&ccedil;&atilde;o em Sa&uacute;de Coletiva do Instituto Ren&eacute; da Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz – Fiocruz Minas e diretora em segundo mandato da Fiocruz de Minas Gerais</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No 25 de janeiro de 2020 completou-se um ano do desastre da barragem I da mina C&oacute;rrego do Feij&atilde;o da empresa Vale em Brumadinho, Minas Gerais, que junto com o rompimento da barragem de Fund&atilde;o da Samarco/BHP/Billiton em Mariana, em 5 de novembro de 2015, figura entre os maiores desastres em barragens de minera&ccedil;&atilde;o do mundo em termos de extens&atilde;o, danos socioambientais e mortes imediatas. Esses foram desastres anunciados e que geraram destrui&ccedil;&atilde;o e mortes de diferentes tipos causando muitas dores. Houve contamina&ccedil;&atilde;o dos solos, dos rios e do ar, impactos na sa&uacute;de e rupturas nas dimens&otilde;es ecol&oacute;gica, social, cultural e econ&ocirc;mica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas qual contribui&ccedil;&atilde;o pode ter a ci&ecirc;ncia, diante de uma situa&ccedil;&atilde;o de tamanha complexidade? N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel responder a essa pergunta sem antes sublinhar que nenhuma solu&ccedil;&atilde;o poder&aacute; ser constru&iacute;da de forma isolada e por um &uacute;nico ator ou institui&ccedil;&atilde;o na sociedade. Entendemos, &eacute; claro, que a repara&ccedil;&atilde;o das perdas e danos provocados pelo rompimento da barragem I da mina C&oacute;rrego do Feij&atilde;o &eacute; de responsabilidade da Vale, embora planos, programas, projetos e a&ccedil;&otilde;es voltados a promover repara&ccedil;&otilde;es devam ser implementados por institui&ccedil;&otilde;es id&ocirc;neas e independentes, sob controle social, e n&atilde;o pela Vale ou por meio de empresas ou organiza&ccedil;&otilde;es por ela contratadas, j&aacute; que &eacute; parte e r&eacute; em processos judiciais. Um grande desafio &eacute; que essas a&ccedil;&otilde;es aconte&ccedil;am de forma articulada, continuada, que assegurem justa e plena repara&ccedil;&atilde;o das perdas e danos, materiais e imateriais, sofridos por indiv&iacute;duos, fam&iacute;lias, comunidades, coletividades, institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas e privadas e dos impactos no meio ambiente, dimens&otilde;es que devem ser compreendidas em estreita rela&ccedil;&atilde;o. Vale ainda ressaltar o papel do poder judici&aacute;rio e a import&acirc;ncia dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, juntamente com outros setores, na garantia dos direitos e do direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; necess&aacute;rio demarcar que esses desastres ocorrem em um contexto espec&iacute;fico. O Brasil &eacute; um pa&iacute;s marcado por um hist&oacute;rico colonial, patrimonialista, patriarcal e onde a explora&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica extrativista se apresenta como catalisadora do "progresso" e &eacute; respaldada por discursos e pr&aacute;ticas do Estado brasileiro que produzem, sistematicamente, as melhores condi&ccedil;&otilde;es em termos de flexibiliza&ccedil;&atilde;o de impostos, legisla&ccedil;&otilde;es ambientais e trabalhistas para sua instala&ccedil;&atilde;o e perman&ecirc;ncia. As no&ccedil;&otilde;es de desenvolvimento econ&ocirc;mico e cultural se arraigaram na sociedade brasileira em detrimento das popula&ccedil;&otilde;es locais consideradas incivilizadas e atrasadas, sendo sua resist&ecirc;ncia a esse modelo de desenvolvimento considerado "empecilho" ao progresso. Constata-se, dessa maneira, que os impactos da minera&ccedil;&atilde;o s&atilde;o anteriores ao rompimento de barragens e se associam fortemente a um conjunto de viola&ccedil;&otilde;es de direitos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Compreendemos que a ci&ecirc;ncia deve responder &agrave;s necessidades concretas da sociedade e aos grandes desafios globais; e, no caso do desastre da Vale em Brumadinho, n&atilde;o poderia ser diferente. De forma bem direta, a sua contribui&ccedil;&atilde;o na produ&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es e conhecimentos sobre os impactos, os danos, as perdas materiais e imateriais decorrentes do rompimento da barragem, o monitoramento, sistematiza&ccedil;&atilde;o e an&aacute;lises dos in&uacute;meros dados e informa&ccedil;&otilde;es relacionadas &agrave;s m&uacute;ltiplas altera&ccedil;&otilde;es e rupturas vividas precisam ser realizadas para gerar conhecimento que oriente tomadas de decis&atilde;o nas diversas dimens&otilde;es da vida social. A ci&ecirc;ncia tamb&eacute;m pode contribuir para a elabora&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&otilde;es e pol&iacute;ticas de repara&ccedil;&atilde;o e todo esse processo deve se dar por meio de uma rela&ccedil;&atilde;o dial&oacute;gica com outros setores da sociedade, o que inclui as popula&ccedil;&otilde;es atingidas. Se por um lado &eacute; importante que as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, institui&ccedil;&otilde;es sociais diversas e a popula&ccedil;&atilde;o compreendam a import&acirc;ncia da ci&ecirc;ncia, &eacute; fundamental que os e as cientistas entendam as necessidades desses outros atores e compartilhem os processos e resultados de suas pesquisas, j&aacute; que consistem quest&otilde;es de interesse p&uacute;blico. A compreens&atilde;o e o envolvimento do p&uacute;blico com a ci&ecirc;ncia e a participa&ccedil;&atilde;o do cidad&atilde;o, inclusive atrav&eacute;s da populariza&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia, s&atilde;o essenciais para que esta tenha uma contribui&ccedil;&atilde;o efetiva que possa chegar tamb&eacute;m &agrave; vida cotidiana, indo al&eacute;m do di&aacute;logo entre pares (embora essa tamb&eacute;m seja uma dimens&atilde;o relevante).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sendo assim, a ci&ecirc;ncia possui ineg&aacute;vel aporte &agrave; situa&ccedil;&atilde;o do desastre de Brumadinho, e tamb&eacute;m para a constru&ccedil;&atilde;o de um projeto concreto de desenvolvimento sustent&aacute;vel que evite que situa&ccedil;&otilde;es como essas vividas em 2015 e em 2019 se repitam. Compreender as diversas dimens&otilde;es que levaram ao desastre de Brumadinho e suas consequ&ecirc;ncias deve nos permitir projetar e colaborar na constru&ccedil;&atilde;o de um pa&iacute;s baseado em outros valores. Definir para onde queremos ir e o que queremos ser deve contar com a contribui&ccedil;&atilde;o de muitos saberes e conhecimentos, o que inclui a ci&ecirc;ncia que se produz em di&aacute;logo com a sociedade. O papel das associa&ccedil;&otilde;es e sociedades cient&iacute;ficas, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC), ganha uma grande relev&acirc;ncia nessa tarefa que temos diante de n&oacute;s que, como foi dito acima, deve ser uma a&ccedil;&atilde;o coletiva e articulada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Considerando o tamanho desses desafios e o momento atual pelo qual passa o pa&iacute;s, de obscurantismo, neglig&ecirc;ncia com o bem-estar social, de estado m&iacute;nimo, de nega&ccedil;&atilde;o e de cortes financeiros &agrave; educa&ccedil;&atilde;o e &agrave; sa&uacute;de, e de desmonte da ci&ecirc;ncia, tecnologia e inova&ccedil;&atilde;o, entendemos que ser&aacute; longa e dif&iacute;cil a concretiza&ccedil;&atilde;o dessas tarefas, nos seus diferentes n&iacute;veis. Mas, apesar das adversidades, &eacute; preciso ter esperan&ccedil;a e disposi&ccedil;&atilde;o para encontrar sa&iacute;das.</font></p>      ]]></body>
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