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<article-id pub-id-type="doi">10.5935/2317-6660.20220005</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O Sul em armas: as guerras que ajudaram a formar o Brasil e o Uruguai.Última província a aderir ao Brasil independente, durante muito tempo a Cisplatina ficou de fora das narrativas hegemônicas sobre o processo de independência brasileira]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>O Sul em armas: as guerras que ajudaram a formar o Brasil e o Uruguai.&Uacute;ltima prov&iacute;ncia a aderir ao Brasil independente, durante muito tempo a Cisplatina ficou de fora das narrativas hegem&ocirc;nicas sobre o processo de independ&ecirc;ncia brasileira</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Murillo Dias Winter</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Historiador, pesquisador de p&oacute;s-doutorado da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), bolsista da Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de S&atilde;o Paulo (Fapesp).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">O objetivo deste trabalho &eacute; investigar os confrontos de diferentes projetos de futuro na prov&iacute;ncia Cisplatina durante o processo de independ&ecirc;ncia do Brasil at&eacute; a Guerra da Cisplatina (1825-1828). A antiga Banda Oriental e, posteriormente, prov&iacute;ncia Cisplatina foi alvo de disputas desde o per&iacute;odo colonial. Na mesma territorialidade, Espanha e Portugal e, posteriormente, Buenos Aires e o Imp&eacute;rio do Brasil buscaram impor as suas soberanias e os seus projetos pol&iacute;ticos quase sempre conflitantes. Desse modo, as primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XIX foram marcadas pelos confrontos militares, pelos arranjos pol&iacute;ticos e pelas diferentes interpreta&ccedil;&otilde;es de qual seria o futuro ideal desse espa&ccedil;o. Este trabalho enfatiza a pluralidade de alternativas existentes e que o resultado que conhecemos era apenas uma das possibilidades, fruto de intensos confrontos pol&iacute;ticos e militares, destacando, assim, as diferentes etapas e atores envolvidos nas contendas ao sul da Am&eacute;rica portuguesa e do imp&eacute;rio brasileiro.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> independ&ecirc;ncia do Brasil; guerras da independ&ecirc;ncia; Cisplatina</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Montevid&eacute;u, 4 de novembro de 1822. Acompanhando o crescimento da imprensa de todo o mundo luso-americano, os recentes impressos da prov&iacute;ncia Cisplatina eram empregados em ataques e pol&ecirc;micas. Diante da situa&ccedil;&atilde;o in&eacute;dita, em um panfleto an&ocirc;nimo,&nbsp;<i>El conciliador</i>, era revelada uma preocupa&ccedil;&atilde;o: saber o que seria do territ&oacute;rio envolvido em conflitos, mudan&ccedil;as de governo e soberania h&aacute; mais de uma d&eacute;cada. Desse modo, em tr&ecirc;s pontos, era sugerido um debate que paulatinamente tamb&eacute;m tomava &agrave;s ruas montevideanas: "O governo do Rio de Janeiro, sendo independente de Portugal, deve continuar a ocupa&ccedil;&atilde;o desta prov&iacute;ncia?", "esta prov&iacute;ncia pode ser mais feliz estando incorporado ao Brasil ou governando-se a si mesma?", "esta prov&iacute;ncia pode ser mais feliz em um estado particular ou entrando em uma alian&ccedil;a com Buenos Aires?". Tratava-se de um contexto de fluidez das identidades e de pluralidade de alternativas pol&iacute;ticas em jogo que ao serem reveladas apontam para os conflitos e as negocia&ccedil;&otilde;es que pautaram a efervescente pol&iacute;tica da regi&atilde;o e que ser&atilde;o analisados neste trabalho primeiro na cria&ccedil;&atilde;o da prov&iacute;ncia Cisplatina, nos efeitos da independ&ecirc;ncia do Brasil e nos confrontos da Guerra da Cisplatina.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Negocia&ccedil;&otilde;es armadas: a invas&atilde;o portuguesa e a cria&ccedil;&atilde;o da prov&iacute;ncia Cisplatina</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Em agosto de 1816, sob o comando do Tenente-General Carlos Frederico Lecor, cerca de 12.000 soldados ordenados entre a Divis&atilde;o de Volunt&aacute;rios Reais e as tropas luso-americanas invadiu o territ&oacute;rio da Banda Oriental (Figura 2). Em 20 de janeiro de 1817, atrav&eacute;s de acordos secretos, a cidade de Montevid&eacute;u, no Uruguai, capitulava sem a necessidade de batalha. A a&ccedil;&atilde;o lusitana se baseou em dois argumentos: a conforma&ccedil;&atilde;o de suas possess&otilde;es americanas a partir do pressuposto das "fronteiras naturais", demarcando os seus limites do Rio Amazonas at&eacute; o Rio da Prata. A a&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m facilitaria o acesso aos rebanhos orientais pelos criadores rio-grandenses, auxiliando no monop&oacute;lio do com&eacute;rcio de charque. A presen&ccedil;a luso-americana impediria, simultaneamente, o avan&ccedil;o ainda mais amea&ccedil;ador das ideias emancipacionistas vigentes no Rio da Prata e as fugas de escravos de posse de lusitanos em busca da alforria.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n1/a05fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n1/a05fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A proposta de pacifica&ccedil;&atilde;o era igualmente interessante, neste momento, para a classe dirigente de Montevid&eacute;u, que desde a funda&ccedil;&atilde;o da cidade, mantinha s&oacute;lidas liga&ccedil;&otilde;es mercantis com o Rio de Janeiro, v&iacute;nculos comerciais que remetiam ainda a Col&ocirc;nia do Sacramento - o enclave portugu&ecirc;s em territ&oacute;rio espanhol, estrategicamente localizado na margem oposta de Buenos Aires, que oferecia para os lusitanos um canal direto aos metais preciosos que eram escoados pelo Rio da Prata - que desde o final do s&eacute;culo XVII e estavam prejudicados em fun&ccedil;&atilde;o das constantes batalhas travadas nas &aacute;guas platinas. Portugal rapidamente tornou-se o principal intermedi&aacute;rio no com&eacute;rcio atl&acirc;ntico estabelecido na prov&iacute;ncia Oriental. Nos anos seguintes, buscou-se consolidar a domina&ccedil;&atilde;o. Entre as principais medidas estava a nomea&ccedil;&atilde;o de lideran&ccedil;as locais para cargos p&uacute;blicos, a distribui&ccedil;&atilde;o de t&iacute;tulos nobili&aacute;rquicos, a partilha das terras e o casamento de oficiais lusitanos com mulheres de fam&iacute;lias proeminentes da sociedade montevideana. A despeito de Lecor atender a esses, um desejo em especial n&atilde;o poderia ser satisfeito naquele momento: a incorpora&ccedil;&atilde;o definitiva da regi&atilde;o aos dom&iacute;nios portugueses. Esta possibilidade era aventada pelos dirigentes orientais desde 1817 com as tratativas secretas para a entrada dos Volunt&aacute;rios Reais em Montevid&eacute;u.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A Revolu&ccedil;&atilde;o do Porto (1820) altera esta situa&ccedil;&atilde;o. Com a convoca&ccedil;&atilde;o das Cortes de Lisboa para o retorno da Corte Bragantina a Europa, Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846), ministro dos Neg&oacute;cios Estrangeiros e Guerra, antes de regressar para Portugal em abril de 1821, orientou Carlos Frederico Lecor a organizar um congresso soberano em que a popula&ccedil;&atilde;o da Banda Oriental decidiria sobre o seu futuro. Ficaria a cargo dos representantes locais, livremente e sob a prote&ccedil;&atilde;o das armas lusitanas, decidir por se ligar em definitivo ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, aderir a alguma das prov&iacute;ncias vizinhas ou constituir-se como um Estado independente. O Congresso Cisplatino ocorreu entre os dias 15 de julho e 8 de agosto de 1821. Como principal resolu&ccedil;&atilde;o, definiu-se que a regi&atilde;o passaria a ser oficialmente parte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, sob o nome de Estado Cisplatino.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>As transforma&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas no mundo lusitano possibilitaram a efetiva cria&ccedil;&atilde;o da prov&iacute;ncia Cisplatina e, portanto, a oficializa&ccedil;&atilde;o da domina&ccedil;&atilde;o de Portugal na regi&atilde;o.</b></styled-content></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Ao longo dos debates foi decidido tamb&eacute;m que a incorpora&ccedil;&atilde;o teria algumas regras a serem respeitadas: o idioma espanhol, al&eacute;m de leis e costumes em pr&aacute;tica, desde que compat&iacute;veis com a Constitui&ccedil;&atilde;o lusitana, seriam mantidos. Assim como a posse de boa parte dos cargos burocr&aacute;ticos permaneceria com os habitantes locais e os homens recrutados na prov&iacute;ncia Cisplatina apenas poderiam prestar servi&ccedil;os militares na pr&oacute;pria regi&atilde;o. O segundo item votado, referia-se aos limites do novo territ&oacute;rio: o Rio Quara&iacute; ao norte e a Lagoa Mirim e o Chu&iacute; ao sul.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">As transforma&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas no mundo lusitano possibilitaram a efetiva cria&ccedil;&atilde;o da prov&iacute;ncia Cisplatina e, portanto, a oficializa&ccedil;&atilde;o da domina&ccedil;&atilde;o de Portugal na regi&atilde;o. O resultado - a anexa&ccedil;&atilde;o oficial lusitana - n&atilde;o foi o esperado por Silvestre Pinheiro Ferreira, que desejava o afastamento de Portugal das quest&otilde;es platinas e temia causar conflitos com a Espanha. No entanto, poderia ser mais palat&aacute;vel do que anteriormente, em 1817, quando solicitado por parcela da elite montevideana. Afinal, possu&iacute;a respaldo jur&iacute;dico e representava pretensamente a vontade da popula&ccedil;&atilde;o oriental, n&atilde;o sendo completamente desinteressante aos projetos lusitanos - especialmente de seus representantes americanos, dentre eles os criadores de gado sul rio-grandenses e os comerciantes fluminenses na nova conjuntura oferecida pelo Vintismo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Batalhas na terra e na &aacute;gua: a guerra pela independ&ecirc;ncia do Brasil</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Ao longo do ano de 1822, a possibilidade da independ&ecirc;ncia do Brasil intensificava o debate pol&iacute;tico sobre o futuro da Cisplatina. A probabilidade de ruptura entre o Brasil e Portugal tamb&eacute;m trazia incertezas com respeito ao futuro da regi&atilde;o. Afinal, o Congresso Cisplatino foi um pacto assinado entre a popula&ccedil;&atilde;o oriental e o governo lusitano, parte ainda do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Assim, um intenso debate foi aberto com o intuito de projetar alternativas frente &agrave; possibilidade da quebra desses v&iacute;nculos. Antes preocupados com a pacifica&ccedil;&atilde;o e aliados ao projeto lusitano, alguns membros da elite montevideana viram na oportunidade o momento para buscar a pr&oacute;pria independ&ecirc;ncia e passaram a trabalhar pela separa&ccedil;&atilde;o da regi&atilde;o do Imp&eacute;rio do Brasil. Entre as alternativas estavam se aproximar de Buenos Aires, arregimentar o restante da popula&ccedil;&atilde;o local e, atrav&eacute;s de &oacute;rg&atilde;os pol&iacute;ticos oficiais influir sobre as decis&otilde;es do governo. Questionava-se, especialmente, a forma de condu&ccedil;&atilde;o e a validade do Congresso Cisplatino, o direito brasileiro de permanecer ocupando a prov&iacute;ncia e os moldes dessa eventual alian&ccedil;a. O que possibilitou criar um esp&iacute;rito de contesta&ccedil;&atilde;o na cidade de Montevid&eacute;u. No entanto, o projeto perdeu for&ccedil;a com as negativas dos dirigentes de Buenos Aires em se indispor diplomaticamente com o Brasil.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Por outro lado, ao longo de 1822, Jos&eacute; Bonif&aacute;cio de Andrada e Silva (1763-1838) e at&eacute; mesmo D. Pedro (1798-1834) buscavam, atrav&eacute;s de trocas de correspond&ecirc;ncias, construir uma alian&ccedil;a com Carlos Frederico Lecor e, deste modo, assegurar a presen&ccedil;a da Cisplatina dentro do projeto pol&iacute;tico brasileiro. Negocia&ccedil;&otilde;es que ganhariam ainda mais for&ccedil;a: no dia 27 de maio chegavam ao Rio de Janeiro os tr&ecirc;s representantes eleitos pela Cisplatina para compor as Cortes e estavam a caminho de Lisboa. Por ordem de Lecor, Lucas Jos&eacute; Obes permaneceu na cidade e em uma s&eacute;rie de encontros privados com Bonif&aacute;cio e com D. Pedro buscou garantir a liga&ccedil;&atilde;o da Cisplatina com o Imp&eacute;rio do Brasil, ainda n&atilde;o declarado independente.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A not&iacute;cia da perman&ecirc;ncia de Obes no Rio de Janeiro e, sobretudo, as motiva&ccedil;&otilde;es da estadia ca&iacute;ram como uma bomba em Montevid&eacute;u. Um Conselho Militar emitiu uma proclama&ccedil;&atilde;o afirmando que as a&ccedil;&otilde;es na capital fluminense n&atilde;o passaram pela consulta das tropas em Montevid&eacute;u e que desconheciam os reais interesses do representante da prov&iacute;ncia ao abandonar a comitiva que iria at&eacute; Lisboa. Os Volunt&aacute;rios Reais que j&aacute; haviam realizado um motim na virada de dezembro de 1821 para janeiro de 1822 foram novamente &agrave;s ruas. Como presidente do Conselho Militar, Carlos Frederico Lecor aparecia como principal signat&aacute;rio da proclama&ccedil;&atilde;o, seguido do novo vice, &Aacute;lvaro da Costa (1789-1835). No entanto, o clima era de discord&acirc;ncia entre os dois e de afastamento cada vez mais claro entre os comandantes militares favor&aacute;veis a Portugal e Lecor, pr&oacute;ximo do projeto brasileiro.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">No dia 10 de setembro de 1822, Carlos Frederico Lecor declarava sua ades&atilde;o a D. Pedro e abandonava Montevid&eacute;u com dire&ccedil;&atilde;o a S&atilde;o Jos&eacute; e, posteriormente, a Canelones onde foi organizado um acampamento que recebeu centenas de aliados que desertaram das fileiras portuguesas e pol&iacute;ticos que mantinham apoio ao Brasil. J&aacute; em Montevid&eacute;u, conformava-se uma heterog&ecirc;nea alian&ccedil;a, composta por soldados portugueses, desejosos de retornar para a Europa, que recebiam o apoio de pol&iacute;ticos montevideanos divididos entre aqueles que almejavam uma independ&ecirc;ncia por completo e os que buscavam uma alian&ccedil;a com Buenos Aires.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">O ato marcava o in&iacute;cio dos conflitos entre as tropas ligadas ao Brasil e os Volunt&aacute;rios Reais. O plano brasileiro era de cercar e sufocar os Volunt&aacute;rios Reais dentro das muralhas da cidade de Montevid&eacute;u. Para tanto, no dia 23 de janeiro de 1823 empreendeu-se o s&iacute;tio da cidade, por terra e &aacute;gua. Na cidade, as tropas lusitanas bem organizadas mantinham a resist&ecirc;ncia. Sem for&ccedil;as e sem o recebimento de mais efetivos solicitados para empreender um bloqueio sistem&aacute;tico por &aacute;gua e terra, as tropas brasileiras buscavam sufocar financeiramente Montevid&eacute;u. As tropas dentro da cidade, tamb&eacute;m n&atilde;o tinham for&ccedil;a suficiente para investir contra o inimigo e dar fim ao conflito. Portanto, a guerra foi marcada pela aus&ecirc;ncia de confrontos diretos e pelas escaramu&ccedil;as entre os envolvidos que sempre deixavam mortos e feridos nas tropas inimigas. Outra ferramenta largamente utilizada, nesse caso pelos dois lados, foi o incentivo a deser&ccedil;&otilde;es e mudan&ccedil;as de lealdade. Ambos os lados prometiam vantagens financeiras e promo&ccedil;&otilde;es para convencer os militares a abandonar as fileiras inimigas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A situa&ccedil;&atilde;o ganharia novos contornos no segundo semestre de 1823. Em 11 de outubro de 1823 as embarca&ccedil;&otilde;es brasileiras conseguem o bloqueio total de Montevid&eacute;u. Os Volunt&aacute;rios Reais vivenciavam um isolamento duplo. Primeiro por n&atilde;o conseguirem estabelecer contatos diretos ou frequentes com outros espa&ccedil;os fora das muralhas; e, em segundo lugar, pelo encerramento dos conflitos entre lusitanos e brasileiros em outras partes do Imp&eacute;rio fato que levou &agrave; ordem de retirada dos Volunt&aacute;rios Reais destes espa&ccedil;os por D. Jo&atilde;o. A mudan&ccedil;a de regime em Portugal tamb&eacute;m estimulava o fim dos embates e o retorno para a Europa. Diante esta situa&ccedil;&atilde;o, &Aacute;lvaro da Costa demonstrava o desgaste pelo conflito e acenava com a possibilidade de negocia&ccedil;&atilde;o. O fim das hostilidades &eacute; declarado em 30 de outubro. As negocia&ccedil;&otilde;es seguiram at&eacute; o dia 18 de novembro.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Em 28 de fevereiro de 1824 as tropas portuguesas embarcaram rumo &agrave; Europa. No dia 2 de mar&ccedil;o, Carlos Frederico Lecor e os soldados do Imp&eacute;rio do Brasil entravam definitivamente em Montevid&eacute;u. Os povoados, cidades e vilas da Cisplatina em sequ&ecirc;ncia enviavam suas proclama&ccedil;&otilde;es e exalta&ccedil;&otilde;es a D. Pedro. Em seguida, a autoridade m&aacute;xima da Cisplatina, oficialmente, reconheceu a independ&ecirc;ncia do Brasil, proclamando e jurando fidelidade ao "Emperador constitucional del Brasil" em 6 de maio de 1824. A &uacute;ltima prov&iacute;ncia brasileira a faz&ecirc;-lo.<sup>5</sup></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>BOX: A Guerra da Cisplatina</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">O reconhecimento da independ&ecirc;ncia do Brasil em 1824, em grande parte por representar interesses de grupos espec&iacute;ficos e que ainda perderiam parte de sua influ&ecirc;ncia n&atilde;o construiu uma unidade de interesses na Cisplatina. Pelo contr&aacute;rio, estas quest&otilde;es ganhariam ainda mais peso e s&oacute; seriam resolvidas em um conflito armado de propor&ccedil;&otilde;es ainda maiores, a Guerra da Cisplatina (1825-1828). De volta &agrave; capital e ao poder, Lecor ampliou a pol&iacute;tica de privilegiar os produtores sul-rio-grandenses e comerciantes brasileiros. Em especial, o general preocupou-se em retribuir os chefes militares que permaneceram ao seu lado, na mesma medida que perseguia os comerciantes que haviam financiado ou dado apoio aos movimentos de oposi&ccedil;&atilde;o ao Brasil durante a guerra de independ&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Aproveitando-se da efervesc&ecirc;ncia dos movimentos contr&aacute;rios &agrave; domina&ccedil;&atilde;o brasileira, Juan Antonio Lavalleja (1784-1853) junto de outros pol&iacute;ticos e militares - os chamados "Cavalheiros Orientais" - no dia 19 de abril de 1825, desembarcou no rio Uruguai, com o objetivo de tomar posse da prov&iacute;ncia Cisplatina. Em 14 de julho de 1825, se iniciou na vila de Florida um congresso e, posteriormente, no dia 25 de agosto, foi declarada a