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<article-id pub-id-type="doi">10.5935/2317-6660.20220011</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A voz das ruas no processo de independência. Em panfletos e pasquins que circularam no Brasil oitocentista homens letrados e iletrados, negros e mulheres escreveram uma história da separação de Portugal ainda pouco conhecida pelos brasileiros]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>A voz das ruas no processo de independ&ecirc;ncia. Em panfletos e pasquins que circularam no Brasil oitocentista homens letrados e iletrados, negros e mulheres escreveram uma hist&oacute;ria da separa&ccedil;&atilde;o de Portugal ainda pouco conhecida pelos brasileiros</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Patr&iacute;cia Mariuzzo</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Divulgadora de ci&ecirc;ncia, editora do Jornal da Unicamp</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A informa&ccedil;&atilde;o circulava com velocidade, de m&atilde;o em m&atilde;o, de boca em boca e em v&aacute;rios formatos. Ora com linguagem erudita, ora em formato mais popular, em verso, em prosa, curtos ou longos, ora adotando um tom laudat&oacute;rio, ora difamat&oacute;rio, com textos assinados ou an&ocirc;nimos. Assim eram os panfletos e pasquins que circularam intensamente no Brasil oitocentista, se constituindo em um g&ecirc;nero de literatura pol&iacute;tica. Estudos recentes sobre este material ajudam a explicar que a independ&ecirc;ncia do Brasil foi um processo bem mais longo e complexo que envolveu atores mais variados do que alguns homens ao largo de um riacho em S&atilde;o Paulo pode supor. Homens letrados e iletrados, negros e mulheres que buscaram participar deste processo por meio de um punhado de folhetos distribu&iacute;dos entre o s&eacute;culo XVIII e o s&eacute;culo XIX escreveram uma hist&oacute;ria ainda pouco conhecida pelos brasileiros.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Os "papelinhos", "folhas volantes" ou "papeis incendi&aacute;rios", como eram chamados, eram folhas soltas colocadas nas paredes e postes de locais p&uacute;blicos. Tamb&eacute;m eram lidos ou memorizados e declamados nos espa&ccedil;os das cidades. "Eles tiravam a pol&iacute;tica do estreito espa&ccedil;o de poder onde se movimentavam as autoridades r&eacute;gias, fazendo dela um assunto p&uacute;blico", explicam a historiadora Heloisa Starling e o senador Randolfe Rodrigues, no pref&aacute;cio do livro "<a href="https://livraria.senado.leg.br/vozes-do-brasil-a-linguagem-politica-na-independencia-vol-287" target="_blank">Vozes do Brasil</a>: a linguagem pol&iacute;tica na independ&ecirc;ncia", lan&ccedil;ado no fim do ano passado pela editora do Senado e que re&uacute;ne 21 panfletos pol&iacute;ticos, publicados no Brasil e em Portugal entre 1821 e 1824.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Os textos abrangem eventos que animaram o debate p&uacute;blico antes e depois da Independ&ecirc;ncia, em lugares como Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia, Maranh&atilde;o e Gr&atilde;o-Par&aacute;. Segundo a historiadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marcela Telles Elian de Lima, os panfletos exp&otilde;em os projetos em disputa no "calor da hora". Por exemplo, na peti&ccedil;&atilde;o redigida por Joaquim Gon&ccedil;alvez Ledo dirigida a D. Pedro em junho de 1822. "Ao insistir na urg&ecirc;ncia em se convocar uma assembleia geral de representantes das prov&iacute;ncias do Brasil, o texto d&aacute; conta de um projeto centralizado no Rio de Janeiro, em torno do Pr&iacute;ncipe Regente ainda que considerasse a participa&ccedil;&atilde;o de deputados eleitos pelas prov&iacute;ncias na elabora&ccedil;&atilde;o de um conjunto de leis que contemplasse seus interesses", aponta Lima, que tamb&eacute;m &eacute; uma das organizadoras do livro&nbsp;<i>Vozes do Brasil</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Outro exemplo &eacute; o panfleto de autoria do negociante portugu&ecirc;s Jo&atilde;o Rodrigues de Miranda, publicado no Maranh&atilde;o, em 1822, no qual ele defende a manuten&ccedil;&atilde;o da uni&atilde;o entre Brasil e Portugal:&nbsp;<i>"Fujamos das p&eacute;rfidas sugest&otilde;es da corrompida C&ocirc;rte do Rio de Janeiro; mas reconhe&ccedil;amos outra Authoridade do que, a do Soberano no Congresso das C&ocirc;rtes, e d&acute;ElRei o Senhor D. Jo&atilde;o VI. Constitucional; respeitemos os seus s&aacute;bios Decretos; juremos-lhe de novo a mais firme ades&atilde;o</i>".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A profus&atilde;o dos panfletos mostram ao mesmo tempo que as pessoas dos mais variados estratos sociais ansiavam por informa&ccedil;&atilde;o e tamb&eacute;m que queriam participar de alguma forma das discuss&otilde;es e das decis&otilde;es sobre os rumos do pa&iacute;s naquele momento. Eles eram um tipo de comunica&ccedil;&atilde;o direta, simples e barata. "Com um panfleto na m&atilde;o, qualquer pessoa, mesmo ainda mal iniciada na participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, ingressava rapidamente em um novo espa&ccedil;o de debate que transbordava dos c&iacute;rculos letrados para o ambiente das ruas, e se envolvia em longas discuss&otilde;es sobre os rumos de um Brasil ainda em forma&ccedil;&atilde;o", afirmaram Rodrigues e Starling.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">"Os panfletos oferecem informa&ccedil;&otilde;es acerca da conjuntura hist&oacute;rica e da sociedade da &eacute;poca - seus temas e preocupa&ccedil;&otilde;es mais imediatos", explica Lima. "Quando s&atilde;o estruturados no formato abaixo-assinado ou manifesto, por exemplo, o objetivo principal &eacute; a mobiliza&ccedil;&atilde;o, ou seja, reunir diferentes setores da popula&ccedil;&atilde;o em torno de uma demanda comum. Com o&nbsp;<i>Manifesto do Epaminondas Americano, ao Soberano, e Independente Congresso Nacional em Cortes Gerais,</i> o advogado portugu&ecirc;s, Manuel Paix&atilde;o dos Santos Zacheo - sob pseud&ocirc;nimo - exp&ocirc;s sua posi&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria a extin&ccedil;&atilde;o do Convento de Nossa Senhora das Merc&ecirc;s, como determinado pela Junta Provincial. Mas, por tr&aacute;s desse fato, estava o combate ferrenho ao governador do Maranh&atilde;o, Bernardo da Silveira Pinto da Fonseca (1818-1822) e seu sucessor e aliado o bispo dom Frei Joaquim de Nossa Senhora do Nazar&eacute;, respons&aacute;vel pela decis&atilde;o, considerada arbitr&aacute;ria", descreve.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n1/a11fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">&Eacute; importante lembrar que se trata aqui de um pa&iacute;s onde uma parcela muito pequena da popula&ccedil;&atilde;o era alfabetizada. "A comunica&ccedil;&atilde;o se efetivou por meio da oralidade. Era muito comum a leitura desses panfletos ser feita nas ruas e nas pra&ccedil;as. A escrita dos panfletos era muito voltada para o oral", conta Lucia Bastos Pereira das Neves, historiadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Esses mat&eacute;rias adquiriam formatos diversos: di&aacute;logos, discursos, catecismos ou at&eacute; fazendo par&oacute;dias de ora&ccedil;&otilde;es da Igreja Cat&oacute;lica. "Assim era mais f&aacute;cil chegar ao povo iletrado que repetia algumas informa&ccedil;&otilde;es com uma compreens&atilde;o pr&oacute;pria. Outra caracter&iacute;stica dos panfletos era seu car&aacute;ter did&aacute;tico, com uma linguagem mais simples. Pode-se afirmar que havia uma pedagogia c&iacute;vica nos panfletos", afirma.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>M&uacute;ltiplas independ&ecirc;ncias</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Esta pedagogia buscava discutir e convencer as pessoas sobre diferentes projetos de emancipa&ccedil;&atilde;o do Brasil e mesmo sobre a manuten&ccedil;&atilde;o da liga&ccedil;&atilde;o com Portugal. Manifesta&ccedil;&otilde;es autonomistas brotavam por todo lado, em todas as prov&iacute;ncias, e os panfletos retrataram isso. Eles ajudam a contar a hist&oacute;ria da separa&ccedil;&atilde;o de Portugal a partir de outros pontos de vista que n&atilde;o o do Rio de Janeiro, revelando m&uacute;ltiplas independ&ecirc;ncias. &Agrave; &eacute;poca, o Brasil n&atilde;o era uma unidade homog&ecirc;nea de Norte a Sul, pelo contr&aacute;rio. Havia disputas entre as prov&iacute;ncias. Muitas questionavam a autoridade de Portugal, mas tamb&eacute;m a centraliza&ccedil;&atilde;o do poder no Rio. Da&iacute; que antes e depois da Proclama&ccedil;&atilde;o da Independ&ecirc;ncia por D. Pedro, em S&atilde;o Paulo, houve diversas lutas e guerras de independ&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">"Em verdade, n&atilde;o havia Brasil, mas Brasis. A independ&ecirc;ncia, inicialmente, era do centro-sul contra Portugal. Os pr&oacute;prios deputados portugueses assim comentavam. O Par&aacute;, Maranh&atilde;o, Piau&iacute; e Bahia mantiveram-se unidos &agrave;s ideias das Cortes de Lisboa de 1821 a 1822. Acreditavam que o Rio de Janeiro se transformara em uma nova metr&oacute;pole. E que D. Pedro, ao desobedecer a algumas medidas das Cortes agia de forma autorit&aacute;ria, em confronto com a proposta liberal e constitucional das Cortes de Lisboa", conta Neves. "Essas regi&otilde;es s&oacute; foram integradas ao Imp&eacute;rio do Brasil ao longo de 1823, depois de muitas guerras civis. H&aacute; ainda o caso de Pernambuco que por algum tempo procurou se manter aut&ocirc;nomo, sem se ligar a Portugal ou ao Brasil. E ainda h&aacute; a quest&atilde;o da Cisplatina, em que encontramos uma corrente favor&aacute;vel &agrave; Independ&ecirc;ncia do Brasil, outra ligada &agrave;s Cortes de Lisboa e outra que queria a autonomia da Prov&iacute;ncia", complementa.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Com fortes rela&ccedil;&otilde;es comerciais com Portugal, a Bahia - Salvador em especial - tinha posi&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica tanto para Lisboa quanto para o Rio de Janeiro. A disputa entre ambos pela prov&iacute;ncia produziu um cap&iacute;tulo &agrave; parte no processo de Independ&ecirc;ncia do Brasil, conforme descrevem Lima e Valqu&iacute;ria Ferreira da Silva em um dos cap&iacute;tulos do livro "Vozes do Brasil". "Militares, magistrados, mas principalmente os comerciantes portugueses viam na rela&ccedil;&atilde;o com as Cortes a oportunidade em retomar a import&acirc;ncia da capitania no interior do Imp&eacute;rio, ap&oacute;s Salvador ter sido preterida pelo Rio de Janeiro como sede da Corte", afirmaram as pesquisadoras. E estas disputas eram tema constante dos panfletos afixados nos lugares de grande circula&ccedil;&atilde;o na capital baiana e tamb&eacute;m no Rio de Janeiro e em Lisboa. Elas se desenrolavam em manifesta&ccedil;&otilde;es feitas em formatos diversos, em r&eacute;plicas e tr&eacute;plicas que ocupavam redatores, jornais e que agitavam a vida dessas cidades.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v74n1/a11fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">N&atilde;o houve, portanto, um processo de emancipa&ccedil;&atilde;o amplo e unificado, por meio de um acordo amig&aacute;vel entre col&ocirc;nia e metr&oacute;pole. Os v&aacute;rios projetos de separa&ccedil;&atilde;o que competiam entre si adiaram a constitui&ccedil;&atilde;o do novo Imp&eacute;rio do Brasil. "A Independ&ecirc;ncia do Brasil n&atilde;o se resume ao 7de setembro, mas envolve um processo iniciado com o movimentos constitucional de 1820, que pode ser considerado, em parte, finalizado em 1825 com o Tratado de Reconhecimento por parte de Portugal do novo Imp&eacute;rio", escreveu a historiadora em&nbsp;artigo&nbsp;em que prop&otilde;e uma outra abordagem da hist&oacute;ria da Independ&ecirc;ncia do Brasil, para al&eacute;m das grandes personagens conhecidas pela historiografia, que possibilite trazer &agrave; tona os indiv&iacute;duos muitas vezes esquecidos desse processo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>M&uacute;ltiplos atores</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Um exemplo de atores geralmente esquecidos quando se fala na independ&ecirc;ncia do Brasil s&atilde;o os pretos e pardos. Animados pelos panfletos e pasquins que defendiam a separa&ccedil;&atilde;o do Brasil de Portugal, e acreditando que isso significaria tamb&eacute;m a sua liberdade, eles se organizaram em grupos para reivindicar a independ&ecirc;ncia. "Para al&eacute;m do que j&aacute; foi estudado pelo historiador Jo&atilde;o Jos&eacute; Reis, o papel atribu&iacute;do a um 'partido negro' no movimento da Independ&ecirc;ncia, conforme relato de um informante franc&ecirc;s, escrito provavelmente depois de 1823, era que este 'partido dos negros e das pessoas de cor' constitu&iacute;a-se como o mais perigoso, 'pois trata&#91;va&#93;-se do mais forte numericamente falando'. Sem d&uacute;vida, em prov&iacute;ncias com forte presen&ccedil;a de escravos, seu comportamento frente &agrave; situa&ccedil;&atilde;o de conflito era contr&aacute;rio aos portugueses, que monopolizavam a venda de produtos b&aacute;sicos de subsist&ecirc;ncia, manipulando seus pre&ccedil;os de acordo com seus interesses. Claro que muitos tamb&eacute;m se opunham &agrave; elite branca nascida no Brasil", explica Lucia Neves.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>N&atilde;o houve, portanto, um processo de emancipa&ccedil;&atilde;o amplo e unificado, por meio de um acordo amig&aacute;vel entre col&ocirc;nia e metr&oacute;pole.</b></styled-content></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Ainda segundo ela, nos folhetos n&atilde;o h&aacute; muitas men&ccedil;&otilde;es a escravos, mas not&iacute;cias em jornais, cartas e documentos oficiais mostram que eles tentaram obter um papel pol&iacute;tico mais claro na vit&oacute;ria dos favor&aacute;veis &agrave; "causa brasileira", como na Bahia. Maria B&aacute;rbara Garcez Pinto, importante dama baiana, dona de engenhos na Bahia, casada com Lu&iacute;s Paulino d'Oliveira Pinto da Fran&ccedil;a, deputado pela prov&iacute;ncia da Bahia nas Cortes de Lisboa, ao lhe escrever, informava que: "a crioulada da Cachoeira fez requerimentos para serem livres", acreditando que de forma ordeira, podiam ter uma interven&ccedil;&atilde;o maior na cena p&uacute;blica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">De outro lado, ao longo das guerras de independ&ecirc;ncia, especialmente na Bahia, diversos escravos fugiram para se engajar nas for&ccedil;as brasileiras. "Acreditavam que, ao lutar pela liberdade do Brasil, podiam lutar tamb&eacute;m por sua pr&oacute;pria liberdade. Vislumbravam um novo 'horizonte de expectativa'. Inclusive, mais tarde, o governo imperial procurou recompensar esses homens, recomendando que seus senhores dessem sua alforria por meio de um pagamento justo com recursos da Junta Provincial da Fazenda", complementa. Para ela, h&aacute; muito ainda por descobrir por detr&aacute;s desses rostos an&ocirc;nimos, embora alguns avan&ccedil;os foram realizados por estudos, como o j&aacute; citado de Jo&atilde;o Jos&eacute; Reis. Professor na Universidade Federal da Bahia, Reis &eacute; considerado uma refer&ecirc;ncia mundial para o estudo da hist&oacute;ria e da escravid&atilde;o no s&eacute;culo XIX.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Os mesmos panfletos que animaram os escravos a se engajar nas lutas pela emancipa&ccedil;&atilde;o brasileira expressaram uma linguagem figurada que associava escravid&atilde;o e a independ&ecirc;ncia. Conforme explica Neves, o Brasil era visto como escravo de Portugal. "Nesse caso, a ideia fomentada in&uacute;meras vezes por adeptos da causa portuguesa era a da possibilidade de uma revolu&ccedil;&atilde;o no Brasil nos moldes do Haiti, caso se configurasse a sua separa&ccedil;&atilde;o da antiga metr&oacute;pole", conta. Em 1804, uma revolta de escravizados conseguiu expulsar os franceses de uma de suas possess&otilde;es mais rent&aacute;veis, decretar a Independ&ecirc;ncia do Haiti e proclamar o liberto Jean-Jacques Dessalines "imperador".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>An&ocirc;nimos da independ&ecirc;ncia</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Nos debates e discuss&otilde;es que os 200 anos da independ&ecirc;ncia do Brasil suscitam, os panfletos, pasquins e seus redatores, an&ocirc;nimos ou n&atilde;o, revelam atores e processos originais no processo de separa&ccedil;&atilde;o de Portugal. Eles ajudam a contestar as narrativas que t&ecirc;m como foco grandes her&oacute;is como Jos&eacute; Bonif&aacute;cio, Diogo Feij&oacute;, a Imperatriz Leopoldina e, sem d&uacute;vida, D. Pedro.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Conforme explica Lucia Neves, essa narrativa vem do contexto da historiografia do s&eacute;culo XIX, em que a figura do her&oacute;i assume um papel fundamental nos relatos hist&oacute;ricos. "Era o tempo das biografias em que o papel do indiv&iacute;duo se sobressa&iacute;a em proveito de abstra&ccedil;&otilde;es ou de coletividades an&ocirc;nimas, em relatos, muitas vezes, minuciosos, mas lineares", aponta. A historiadora destaca alguns trabalhos dentro desta linha interpretativa, o de Pereira da Silva,&nbsp;<i>Hist&oacute;ria da funda&ccedil;&atilde;o do imp&eacute;rio brasileiro</i>, o de Francisco Adolfo Varnhagen,&nbsp;<i>Hist&oacute;ria da Independ&ecirc;ncia</i>, publicado ap&oacute;s sua morte, em 1916 e outros livros que continuam com essa vis&atilde;o no s&eacute;culo XX:&nbsp;<i>A vida de Pedro I</i>, de Oct&aacute;vio Tarqu&iacute;nio de Sousa (1952), ou&nbsp;<i>A vida de D. Pedro I: o rei cavaleiro</i>, de Pedro Calmon (1943). "Apesar de consagrados na historiografia, apresentam perspectivas mais lineares e de exalta&ccedil;&atilde;o ao her&oacute;i nacional. Talvez, o primeiro trabalho que come&ccedil;ou a modificar um pouco essa abordagem foi o de Manuel de Oliveira Lima,&nbsp;<i>O movimento da independ&ecirc;ncia</i>&nbsp;(1922). A ruptura acontece com os novos trabalhos oriundos da p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o dos anos 90 do s&eacute;culo XX", esclarece.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>Registradas nos panfletos, a voz das ruas mostra que o processo de independ&ecirc;ncia do Brasil foi mais complexo e longo do que o grito de independ&ecirc;ncia &agrave;s margens do Riacho Ipiranga pode fazer supor.</b></styled-content></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Registradas nos panfletos, a voz das ruas mostra que o processo de independ&ecirc;ncia do Brasil foi mais complexo e longo do que o grito de independ&ecirc;ncia &agrave;s margens do Riacho Ipiranga pode fazer supor. "Da participa&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios segmentos no processo de independ&ecirc;ncia, devemos pensar que uma sociedade pol&iacute;tica s&oacute; pode ser formada e organizada com a participa&ccedil;&atilde;o efetiva e consciente de cada cidad&atilde;o. Acredito que esse aspecto deva ser levado em conta nas pr&oacute;ximas elei&ccedil;&otilde;es em 2022. H&aacute; 100 anos deixamos de ficar sujeitos a uma metr&oacute;pole. Agora, devemos n&atilde;o estar sujeitos a not&iacute;cias falsas e a vis&otilde;es providencialistas. Devemos pensar criticamente o presente e votar de acordo com nossa consci&ecirc;ncia cidad&atilde;", finaliza Lucia Neves.</font></p>      ]]></body>

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