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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br>   FOTOGRAFIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Peter Scheier: a modernidade incomodada</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Mariana Garcia de Castro Alves</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cic/v72n2/a16fig01.jpg"><img src="/img/revistas/cic/v72n2/a16fig01t.jpg">    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A organiza&ccedil;&atilde;o e a apresenta&ccedil;&atilde;o de um arquivo constituem-se sempre como um corte de interpreta&ccedil;&atilde;o. O modo de apresentar o extenso acervo do fot&oacute;grafo Peter Scheier pelo Instituto Moreira Sales (IMS) em S&atilde;o Paulo, na exposi&ccedil;&atilde;o <i>Arquivo Peter Scheier</i> propicia outras leituras. Se diferentes compreens&otilde;es se ampliam conforme as ambiguidades da obra, tal retrospectiva - que apresenta diferentes facetas do fot&oacute;grafo em 300 documentos - &eacute; uma janela para novos e instigantes questionamentos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Refugiado do nazismo, Peter Scheier (1908-1979) chega ao Brasil em 1937 com uma carta, que conseguira de um tio, para trabalhar em um frigor&iacute;fico em S&atilde;o Paulo. Sua fam&iacute;lia judaica &eacute; da pequena Glogau, na Alemanha. No entanto, quando de sua vinda para o Brasil, eles j&aacute; haviam trocado a pequena cidade por Hohenau, na &Aacute;ustria, devido a crescentes restri&ccedil;&otilde;es antissemitas. Ali ele trabalhava em uma ind&uacute;stria de a&ccedil;&uacute;car de propriedade de parentes maternos. Com a iminente anexa&ccedil;&atilde;o da &Aacute;ustria, que se d&aacute; em 1938, Scheier, graduado em com&eacute;rcio e fot&oacute;grafo amador, n&atilde;o viu melhor op&ccedil;&atilde;o sen&atilde;o fugir.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em S&atilde;o Paulo, para complementar a renda do frigor&iacute;fico Armour, empresa americana que tinha como pol&iacute;tica contratar empregados da Europa Central e Oriental, Scheier passa a vender c&uacute;pulas de abajur. Para n&atilde;o ter que carregar o inc&ocirc;modo mostru&aacute;rio de um lado a outro, resolve fazer um cat&aacute;logo com as fotos. N&atilde;o demoraria a ser solicitado para produzir fotos de outros produtos que viriam a ilustrar a industrializa&ccedil;&atilde;o brasileira em expans&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">J&aacute; em 1939, torna-se tip&oacute;grafo em <i>O Estado de S. Paulo</i>, contribuindo com fotos para o suplemento de artes do jornal. De 1945 a 1951, como fotojornalista na revista <i>O Cruzeiro</i>, uma das mais lidas do pa&iacute;s, consolida-se como profissional de refer&ecirc;ncia. No in&iacute;cio dos anos 1940 abre seu pr&oacute;prio est&uacute;dio, que funciona at&eacute; 1975. De 1947 a 1955, &eacute; fot&oacute;grafo oficial do Museu de Arte de S&atilde;o Paulo (Masp), entrando em contato com artistas de vanguarda. Como fot&oacute;grafo de arquitetura, colabora com Gregori Warchavchik, Rino Levi, Carlos Bratke e Lina Bo Bardi. Scheier ainda retrata Bras&iacute;lia, em 1958 e 1960, e produz fotorreportagem em Israel, em 1959.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como um dos principais nomes da fotografia brasileira no s&eacute;culo XX, Scheier ganha a retrospectiva que &eacute; fruto de dois anos de pesquisa no acervo de 35 mil negativos sob a guarda do IMS e em outras cole&ccedil;&otilde;es como as do Instituto Peter Scheier, Casa de Vidro, Masp e FAU-USP. A exposi&ccedil;&atilde;o <i>Arquivo Peter Scheier </i>traz uma amplitude de registros que apontam contradi&ccedil;&otilde;es de dif&iacute;cil solu&ccedil;&atilde;o. Aberta em 25 de janeiro, a mostra foi fechada para visita&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico por tempo indeterminado por conta da pandemia do covid-19, mas &eacute; poss&iacute;vel visit&aacute;-la no site do IMS (<a href="https://ims.com.br/exposicao/arquivo-peter-scheier-ims-paulista/" target="_blank">https://ims.com.br/exposicao/arquivo-peter-scheier-ims-paulista/</a>).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MODERNIDADE EM QUEST&Atilde;O</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> De acordo com a curadora Heloisa Espada, sua modernidade, do ponto de vista formal, reside na sua s&iacute;ntese de v&aacute;rias linhagens do fotojornalismo e das vanguardas. "Ele lida tanto com o fotojornalismo mais sensacionalista, da revista francesa <i>Paris Match</i> e da americana <i>Life</i>, quanto com outro paradigma como o de Cartier-Bresson e da ag&ecirc;ncia Magnum", diz ela, ao explicar que enquanto as fotos de <i>O Cruzeiro</i> s&atilde;o feitas com <i>flashes</i> carregados e poses, em c&acirc;meras de m&eacute;dio formato, Scheier destila uma "fotografia humanista", mais "natural", em fotos posteriores: "As fotos passam a captar momentos de naturalidade das pessoas, do lirismo do dia a dia", conta.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Presente no p&oacute;s Segunda Guerra e na produ&ccedil;&atilde;o da ag&ecirc;ncia Magnum, a fotografia humanista representa uma volta ao homem depois das experi&ecirc;ncias das vanguardas modernas que exaltavam a tecnologia e a m&aacute;quina, bem como da pr&oacute;pria trag&eacute;dia da guerra. Se, para a curadora, a modernidade de Scheier seria uma s&iacute;ntese afinada e particular dos diversos momentos da cultura visual do s&eacute;culo XX, para a arquiteta Sonia Gouveia s&atilde;o as caracter&iacute;sticas est&eacute;ticas pr&oacute;prias das vanguardas do in&iacute;cio do s&eacute;culo que definem a modernidade do fot&oacute;grafo: "Com seus &acirc;ngulos acentuadamente inclinados, de baixo para cima, &eacute; poss&iacute;vel not&aacute;-las tanto nos registros de arquitetura, como o Hotel Excelsior, de Rino Levi, quanto naqueles feitos para as reportagens da revista <i>O Cruzeiro</i>, ou at&eacute; mesmo nas fotos de eventos sociais", destaca.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><i>O CRUZEIRO</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Os anos 1950 e 1960, com o quarto centen&aacute;rio de S&atilde;o Paulo (1954) e a inaugura&ccedil;&atilde;o de Bras&iacute;lia (1960) por ele retratados, traziam um ar de otimismo. Por&eacute;m, como testemunho de grandes transforma&ccedil;&otilde;es, o trabalho de Scheier n&atilde;o comportaria apenas a vis&atilde;o idealizada de progresso, mas certo inc&ocirc;modo. "Como transita por lugares diversos, em <i>O Cruzeiro</i> ele mostra o lado sombrio, de mis&eacute;ria, tentando retratar outra face do Brasil", diz a curadora Heloisa Espada. Para ela, essa experi&ecirc;ncia no fotojornalismo mostrava que o desenvolvimento brasileiro n&atilde;o era linear nem desprovido de contradi&ccedil;&otilde;es: "O Brasil estava se modernizando, tinha uma arquitetura moderna importante, grandes artistas, tinha a Bienal... Mas as reportagens mostravam, por exemplo, uma deputada na Assembleia Legislativa de S&atilde;o de Paulo que apanhou de um colega, crian&ccedil;as com barriga d'&aacute;gua, fome no Nordeste, imagens do cotidiano que eram usadas para chocar, causar estranhamento", conta.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ISRAEL/BRAS&Iacute;LIA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O estranhamento em Scheier tamb&eacute;m &eacute; destacado por Anat Falbel, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para Falbel, ao analisar seu ensaio realizado em Israel, as fotos de Scheier n&atilde;o escondem "um reconhecimento sutil do colapso". No artigo "O espa&ccedil;o do estranhamento: Peter Scheier no crisol das di&aacute;sporas" (2016), Falbel mostra haver um contraste criado entre a paisagem constru&iacute;da sob o esp&iacute;rito da cria&ccedil;&atilde;o de um Estado Nacional, a p&aacute;tria moderna de uma nova vida judaica - um estado de justi&ccedil;a social e igualdade de povos e ra&ccedil;as, distinto da velha di&aacute;spora europeia na qual o judeu ocupava o espa&ccedil;o do outro, do estrangeiro perseguido - frente &agrave; paisagem original, constru&iacute;da ao longo dos s&eacute;culos e, entretanto, preservada da modernidade ocidental, representada pelo deserto, pela arquitetura &aacute;rabe secular e pelos antigos habitantes da regi&atilde;o. "Ou seja, a lente do fot&oacute;grafo capta o poss&iacute;vel embate cultural no seu sentido mais amplo", explica. Esse choque entre o oriental at&aacute;vico e ocidental atual seria percebido pelo estrangeiro sem p&aacute;tria e sem l&iacute;ngua: "O estrangeiro &eacute; capaz de observar uma realidade a partir de uma perspectiva outra, que, no caso de Bras&iacute;lia, seria para al&eacute;m do ufanismo nacionalista t&atilde;o marcante naquele momento", aponta a professora. Sua modernidade estaria no modo contradit&oacute;rio de express&atilde;o entre paisagem, arquitetura e homens.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1975, Scheier, mesmo com filhos e netos no Brasil, decide retornar &agrave; Europa, onde vive at&eacute; 1979. O retorno, pouco documentado, teria causado surpresa &agrave; pr&oacute;pria fam&iacute;lia, segundo depoimentos. Cheio de estranhamentos, esse arquivo se constitui, como bem define Anat Falbel, um "crisol" de onde podem sair diversas leituras.</font></p>      ]]></body>
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