independ&ecirc;ncia da Prov&iacute;ncia Oriental. No primeiro momento, os governantes das Prov&iacute;ncias Unidas do Rio da Prata n&atilde;o apoiaram estes movimentos, o principal temor se dava em rela&ccedil;&atilde;o a um novo conflito na regi&atilde;o que poderia prejudicar os interesses dos comerciantes de Buenos Aires. Por&eacute;m, com as press&otilde;es dos estancieiros, principalmente os saladeiristas que sofriam com a competi&ccedil;&atilde;o dos produtores de charque do sul do Brasil, o governo buenairense acaba cedendo, declara apoio e recebe os delegados orientais no Congresso Nacional das Prov&iacute;ncias Unidas. Com um ex&eacute;rcito de dois mil homens as tropas orientais avan&ccedil;aram sobre o territ&oacute;rio, ao final de 1825 apenas Col&ocirc;nia do Sacramento, Maldonado e Montevid&eacute;u permaneciam sob o controle brasileiro.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>A autoridade m&aacute;xima da Cisplatina, oficialmente, reconheceu a independ&ecirc;ncia do Brasil, proclamando e jurando fidelidade ao "Emperador constitucional del Brasil". A &uacute;ltima prov&iacute;ncia brasileira a faz&ecirc;-lo.</b></styled-content></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Como resposta, o Imp&eacute;rio do Brasil proclama guerra &agrave;s Prov&iacute;ncias Unidas do Rio da Prata no dia 10 de dezembro de 1825. A declara&ccedil;&atilde;o oficial respaldava-se nos mesmos argumentos da interven&ccedil;&atilde;o de 1817 e sinalizava a import&acirc;ncia da prov&iacute;ncia Cisplatina para a consolida&ccedil;&atilde;o da grandeza do Imp&eacute;rio do Brasil, que tinha por suas fronteiras o rio Amazonas e o rio da Prata. Nos anos seguintes, os embates seguem em territ&oacute;rio oriental e nas &aacute;guas do rio da Prata. Entre as principais batalhas est&atilde;o a de Juncal, por &aacute;gua, no dia 9 de fevereiro de 1827 e a de Passo do Ros&aacute;rio ou Ituzaing&oacute;, por terra. Em ambas a vit&oacute;ria foi das Prov&iacute;ncias Unidas do Rio da Prata, se sobrepondo &agrave;s vantagens num&eacute;ricas das tropas brasileiras.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Impossibilitados pol&iacute;tica e economicamente de manter as beliger&acirc;ncias, o Imp&eacute;rio do Brasil e as Prov&iacute;ncias Unidas do Rio da Prata sinalizam para o fim da guerra. Nas Prov&iacute;ncias Unidas os conflitos internos entre os representantes do projeto unit&aacute;rio e do projeto federal minavam as for&ccedil;as e os cofres dos l&iacute;deres pol&iacute;ticos que poderiam estar envolvidos no conflito externo. No Brasil, a crise financeira intensificada pela guerra e a postura de D. Pedro faziam crescer o descontentamento em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; pol&iacute;tica imperial e diminuir a sua popularidade. As negocia&ccedil;&otilde;es de paz receberam forte apoio dos pol&iacute;ticos da Gr&atilde;-Bretanha na Am&eacute;rica insatisfeitos com os efeitos da guerra na sua pol&iacute;tica comercial no Prata.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Em agosto de 1828, os representantes da Gr&atilde;- Bretanha, do Brasil e das Prov&iacute;ncias Unidas se reuniram no Rio de Janeiro a fim de tratar dos &uacute;ltimos entraves para o fim oficial da Guerra da Cisplatina. No dia 27 de agosto, foi assinada a Conven&ccedil;&atilde;o Preliminar de Paz. Pelo acordo, os l&iacute;deres das Prov&iacute;ncias Unidas do Rio da Prata e do Imp&eacute;rio do Brasil declaravam o seu interesse pela cria&ccedil;&atilde;o de um Estado independente onde se localizava a Prov&iacute;ncia Cisplatina. Os dois envolvidos no conflito abandonariam a &aacute;rea que teria uma nova constitui&ccedil;&atilde;o e receberia todo o apoio necess&aacute;rio para a oficializa&ccedil;&atilde;o do novo Estado. Decidiu-se ainda que a navega&ccedil;&atilde;o no rio da Prata e seus afluentes seria livre para todos os envolvidos na guerra por quinze anos e que a assinatura final do pacto seria no dia 4 de outubro do mesmo ano em Montevid&eacute;u. Este novo Estado recebeu, em 1830, o nome de Rep&uacute;blica Oriental do Uruguai.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Conclus&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">&Eacute; importante frisar a import&acirc;ncia da inser&ccedil;&atilde;o da Cisplatina dentro das an&aacute;lises do processo de independ&ecirc;ncia do Brasil. Durante muito tempo a Cisplatina n&atilde;o fez parte das narrativas hegem&ocirc;nicas sobre a independ&ecirc;ncia do Brasil, especialmente por n&atilde;o constar nos atuais limiteis territoriais do pa&iacute;s e sua dificuldade de inser&ccedil;&atilde;o na narrativa tradicional de exce&ccedil;&atilde;o pac&iacute;fica brasileira frente &agrave; Am&eacute;rica espanhola. Este trabalho buscou contribuir com a crescente e importante produ&ccedil;&atilde;o sobre a prov&iacute;ncia. Assim, a compreens&atilde;o dos anos de 1821 at&eacute; 1828 fornece subs&iacute;dios para construir uma narrativa sobre a forma&ccedil;&atilde;o do Brasil a partir dos eventos no Prata. Uma narrativa mais complexa tendo em conta a din&acirc;mica destes espa&ccedil;os e os efeitos das transforma&ccedil;&otilde;es liberais de Portugal e da emancipa&ccedil;&atilde;o brasileira neste territ&oacute;rio, sobretudo, na transfer&ecirc;ncia de sua posse, geralmente tomada como natural e das disputas e arranjos pol&iacute;ticos que deram origem a um novo pa&iacute;s.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">1. Frega, A. Pueblos y soberania em la revoluc&iacute;on artiguista. La regi&oacute;n de Santo Domingo Soriano desde fines de la col&ocirc;nia a la ocupac&iacute;on portuguesa. Montevid&eacute;u: Ediciones Banda Oriental La Rep&uacute;blica, 2011.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=115591&pid=S0009-6725202200010000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">2. Os&oacute;rio, H. A Revolu&ccedil;&atilde;o artiguista e o Rio Grande do Sul: alguns entrela&ccedil;amentos. Cadernos CHDD. Funda&ccedil;&atilde;o Alexandre de Gusm&atilde;o, Centro de Hist&oacute;ria e documenta&ccedil;&atilde;o Diplom&aacute;tica, Bras&iacute;lia, n&uacute;mero especial. 2007.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=115593&pid=S0009-6725202200010000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">3. Pimenta, J. P.   Estado e Na&ccedil;&atilde;o no Fim dos Imp&eacute;rios Ib&eacute;ricos no Prata: 1808- 1828. 2ª ed. S&atilde;o Paulo: Hucitec, 2006.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=115595&pid=S0009-6725202200010000500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">4. Pivel Devoto, J. El Congresso Cisplatino (1821). Repertorio documental, selecionado y precedido de un an&aacute;lisis. Montevid&eacute;u: El siglo ilustrado, 1937.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=115597&pid=S0009-6725202200010000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">5. Prado, F. A presen&ccedil;a luso-brasileira no Rio da Prata e o per&iacute;odo cisplatino. In: Neumann, E. S. Grij&oacute;, L. A. O Continente em armas: uma hist&oacute;ria da guerra no sul do Brasil. Rio de Janeiro: Apicuri, 2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=115599&pid=S0009-6725202200010000500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">6. Thevenin de, M. G. La revolucion oriental de 1822-1823. Su genesis. Tomo I. Montevideo: Junta departamental de Montevideo, 1978.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=115601&pid=S0009-6725202200010000500006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      ]]></body>
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