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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Welcome à era da incerteza: uma reflexão antropolítica sobre um futuro global]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><i>Welcome</i> à era da incerteza: uma reflex&atilde;o antropol&iacute;tica sobre um futuro global</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Alfredo Pena-Vega</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professor/pesquisador em Socioecologia no Instituto de Antropologia Pol&iacute;tica, antigo IIAC-Centro Edgar Morin, <i>&Eacute;cole des Hautes Etudes en Sciences Sociales</i> (EHESS-CNRS)/Paris, e diretor cient&iacute;fico do programa internacional <i>Global Youth Climate Pact</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">&quot;<i>Welcome</i> à era da incerteza&quot; &eacute; uma reflex&atilde;o sobre a complexidade da pol&iacute;tica global, que se tornou o tra&ccedil;o essencial da maioria das abordagens antropol&iacute;ticas. No entanto, ainda n&atilde;o foi objeto de uma abordagem filosófica que a inscreva em um discurso de fundamenta&ccedil;&atilde;o ou de fixa&ccedil;&atilde;o epistemológica. Centramos a nossa aten&ccedil;&atilde;o na consci&ecirc;ncia ecológica e, como mostramos neste texto, a consci&ecirc;ncia ecológica encontra simultaneamente, de uma forma global e central, o problema da natureza como natureza, o da sociedade como sociedade e o da humanidade como humanidade. Dessa forma, podemos complexificar uma pol&iacute;tica planet&aacute;ria por meio de uma pluralidade de desafios.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Incerteza; Complexidade; Global; Imprevis&iacute;vel; Desafios; Ecologia; Pensamento; Democracia; Economia; Social; Educa&ccedil;&atilde;o; Terra; Pol&iacute;tica planet&aacute;ria.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><i>Com inc&ecirc;ndios incontrol&aacute;veis, ondas de calor sem precedentes e inunda&ccedil;&otilde;es gigantescas a varrer o globo, ser&aacute; que ainda &eacute; poss&iacute;vel ficar de bra&ccedil;os cruzados sem questionar fundamentalmente a nossa vis&atilde;o do mundo e o nosso modo de vida?</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b><i>Alfredo Pena-Vega</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">O nosso mundo est&aacute; atravessando um per&iacute;odo muito turbulento e est&atilde;o reunidos todos os ingredientes para um certo n&uacute;mero de desafios futuros. Em uma altura em que os efeitos do aquecimento global continuam a dar sinais de descontrole &ndash; fen&ocirc;menos excepcionais, subida das temperaturas, inunda&ccedil;&otilde;es, secas, inc&ecirc;ndios etc. &ndash; somos confrontados com um novo desafio. Muito recentemente, a ci&ecirc;ncia nos ensinou que o sistema de correntes oce&acirc;nicas que regula o clima de uma parte do planeta poder&aacute; entrar em colapso mais cedo do que o previsto &#91;1&#93;. Esse &eacute; mais um aviso s&eacute;rio sobre o estado do nosso planeta: diminui&ccedil;&atilde;o dos recursos de &aacute;gua pot&aacute;vel, aumento das &ldquo;zonas mortas&rdquo; nos oceanos, perda catastr&oacute;fica de biodiversidade, desfloresta&ccedil;&atilde;o a um ritmo vertiginoso. H&aacute; muito que os cientistas nos avisam que ser&aacute; demasiado tarde para mudar de rumo, chamando a nossa aten&ccedil;&atilde;o para as pol&iacute;ticas de redu&ccedil;&atilde;o das emiss&otilde;es de gases com efeito de estufa (GEE) e para as medidas de sa&uacute;de p&uacute;blica &#91;2&#93;. Entretanto, os nossos decisores pol&iacute;ticos continuam son&acirc;mbulos face a uma trag&eacute;dia anunciada.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A crescente influ&ecirc;ncia dos seres humanos no ambiente natural ao longo dos s&eacute;culos conduziu a desafios globais significativos na encruzilhada da sa&uacute;de, dos quais a Covid-19 n&atilde;o &eacute;, infelizmente, uma das manifesta&ccedil;&otilde;es mais recentes &#91;3&#93;. Como Settele argumenta, as altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas e o aumento de pandemias zoon&oacute;ticas como a Covid-19 s&atilde;o o resultado da interfer&ecirc;ncia humana nos ambientes naturais &#91;4&#93;. Todos nos lembramos do grande confinamento &#91;5&#93;. Assim, mais de tr&ecirc;s anos ap&oacute;s o in&iacute;cio da pandemia e a morte de milh&otilde;es de pessoas, a quest&atilde;o sobre o coronav&iacute;rus continua a ser controversa e delicada, com os fatos a tremeluzirem no meio de um emaranhado de an&aacute;lises e hip&oacute;teses, como enfeites de Natal em uma &aacute;rvore escura e espinhosa &#91;1&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Neste mundo em convuls&atilde;o, at&eacute; os defensores do <i>business-as-usual</i> se comoveram com o estado do nosso planeta. No F&oacute;rum Econ&ocirc;mico Mundial (Davos), a ret&oacute;rica foi grandiloquente: &ldquo;a Terra est&aacute; aquecendo, o gelo est&aacute; derretendo, os oceanos est&atilde;o subindo e se enchendo de pl&aacute;stico. Estamos perdendo esp&eacute;cies, acumulando gases de efeito estufa e ficando sem tempo. Perante esses fatos, &eacute; tentador ser derrotista. No entanto, h&aacute; muitas raz&otilde;es para nos regozijarmos. Uma palavra de ordem: &lsquo;sustent&aacute;vel&rsquo;. Um imperativo que se aplica a todos os dom&iacute;nios da atividade humana &ndash; energia, alimenta&ccedil;&atilde;o, vestu&aacute;rio, viagens, cidades etc.&rdquo; &#91;6&#93;. Quando este mesmo F&oacute;rum Econ&ocirc;mico Mundial se reuniu pela primeira vez, em 1974, o relat&oacute;rio do Clube de Roma, &ldquo;<i>The Limits to Growth</i>&rdquo;, j&aacute; tinha sido publicado, em 1972. Segundo esse relat&oacute;rio, a an&aacute;lise das causas e das consequ&ecirc;ncias a longo prazo de um crescimento econ&ocirc;mico mundial ilimitado conduziria a um futuro &ldquo;insustent&aacute;vel&rdquo;. Dennis Meadows e os seus coautores explicaram que os limites ecol&oacute;gicos do planeta (em termos de utiliza&ccedil;&atilde;o de recursos e de emiss&otilde;es de gases com efeito de estufa) teriam consequ&ecirc;ncias consider&aacute;veis para o desenvolvimento global durante o s&eacute;culo XX &#91;7&#93;. Infelizmente, o capitalismo de sempre do F&oacute;rum Econ&ocirc;mico Mundial nunca quis ter em conta as consequ&ecirc;ncias dram&aacute;ticas do crescimento exponencial em um mundo finito, escritas em preto e branco no relat&oacute;rio de Meadows (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n3/img/a02fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">No entanto, 50 anos depois, o reducionismo econ&ocirc;mico que o pr&oacute;prio homem ocidental engendrou, em particular o neoliberalismo, com o seu dogma do crescimento, da produ&ccedil;&atilde;o industrial em massa de bens materiais e de uma atividade econ&ocirc;mica que n&atilde;o respeita o ambiente por meio da sociedade de consumo, n&atilde;o enfraqueceu. &ldquo;Quem acredita que o crescimento pode ser infinito num mundo finito &eacute; um tolo ou um economista&rdquo;, escreveu o economista Kenneth Boulding. Como recordou Aur&eacute;lio Peccei, &ldquo;o futuro j&aacute; n&atilde;o &eacute; o que poderia ter sido se os homens tivessem sabido explorar mais eficazmente a sua intelig&ecirc;ncia e as possibilidades que se abrem. Mas pode ainda tornar-se naquilo que queremos que seja, desde que sejamos razoavelmente realistas&rdquo; (1983) &#91;8&#93;. Essa vis&atilde;o redutora explica-se pelo fato de a nossa rela&ccedil;&atilde;o com a terra, o meio ambiente e a natureza em geral continuar a ser &ldquo;estritamente econ&ocirc;mica, envolvendo apenas privil&eacute;gios e nenhuma obriga&ccedil;&atilde;o moral ou c&iacute;vica, embora toda a evolu&ccedil;&atilde;o nos devesse levar a mudar radicalmente a nossa atitude neste dom&iacute;nio&rdquo; &#91;9&#93;. Continua a ser uma vis&atilde;o naturalista do mundo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Encontramo-nos em um ponto de virada (<i>turning point</i>) decisivo na forma como entendemos e concebemos o nosso destino comum. As policrises globais est&atilde;o convergindo, mas a sua simultaneidade n&atilde;o &eacute; o resultado de uma infeliz coincid&ecirc;ncia. S&atilde;o semelhantes a todas as outras que marcaram a hist&oacute;ria da humanidade. Por&eacute;m, h&aacute; uma diferen&ccedil;a, na medida em que esta &eacute; a primeira policrise verdadeiramente global do nosso s&eacute;culo. Trata-se, antes de mais nada, de uma crise de sentido: j&aacute; n&atilde;o sabemos habitar a Terra &#91;10&#93; e j&aacute; n&atilde;o sabemos viver com ela e, sobretudo, j&aacute; n&atilde;o temos imagina&ccedil;&atilde;o para pensar em uma outra Terra. Mesmo que sejamos muito otimistas quanto &agrave;s capacidades tecnol&oacute;gicas futuras, &agrave; capacidade de reciclar ou de economizar as mat&eacute;rias-primas que consumimos, ao controle da polui&ccedil;&atilde;o, &agrave; &ldquo;transi&ccedil;&atilde;o&rdquo; ambiental e ao planejamento, n&atilde;o &eacute; surpreendente que a ideia de colapso &#91;11&#93; seja agora t&atilde;o temida pelas pessoas que teorizam uma &ldquo;colapsologia&rdquo;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A hip&oacute;tese central deste artigo &eacute; que as incertezas que surgiram na sequ&ecirc;ncia da convuls&atilde;o planet&aacute;ria da pandemia, da escalada da crise clim&aacute;tica e do ressurgimento da guerra no cora&ccedil;&atilde;o da Europa s&atilde;o extremamente abrangentes, mas, ao mesmo tempo, inesperadas e prescientes. Inesperado, porque, por um lado, revela a necessidade de integrar a d&uacute;vida e o erro e a multidimensionalidade dos fen&ocirc;menos no nosso modo de pensar, que deve ser o <i>sine qua non</i> da investiga&ccedil;&atilde;o, do exame e da reflex&atilde;o. Por outro lado, o inesperado tem um papel a desempenhar no an&uacute;ncio de cat&aacute;strofes ecol&oacute;gicas e pol&iacute;ticas, que constituem uma oportunidade para novas orienta&ccedil;&otilde;es &#91;12&#93;. Temos de nos confrontar com o problema da evolu&ccedil;&atilde;o do mundo na sua interdepend&ecirc;ncia e globalidade, tentar identificar os limites de um modelo dominante p&oacute;s-crise e, se poss&iacute;vel, evitar reproduzi-los.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Qual &eacute; o denominador comum na grande variedade de respostas ao ritmo da mudan&ccedil;a e &agrave;s amea&ccedil;as ecol&oacute;gicas, clim&aacute;ticas, sociais e pol&iacute;ticas? Ser&aacute; a incerteza, o imprevis&iacute;vel? Ou ser&aacute; simultaneamente a d&uacute;vida, o erro e as incertezas no conhecimento, na representa&ccedil;&atilde;o e na modela&ccedil;&atilde;o de sistemas complexos?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Embora a incerteza fa&ccedil;a parte da ci&ecirc;ncia e da investiga&ccedil;&atilde;o h&aacute; muito tempo, antes do advento da pandemia, assistimos a uma esp&eacute;cie de repress&atilde;o da incerteza na utiliza&ccedil;&atilde;o e no racioc&iacute;nio de certos fen&ocirc;menos. Como sabemos, em praticamente todos os dom&iacute;nios, sejam eles &ldquo;da raz&atilde;o&rdquo; ou n&atilde;o, parece que, fundada ou ilus&oacute;ria, a certeza prevalece sobre a aporia. O desafio, a partir de agora, ser&aacute; o de enfrentar as incertezas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Realidades complexas do mundo</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Se reconhecermos que vivemos em um mundo complexo, isso tem implica&ccedil;&otilde;es importantes na forma como compreendemos esse mundo e como atuamos nele. Os sistemas complexos s&atilde;o constitu&iacute;dos por um grande n&uacute;mero de rela&ccedil;&otilde;es n&atilde;o lineares. Para compreender esses sistemas, n&atilde;o podemos ter em conta essas rela&ccedil;&otilde;es, pelo que temos de simplificar. No entanto, esse processo reduz a complexidade do que queremos compreender. N&atilde;o existe uma forma objetiva de o fazer, porque isso exigiria uma posi&ccedil;&atilde;o a partir da qual pud&eacute;ssemos aceder a toda a complexidade. Este fato tem duas implica&ccedil;&otilde;es. Em primeiro lugar, significa que o nosso conhecimento das coisas complexas &eacute; sempre limitado e incompleto. Uma vez que a redu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; objetiva, mas baseada na escolha, temos, em segundo lugar, que reconhecer que est&atilde;o sempre em jogo quest&otilde;es normativas quando lidamos com coisas complexas. Essa normatividade pode ser descrita por aquilo a que poder&iacute;amos chamar as &ldquo;realidades complexas do mundo&rdquo;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Nesta se&ccedil;&atilde;o, desenvolverei a ideia de uma incerteza da complexidade pol&iacute;tica. Uma vez que o nosso envolvimento com coisas complexas n&atilde;o pode ser reduzido a um simples c&aacute;lculo, esta &eacute;tica &eacute; fundamentalmente provis&oacute;ria e sublinha a responsabilidade que devemos assumir pelas nossas decis&otilde;es, mesmo que n&atilde;o possamos prever completamente os seus resultados. Uma vez que as nossas previs&otilde;es n&atilde;o podem ser extrapola&ccedil;&otilde;es formais, a vontade cont&eacute;m um elemento de criatividade (por oposi&ccedil;&atilde;o ao c&aacute;lculo). Temos de imaginar certos aspectos dos resultados poss&iacute;veis das nossas a&ccedil;&otilde;es. A imagina&ccedil;&atilde;o adquire assim uma posi&ccedil;&atilde;o central no nosso envolvimento com o mundo, incluindo quando fazemos ci&ecirc;ncia. Temos de tentar imaginar futuros melhores para criar as condi&ccedil;&otilde;es em que eles possam ser concretizados.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Estamos perante um dilema: ser&aacute; que estamos conscientes das convuls&otilde;es do passado, ser&aacute; que a transforma&ccedil;&atilde;o de um modo de vida em que para os pa&iacute;ses ricos seria inegoci&aacute;vel ou, como George H. Bush j&aacute; declarou na Confer&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para o Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92), em 1992: &ldquo;o modo de vida americano n&atilde;o &eacute; negoci&aacute;vel&rdquo;?  Entretanto, o futuro da humanidade est&aacute; nos cofres dos bilion&aacute;rios senhores da tecnologia digital, que se esfor&ccedil;am por privatizar o nosso futuro com a alegada miss&atilde;o de trabalhar cientificamente para o bem da humanidade. Quando, na realidade, se trata apenas de expropriar o nosso conhecimento e de o controlar por meio de toda uma s&eacute;rie de megaprojetos tecnol&oacute;gicos, tudo apoiado no sonho de conquistar o futuro, para explorar o futuro long&iacute;nquo, para sermos os &uacute;nicos senhores. O que significa privatizar o nosso futuro?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">J&aacute; n&atilde;o estamos nos debates do in&iacute;cio dos anos 2000 entre os pessimistas e os otimistas sobre os benef&iacute;cios da globaliza&ccedil;&atilde;o, mas sim em uma discuss&atilde;o que se centra hoje sobre o modelo de civiliza&ccedil;&atilde;o que queremos: perseverar em um modelo de abund&acirc;ncia (<i>hybris</i>) ou bifurcar (realmente no sentido de bifurca&ccedil;&atilde;o) para um modelo de sobriedade (neutralidade carb&ocirc;nica, consumo s&oacute;brio etc.). A alternativa que se coloca coletivamente &eacute; a seguinte: ser&aacute; o abismo ou ser&aacute; a transforma&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">As perspectivas e a exig&ecirc;ncia de transforma&ccedil;&atilde;o entraram no esp&iacute;rito das pessoas por meio de uma tomada de consci&ecirc;ncia coletiva das quest&otilde;es ecol&oacute;gicas, ambientais, pol&iacute;ticas e sociais em jogo. Isso implica abandonar a l&oacute;gica do produtivismo e do consumismo e dar-lhes um novo significado. Contribuir para a emerg&ecirc;ncia de um &ldquo;modelo alternativo&rdquo; e torn&aacute;-lo um objetivo &uacute;til de uma &ldquo;teoria social&rdquo; para compreender os desafios atuais das nossas sociedades. Andr&eacute; Gorz (2008) &#91;13&#93; disse um dia que &ldquo;o capitalismo atingiu um limite, interno e externo, que &eacute; incapaz de ultrapassar, e que faz dele um sistema que sobrevive por subterf&uacute;gio &agrave; crise das suas categorias fundamentais: o trabalho, o valor e o capital&rdquo;. Para ultrapassar essa situa&ccedil;&atilde;o, F&eacute;lix Guattari afirmava que &ldquo;para fazer face aos gigantescos desafios do nosso tempo, para reorientar radicalmente os seus objetivos, &eacute; necess&aacute;rio passar de uma ecologia do passado, fixada na defesa do que foi alcan&ccedil;ado, para uma ecologia futurista, inteiramente mobilizada para a cria&ccedil;&atilde;o&rdquo; &#91;14&#93;. Voltaremos mais tarde a essa ideia de ecologia do futuro. Mais recentemente, em uma entrevista ao jornal di&aacute;rio <i>Le Monde</i>, os antrop&oacute;logos Philippe Descola e Batiste Morizot argumentaram que a crise clim&aacute;tica est&aacute; inaugurando uma nova &eacute;poca, em que os conceitos das Luzes t&ecirc;m dificuldade de compreender e que precisamos construir uma sociedade com a Terra. A sua mensagem &eacute;: &ldquo;&Eacute; tempo de tornar o mundo apto para a vida&rdquo; &#91;15&#93;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Uma incerteza de princ&iacute;pio</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">&quot;Vimos que a partir de um certo n&uacute;mero de intera&ccedil;&otilde;es e interdepend&ecirc;ncias, ou mesmo de um certo grau de complica&ccedil;&atilde;o, torna-se imposs&iacute;vel calcular e compreender os microprocessos de um fen&ocirc;meno&amp;quot; &#91;16&#93;. Assim, colocar quest&otilde;es sobre o ritmo acelerado das mudan&ccedil;as na nossa história, sem ter em conta as intera&ccedil;&otilde;es e/ou interdepend&ecirc;ncias, torna-se uma tarefa imposs&iacute;vel para a compreens&atilde;o dos fen&ocirc;menos. N&atilde;o nos esque&ccedil;amos de que a incerteza n&atilde;o diz respeito apenas a medi&ccedil;&otilde;es e previs&otilde;es. Diz respeito aos conceitos capazes de dar conta de fen&ocirc;menos complexos. Assim, o conceito de complexidade do mundo revela um princ&iacute;pio de incerteza humana, que est&aacute; ligado n&atilde;o só às intera&ccedil;&otilde;es que constituem a organiza&ccedil;&atilde;o do &amp;quot;coletivo&amp;quot; humano e n&atilde;o humano, mas tamb&eacute;m aos conceitos fundamentais necess&aacute;rios para conceber plenamente a vida.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Alguns acreditam que as amea&ccedil;as est&atilde;o diminuindo, outros que est&atilde;o evoluindo a uma velocidade vertiginosa, outros ainda que a evolu&ccedil;&atilde;o acabar&aacute; por ser positiva, ou apocal&iacute;ptica, ou mesmo que essas amea&ccedil;as s&atilde;o das muitas que a humanidade tem de ultrapassar. As amea&ccedil;as s&atilde;o por vezes entendidas em termos de perdas econ&ocirc;micas, de injusti&ccedil;a ou de riscos existenciais com efeitos irrevers&iacute;veis. Muito recentemente, por exemplo, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, referiu-se a novas medidas para proteger os norte-americanos &ldquo;da amea&ccedil;a existencial das altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas e do calor extremo&rdquo; &#91;17&#93;. Podemos assim compreender a import&acirc;ncia dada &agrave;s amea&ccedil;as em termos de presente e de futuro &#91;18&#93;. Nessa diversidade de pontos de vista, vale a pena destacar o contributo, muitas vezes pol&ecirc;mico, da fal&aacute;cia de que o n&atilde;o acontecimento &eacute; uma impossibilidade. Como afirma Dupuy, &ldquo;um acontecimento que nunca acontece deve ser considerado imposs&iacute;vel&rdquo; &#91;19&#93;. Uma ilustra&ccedil;&atilde;o perfeita disso &eacute; o discurso dos pr&oacute;-nuclearistas franceses, que acreditam que um acidente nuclear na Fran&ccedil;a &eacute; imposs&iacute;vel! Trata-se de uma esp&eacute;cie de &ldquo;nega&ccedil;&atilde;o&rdquo; da import&acirc;ncia de um acontecimento.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">No entanto, em toda essa diversidade de pensamentos, surge um postulado segundo o qual seria uma convic&ccedil;&atilde;o moral ligada &agrave; pr&oacute;pria possibilidade da humanidade perturbar os sistemas naturais de forma consequente. Poder&iacute;amos subscrever em parte esse postulado, mas penso que, mais do que uma quest&atilde;o de moralidade, &eacute; uma quest&atilde;o de ter em conta as nossas incertezas, que s&atilde;o dif&iacute;ceis de aceitar. Por isso, temos de viver e pensar com elas. A primeira incerteza &eacute; a incerteza da vida quotidiana: a incerteza do que vai acontecer no futuro. E, apesar das dificuldades da vida, essa n&atilde;o &eacute; uma m&aacute; not&iacute;cia. Outra incerteza, segundo Ord, &ldquo;&eacute; a incerteza moral: a incerteza sobre a natureza dos nossos compromissos &eacute;ticos&rdquo; &#91;18&#93;. No entanto, a necessidade de fazer da policrise uma prioridade global n&atilde;o exige certezas. Certamente, de um ponto de vista moral, haveria uma consci&ecirc;ncia crescente, ainda que por vezes parcial dos perigos que amea&ccedil;am as nossas &ldquo;coletividades&rdquo;, no sentido de Philippe Descola (2022) &#91;20&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Em &uacute;ltima an&aacute;lise, esse reconhecimento das incertezas &eacute; o que caracteriza a atual policrise mundial. A procura de uma sa&iacute;da para as perturba&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, clim&aacute;ticas e sanit&aacute;rias &eacute; concomitante em termos de desafios. Al&eacute;m disso, a crise clim&aacute;tica, as negocia&ccedil;&otilde;es de ontem em Paris (COP21) e as pr&oacute;ximas negocia&ccedil;&otilde;es no Dubai (COP28), juntamente com as m&uacute;ltiplas problem&aacute;ticas que se entrela&ccedil;am em uma policrise planet&aacute;ria &#91;21&#93;, real&ccedil;am a ideia imperativa de uma mudan&ccedil;a de &ldquo;Via&rdquo; (no sentido moriniano), como um processo de transforma&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o ao modelo econ&ocirc;mico e pol&iacute;tico dominante. &ldquo;O colapso clim&aacute;tico come&ccedil;ou&rdquo; (setembro 2023), lamentou o Secret&aacute;rio-Geral da ONU em uma declara&ccedil;&atilde;o em resposta ao an&uacute;ncio de temperaturas recorde no ver&atilde;o no hemisf&eacute;rio norte.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>&quot;H&aacute; tr&ecirc;s anos, as &quot;comunidades&quot; est&atilde;o mergulhadas em uma grande incerteza: sanit&aacute;ria (pandemias, zoonoses), econ&ocirc;mica (crise generalizada), pol&iacute;tica (estreitamento dos princ&iacute;pios democr&aacute;ticos), psicológica (ansiedade, medo do futuro) e moral (enfraquecimento do sentido do dever, corrup&ccedil;&atilde;o).&quot;</b></styled-content> </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">H&aacute; tr&ecirc;s anos, as &ldquo;comunidades&rdquo; est&atilde;o mergulhadas em uma grande incerteza: sanit&aacute;ria (pandemias, zoonoses), econ&ocirc;mica (crise generalizada), pol&iacute;tica (estreitamento dos princ&iacute;pios democr&aacute;ticos), psicol&oacute;gica (ansiedade, medo do futuro) e moral (enfraquecimento do sentido do dever, corrup&ccedil;&atilde;o). Mais do que uma coincid&ecirc;ncia, h&aacute; realidades observ&aacute;veis que n&atilde;o enganam. Para al&eacute;m das cat&aacute;strofes sanit&aacute;rias e econ&ocirc;micas, &eacute; o conjunto do modelo civilizacional atual posto em causa por essas cat&aacute;strofes planet&aacute;rias. Talvez n&atilde;o seja por acaso que os te&oacute;ricos do colapso tenham um certo sucesso.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Parafraseando Ren&eacute; Passet, &ldquo;o destino do mundo &eacute; o de um confronto te&oacute;rico &ndash; ou ideol&oacute;gico, se preferirem &ndash; e o de uma luta pelo poder&rdquo; &#91;22&#93;. A complexidade do mundo incomoda-nos, porque a compartimenta&ccedil;&atilde;o das ci&ecirc;ncias conduziu a uma enfermidade do pensamento: embora vivamos em uma &ldquo;sociedade do conhecimento&rdquo;, sofremos de defici&ecirc;ncias cognitivas e/ou continuamos a conceber a nossa vis&atilde;o do mundo em termos de &ldquo;racionalidade cognitiva instrumental&rdquo;. Precisamos de um novo impulso para uma pol&iacute;tica planet&aacute;ria e/ou uma pol&iacute;tica para a humanidade que salvaguarde o melhor da pol&iacute;tica de desenvolvimento e o melhor de cada civiliza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Os decisores pol&iacute;ticos s&atilde;o como a ci&ecirc;ncia: compartimentados, dispersos, cada um a cuidar do seu pr&oacute;prio jardim. Por que raz&atilde;o, ent&atilde;o, &eacute; t&atilde;o dif&iacute;cil que o objetivo de identificar uma alternativa se concretize na pr&aacute;tica? Porque se depara com uma s&eacute;rie de interesses econ&ocirc;micos, financeiros e cient&iacute;ficos, evidentemente. Mas tamb&eacute;m, talvez, por uma raz&atilde;o mais sutil e preocupante: a dificuldade de p&ocirc;r em causa uma vis&atilde;o paradigm&aacute;tica dominante do nosso &ldquo;coletivo&rdquo;. As certezas que tendem a prevalecer em todo o lado impedem um pensamento verdadeiramente radical. Ent&atilde;o, como pensamos hoje na ideia de desafios relevantes?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Precisamos come&ccedil;ar a moldar um novo imagin&aacute;rio que nos ajude a ler a policrise de uma forma diferente, em outras palavras, a conceber novas quest&otilde;es &ndash; ou provas &ndash; que sejam diferentes de tudo o que temos teorizado nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas. Trata-se de um verdadeiro desafio epistemol&oacute;gico, cujo um dos princ&iacute;pios pode ser retirado da ideia de ruptura epist&ecirc;mica proposta por Nathan Ballantyne. Segundo o autor, a ruptura epist&ecirc;mica ocorre quando um cientista ultrapassa claramente o seu campo de estudo e fala sobre um assunto sobre o qual n&atilde;o possui os dados ou o conhecimento necess&aacute;rio para avaliar as provas e/ou os dados &#91;23&#93;. &Eacute; verdade que as nossas cren&ccedil;as se baseiam apenas parcialmente em uma base de provas relevante. &Eacute; nesse sentido que transgredir os limites do conhecimento exigiria, portanto, uma verdadeira invas&atilde;o epist&ecirc;mica. Sem querer extrapolar entre, por um lado, uma abundante acumula&ccedil;&atilde;o de conhecimentos no dom&iacute;nio clim&aacute;tico, dando mesmo origem a uma maior sensibilidade ecol&oacute;gica por parte da popula&ccedil;&atilde;o e, por outro lado, uma Covid-19 em que n&atilde;o dominamos todas as intera&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas, deixando em aberto a sensa&ccedil;&atilde;o de uma amea&ccedil;a ainda latente e/ou incerta. Como refere David Quammen, a quest&atilde;o das origens da pandemia continua a dividir as pessoas e tem sido frequentemente politizada. Segundo o autor, continuamos a n&atilde;o ter provas suficientes e definitivas, o que faz com que os especialistas sejam por vezes influenciados pelas suas cren&ccedil;as. Isso deve-se, em parte, ao fato das provas que fornecem as respostas terem se perdido ou simplesmente n&atilde;o estarem ainda dispon&iacute;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Estamos em um nevoeiro. Ser&aacute; que o conhecimento desses fatos pode nos levar a pensar de forma diferente nas nossas convic&ccedil;&otilde;es sobre o nosso futuro? O aparecimento do coronav&iacute;rus contribuiu, sem d&uacute;vida, para uma releitura da nossa vis&atilde;o existencial. Ainda n&atilde;o sabemos como come&ccedil;ou a pandemia. As nossas certezas sobre a verdade cient&iacute;fica foram destru&iacute;das e a ci&ecirc;ncia continua a n&atilde;o ter certezas sobre a sua origem. Essa &eacute; uma quest&atilde;o importante. As prioridades de investiga&ccedil;&atilde;o, a prepara&ccedil;&atilde;o global para a pandemia, as pol&iacute;ticas de sa&uacute;de e a opini&atilde;o p&uacute;blica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; pr&oacute;pria ci&ecirc;ncia ser&atilde;o permanentemente afetadas pela resposta &agrave; quest&atilde;o da origem &ndash; se alguma vez obtivermos uma resposta definitiva &#91;1&#93; (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n3/img/a02fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">No momento em que os cientistas lutam para impor os seus conhecimentos, os princ&iacute;pios que proponho esbo&ccedil;am o que seria uma verdadeira narrativa para prever o imprevis&iacute;vel. Como sabemos, os acontecimentos s&atilde;o muitas vezes imprevis&iacute;veis, e h&aacute; muitos exemplos hist&oacute;ricos disso: a derrota do ex&eacute;rcito nazista em 1944, a trag&eacute;dia humana e ecol&oacute;gica de Chernobyl em 1986, a tripla cat&aacute;strofe de Fukushima em 2011 e a cat&aacute;strofe sanit&aacute;ria da pandemia em 2020 foram acontecimentos imprevistos. Ningu&eacute;m previu a derrota dos nazistas pelo ex&eacute;rcito sovi&eacute;tico, nem as duas cat&aacute;strofes nucleares: com as autoridades japonesas de seguran&ccedil;a nuclear a considerarem que um acidente desse tipo era tecnologicamente impens&aacute;vel. Quem poderia imaginar uma crise sanit&aacute;ria mundial? Por fim, se olharmos para a hist&oacute;ria das grandes cat&aacute;strofes, verificamos que elas foram concebidas para mascarar a ideia de que tudo o que &eacute; importante &eacute; imprevis&iacute;vel. Esses s&atilde;o alguns dos acontecimentos invis&iacute;veis na altura, e temos de lidar com o imprevis&iacute;vel. N&atilde;o sabemos o que &eacute; invis&iacute;vel hoje. Pode n&atilde;o haver nada invis&iacute;vel, mas n&atilde;o &eacute; certo. H&aacute; sempre uma zona obscura, algumas causas ocultas... no cora&ccedil;&atilde;o desta zona obscura e, parafraseando Werner Heisenberg, h&aacute; um princ&iacute;pio de incerteza. No cora&ccedil;&atilde;o do paradigma da incerteza, est&aacute; o problema da insufici&ecirc;ncia da l&oacute;gica e a necessidade de uma l&oacute;gica que incorpore o confronto dial&eacute;tico da contradi&ccedil;&atilde;o. A incerteza est&aacute;, portanto, no pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o da l&oacute;gica. &ldquo;H&aacute; um princ&iacute;pio de incerteza e, como acabamos de discutir, h&aacute; um princ&iacute;pio de incerteza no cora&ccedil;&atilde;o da l&oacute;gica&rdquo; &#91;24&#93;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>Uma pluralidade de desafios</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Eis-nos, mais uma vez, confrontados com o grande paradoxo: se a globaliza&ccedil;&atilde;o &ndash; a interdepend&ecirc;ncia de todos os fen&ocirc;menos planet&aacute;rios &ndash; era uma realidade, uma oportunidade e at&eacute; um risco, esses fen&ocirc;menos est&atilde;o conduzindo a uma globaliza&ccedil;&atilde;o das amea&ccedil;as: desequil&iacute;brios da biosfera (ecol&oacute;gicos, clim&aacute;ticos), (bio)tecnol&oacute;gicos (IA, guerra nuclear), sanit&aacute;rios (pandemias), pol&iacute;ticos (as democracias est&atilde;o regredindo em toda a parte), bem como fatores de exclus&atilde;o e de marginaliza&ccedil;&atilde;o (econ&ocirc;micos, sociais, cient&iacute;ficos, culturais) etc. Este &eacute; um sinal n&atilde;o s&oacute; de que a consci&ecirc;ncia est&aacute; atrasada em rela&ccedil;&atilde;o aos fatos, mas tamb&eacute;m de que os fatos est&atilde;o atrasados em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; consci&ecirc;ncia. A necessidade de tomada de consci&ecirc;ncia deve nos levar, a n&oacute;s &ldquo;humanos&rdquo; (como dizem os Inuit), a fixar dois objetivos primordiais: por um lado, assegurar a sobreviv&ecirc;ncia da humanidade e, por outro, faz&ecirc;-la sair da barb&aacute;rie em que continua mergulhada. Como atingir esses objetivos?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Lan&ccedil;ar as bases de uma reforma e de um alargamento do pensamento (filos&oacute;fico, pol&iacute;tico, ecol&oacute;gico), reunindo o que est&aacute; disperso e recuperando a complexidade dos problemas humanos n&atilde;o humanos, &eacute; essencial para a funda&ccedil;&atilde;o deste novo conceito de &ldquo;Terra&rdquo;, em que a utopia parece mais realista do que o pragmatismo de gestores tranquilizadores, mas cegos.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>&quot;A necessidade de tomada de consci&ecirc;ncia deve nos levar a fixar dois objetivos primordiais: por um lado, assegurar a sobreviv&ecirc;ncia da humanidade e, por outro, faz&ecirc;-la sair da barb&aacute;rie em que ainda est&aacute; mergulhada.&quot;</b></styled-content> </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Se a policrise &eacute; certamente a possibilidade de morte, &eacute; tamb&eacute;m a possibilidade de mudan&ccedil;a. A transforma&ccedil;&atilde;o (metamorfose, muta&ccedil;&atilde;o) que devemos empreender s&oacute; ser&aacute; poss&iacute;vel se aceitarmos que as crises atuais n&atilde;o podem ser resolvidas separadamente. S&oacute; podemos responder a uma crise de civiliza&ccedil;&atilde;o com uma pol&iacute;tica de civiliza&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se trata apenas de um chav&atilde;o ou de uma frase feita para abrilhantar um discurso, mas de uma abordagem global que conduza a um programa concreto e abrangente para enfrentar os desafios do nosso tempo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Gostaria de retomar aqui uma ideia antiga, mas ainda atual, de G&uuml;nther Anders (2008) &#91;25&#93;, segundo a qual as nossas reflex&otilde;es acad&ecirc;micas sobre aquilo que Toby Ord chama de &ldquo;riscos existenciais e o futuro da humanidade&rdquo; (2020) &#91;18&#93;, devem passar para a necessidade de compreender a situa&ccedil;&atilde;o de urg&ecirc;ncia vital a que a humanidade se encontra exposta. Precisamos de uma filosofia pol&iacute;tica que esteja &agrave; altura dos desafios do nosso destino comum e que rompa com uma filosofia discursiva abstrata que ignora a realidade das cat&aacute;strofes. Gostaria de colocar a seguinte quest&atilde;o: qual &eacute; a natureza complexa do futuro e como essa natureza modifica a estrat&eacute;gia? Reorientar a nossa trajet&oacute;ria significa, em primeiro lugar, admitir e perceber que a supera&ccedil;&atilde;o do &ldquo;impasse planet&aacute;rio&rdquo; &#91;14&#93; em que nos encontramos exige a compreens&atilde;o de que a humanidade e a biosfera s&atilde;o insepar&aacute;veis, e que o futuro de ambas depende igualmente da nossa &ldquo;comunidade de destinos terrestres&rdquo; &#91;26&#93;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>O desafio do pensamento</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Essa policrise amplificou-se e aprofundou-se em uma crise do pensamento. Vivemos cada vez mais na depend&ecirc;ncia de um pensamento disjuntivo e unilateral, incapaz de ligar os conhecimentos para compreender as realidades do mundo onde os assuntos e as atividades interagem &#91;21&#93;. Para ultrapassar essa tend&ecirc;ncia para disciplinas fechadas, incapazes de conceber a multidimensionalidade e as contradi&ccedil;&otilde;es inerentes a um &uacute;nico acontecimento, &eacute; necess&aacute;ria uma verdadeira revolu&ccedil;&atilde;o paradigm&aacute;tica, que rompa completamente com a vis&atilde;o do mundo do passado. N&atilde;o, n&atilde;o se trata de uma simples mudan&ccedil;a, de uma simples permuta&ccedil;&atilde;o, como a permuta&ccedil;&atilde;o entre a Terra e o Sol, para alterar efetivamente toda a nossa vis&atilde;o do mundo. Podemos dizer que, nas teorias cient&iacute;ficas, h&aacute; saltos ontol&oacute;gicos de um universo para outro, eles n&atilde;o se acumulam uns sobre os outros. Ao adotar um modelo cr&iacute;tico n&atilde;o reducionista, Morin convida-nos a afastarmo-nos de um realismo cient&iacute;fico reducionista, propondo outra vis&atilde;o do mundo, com interconex&otilde;es entre la&ccedil;os que se autorreproduzem e auto-organizam, e um m&eacute;todo de pensamento baseado em um duplo princ&iacute;pio de disjun&ccedil;&atilde;o e redu&ccedil;&atilde;o, a que chama princ&iacute;pio de simplifica&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A partir do final dos anos 1970, a obra de Edgar Morin foi extraordin&aacute;ria, quase heroica (parafraseando Jean Marie Domenach): po&eacute;tica, mitologia, filosofia, biologia, f&iacute;sica, pensamento sist&ecirc;mico, complexo etc., juntaram-se para constituir a aventura cient&iacute;fica do pensamento, e ele esteve em todas as encruzilhadas de uma verdadeira ruptura paradigm&aacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Como foi muitas vezes descrito, &ldquo;a aventura cient&iacute;fica &eacute; uma aventura complexa em que a incess&acirc;ncia emp&iacute;rica da observa&ccedil;&atilde;o, da interroga&ccedil;&atilde;o e da experimenta&ccedil;&atilde;o trouxe finalmente para o primeiro plano o que tinha sido banido por princ&iacute;pio: a complexidade&rdquo; (Morin, 1979). Como diz a ata da universidade de ver&atilde;o, o objetivo &eacute; &ldquo;formular princ&iacute;pios de inteligibilidade complexa&rdquo; (arquivo, 2010) &#91;27&#93;, ou seja, o princ&iacute;pio da universalidade (&ldquo;n&atilde;o h&aacute; ci&ecirc;ncia sen&atilde;o no geral&rdquo;) deve ser combinado com um princ&iacute;pio de inteligibilidade baseado no local e no singular. O princ&iacute;pio do reconhecimento da irreversibilidade do tempo f&iacute;sico (segundo princ&iacute;pio da termodin&acirc;mica) e do tempo biol&oacute;gico (ontog&ecirc;nese, filogenia, evolu&ccedil;&atilde;o) deve ser reproblematizado em uma perspectiva de organiza&ccedil;&atilde;o antropossocial. Morin prop&otilde;e a interven&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria em todas as descri&ccedil;&otilde;es e explica&ccedil;&otilde;es. Al&eacute;m disso, insiste em tr&ecirc;s pontos que, a meu ver, n&atilde;o podem ser ignorados paradigmaticamente: a ideia de que o conhecimento das partes conduz ao conhecimento do todo, que por sua vez conduz ao conhecimento das partes; estamos aqui em uma posi&ccedil;&atilde;o muito afastada da l&oacute;gica hol&iacute;stica e/ou do reducionismo (a convic&ccedil;&atilde;o da multidimensionalidade dos fen&ocirc;menos); a incontornabilidade da problem&aacute;tica da organiza&ccedil;&atilde;o, de que alguns dos princ&iacute;pios que acabamos de passar em revista (inter-retroa&ccedil;&atilde;o, auto-eco-organiza&ccedil;&atilde;o etc.); e a incontornabilidade de uma dial&oacute;gica ordem/desordem/intera&ccedil;&atilde;o/organiza&ccedil;&atilde;o em toda a procura de inteligibilidade dos fen&ocirc;menos) e a inescapabilidade de uma dial&oacute;gica ordem/ desordem/intera&ccedil;&atilde;o/organiza&ccedil;&atilde;o na busca da inteligibilidade dos fen&ocirc;menos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>O desafio da democracia</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Mais do que uma democracia na defensiva, vivemos uma regress&atilde;o do nosso sistema democr&aacute;tico. &ldquo;O paradoxo central do nosso tempo &eacute;, sem d&uacute;vida, o seguinte. A nossa &eacute;poca pode ser vista simultaneamente como uma &eacute;poca em que o princ&iacute;pio democr&aacute;tico come&ccedil;a a triunfar plenamente e como uma &eacute;poca da sua poss&iacute;vel autodestrui&ccedil;&atilde;o&rdquo; &#91;28, 29&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A <i>Freedom House</i>, uma organiza&ccedil;&atilde;o norte-americana que desde a Segunda Guerra Mundial alerta contra a autocracia e os atentados aos princ&iacute;pios da democracia em todo o mundo, publicou, em 2021, um relat&oacute;rio especial sobre um pa&iacute;s que geralmente n&atilde;o tem merecido tanta aten&ccedil;&atilde;o: os Estados Unidos. O relat&oacute;rio sublinha o fato de os Estados Unidos estarem vivendo &ldquo;uma crise aguda da democracia&rdquo;. No mesmo ano, o Instituto Internacional para a Democracia &ndash; um influente grupo de reflex&atilde;o com sede em Estocolmo &ndash; seguiu o exemplo, acrescentando que, pela primeira vez, os Estados Unidos estavam na lista das &ldquo;democracias em regress&atilde;o&rdquo;. E isso &eacute; v&aacute;lido para toda a Europa e mesmo para al&eacute;m dela: estamos em um per&iacute;odo de regress&atilde;o e de inadequa&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Embora a Europa, no seu conjunto, partilhe um desejo de democracia, isso n&atilde;o significa que esse desejo de democracia esteja sendo plenamente exercido, ou mesmo que a Europa, no seu conjunto, apresente hoje o rosto de uma democracia rica. Existe a sensa&ccedil;&atilde;o de que, neste momento de crise aguda, para ser breve, os cidad&atilde;os, e n&atilde;o apenas os cidad&atilde;os europeus, s&atilde;o pouco democratas ativos, se n&atilde;o mesmo indiferentes, &agrave;s aspira&ccedil;&otilde;es e &agrave;s conquistas hist&oacute;ricas da democracia? Haver&aacute; um ponto de virada, uma esp&eacute;cie de indiferen&ccedil;a, uma passividade democr&aacute;tica?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Quais s&atilde;o as raz&otilde;es das aspira&ccedil;&otilde;es a tend&ecirc;ncias nacionalistas ou mesmo neofascistas desfavor&aacute;veis &agrave;s ra&iacute;zes democr&aacute;ticas? Quais s&atilde;o as principais causas desta neglig&ecirc;ncia, se n&atilde;o mesmo a eros&atilde;o da democracia?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">&Eacute; preciso &amp;quot;democratizar a democracia&amp;quot;, o que significa, antes de tudo, desconstruir o modelo dominante de globaliza&ccedil;&atilde;o. Isso pressup&otilde;e uma maior integra&ccedil;&atilde;o dos processos de decis&atilde;o mundialmente. Em termos concretos, significa reformular o papel das Na&ccedil;&otilde;es Unidas nas rela&ccedil;&otilde;es internacionais e democratizar o funcionamento do seu Conselho de Seguran&ccedil;a e a sua rela&ccedil;&atilde;o com a Assembleia Geral e o Conselho Econ&ocirc;mico e Social. Significa tamb&eacute;m dar vida, do n&iacute;vel local ao global, a uma “democracia cognitiva” viva, que aproveite a experi&ecirc;ncia dos cidad&atilde;os e redescubra a ambi&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica original: o direito de cada um se ocupar dos assuntos comuns. Em todos os continentes, esse regresso dos cidad&atilde;os ao centro da delibera&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e da tomada de decis&otilde;es est&aacute; dando origem a pr&aacute;ticas inovadoras que apontam o caminho para uma necess&aacute;ria “democratiza&ccedil;&atilde;o da democracia”, condi&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via para que os cidad&atilde;os voltem a tomar os seus destinos nas suas próprias m&atilde;os. Chegou o momento de transformar esta comunidade involunt&aacute;ria de riscos em uma comunidade volunt&aacute;ria de destinos. Por outras palavras, chegou o momento de construir a interdepend&ecirc;ncia como um projeto, comprometendo-nos como indiv&iacute;duos – como membros de comunidades e na&ccedil;&otilde;es distintas e como cidad&atilde;os do mundo – a reconhecer a nossa responsabilidade e a agir, diretamente e por meio de Estados e Comunidades (infra e supranacionais), para identificar, defender e promover os valores e os interesses comuns da humanidade.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>&quot;&Eacute; preciso &quot;democratizar a democracia&quot;, o que significa, antes de mais nada, desconstruir o modelo dominante de globaliza&ccedil;&atilde;o. Isso pressup&otilde;e uma maior integra&ccedil;&atilde;o dos processos de decis&atilde;o a n&iacute;vel mundial.&quot;</b></styled-content>   </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>O desafio de uma economia diferente</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Com a economia a subjugar a condi&ccedil;&atilde;o humana e as finan&ccedil;as a subjugar a economia, as nossas vidas passaram a ter n&atilde;o um valor, mas pre&ccedil;os. Uma civiliza&ccedil;&atilde;o plenamente humana s&oacute; pode ser fundada em uma ecologia integral, ou seja, na considera&ccedil;&atilde;o constante do que &eacute; infinito nos outros seres humanos e n&atilde;o humanos. Trata-se de criar no nosso tempo, nos nossos vastos territ&oacute;rios e no seio das nossas comunidades, as condi&ccedil;&otilde;es para a renova&ccedil;&atilde;o da amizade grega, esse sentimento c&iacute;vico, pol&iacute;tico e &eacute;tico, que mantinha a cidade unida. A <i>philia</i> moderna &eacute; a fraternidade. Em termos pr&aacute;ticos, isso significa ultrapassar o anonimato nas nossas sociedades que, demasiadas vezes, nos isenta do respeito b&aacute;sico que devemos aos outros. As cidades, as zonas suburbanas e as zonas rurais n&atilde;o devem continuar a ser lugares de isolamento e de segrega&ccedil;&atilde;o, mas sim lugares de cultura, de interc&acirc;mbio, de partilha, de igual dignidade e de igual criatividade. Esse objetivo, e os valores que lhe est&atilde;o subjacentes, devem permear todas as pol&iacute;ticas erradamente consideradas setoriais, da habita&ccedil;&atilde;o &agrave; sa&uacute;de, dos transportes &agrave; educa&ccedil;&atilde;o, do trabalho &agrave; paisagem e &agrave; arquitetura.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Os problemas atuais est&atilde;o enraizados na consci&ecirc;ncia humana e &eacute; preciso enraizar a pol&iacute;tica que os resolver&aacute;. Em termos pr&aacute;ticos, isso significa manter e tornar coerente o nosso pensamento sobre a democracia, o ambiente, as rela&ccedil;&otilde;es sociais e uma economia, n&atilde;o moralizando o capitalismo, mas teorizando outra alternativa ao capitalismo (eco = <i>oikos</i>, que significa casa ou lar; <i>logos</i>, que significa conhecimento; e <i>nomia</i> ou <i>nomos</i>, que significa gest&atilde;o). Assim, a ecologia integral &eacute; o conhecimento da casa ou do lar e a economia &eacute; a gest&atilde;o do lar.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Os modelos microecon&ocirc;micos que est&atilde;o na origem da crise financeira e econ&ocirc;mica baseiam-se no pressuposto irrealista de que a irracionalidade &eacute; totalmente individualizada, isolada, desencarnada e instrumental. Temos de reexaminar a pr&oacute;pria forma como usamos a raz&atilde;o, para a tornar capaz de apreender a multidimensionalidade das realidades e reconhecer a intera&ccedil;&atilde;o de intera&ccedil;&otilde;es e <i>feedbacks</i>. O problema reside na transmiss&atilde;o de conhecimentos, em que o ensino est&aacute; completamente desfasado da realidade da nossa Terra. Os programas e os curr&iacute;culos de economia t&ecirc;m muito pouco a ver com o estudo da gest&atilde;o dos lares da Terra. Uma grande parte do ensino &eacute; dedicada &agrave; gest&atilde;o do dinheiro. A economia foi reduzida a uma simples quest&atilde;o de dinheiro.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Passamos da gest&atilde;o da casa terrestre para a gest&atilde;o do dinheiro e das finan&ccedil;as no interesse de um determinado grupo de pessoas e n&atilde;o no interesse de todos os membros de um lar terrestre. Sem ecologia, n&atilde;o h&aacute; economia. No entanto, sobretudo no ensino das grandes institui&ccedil;&otilde;es e, em geral, nas universidades do mundo, a economia &eacute; ensinada como se n&atilde;o houvesse qualquer liga&ccedil;&atilde;o entre economia e ecologia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A natureza, que &eacute; outro nome para a ecologia, &eacute; vista como um mero recurso para a economia, o que, de fato, significa um recurso para maximizar o lucro por meio de uma produ&ccedil;&atilde;o e de um consumo cada vez maiores. Dessa forma, a natureza foi reduzida a um mero recurso. Do mesmo modo, o homem foi reduzido a um recurso para a economia. Chamamos-lhe &ldquo;recursos humanos&rdquo;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A produ&ccedil;&atilde;o, o consumo e a procura incessante de lucro, em nome do crescimento econ&ocirc;mico, do progresso e do desenvolvimento, tornaram-se os objetivos mais prezados da economia moderna. A natureza, bem como os seres humanos e n&atilde;o humanos tornaram-se meios para atingir um fim: s&atilde;o meros instrumentos para aumentar a rentabilidade das empresas e das sociedades (<a href="#fig3">Figura 3</a>).</font></p>     <p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n3/img/a02fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Temos de ultrapassar os manique&iacute;smos dogm&aacute;ticos e as mutila&ccedil;&otilde;es tecnocr&aacute;ticas que apenas reconhecem realidades arbitrariamente compartimentadas, cegas para o que n&atilde;o pode ser quantificado e que ignoram as complexidades humanas e n&atilde;o humanas. Temos de abandonar a falsa racionalidade. As necessidades humanas nunca s&atilde;o apenas econ&ocirc;micas e t&eacute;cnicas: s&atilde;o sempre emocionais, simb&oacute;licas e &eacute;ticas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>O desafio ecol&oacute;gico</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A crise ecol&oacute;gica planet&aacute;ria, reconhecida cientificamente desde o in&iacute;cio dos anos 1970, amea&ccedil;a n&atilde;o s&oacute; a nossa biosfera, mas tamb&eacute;m os seres humanos e n&atilde;o humanos e as nossas civiliza&ccedil;&otilde;es. O desafio consiste em criar uma nova consci&ecirc;ncia ecol&oacute;gica global, centrada em uma vis&atilde;o antiantropoc&ecirc;ntrica. Um pensamento ecol&oacute;gico que tenha em conta a complexidade dos fen&ocirc;menos multidimensionais. Esta &uacute;ltima justifica-se n&atilde;o s&oacute; pelas crises ecol&oacute;gicas que vivemos, mas tamb&eacute;m pelas m&uacute;ltiplas intera&ccedil;&otilde;es complexas que ocorrem na biosfera. A humanidade elevou-se ao cume da natureza &ndash; era essa a grande narrativa da &ldquo;salva&ccedil;&atilde;o&rdquo; pelo &ldquo;progresso&rdquo; &#91;9&#93; &ndash; mas permanece no seio da natureza, segundo os &ldquo;p&oacute;s-modernos ecol&oacute;gicos&rdquo;. Nessa corrida infernal de devasta&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica, &ldquo;os seres humanos tornaram-se a escravatura global da biosfera, mas, ao mesmo tempo, escravizaram-se a ela. Tornou-se o hiperparasita do mundo vivo, mas porque &eacute; um parasita, amea&ccedil;a a sua sobreviv&ecirc;ncia ao amea&ccedil;ar desintegrar (o <i>Oikos</i>) do qual vive&rdquo; &#91;30&#93;. A consci&ecirc;ncia ecol&oacute;gica global est&aacute; conduzindo a uma consci&ecirc;ncia antropol&iacute;tica e levanta a quest&atilde;o da situa&ccedil;&atilde;o da esfera pol&iacute;tica na biosfera, ou seja, dos seres humanos na natureza. Pode e deve o homem ocupar um lugar diferente na natureza?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">O desafio ecol&oacute;gico deve ser acompanhado de uma vis&atilde;o de emancipa&ccedil;&atilde;o e de projetos sociais e pol&iacute;ticos, em que possamos emancipar-nos da subjuga&ccedil;&atilde;o da domina&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, que imp&ocirc;s a sua forma de ver/controlar o mundo, com indicadores e institui&ccedil;&otilde;es que favoreceram a acumula&ccedil;&atilde;o desigual de riqueza por alguns, a fragilidade social de muitos e a depreda&ccedil;&atilde;o e devasta&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica. Essa consci&ecirc;ncia ecol&oacute;gica planet&aacute;ria &eacute; insepar&aacute;vel de uma nova vis&atilde;o de justi&ccedil;a clim&aacute;tica e/ou ambiental e mesmo social. A d&iacute;vida ecol&oacute;gica que os pa&iacute;ses do Norte t&ecirc;m para com os pa&iacute;ses do Sul Global &eacute; muito maior do que a d&iacute;vida externa que os pa&iacute;ses do Sul t&ecirc;m para com os pa&iacute;ses do Norte. Para resolver o problema da d&iacute;vida do Sul Global, &eacute; imperativo aboli-la pura e simplesmente e substitu&iacute;-la por investimentos ecol&oacute;gicos por parte dos pa&iacute;ses do Sul Global. A ecologia pol&iacute;tica n&atilde;o pode ser isolada. Pode e deve enraizar-se nos princ&iacute;pios das pol&iacute;ticas emancipat&oacute;rias que animaram a nossa hist&oacute;ria social e republicana, e que irrigaram a consci&ecirc;ncia c&iacute;vica dos povos de esquerda na Fran&ccedil;a e em outros pa&iacute;ses. Dessa forma, a ecologia pol&iacute;tica poderia apressar o advento de uma grande pol&iacute;tica da humanidade e do bem comum.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">No entanto, nos &uacute;ltimos anos, a consci&ecirc;ncia ecol&oacute;gica global tem defendido a qualidade da vida humana e n&atilde;o humana. Passar do quantitativo ao qualitativo &eacute; uma forma de defender a natureza e o ambiente e, ao mesmo tempo, uma defesa de tudo o que pode ser feito politicamente para evitar a destrui&ccedil;&atilde;o dos nossos recursos naturais no sentido mais amplo do termo. Precisamos de uma pol&iacute;tica de alcance totalmente planet&aacute;rio, que englobe as inter-retroa&ccedil;&otilde;es entre a biosfera e a esfera antropol&iacute;tica; a da &ldquo;consci&ecirc;ncia ecol&oacute;gica em toda a sua amplitude antropo-eco-planet&aacute;ria&rdquo; &#91;31&#93;. A vis&atilde;o de uma consci&ecirc;ncia planet&aacute;ria consiste em perceber todos os fen&ocirc;menos na sua dimensionalidade e na sua rela&ccedil;&atilde;o com o meio ambiente.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Finalmente, gostaria de terminar essa apresenta&ccedil;&atilde;o com dois pontos adicionais, o primeiro dos quais &eacute; ontol&oacute;gico, relativo ao debate ainda em aberto sobre a nossa rela&ccedil;&atilde;o com a natureza, um ponto de vista que partilho com Serge Audier. A ideia de que o debate &ldquo;permanece em aberto, para n&oacute;s e para os outros, sobre se devemos renunciar pura e simplesmente ao conceito de natureza &#91;...&#93;, &eacute; evidente que estamos, de qualquer modo, condenados a conceber a &lsquo;natureza&rsquo; e a agir com ela de novas maneiras&rdquo; &#91;9&#93;. A segunda &eacute; epistemol&oacute;gica, com a sua &ecirc;nfase no <i>anthropos</i> como for&ccedil;a de transforma&ccedil;&atilde;o do planeta, dando origem &agrave; no&ccedil;&atilde;o de Antropoceno &#91;32&#93;, uma nova era geol&oacute;gica marcada pela marca decisiva e irrevers&iacute;vel da humanidade. No entanto, as verdadeiras causas dessa hipot&eacute;tica &ldquo;nova era geol&oacute;gica&rdquo; permanecem um mist&eacute;rio. A crise ecol&oacute;gica seria, portanto, uma oportunidade/desafio para abrir caminho a outros imagin&aacute;rios &#91;33&#93;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>O desafio social</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Esquecemo-nos de que uma sociedade &eacute; muito mais do que a soma dos indiv&iacute;duos que a comp&otilde;em. &ldquo;A sustentabilidade social do nosso modelo de desenvolvimento n&atilde;o est&aacute; mais assegurada do que a sua sustentabilidade ecol&oacute;gica &#91;...&#93; N&atilde;o preciso de vos lembrar a longa lista de problemas cujo agravamento j&aacute; provocou um recuo geral n&atilde;o s&oacute; nas pr&aacute;ticas, mas tamb&eacute;m nos ideais democr&aacute;ticos &agrave; escala mundial&rdquo; &#91;28&#93;. &Eacute; nesse contexto que a ideologia capitalista generalizou a mercantiliza&ccedil;&atilde;o e o dogma do crescimento, erradicando a d&aacute;diva e a contrad&aacute;diva, a solidariedade, o servi&ccedil;o gratuito e os bens comuns n&atilde;o monet&aacute;rios, destruindo assim muitos dos tecidos sociais da nossa comunidade. O desenvolvimento industrial imp&ocirc;s a l&oacute;gica da m&aacute;quina, a ditadura da produtividade a todo o custo, do cron&ocirc;metro e do curto prazo, a precariedade e o sofrimento no trabalho, em cada vez mais setores da nossa vida. A compartimenta&ccedil;&atilde;o do trabalho, das administra&ccedil;&otilde;es e, em &uacute;ltima an&aacute;lise, das nossas vidas, conduziu a uma burocratiza&ccedil;&atilde;o generalizada, ao impedimento da iniciativa e da responsabilidade e, em &uacute;ltima an&aacute;lise, &agrave; diminui&ccedil;&atilde;o da nossa qualidade e do nosso poder de vida, como demonstra o consumo desenfreado de drogas, ansiol&iacute;ticos, antidepressivos e sopor&iacute;feros. O desenvolvimento urbano trouxe novas liberdades e atividades de lazer, mas tamb&eacute;m acelerou a fragmenta&ccedil;&atilde;o das sociedades, que o enorme crescimento das redes de Internet n&atilde;o &eacute; suficiente para compensar. Ligadas como nunca, as nossas sociedades s&atilde;o tamb&eacute;m sociedades da solid&atilde;o. A evolu&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia, para citar apenas um exemplo, trouxe novas liberdades, mas tamb&eacute;m novas formas de subjuga&ccedil;&atilde;o e de fragilidade. O desafio civilizacional consiste em repensar, no nosso tempo, a rela&ccedil;&atilde;o entre as liberdades individuais e a seguran&ccedil;a coletiva. No decurso de uma longa luta iniciada no s&eacute;culo XIX, os partidos e os sindicatos oper&aacute;rios souberam tecer redes de solidariedade eficazes e conquistar uma prote&ccedil;&atilde;o leg&iacute;tima. A a&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica do socialismo e dos partidos de esquerda na Fran&ccedil;a e na Europa tinha conseguido criar um Estado-Provid&ecirc;ncia, ao qual a Liberta&ccedil;&atilde;o deu um grande impulso na Fran&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Mas, sob os golpes ideol&oacute;gicos e as pr&aacute;ticas dogm&aacute;ticas do capitalismo, e tamb&eacute;m como resultado de profundas mudan&ccedil;as sociais e culturais, a sua efic&aacute;cia e legitimidade foram enfraquecidas, com a frieza administrativa e uma abordagem contabil&iacute;stica estreita a prevalecerem demasiadas vezes sobre a aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s necessidades individuais. Por todo o pa&iacute;s, h&aacute; homens e mulheres de boa vontade dispostos a dar o seu tempo, for&ccedil;a e calor &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de novas formas de solidariedade. Cada um de n&oacute;s &eacute; simultaneamente tentado a estar pronto para ajudar os outros. Os nossos poderes p&uacute;blicos, o Estado, as regi&otilde;es e os munic&iacute;pios, devem criar as condi&ccedil;&otilde;es para reunir e sintetizar as energias da solidariedade e da fraternidade. A fraternidade tornou-se o elo que faltava no lema da nossa Rep&uacute;blica. Precisamos criar espa&ccedil;os de encontro que rompam o anonimato moderno, Casas de Fraternidade que re&uacute;nam institui&ccedil;&otilde;es, associa&ccedil;&otilde;es e grupos de todo o tipo que partilhem um objetivo comum de servi&ccedil;o ao pr&oacute;ximo e de solidariedade entre cidad&atilde;os. Podemos criar um servi&ccedil;o c&iacute;vico de fraternidade.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Podemos reumanizar as nossas grandes m&aacute;quinas tecnoburocr&aacute;ticas e responder &agrave; mercantiliza&ccedil;&atilde;o de tudo e de todos com uma rebeli&atilde;o &eacute;tica, uma insurrei&ccedil;&atilde;o da vontade e um renascimento c&iacute;vico. Podemos optar por cuidar uns dos outros e recorrer &agrave;s reservas de generosidade que existem em cada um de n&oacute;s e que est&atilde;o apenas &agrave; espera de serem ativadas por pol&iacute;ticas p&uacute;blicas inspiradas em valores partilhados muito para al&eacute;m das fronteiras partid&aacute;rias, como testemunham tantas iniciativas dos nossos concidad&atilde;os no terreno. