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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Rompimento da barragem da Vale em Brumadinho: impactos socioambientais na Bacia do Rio Paraopeba]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   BRUMADINHO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Rompimento da barragem  da Vale em Brumadinho: impactos socioambientais  na Bacia do Rio Paraopeba</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Marcus Vinicius Polignano<sup>I</sup>; Rodrigo Silva Lemos<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>M&eacute;dico especialista em medicina preventiva e sa&uacute;de ambiental, mestre em epidemiologia, doutor em pediatria social, professor associado do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenador geral do Projeto Manuelz&atilde;o UFMG    <br>   <sup>II</sup>Ge&oacute;grafo, especialista em direito ambiental (PUC Minas), mestre e doutor em geografia e an&aacute;lise ambiental (UFMG) e coordenador de an&aacute;lise ambiental do Instituto Guaicuy</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No dia 25 de janeiro de 2019, a barragem de min&eacute;rio da Vale localizada no ribeir&atilde;o Ferro-Carv&atilde;o (C&oacute;rrego do Feij&atilde;o), afluente do rio Paraopeba, se rompeu, ocasionando um dos maiores desastres socioambientais da hist&oacute;ria do Brasil. O rompimento da barragem configura-se como um dos maiores crimes ambientais e de acidente de trabalho do Brasil, uma vez que a maioria das 270 v&iacute;timas era de trabalhadores que atuavam na &aacute;rea da empresa. E tudo isso se deu por a&ccedil;&atilde;o de neglig&ecirc;ncia relacionada &agrave; opera&ccedil;&atilde;o de barragem de rejeitos operada e de responsabilidade da Vale.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os desastres s&atilde;o classificados quanto &agrave; sua intensidade, evolu&ccedil;&atilde;o e origem. O caso em an&aacute;lise, quanto &agrave; intensidade, classifica-se como n&iacute;vel IV, ou seja, "desastre de muito grande porte" &#91;1&#93;. Os desastres desse n&iacute;vel mais elevado s&atilde;o caracterizados quando os danos causados s&atilde;o muito importantes e os preju&iacute;zos muito vultosos e consider&aacute;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nessas condi&ccedil;&otilde;es, esses desastres n&atilde;o s&atilde;o super&aacute;veis e suport&aacute;veis pelas comunidades, mesmo quando bem informadas, preparadas, participativas e mobilizadas. &Eacute; necess&aacute;rio apoio e ajuda de estruturas externas &agrave; &aacute;rea afetada. Nessas condi&ccedil;&otilde;es, o restabelecimento da situa&ccedil;&atilde;o de normalidade depende da mobiliza&ccedil;&atilde;o e da a&ccedil;&atilde;o coordenada entre entidades de ensino e pesquisa, setores da sociedade civil e institui&ccedil;&otilde;es dos tr&ecirc;s n&iacute;veis de governo (municipal, estadual e federal) e, em alguns casos, at&eacute; de ajuda internacional.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assim que tomamos conhecimento do rompimento da barragem Vale na regi&atilde;o do C&oacute;rrego do Feij&atilde;o, compusemos uma equipe formada por professores e pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) de diferentes &aacute;reas do conhecimento, a saber: medicina, biologia, geografia, geologia e comunica&ccedil;&atilde;o, para nos deslocarmos para a regi&atilde;o e fazermos uma avali&ccedil;&atilde;o <i>in loco</i> dos efeitos devastadores do crime socioambiental.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; muito o projeto Manuelz&atilde;o UFMG vem defendendo a abordagem ecossist&ecirc;mica baseada na regionaliza&ccedil;&atilde;o por bacia hidrogr&aacute;fica como forma de planejamento e de gest&atilde;o ambiental. A avalia&ccedil;&atilde;o desse evento tem que necessariamente passar por uma abordagem ecossist&ecirc;mica a fim de entender a din&acirc;mica e a complexidade do processo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para a realiza&ccedil;&atilde;o dessa an&aacute;lise, &eacute; importante utilizar uma abordagem transdisciplinar e sist&ecirc;mica incorporando o compartilhamento de diferentes &aacute;reas do conhecimento e diversas metodologias, com a incorpora&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o social dentro da concep&ccedil;&atilde;o de complexidade em contraposi&ccedil;&atilde;o ao reducionismo, tendo as incertezas como inerentes aos sistemas complexos &#91;2&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; fundamental compreender que um desastre dessa dimens&atilde;o n&atilde;o pode ser mensurado apenas pelos danos locais, dados pontuais e tem&aacute;ticos. O impacto gerado pelo rompimento da barragem da empresa Vale &eacute; complexo e din&acirc;mico, pois interfere de forma sist&ecirc;mica e sin&eacute;rgica ao mesmo tempo em rela&ccedil;&otilde;es ambientais, sociais e econ&ocirc;micas ao longo de toda a bacia do rio Paraopeba. O impacto global &eacute; bem maior e mais complexo que a simples soma das partes.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TERRIT&Oacute;RIO IMPACTADO: BACIA DO RIO PARAOPEBA</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O uso e a ocupa&ccedil;&atilde;o desordenada da bacia do rio Paraopeba v&ecirc;m historicamente provocando um processo cont&iacute;nuo de degrada&ccedil;&atilde;o, que tem comprometido a qualidade e a quantidade das &aacute;guas. O desastre ambiental agravou e intensificou a degrada&ccedil;&atilde;o ambiental que j&aacute; ocorria na bacia do rio Paraopeba.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A bacia est&aacute; inserida no contexto do alto rio S&atilde;o Francisco, com uma &aacute;rea aproximada de 13.600 km&sup2;, correspondente a 2,5% da &aacute;rea total do estado de Minas Gerais. A bacia compreende 48 munic&iacute;pios, sendo que 14 fazem parte da regi&atilde;o metropolitana de Belo Horizonte, com uma popula&ccedil;&atilde;o total aproximada de 2,8 milh&otilde;es de pessoas, das quais cerca de 2 milh&otilde;es est&atilde;o inseridas na bacia &#91;3&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O rio Paraopeba &eacute; um dos mais importantes tribut&aacute;rios do rio S&atilde;o Francisco, percorrendo aproximadamente 510 quil&ocirc;metros at&eacute; a sua foz, no lago da represa de Tr&ecirc;s Marias. A sua bacia hidrogr&aacute;fica encontra-se na &aacute;rea de transi&ccedil;&atilde;o dos biomas Cerrado e Mata Atl&acirc;ntica, com predom&iacute;nio do primeiro, que corresponde a 54% da superf&iacute;cie total da &aacute;rea. A bacia &eacute; bem dividida, sendo que, na parte alta da mesma, est&aacute; presente o Cerrado e, na baixa, a Mata Atl&acirc;ntica &#91;3&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A Mata Atl&acirc;ntica se encontra hoje reduzida a 22% de sua superf&iacute;cie original no Brasil, com um grande desflorestamento causado pelas atividades humanas. Mesmo reduzida e muito fragmentada, estima-se que ela abrigue cerca de 20.000 esp&eacute;cies vegetais (cerca de 35% das esp&eacute;cies existentes no Brasil), incluindo diversas esp&eacute;cies end&ecirc;micas e amea&ccedil;adas de extin&ccedil;&atilde;o. As principais caracter&iacute;sticas da Mata Atl&acirc;ntica s&atilde;o: &aacute;rvores de m&eacute;dio e grande porte, formando uma floresta fechada e densa; a grande biodiversidade, com presen&ccedil;a de diversas esp&eacute;cies animais e vegetais; &aacute;rvores de grande porte respons&aacute;veis pela forma&ccedil;&atilde;o de um microclima na mata; e uma fauna rica, composta por diversas esp&eacute;cies de mam&iacute;feros, anf&iacute;bios, aves, insetos, peixes e r&eacute;pteis. De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov&aacute;veis (Ibama), o rompimento da barragem provovou a destrui&ccedil;&atilde;o de 133,27 hectares de vegeta&ccedil;&atilde;o nativa de Mata Atl&acirc;ntica e 70,65 hectares de &aacute;reas de prote&ccedil;&atilde;o permanente (APP).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A regi&atilde;o do Cerrado apresenta uma grande heterogeneidade de ambientes, compreendendo diversos tipos de comunidades bi&oacute;ticas, condicionadas pela origem geol&oacute;gica, composi&ccedil;&atilde;o e profundidade do solo, altura do len&ccedil;ol fre&aacute;tico e outros fatores, e cujas fisionomias variam desde formas campestres at&eacute; florestais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A bacia hidrogr&aacute;fica do rio Paraopeba &eacute; de extrema relev&acirc;ncia no &acirc;mbito do abastecimento p&uacute;blico de &aacute;gua, pois &eacute; respons&aacute;vel pelo fornecimento para aproximadamente 53% da popula&ccedil;&atilde;o da regi&atilde;o metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), por meio dos sistemas V&aacute;rzea das Flores, Serra Azul e Rio Manso. Nesse sentido, vale destacar que este &eacute; um dos maiores impactos ambientais cuasados pelo rompimento da barragem, uma vez que as &aacute;guas ficaram contaminadas e impossibilitadas para o uso humano.