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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O rompimento da barragem B1 da Mina Córrego do Feijão e os desafios para a educação]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   BRUMADINHO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O rompimento da barragem B1 da Mina C&oacute;rrego do Feij&atilde;o e os desafios para a educa&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Maria Isabel Antunes-Rocha<sup>I</sup>; Adriane Cristina  de Melo Hunzicker<sup>II</sup>; L&uacute;cia Maria Fantinel<sup>III</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Professora associada na Faculdade de Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e desenvolve projetos de ensino, pesquisa e extens&atilde;o na &aacute;rea de forma&ccedil;&atilde;o e pr&aacute;tica docente em &aacute;reas campesinas, incluindo as regi&otilde;es atingidas pela constru&ccedil;&atilde;o e rompimento de barragens. E-mail: <a href="mailto:isabelantunes@fae.ufmg.br">isabelantunes@fae.ufmg.br</a>    <br>   <sup>II</sup>Professora aposentada do Departamento de Geologia, Instituto de Geoci&ecirc;ncias da UFMG. E-mail: <a href="mailto:fantinel@ufmg.br">fantinel@ufmg.br</a>    <br>   <sup>III</sup>Doutoranda e mestre pela Faculdade de Educa&ccedil;&atilde;o da UFMG e docente na educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica em Mariana, MG. Desenvolve pesquisas sobre a rela&ccedil;&atilde;o educa&ccedil;&atilde;o-minera&ccedil;&atilde;o. &Eacute; membro da Frente Educa&ccedil;&atilde;o no Programa Participa da UFMG. E-mail: <a href="mailto:adrianegeo@yahoo.com.br">adrianegeo@yahoo.com.br</a></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O rompimento da barragem B1 da mina C&oacute;rrego do Feij&atilde;o, controlada pela empresa Vale SA, que ocorreu em 25 de janeiro de 2019 e causou danos sociais, humanit&aacute;rios, ambientais e econ&ocirc;micos ainda n&atilde;o dimensionados em sua totalidade, colocou em debate a urg&ecirc;ncia de encaminhamentos para problemas que ainda est&atilde;o pendentes desde o rompimento da barragem de Fund&atilde;o, em Mariana (MG), quatro anos antes. Quest&otilde;es relacionadas &agrave; repara&ccedil;&atilde;o de danos e reconstru&ccedil;&atilde;o dos modos de produzir e reproduzir a vida t&ecirc;m se constitu&iacute;do em um campo de debates e proposi&ccedil;&otilde;es diferenciadas entre a empresa, atingidos e suas organiza&ccedil;&otilde;es sociais, institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas e pesquisadores, para citar alguns. Nesse contexto, ressalta-se o lugar das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas na formula&ccedil;&atilde;o de projetos e a&ccedil;&otilde;es em prol da garantia de conjunturas para que as condi&ccedil;&otilde;es de vida possam ser reconstru&iacute;das numa perspectiva sustent&aacute;vel em termos econ&ocirc;micos, pol&iacute;ticos, sociais e culturais &#91;1&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nessa perspectiva, a contribui&ccedil;&atilde;o deste artigo &eacute; constituir um conjunto de evid&ecirc;ncias e reflex&otilde;es que possibilite uma an&aacute;lise, ainda que preliminar, sobre os limites e possibilidades de formula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que possam considerar a escola como um dos territ&oacute;rios com potencial para articular, conectar e mobilizar a&ccedil;&otilde;es e pessoas tendo em vista a constru&ccedil;&atilde;o de um projeto de vida na regi&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vidas de que nesse processo n&atilde;o existe neutralidade. Assumir que a empresa tem total responsabilidade pelos atos de seus gestores e prestadores de servi&ccedil;os na barragem B1 e, portanto, pelas consequ&ecirc;ncias dessa cat&aacute;strofe &#91;2&#93;, garantir que os atingidos e suas organiza&ccedil;&otilde;es sociais possam ser protagonistas das a&ccedil;&otilde;es que dizem respeito &agrave; reconstru&ccedil;&atilde;o dos seus modos de vida, ter disponibilidade para promover o debate sobre as formas historicamente predat&oacute;rias de fazer a minera&ccedil;&atilde;o na regi&atilde;o, promover e apoiar pesquisas que possam contribuir para a repara&ccedil;&atilde;o/constru&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o, dentre outras, posi&ccedil;&otilde;es que este artigo assume como orienta&ccedil;&otilde;es para o debate proposto no texto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os argumentos utilizados resultam do ac&uacute;mulo de conhecimentos e pr&aacute;ticas produzidos por professores e estudantes que v&ecirc;m empreendendo a&ccedil;&otilde;es de ensino, pesquisa e extens&atilde;o nas &aacute;reas atingidas pelos rompimentos da barragem de Fund&atilde;o (RBF) e da barragem 1 (B1). Esse grupo integra o programa Participa, criado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para organizar a a&ccedil;&atilde;o nas &aacute;reas atingidas por aqueles rompimentos. Em fevereiro de 2019, o grupo criou a Frente Educa&ccedil;&atilde;o Brumadinho para focalizar as a&ccedil;&otilde;es nesse contexto. Grande parte das discuss&otilde;es aqui apresentadas resultam do trabalho desenvolvido na regi&atilde;o do vale do rio Doce e que t&ecirc;m sido corroboradas na experi&ecirc;ncia com as escolas nas regi&otilde;es atingidas pelos rejeitos da B1. Segundo Freitas e colaboradores &#91;3&#93; e a Ag&ecirc;ncia Nacional de &Aacute;guas (ANA)&#91;4&#93;, o rompimento da barragem B1 impactou 28 munic&iacute;pios da bacia do rio Paraopeba. Nesta &aacute;rea, encontram-se em funcionamento cerca de 980 escolas p&uacute;blicas, onde est&atilde;o matriculados 398.725 estudantes dos ensinos fundamental e m&eacute;dio &#91;5&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como referenciais para a organiza&ccedil;&atilde;o da discuss&atilde;o, adotamos as proposi&ccedil;&otilde;es indicadas pela Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU) &#91;6&#93; para as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas na gest&atilde;o de risco de desastres nas escolas e o conhecimento j&aacute; acumulado pelo grupo de pesquisadores que vem se debru&ccedil;ando sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre educa&ccedil;&atilde;o e minera&ccedil;&atilde;o nas situa&ccedil;&otilde;es de rompimento das barragens. Sendo assim, indicamos tr&ecirc;s eixos: 1) garantir instala&ccedil;&otilde;es seguras para a aprendizagem; 2) ter uma gest&atilde;o que possa garantir redu&ccedil;&atilde;o dos danos provocados pelos desastres; e 3) construir um projeto pedag&oacute;gico que oriente as escolas para um processo formativo capaz de contribuir para a garantia da produ&ccedil;&atilde;o e reprodu&ccedil;&atilde;o da vida na regi&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com rela&ccedil;&atilde;o ao primeiro eixo, retomamos o questionamento j&aacute; presente na sociedade: como a empresa e gestores p&uacute;blicos aprovaram e mantiveram constru&ccedil;&otilde;es e pessoas em locais considerados de alto potencial de risco associado em caso de rompimento? O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ligado ao Minist&eacute;rio da Ci&ecirc;ncia, Tecnologia, Inova&ccedil;&otilde;es e Comunica&ccedil;&otilde;es (MCTIC), identificou, em 2012, um total de 1.714 escolas em &aacute;reas de risco localizadas em 958 munic&iacute;pios. Brumadinho faz parte desta lista &#91;7&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A Escola Municipal Nossa Senhora das Dores, situada no povoado de C&oacute;rrego do Feij&atilde;o, foi constru&iacute;da em &aacute;rea de risco, pois encontra-se a jusante e a uma dist&acirc;ncia da barragem menor que 10 km, na zona de autossalvamento (ZAS). O pr&eacute;dio, localizado na baixa encosta sul da bacia do C&oacute;rrego do Feij&atilde;o, em cota mais baixa que a da mina e a da barragem (e delas separada pelo vale do c&oacute;rrego) n&atilde;o foi atingida diretamente porque o fluxo de lama e rejeitos fez um desvio de aproximadamente 600 metros da escola (<a href="#fig1">Figura 1</a>). Caso contr&aacute;rio estaria soterrada pela lama, assim como toda a comunidade.</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n2/a07fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A Ag&ecirc;ncia Nacional de Minera&ccedil;&atilde;o (ANM), por meio da resolu&ccedil;&atilde;o ANM nº4 de 15/02/2019, que trata de medidas regulat&oacute;rias cautelares para a estabilidade de barragens de minera&ccedil;&atilde;o, estabelece, em seu artigo 3º, proibi&ccedil;&atilde;o de que empreendedores respons&aacute;veis por barragens de minera&ccedil;&atilde;o inseridas na Pol&iacute;tica Nacional de Seguran&ccedil;a de Barragens (PNSB) mantenham ou construam qualquer instala&ccedil;&atilde;o, obra ou servi&ccedil;o na ZAS &#91;9&#93;. A resolu&ccedil;&atilde;o ANM nº 13, de 08/08/2019, que revogou a anteriormente citada, manteve aquela proibi&ccedil;&atilde;o e estabeleceu obrigatoriedade e prazos para que empreendedores respons&aacute;veis pelas barragens desativassem ou removessem as instala&ccedil;&otilde;es, obras e servi&ccedil;os localizados nas ZAS. Contudo, h&aacute; uma lacuna na legisla&ccedil;&atilde;o federal aberta pela aus&ecirc;ncia de impedimento ao licenciamento de barragens que impliquem na defini&ccedil;&atilde;o de ZAS englobando comunidades j&aacute; existentes no local, ou mesmo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s popula&ccedil;&otilde;es que na atualidade vivem em ZAS. Inexiste, tamb&eacute;m, uma defini&ccedil;&atilde;o de como ficar&aacute; a situa&ccedil;&atilde;o de popula&ccedil;&otilde;es residentes de &aacute;reas urbanas e rurais localizadas pr&oacute;ximas &agrave;s barragens que est&atilde;o em situa&ccedil;&atilde;o de risco (principalmente aquelas constru&iacute;das com o m&eacute;todo "a montante"). Diante do processo de desterritorializa&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es, &eacute; importante considerar a identidade socioterritorial dos sujeitos, regi&otilde;es e equipamentos sociais atingidos (ou expostos ao risco) que vivenciar&atilde;o a desterriorializa&ccedil;&atilde;o &#91;10&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A discuss&atilde;o sobre gest&atilde;o de risco de desastres nas escolas, na perspectiva de garantir instala&ccedil;&otilde;es em locais seguros para a aprendizagem, inclui ainda a an&aacute;lise da &aacute;rea de abrang&ecirc;ncia atendida pelas escolas. No caso da Escola Nossa Senhora das Dores, constata-se que existem estudantes que residem em &aacute;reas n&atilde;o inclu&iacute;das na ZAS. Assim, o deslocamento da escola para outra &aacute;rea impactaria n&atilde;o apenas a comunidade local, mas tamb&eacute;m outras comunidades. Ao longo da bacia do rio Paraopeba certamente encontra-se em funcionamento uma complexa estrutura escolar, composta por salas anexas, escolas nucleadas, escolas em segundo endere&ccedil;o, escolas em &aacute;reas urbanas e rurais, dentre outras. A maioria das escolas localizadas em &aacute;reas urbanas recebe alunos transportados por &ocirc;nibus que trafegam em estradas parcialmente inseridas em ZAS. Essas situa&ccedil;&otilde;es indicam que a localiza&ccedil;&atilde;o em &aacute;rea segura inclui n&atilde;o apenas o edif&iacute;cio da escola, mas tamb&eacute;m as vias de acesso &agrave; mesma, constituindo um desafio para as pol&iacute;ticas de educa&ccedil;&atilde;o escolar na regi&atilde;o atingida pelo rompimento. O estudo cartogr&aacute;fico da log&iacute;stica de acesso e riscos associados constitui estrat&eacute;gia vi&aacute;vel para se enfrentar o desafio. Implica realizar um estudo cartogr&aacute;fico que relacione local de moradia (ou de origem), localiza&ccedil;&atilde;o da escola e percurso do transporte com os riscos geol&oacute;gicos, hidrol&oacute;gicos e ambientais a que a comunidade est&aacute; exposta para ter acesso &agrave; escola.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; gest&atilde;o para a redu&ccedil;&atilde;o de danos provocados pelo desastre, observa-se que, de maneira geral, na situa&ccedil;&atilde;o de calamidade, a escola se torna "vis&iacute;vel" porque houve perda de vidas, de sua estrutura f&iacute;sica, dos mobili&aacute;rios e recursos pedag&oacute;gicos; e, ainda, porque as vias de acesso foram obstru&iacute;das ou o espa&ccedil;o e instala&ccedil;&otilde;es da escola foram transformados em local de abrigo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Hunzicker &#91;11&#93;, ao pesquisar as repercuss&otilde;es do RBF nos saberes e pr&aacute;ticas de docentes da escola de Bento Rodrigues, constatou que professores e alunos foram alocados em duas escolas na sede do munic&iacute;pio antes de se instalarem em uma resid&ecirc;ncia improvisada. Nos dois estabelecimentos foram alvo de apelidos como "p&eacute;s de lama", sendo necess&aacute;rio adaptar uma resid&ecirc;ncia enquanto aguardam a mudan&ccedil;a para o povoado que est&aacute; sendo reconstru&iacute;do. Na reconstru&ccedil;&atilde;o das escolas de Paracatu de Baixo e Barra Longa n&atilde;o se considerou o risco de outros rompimentos, tendo em vista que a localiza&ccedil;&atilde;o anterior foi mantida &#91;12&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Superado o momento de mudan&ccedil;a e/ou de transforma&ccedil;&atilde;o em abrigo, encontramos a escola como um local onde geralmente se busca desenvolver a&ccedil;&otilde;es que possam mitigar o sofrimento vivenciado pelos estudantes. Hunzicker &#91;11&#93; mostra como a comunidade escolar de Bento Rodrigues se viu exposta &agrave; demanda para execu&ccedil;&atilde;o de projetos oriundos de institui&ccedil;&otilde;es e de diversos grupos de volunt&aacute;rios. A presen&ccedil;a de novos sujeitos, que passam a adentrar a escola, alterou a rotina escolar. Como exemplo: os atendimentos psicol&oacute;gicos que por um per&iacute;odo ocorreram dentro da escola; a presen&ccedil;a de rep&oacute;rteres e agentes de v&aacute;rias m&iacute;dias; volunt&aacute;rios que queriam fazer apresenta&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas ou entregar presentes para estudantes v&iacute;timas do rompimento; pesquisadores interessados em informa&ccedil;&otilde;es sobre o rompimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nas escolas de Brumadinho o sofrimento foi agravado por casos de discentes que se tornaram &oacute;rf&atilde;os e de docentes e t&eacute;cnicos administrativos que perderem parentes e amigos. Vale ressaltar, ainda, que o rompimento mobilizou pessoas, institui&ccedil;&otilde;es, coletivos e imprensa interessados em dar apoio &agrave; escola. Em uma roda de conversa com professores e gestores de escolas em Brumadinho &#91;13&#93;, ouvimos dos participantes, dentre outros assuntos, as seguintes quest&otilde;es sobre a experi&ecirc;ncia at&eacute; ent&atilde;o vivenciada: presen&ccedil;a massiva de volunt&aacute;rios e institui&ccedil;&otilde;es no dia a dia da escola; atividades que focalizam o atendimento em &acirc;mbito emocional numa perspectiva individual com prioridade para estudantes e falta de forma&ccedil;&atilde;o emergencial para os profissionais da escola sobre as quest&otilde;es t&eacute;cnicas, sociais e pol&iacute;ticas que envolvem o rompimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O inc&ocirc;modo com o grande n&uacute;mero de volunt&aacute;rios, de doa&ccedil;&otilde;es e oferta para desenvolvimento de atividades, a princ&iacute;pio compreendida como uma a&ccedil;&atilde;o de solidariedade, pode constituir-se como obst&aacute;culo &agrave; compreens&atilde;o dos problemas e busca de solu&ccedil;&otilde;es, pois muitas vezes a motiva&ccedil;&atilde;o para as a&ccedil;&otilde;es situa-se na dimens&atilde;o caritativa, dificultando a constru&ccedil;&atilde;o de redes colaborativas organizadas pelos pr&oacute;prios atingidos. Na roda de conversa, os participantes informaram que n&atilde;o tinham tempo sequer para conversar com os alunos e/ou entre si, pois nos primeiros meses o tempo escolar era ocupado pela presen&ccedil;a de interessados em realizar algum tipo de a&ccedil;&atilde;o com estudantes.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A &ecirc;nfase no atendimento em termos emocionais, algumas vezes com orienta&ccedil;&otilde;es no sentido de evitar falar e/ou simbolizar o trauma por meio de din&acirc;micas e atendimentos individualizados, &eacute; outro ponto citado pelos participantes da roda de conversa. Estes consideraram o atendimento necess&aacute;rio, mas avaliaram que, passados os primeiros dias, tornou-se pouco eficaz diante do fato de que as consequ&ecirc;ncias do rompimento exigem a&ccedil;&otilde;es planejadas para longa dura&ccedil;&atilde;o. Os participantes tamb&eacute;m enfatizaram o fato de que o atendimento, com foco na dimens&atilde;o afetiva, dificultou o trabalho no sentido de trazer a discuss&atilde;o do rompimento como um evento para al&eacute;m da perspectiva traum&aacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pensamos que, em um contexto onde a produ&ccedil;&atilde;o e a reprodu&ccedil;&atilde;o da vida estejam amea&ccedil;adas, faz-se necess&aacute;rio indagar como a forma&ccedil;&atilde;o escolar poderia contribuir para a constru&ccedil;&atilde;o de um projeto que sinalize para perspectivas de futuro. Para isso, &eacute; necess&aacute;rio olhar para a escola atual e revelar como ela se organiza nas &aacute;reas afetadas pelos rompimentos de barragens em foco. Na pesquisa realizada nas &aacute;reas atingidas pelo RBF &#91;14&#93; e nas rodas de conversa em Brumadinho, verificou-se que os projetos pedag&oacute;gicos das escolas e das redes nas quais se vinculam fazem recortes quando se trata de trabalhar a din&acirc;mica econ&ocirc;mica, pol&iacute;tica, social, cultural e geogr&aacute;fica que caracteriza um territ&oacute;rio cuja principal atividade produtiva &eacute; a minera&ccedil;&atilde;o. Nos relatos foi poss&iacute;vel perceber que a minera&ccedil;&atilde;o geralmente &eacute; abordada em seus aspectos hist&oacute;ricos e nos benef&iacute;cios que poderia trazer para a regi&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As demais discuss&otilde;es s&atilde;o tratadas sob a perspectiva do meio ambiente e, quase como regra geral, o foco &eacute; a preocupa&ccedil;&atilde;o com os materiais descart&aacute;veis e/ou a necessidade de cuidar da &aacute;gua e da natureza. S&atilde;o escassas, at&eacute; mesmo inexistentes, abordagens cr&iacute;ticas que discutam os impactos socioambientais da atividade mineradora e os riscos associados; que analisem as consequ&ecirc;ncias da min&eacute;rio-depend&ecirc;ncia; ou que problematizem os efeitos daquele discurso na educa&ccedil;&atilde;o e na vida dos estudantes. O relato de uma professora de Brumadinho evidencia a afirma&ccedil;&atilde;o: "eu nunca abordei a possibilidade de rompimento da barragem, apesar de, no dia a dia, a popula&ccedil;&atilde;o falar sobre este assunto".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A narrativa acima possivelmente configure a express&atilde;o de um dos principais desafios a serem superados para que a escola se coloque como uma das media&ccedil;&otilde;es que podem contribuir para o projeto de recupera&ccedil;&atilde;o de territ&oacute;rios impactados pela minera&ccedil;&atilde;o. Ser&aacute; necess&aacute;rio trazer para a forma&ccedil;&atilde;o escolar a complexidade constituinte da atividade miner&aacute;ria, dos seus impactos, das suas finalidades, do destino da riqueza socialmente produzida e do lugar que esse setor ocupa na produ&ccedil;&atilde;o internacional, nacional, regional e local. Essa tarefa demandar&aacute; forma&ccedil;&atilde;o continuada, produ&ccedil;&atilde;o de materiais did&aacute;ticos, comprometimento dos gestores p&uacute;blicos e, principalmente, a necessidade de analisar a rela&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica, e j&aacute; quase naturalizada, entre empresas mineradoras e institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, dentre elas a escola.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A rela&ccedil;&atilde;o entre as empresas de minera&ccedil;&atilde;o e as escolas foi pontuada por quase todos os professores com os quais conversamos. Referida como parceria, a rela&ccedil;&atilde;o quase sempre envolve oferta de cursos, doa&ccedil;&atilde;o de materiais, apoio aos eventos, dentre um conjunto de pequenas a&ccedil;&otilde;es cotidianas que possibilita a presen&ccedil;a de uma trama de fios cujas pontas n&atilde;o se consegue localizar. Segundo uma docente, a rela&ccedil;&atilde;o &eacute; t&atilde;o estreita que, em algumas situa&ccedil;&otilde;es, a escola utiliza material produzido pelas empresas para trabalhar a tem&aacute;tica do meio ambiente. H&aacute; fortes ind&iacute;cios de que a empresa, nesses contextos, constitui-se como uma parceira das escolas. No entanto, este talvez seja o lado mais danoso e triste, pois ao se ter informa&ccedil;&atilde;o de que, desde 2003, a empresa tinha conhecimento das possibilidades de rompimento da B1 &#91;2&#93; e, al&eacute;m de n&atilde;o implementar medidas para evitar o colapso da estrutura, manteve instala&ccedil;&otilde;es a jusante da barragem e em nenhum momento comunicou o risco &agrave; comunidade, pode-se dizer que, se o rompimento foi resultado de um ato intencional de oculta&ccedil;&atilde;o do risco e da ina&ccedil;&atilde;o da empresa, intencional tamb&eacute;m &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o que a empresa estabeleceu historicamente com as escolas e os &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos na regi&atilde;o atingida pelo rompimento da barragem. Rela&ccedil;&atilde;o esta que visa fazer das escolas instrumento de oculta&ccedil;&atilde;o das reais condi&ccedil;&otilde;es da atividade miner&aacute;ria e dos riscos socioambientais a que a comunidade est&aacute; exposta.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PARA CONCLUIR</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Os impactos do rompimento da barragem BI ser&atilde;o sentidos por muito tempo. Segundo Mariano &#91;15&#93;, essa &eacute; uma marca que n&atilde;o se apagar&aacute;, seja nas pessoas, no solo, na vegeta&ccedil;&atilde;o, nas &aacute;guas ou nos animais. Na &aacute;rea educacional, as quest&otilde;es relacionadas &agrave; seguran&ccedil;a f&iacute;sica dos estudantes, dos professores e dos demais trabalhadores da comunidade escolar remetem para uma situa&ccedil;&atilde;o de perigo iminente e prolongado vivenciado por gera&ccedil;&otilde;es ao longo do tempo. A inseguran&ccedil;a f&iacute;sica soma-se ao silenciamento produzido nas pr&aacute;ticas curriculares por meio de cursos, materiais did&aacute;ticos e apoios diversos pelos quais as empresas de minera&ccedil;&atilde;o exercem controle sobre as escolas e, assim, obliteram a percep&ccedil;&atilde;o dos riscos a que a comunidade est&aacute; exposta. Impedir que a popula&ccedil;&atilde;o possa se apropriar do conhecimento sobre suas condi&ccedil;&otilde;es de vida &eacute; exp&ocirc;-la cotidianamente &agrave; nega&ccedil;&atilde;o do vivido de forma planejada e com objetivos claros e precisos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sendo assim, tratar esse tema numa perspectiva de defesa e garantia da vida das pessoas e da natureza demandar&aacute; mobiliza&ccedil;&atilde;o e articula&ccedil;&atilde;o entre sujeitos, organiza&ccedil;&otilde;es sociais e sindicais, universidades, poderes judici&aacute;rio, legislativo e executivo, dentre outros, com condi&ccedil;&otilde;es para contribuir na constru&ccedil;&atilde;o de um projeto pedag&oacute;gico que torne evidente a pr&aacute;tica escolar desenvolvida no &acirc;mbito de um contexto de ocultamento das condi&ccedil;&otilde;es concretas de produ&ccedil;&atilde;o miner&aacute;ria. Para al&eacute;m disso, &eacute; construir outro projeto de produ&ccedil;&atilde;o e reprodu&ccedil;&atilde;o da vida que garanta a sustentabilidade da exist&ecirc;ncia.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Zhouri, A.; Oliveira, R.; Zucarelli, M.; Vasconcelos, M. "The rio Doce mining disaster in Brazil: between policies of reparation and the politics of affectation". In: <i>Dossier Mining, Violence, Resistance</i>. Vibrant, 14 (2), 2017. e142081.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. CIAEA - Comit&ecirc; Independente de Assessoramento Extraordin&aacute;rio de Apura&ccedil;&atilde;o. <i>Sum&aacute;rio Executivo do Relat&oacute;rio de Investiga&ccedil;&atilde;o Interdependente. </i>Relat&oacute;rio da Barragem 1 da Mina do C&oacute;rrego do Feij&atilde;o-Brumadinho, MG. Rio de Janeiro: RJ, 2020.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Freitas, C. M.; Barcellos, C.; Asmus, C. I. R. F.; Silva, M. A.; Xavier, D. R. "Da Samarco em Mariana &agrave; Vale em Brumadinho: desastres em barragens de minera&ccedil;&atilde;o e sa&uacute;de coletiva". <i>Caderno de Sa&uacute;de P&uacute;blica: Espa&ccedil;o Tem&aacute;tico: minera&ccedil;&atilde;o e desastres ambientais</i> 2019; 35(5):e00052519.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. ANA - Ag&ecirc;ncia Nacional de &Aacute;guas. Nota Informativa - Rio Paraopeba. Portal Not&iacute;cias de 11 fev. 2020. Dispon&iacute;vel em <a href="https://www.ana.gov.br/noticias/paraopeba" target="_blank">https://www.ana.gov.br/noticias/paraopeba</a>. Acesso em 21 fev. 2020.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Plataforma QEdu - Use dados, transforme a educa&ccedil;&atilde;o. Dispon&iacute;vel em <a href="https://www.qedu.org.br/sobre/dados-disponiveis" target="_blank">https://www.qedu.org.br/sobre/dados-disponiveis</a>. Acesso em 21 fev. 2020.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. UNISDR - United Nations International Strategy for Disaster Reduction (2014). <i>Comprehensive school safety. A global framework in support of the global alliance for disaster risk reduction and resilience in the education sector and the worldwide initiative for safe schools</i>. Dispon&iacute;vel em <a href="https://www.eccnetwork.net/sites/default/files/media/file/css-framework-2017.pdf" target="_blank">https://www.eccnetwork.net/sites/default/files/media/file/css-framework-2017.pdf</a>. Acesso em 05 de fev. de 2020.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Dispon&iacute;vel em <a href="https://www.cemaden.gov.br/municipios-monitorados-2/" target="_blank">https://www.cemaden.gov.br/municipios-monitorados-2/</a>. Acesso em 25 fev. 2020.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Google Maps. Dispon&iacute;vel em <a href="https://www.google.com.br/maps/@12.1913696,-68.9759875,11z?hl=pt-BR" target="_blank">https://www.google.com.br/maps/@12.1913696,-68.9759875,11z?hl=pt-BR</a>. Acesso em 18 fev. 2020.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. Brasil, ANM. Resolu&ccedil;&atilde;o nº 4, de 15 de fevereiro de 2019. Dispon&iacute;vel em &lt;<a href="http://www.in.gov.br/web/dou/-/resolucao-n-4-de-15-de-fevereiro-de-2019-63799056" target="_blank">http://www.in.gov.br/web/dou/-/resolucao-n-4-de-15-de-fevereiro-de-2019-63799056</a>&gt; Acesso em 22 de fev. 2020.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. Haesbart, R. <i>Desterritorializa&ccedil;&atilde;o e identidade: a rede "ga&uacute;cha" no nordeste</i>. Niter&oacute;i: Eduff, 1997. 293p.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11. Hunzicker, A. C. de M. "O rompimento da barragem do Fund&atilde;o: repercuss&otilde;es nos saberes e pr&aacute;ticas das professoras da escola de Bento Rodrigues". Disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado em educa&ccedil;&atilde;o: Mestrado Profissional em Educa&ccedil;&atilde;o e Doc&ecirc;ncia - Promestre. Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educa&ccedil;&atilde;o, Belo Horizonte. 2019.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">12. Antunes-Rocha, M. I. <i>et al. "</i>Educa&ccedil;&atilde;o do campo: uma possibilidade para a reconstru&ccedil;&atilde;o da oferta escolar nas &aacute;reas campesinas atingidas pelo rompimento da barragem do Fund&atilde;o". In: Silva, F. A. <i>et al. Di&aacute;logos na forma&ccedil;&atilde;o docente com diferentes sujeitos e espa&ccedil;os e espa&ccedil;os educativos</i>. Curitiba: Editora CRV, 2018.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">13. Rodas de conversa realizadas entre mar&ccedil;o e junho de 2019 com professores e gestores em uma escola p&uacute;blica do munic&iacute;pio de Brumadinho sob a coordena&ccedil;&atilde;o da profa. Maria Isabel Antunes-Rocha</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">14. Pesquisa "Impactos do rompimento da barragem do Fund&atilde;o na identidade das escolas do campo: um estudo na perspectiva das representa&ccedil;&otilde;es sociais" realizada com apoio da Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) sob a coordena&ccedil;&atilde;o da profa. Maria Isabel Antunes- Rocha. 2017-2019.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">15. Mariano, R. "Abaladas, crian&ccedil;as atingidas na trag&eacute;dia poder&atilde;o sofrer ainda mais na fase adulta". <i>Jornal Hoje em Dia, </i>Belo Horizonte, 31 jan. 2019. Dispon&iacute;vel em <a href="https://www.hojeemdia.com.br/horizontes/abaladas-crian%C3%A7as-atingidas-na-trag%C3%A9dia-poder%C3%A3o-sofrer-ainda-mais-na-fase-adulta-1.690304" target="_blank">https://www.hojeemdia.com.br/horizontes/abaladas-crian%C3%A7as-atingidas-na-trag%C3%A9dia-poder%C3%A3o-sofrer-ainda-mais-na-fase-adulta-1.690304</a>. Acesso em 06 dez. 2019.    </font></p>     ]]></body>
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