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Das atividades econ&ocirc;micas instaladas na bacia s&atilde;o destaque a explora&ccedil;&atilde;o mineral, siderurgias, ind&uacute;stria petroqu&iacute;mica e automobil&iacute;stica, produ&ccedil;&atilde;o de bebidas, servi&ccedil;os, gera&ccedil;&atilde;o hidrel&eacute;trica, pecu&aacute;ria e agricultura. Notadamente, na regi&atilde;o do Alto Paraopeba h&aacute; um grande volume de investimentos nos setores miner&aacute;rio e sider&uacute;rgico, que nos &uacute;ltimos anos contribu&iacute;ram fortemente para a economia da regi&atilde;o. Por isso, &eacute; fundamental estabelecer medidas que equilibrem a  atividade econ&ocirc;mica, geradora de empregos e impostos, e o abastecimento humano e a preserva&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas. O atual evento demosntra claramente que esse equil&iacute;brio est&aacute; longe de ser alcan&ccedil;ado. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">At&eacute; o ano de 2011, os principais respons&aacute;veis pela degrada&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas eram os lan&ccedil;amentos de esgotos dom&eacute;sticos e industriais, al&eacute;m do uso e ocupa&ccedil;&atilde;o inadequados do solo nas &aacute;reas urbana e rural, notadamente no que diz respeito &agrave; aus&ecirc;ncia ou insufici&ecirc;ncia de cobertura vegetal. O somat&oacute;rio das cargas org&acirc;nicas e inorg&acirc;nicas ultrapassa, em muito, a capacidade natural de assimila&ccedil;&atilde;o e autodepura&ccedil;&atilde;o do rio Paraopeba e de alguns de seus afluentes. Se os dados j&aacute; demonstravam uma contamina&ccedil;&atilde;o significativa pelos esgotos dom&eacute;sticos, a situa&ccedil;&atilde;o se agravou com a contamina&ccedil;&atilde;o provocada pela pluma de min&eacute;rio ap&oacute;s o rompimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O rio Paraopeba possui expressiva riqueza e diversidade em sua ictiofauna (esp&eacute;cies de peixes). No <i>Atlas da Biodiversidade de Minas Gerais</i> consta que o rio Paraopeba &eacute; um dos priorit&aacute;rios para conserva&ccedil;&atilde;o dos peixes no estado de Minas Gerais, devido &agrave; sua grande import&acirc;ncia biol&oacute;gica. Os peixes representam o grupo mais estudado e, consequentemente, os melhores indicadores de padr&otilde;es zoogeogr&aacute;ficos dentro do ecossistema aqu&aacute;tico. Foi detectada a presen&ccedil;a de 95 esp&eacute;cies de peixes na bacia do rio das Velhas. O rompimento da barragem n&atilde;o apresentou epis&oacute;dios significativos imediatos de mortandade de peixes, embora os efeitos sobre o ecossistema aqu&aacute;tico, a m&eacute;dio e longo prazo, ter&atilde;o impactos na biota aqu&aacute;tica &#91;3&#93;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TIPIFICA&Ccedil;&Atilde;O DE IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A partir de todos os dados obtidos &eacute; poss&iacute;vel tipificar diferentes impactos gerados pelo rompimento da barragem. As altera&ccedil;&otilde;es morfol&oacute;gicas no sistema fluvial s&atilde;o referentes aos impactos gerados pela retirada de vegeta&ccedil;&atilde;o, pela eros&atilde;o nas margens dos cursos d'&aacute;gua, pelas altera&ccedil;&otilde;es no tra&ccedil;ado fluvial e ainda pela deposi&ccedil;&atilde;o de materiais sedimentares no leito fluvial.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os impactos sociais com o rompimento da barragem s&atilde;o muito complexos e passaram por diferentes linhas de discuss&atilde;o: destrui&ccedil;&atilde;o de estruturas p&uacute;blicas e privadas; altera&ccedil;&atilde;o do modo de vida de comunidades tradicionais e perda de patrim&ocirc;nio imaterial; perda da capacidade produtiva de pequeno agricultor; sa&uacute;de de comunidades ribeirinhas e atingidos (danos psicol&oacute;gicos, sa&uacute;de mental, doen&ccedil;as de veicula&ccedil;&atilde;o h&iacute;drica); prolifera&ccedil;&atilde;o de vetores (ratos, insetos); restri&ccedil;&atilde;o de usos poss&iacute;veis para as &aacute;guas; impossibilidade/diminui&ccedil;&atilde;o da oferta de pescado; limita&ccedil;&atilde;o dos usos da &aacute;gua, inclusive para dessendenta&ccedil;&atilde;o animal. Os impactos ao meio bi&oacute;tico foram elencados considerando principalmente a retirada de vegeta&ccedil;&atilde;o ciliar, a mortandade da biota aqu&aacute;tica e os impactos na biota terrestre.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para esbo&ccedil;ar os impactos produzidos ao longo da bacia utilizamos de informa&ccedil;&otilde;es pr&oacute;prias produzidas por visitas de campo, an&aacute;lises de &aacute;gua e sedimentos elaboradas por diversas entidades e consolidadas pelo Instituto Mineiro de Gest&atilde;o das &Aacute;guas (Igam) &#91;4&#93;. A primeira constata&ccedil;&atilde;o &eacute; de que a maioria das mortes poderia ter sido evitada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A <a href="/img/revistas/cic/v72n2/a11fig01.jpg">figura 1</a> apresenta um estudo de <i>dambreak</i> (rompimento da barragem) no qual fica evidenciado que as estruturas administrativas (restaurante e escrit&oacute;rios) estavam localizadas na &aacute;rea denominada de "auto-salvamento", de onde as pessoas dificilmente teriam tempo para escapar. A falta de uma a&ccedil;&atilde;o preventiva provocou perdas de vidas humanas:  257 corpos foram identificados (121 empregados pr&oacute;prios, 114 funcion&aacute;rios terceirizados e 19 moradores da regi&atilde;o), e 13 desaparecidos (7 empregados pr&oacute;prios, 5 terceirizados e uma pessoa da comunidade).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>IMPACTOS GERADOS POR REGI&Otilde;ES</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A intensidade dos impactos gerados foi diversa em fun&ccedil;&atilde;o da dist&acirc;ncia do epicentro do rompimento da barragem, como ser&aacute; abordado a seguir.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REGI&Atilde;O DE IMPACTO DIRETO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A regi&atilde;o mais impactada foi do ribeir&atilde;o Ferro-Carv&atilde;o at&eacute; o encontro com o rio Paraopeba. A quantidade de sedimentos depositada foi intensa, a destrui&ccedil;&atilde;o da vegeta&ccedil;&atilde;o foi completa e os impactos ecol&oacute;gicos e sociais foram extremos, incluindo a perda de vidas humanas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A qualidade das &aacute;guas apresentou altera&ccedil;&otilde;es exorbitantes com a presen&ccedil;a de metais pesados encontrados nos sedimentos e em suspens&atilde;o na &aacute;gua. As altera&ccedil;&otilde;es na turbidez tamb&eacute;m foram intensas, al&eacute;m das dos demais par&acirc;metros que medem a qualidade das &aacute;guas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As altera&ccedil;&otilde;es morfol&oacute;gicas no sistema fluvial foram extremas devido &agrave; deposi&ccedil;&atilde;o de sedimentos no leito fluvial, na plan&iacute;cie de inunda&ccedil;&atilde;o e at&eacute; mesmo transpondo tal &aacute;rea, prejudicando diretamente os pequenos produtores e alterando bruscamente seu modo de vida.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os impactos sociais consequentemente foram imensos, com destrui&ccedil;&atilde;o de diversas estruturas p&uacute;blicas e privadas; a perda de patrim&ocirc;nio imaterial e material; perda de vidas humanas, altera&ccedil;&otilde;es nas condi&ccedil;&otilde;es de sa&uacute;de f&iacute;sica e mental da popula&ccedil;&atilde;o. As doen&ccedil;as de veicula&ccedil;&atilde;o h&iacute;drica, impossibilidade de pesca, diminui&ccedil;&atilde;o da disponibilidade h&iacute;drica para abastecimento humano e dessedenta&ccedil;&atilde;o animal foram extremas, limitando as possibilidades de uso da &aacute;gua.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A mortandade da biota aqu&aacute;tica, envolvendo peixes, fauna bent&ocirc;nica e anf&iacute;bios foi excessiva. A retirada de grandes &aacute;reas de vegeta&ccedil;&atilde;o ciliar e impactos na mortandade da biota terrestre tamb&eacute;m s&atilde;o impactos extremos concernentes ao meio bi&oacute;tico.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REGI&Atilde;O DE PROPAGA&Ccedil;&Atilde;O DA PLUMA DE REJEITOS PARA O RIO PARAOPEBA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O onda de sedimentos gradativamente atingiu toda a extens&atilde;o do rio Paraopeba, mas mantendo-se nos limites do calha do rio, alterando num primeiro momento de forma significativa a turbidez por onde passou e carreando metais pesados ao longo de todo o rio at&eacute; a barragem de Retiro Baixo, que atuou como uma barreira impedindo que a pluma se deslocasse para o encontro do Paraopeba com o rio S&atilde;o Francisco.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um dos mais importantes efeitos em toda e extens&atilde;o do rio foi a restri&ccedil;&atilde;o do uso da &aacute;gua em decorr&ecirc;ncia da constata&ccedil;&atilde;o de metais pesados acima dos valores permitidos para um rio de classe II. Na <a href="#fig2">figura 2</a> &eacute; poss&iacute;vel verificar os valores extremos que foram alcan&ccedil;ados nos primeiros dias logo ap&oacute;s o rompimento.</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n2/a11fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A contamina&ccedil;&atilde;o do rio provocou de forma imediata a restri&ccedil;&atilde;o dos usos da &aacute;gua. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustent&aacute;vel (Semad), a Secretaria de Estado da Sa&uacute;de (SES) e a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecu&aacute;ria e Abastecimento (Seapa) recomendaram que a popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o fizesse uso da &aacute;gua bruta do rio Paraopeba, no trecho que abrange os munic&iacute;pios de Brumadinho at&eacute; Pompeu, para nenhuma finalidade; e determinaram, ainda, que a empresa respons&aacute;vel pela barragem suprisse a popula&ccedil;&atilde;o com &aacute;gua em condi&ccedil;&otilde;es seguras para os mais diversos usos. Essa recomenda&ccedil;&atilde;o vigora at&eacute; os dias atuais, e foi respaldada pelo monitoramento executado pelo Igam, Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) e Ag&ecirc;ncia Nacional de &Aacute;guas (ANA).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O uso da &aacute;gua nos trechos localizados antes do munic&iacute;pio de Brumadinho e depois da usina hidroel&eacute;trica de Retiro Baixo est&atilde;o liberados para os mais diversos fins e n&atilde;o existe nenhuma restri&ccedil;&atilde;o por parte dos &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Destaca-se tamb&eacute;m que at&eacute; a presente data, os resultados obtidos indicam que os rejeitos miner&aacute;rios oriundos do rompimento da barragem 1 n&atilde;o ultrapassaram os limites do reservat&oacute;rio de Retiro Baixo, n&atilde;o atingindo, dessa forma, o reservat&oacute;rio de Tr&ecirc;s Marias e o rio S&atilde;o Francisco.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DIN&Acirc;MICA DOS SEDIMENTOS E METAIS PESADOS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> &Eacute; necess&aacute;rio diferenciar os processos de impactos ambientais decorrentes do rompimento da barragem de Fund&atilde;o a partir das caracter&iacute;sticas morfol&oacute;gicas e hidrosedimentares dos corpos d'&aacute;gua, assim como perceber que diferentes vari&aacute;veis t&ecirc;m comportamentos diferenciados ao longo do tempo e dos variados contextos ambientais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O material sedimentar transportado ao curso d'&aacute;gua &eacute; composto por tr&ecirc;s principais granulometrias: argila (&lt;0,002 mm), silte (0,053mm a 0,002 mm) e areia (2mm a 0,53m). A areia e o silte s&atilde;o transportadas por arraste e salta&ccedil;&atilde;o, com forte influ&ecirc;ncia da turbul&ecirc;ncia do curso d'&aacute;gua e de aumentos de vaz&atilde;o, como nos per&iacute;odos chuvosos. A argila, por sua vez, &eacute; transportada em falsa-solu&ccedil;&atilde;o, enquanto col&oacute;ide, movimentando-se predominantemente em velocidade pr&oacute;xima a do escoamento do curso d'&aacute;gua. Dessa forma, as part&iacute;culas de argila, que t&ecirc;m o potencial de adsorver metais pesados, com o rompimento, possuem uma mobilidade e velocidade de transporte superior &agrave; dos siltes e das areias.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Inicialmente &eacute; necess&aacute;rio tipificar alguns grandes contextos de impacto ambiental: 1) &aacute;rea de intensa deposi&ccedil;&atilde;o de sedimentos na bacia do ribeir&atilde;o Ferro-Carv&atilde;o; 2) rio Paraopeba, at&eacute; o encontro com o barramento inserido em Juatuba; 3) rio Paraopeba, at&eacute; o reservat&oacute;rio de Retiro de Baixo; 4) reservat&oacute;rio de Retiro de Baixo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na din&acirc;mica fluvial e ecol&oacute;gica, a &aacute;rea 1 &eacute; uma fonte cont&iacute;nua de sedimentos a serem carreados para o rio Paraopeba, principalmente em per&iacute;odos de chuvas. As obras de conten&ccedil;&atilde;o e de tratamento das &aacute;guas fluviais, em realiza&ccedil;&atilde;o, contribuem para diminuir o impacto. Entretanto, considera-se que a estabiliza&ccedil;&atilde;o de todos os materiais e a sua retirada para n&atilde;o gerar novas fontes de contamina&ccedil;&atilde;o &eacute; essencial. O material depositado tem composi&ccedil;&atilde;o variada, contendo tanto areia, quanto silte e argila &#91;6&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De maneira geral, observa-se que na primeira semana de monitoramento ap&oacute;s o rompimento da barragem os maiores impactos sobre o ribeir&atilde;o Ferro-Carv&atilde;o e sobre o rio Paraopeba ocorreram nos primeiros 40 km de extens&atilde;o, atingindo os munic&iacute;pios de Brumadinho a S&atilde;o Joaquim de Bicas (trecho 1). Esse trecho ficou totalmente impactado, inviabilizando o uso da &aacute;gua para as mais diversas finalidades, pois encontrava-se com valores elevados de turbidez, ferro, mangan&ecirc;s, alum&iacute;nio e presen&ccedil;a de metais pesados como chumbo e merc&uacute;rio (<a href="#fig3">Figura 3</a>).</font></p>     <p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n2/a11fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com a chegada do material sedimentar ao rio Paraopeba, o sedimento desagregado pela a&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas em suas diferentes granulometrias ter&aacute; comportamento diferenciado de acordo com suas pr&oacute;prias caracter&iacute;sticas. Inicialmente, as areias e siltes foram transportados de forma mais lenta, principalmente considerado o barramento inserido no munic&iacute;pio de Juatuba. Esse material sedimentar acumulado no leito fluvial impacta a din&acirc;mica ecol&oacute;gica e geomorfol&oacute;gica do curso d'&aacute;gua (<a href="#fig4">Figura 4</a>).</font></p>     <p><a name="fig4"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n2/a11fig04.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nas semanas seguintes foram detectadas oscila&ccedil;&otilde;es para os par&acirc;metros turbidez, ferro total, mangan&ecirc;s total, chumbo total e merc&uacute;rio total tamb&eacute;m nos arredores dos munic&iacute;pios de Esmeraldas, S&atilde;o Jos&eacute; da Varginha, Papagaios, Paraopeba, Curvelo e Pomp&eacute;u (trechos 2 e 3). Essas oscila&ccedil;&otilde;es ocorreram sobretudo devido ao per&iacute;odo de chuvas que contribu&iacute;ram com a remobiliza&ccedil;&atilde;o do material depositado no leito do rio ou novos aportes de rejeitos no rio Paraopeba de trechos a montante</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As part&iacute;culas de argila, por sua vez, com velocidade de deslocamento maior e suspensas na &aacute;gua em falsa solu&ccedil;&atilde;o, transp&otilde;em barreiras f&iacute;sicas com bastante facilidade e foram transportadas com possibilidades de deposi&ccedil;&atilde;o de pequenas quantidades at&eacute; o reservat&oacute;rio de Retiro de Baixo (<a href="#fig5">Figura 5</a>).</font></p>     <p><a name="fig5"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n2/a11fig05.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O reservat&oacute;rio de Retiro de Baixo, ao que tudo indica e at&eacute; o momento, tem contido o material sedimentar mais fino, uma vez que, como ambiente l&ecirc;ntico (de &aacute;gua parada), a tend&ecirc;ncia de deposi&ccedil;&atilde;o aumenta, assim como se diminui a velocidade de transporte. Esse material sedimentar &eacute; associado principalmente &agrave; argila. Com os diferentes n&iacute;veis de impacto, &eacute; importante destacar que:</font></p>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><img src="/img/revistas/cic/v72n2/quad01.jpg"> o aumento de sedimentos nos cursos d'&aacute;gua geram fortes impactos para o sistema ecol&oacute;gico fluvial;</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><img src="/img/revistas/cic/v72n2/quad01.jpg"> os materiais mais finos, principalmente argila, podem entupir sistemas filtrantes (de pl&acirc;ncton, a peixes) e causar morte - situa&ccedil;&atilde;o a ser estudada e detalhada;</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><img src="/img/revistas/cic/v72n2/quad01.jpg">os materiais mais grosseiros (areia e silte) est&atilde;o continuamente se movimentando ao longo do leito fluvial e impactam toda a din&acirc;mica ecol&oacute;gica das comunidades bent&ocirc;nicas;</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><img src="/img/revistas/cic/v72n2/quad01.jpg"> esses materiais est&atilde;o em movimento e seu impacto tem ainda de ser dimensionado, principalmente no que se refere &agrave; capacidade de adsor&ccedil;&atilde;o e transporte de metais pesados.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na medi&ccedil;&atilde;o de novembro de 2019 (entre os dias 02 e 28), j&aacute; refletindo o per&iacute;odo chuvoso, foi verificado que os valores de turbidez estiveram acima do limite da legisla&ccedil;&atilde;o (at&eacute; tr&ecirc;s vezes) nos trechos 1 a 3, entre os munic&iacute;pios de Brumadinho e Curvelo. Assim como a turbidez, os resultados de mangan&ecirc;s total tamb&eacute;m estiveram acima do limite legal nos mesmos trechos. Os resultados de mangan&ecirc;s total variaram de 1,5 a aproximadamente 14 vezes o limite estabelecido na legisla&ccedil;&atilde;o, sendo o maior valor registrado no dia 18 de novembro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os resultados de ferro dissolvido apresentaram valores at&eacute; tr&ecirc;s vezes acima do limite legal, sendo o maior valor registrado no dia 05. Os resultados de alum&iacute;nio dissolvido tamb&eacute;m estiveram acima do limite legal (at&eacute; 10 vezes) nos trechos 1 a 4 (Brumadinho at&eacute; Pomp&eacute;u). O maior valor de alum&iacute;nio dissolvido foi registrado no dia 05, no munic&iacute;pio de Brumadinho. Houve aumento das concentra&ccedil;&otilde;es de mangan&ecirc;s, ferro, alum&iacute;nio e da turbidez no rio Paraopeba relacionado com a intensifica&ccedil;&atilde;o das chuvas no m&ecirc;s de novembro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A presen&ccedil;a de sedimentos depositados ao longo do leito do rio provocou mudan&ccedil;as significativas no habitat de bentos e peixes, o que pode comprometer aspectos fundamentais para a vida e a reprodu&ccedil;&atilde;o da biota aqu&aacute;tica. Os metais pesados identificados e presentes no rio podem se incorporar &agrave; cadeia alimentar e, consequentemente, produzir a contamina&ccedil;&atilde;o de esp&eacute;cies de peixes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na <a href="/img/revistas/cic/v72n2/a11fig06.jpg">figura 6</a> &eacute; apresentado modelo de matriz de danos socioambientais como consequ&ecirc;ncia do crime ambiental do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, demonstrando que os danos s&atilde;o sist&ecirc;micos, sin&eacute;rgicos e din&acirc;micos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS </b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Diante da complexidade e da gravidade do crime socioambiental, resta a indaga&ccedil;&atilde;o: o que pode ser reparado e como faz&ecirc;-lo? Vidas perdidas n&atilde;o s&atilde;o pass&iacute;veis de repara&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O dano ambiental pode ser classificado quanto &agrave; sua extens&atilde;o, como material ou patrimonial, ou imaterial, extrapatrimonial ou moral. O dano ambiental, como o de qualquer outra esp&eacute;cie, enseja a responsabilidade do causador - no caso a Vale -, ficando este obrigado a repar&aacute;-lo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A repara&ccedil;&atilde;o &eacute; a materializa&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio do poluidor-pagador e do princ&iacute;pio da repara&ccedil;&atilde;o integral, dois dos tr&ecirc;s princ&iacute;pios b&aacute;sicos da responsabilidade civil ambiental. Os agentes devem assumir (internalizar) totalmente os custos sociais externos (externalidades) da degrada&ccedil;&atilde;o ambiental, que devem ser levados em conta no processo produtivo, bem como reparar na totalidade o dano, independentemente do seu custo. Se o lucro por eles almejado n&atilde;o &eacute; limitado, a responsabilidade pela repara&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m n&atilde;o deve ser &#91;7&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O  &#167; 3º do art. 225 da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal disp&otilde;e que a responsabiliza&ccedil;&atilde;o, tanto da pessoa f&iacute;sica como da jur&iacute;dica, pelas condutas e atividades consideradas nocivas ao meio ambiente poder&aacute; se dar nas esferas administrativa, penal e c&iacute;vel, de forma independente e cumulativa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A partir das consequ&ecirc;ncias do rompimento criminoso da barragem as possibilidades s&atilde;o: recupera&ccedil;&atilde;o, reabilita&ccedil;&atilde;o e restaura&ccedil;&atilde;o. Por vezes tratadas como sin&ocirc;nimos, &eacute; importante distinguir os diferentes conceitos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>a) recupera&ccedil;&atilde;o:</b> a legisla&ccedil;&atilde;o federal brasileira menciona que o objetivo da recupera&ccedil;&atilde;o &eacute; o "retorno do s&iacute;tio degradado a uma forma de utiliza&ccedil;&atilde;o, de acordo com um plano pr&eacute;-estabelecido para o uso do solo, visando &agrave; obten&ccedil;&atilde;o de uma estabilidade do meio ambiente" (Decreto Federal 97.632/89). Esse decreto vai de encontro ao estabelecido pelo Ibama, que indica que a recupera&ccedil;&atilde;o significa que o s&iacute;tio degradado ser&aacute; retornado a uma forma e utiliza&ccedil;&atilde;o de acordo com o plano pr&eacute;-estabelecido para o uso do solo. Significa tamb&eacute;m que o s&iacute;tio degradado ter&aacute; condi&ccedil;&otilde;es m&iacute;nimas de estabelecer um novo equil&iacute;brio din&acirc;mico, desenvolvendo um novo solo e uma nova paisagem. A recupera&ccedil;&atilde;o &eacute; a repara&ccedil;&atilde;o dos recursos ao ponto que seja suficiente para restabelecer a composi&ccedil;&atilde;o e a frequ&ecirc;ncia das esp&eacute;cies encontradas originalmente no local.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>b) reabilita&ccedil;&atilde;o:</b> trata-se do retorno da &aacute;rea degradada a um estado biol&oacute;gico apropriado. Esse retorno pode n&atilde;o significar o uso produtivo da &aacute;rea a longo prazo, como a implanta&ccedil;&atilde;o de uma atividade que render&aacute; lucro, ou atividades menos tang&iacute;veis em termos monet&aacute;rios, visando, por exemplo, a recrea&ccedil;&atilde;o ou a valoriza&ccedil;&atilde;o est&eacute;tico-ecol&oacute;gica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>c) restaura&ccedil;&atilde;o:</b> refere-se &agrave; obrigatoriedade do retorno ao estado original da &aacute;rea, antes da degrada&ccedil;&atilde;o. Esse termo &eacute; o mais impr&oacute;prio a ser utilizado para os processos que normalmente s&atilde;o executados. Por retorno ao estado original entende-se que todos os aspectos relacionados com topografia, vegeta&ccedil;&atilde;o, fauna, solo, hidrologia etc. apresentem as mesmas caracter&iacute;sticas anteriores &agrave; degrada&ccedil;&atilde;o. Trata-se, portanto, de um objetivo praticamente inating&iacute;vel. Fazer a restaura&ccedil;&atilde;o de um ecossistema para consequentemente recuperar sua fun&ccedil;&atilde;o &eacute; algo t&eacute;cnica e economicamente question&aacute;vel, embora alguns profissionais que atuam na &aacute;rea ambiental tenham equivocadamente essa meta, o que torna necess&aacute;ria uma nova conscientiza&ccedil;&atilde;o dos mesmos sobre a inviabilidade desse processo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Finalmente, esse evento leva &agrave; reflex&atilde;o sobre o modelo de minera&ccedil;&atilde;o que impera no pa&iacute;s desde o per&iacute;odo colonial e que reproduz formas de explora&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e social que se perpetuam com processos obsoletos, comprometendo a seguran&ccedil;a dos trabalhadores e do meio ambiente. Para al&eacute;m de reparar &eacute; preciso definitivamente mudar a l&oacute;gica desse modelo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1.	Castro, A. L. C. <i>Gloss&aacute;rio de defesa civil: estudos de riscos e medicina de desastres</i>. Minist&eacute;rio do Planejamento e Or&ccedil;amento - Secretaria Especial de Pol&iacute;ticas Regionais - Departamento de Defesa Civil. 2ª edi&ccedil;&atilde;o revista e ampliada, 1998.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2.	Polignano, M. V.; Goulart, E. M. A.; Machado, A. T. G. D. M.; Lisboa, A. H. <i>Abordagem ecossist&ecirc;mica da sa&uacute;de</i>. Belo Horizonte: Instituto Gua&ccedil;u, 2012. 200 p.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3.	Cobrape. Plano Diretor de Recursos H&iacute;dricos da Bacia do Rio Paraopeba. Dispon&iacute;vel em <a href="https://www.pdrhparaopeba.com" target="_blank">https://www.pdrhparaopeba.com</a>. Acesso em: 19 de dezembro de 2019</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4.	Minas Gerais, Instituto Mineiro de Gest&atilde;o das &Aacute;guas (Igam). <i>Informativo mensal da qualidade das &aacute;guas do rio Paraopeba ap&oacute;s o desastre na barragem B1 - Informativo mensal da qualidade das &aacute;guas do rio Paraopeba, ap&oacute;s o desastre na barragem B1 no complexo da Mina C&oacute;rrego Feij&atilde;o da Mineradora Vale/SA no munic&iacute;pio de Brumadinho - Minas Gerais.</i> IGAM, n&uacute;meros de 1-55, 2020. Dispon&iacute;vel em &lt;<a href="http://portalinfohidro.igam.mg.gov.br/noticias/362-informativo-mensal-da-qualidade-das-aguas-do-rio-paraopeba-apos-o-desastre-na-barragem-b1-no-complexo-da-mina-corrego-feijao-da-mineradora-vale-sa-no-municipio-de-brumadinho-minas-gerais" target="_blank">http://portalinfohidro.igam.mg.gov.br/noticias/362-informativo-mensal-da-qualidade-das-aguas-do-rio-paraopeba-apos-o-desastre-na-barragem-b1-no-complexo-da-mina-corrego-feijao-da-mineradora-vale-sa-no-municipio-de-brumadinho-minas-gerais</a>&gt;. Acesso em: 20 de janeiro de 2020.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5.	Vale. <i>Plano de a&ccedil;&atilde;o de emerg&ecirc;ncia barragem 1</i> (PAEBM), 2016. Digitado</font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6.	Lemos, R. S. <i>Perspectivas ambientais e ecol&oacute;gicas do rompimento da barragem do C&oacute;rrego do Feij&atilde;o.</i> Dispon&iacute;vel em: &lt;<a href="http://www.gabientedecrise.org.br" target="_blank">http://www.gabientedecrise.org.br</a>&gt;. Acesso em: 10 de dezembro de 2019.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7.	Cardin, V. S. G.; Barbosa, A. H. C. "7 formas de repara&ccedil;&atilde;o do dano ambiental". Dispon&iacute;vel &lt;<a href="http://www.galdino.adv.br/artigos/download/page" target="_blank">http://www.galdino.adv.br/artigos/download/page</a>&gt;. Acesso em: 10 de dezembro de 2019.    </font></p>      ]]></body><back>
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<collab>Minas Gerais^dInstituto Mineiro de Gestão das Águas</collab>
<source><![CDATA[Informativo mensal da qualidade das águas do rio Paraopeba após o desastre na barragem B1 - Informativo mensal da qualidade das águas do rio Paraopeba, após o desastre na barragem B1 no complexo da Mina Córrego Feijão da Mineradora Vale/SA no município de Brumadinho - Minas Gerais. IGAM, números de 1-55, 2020]]></source>
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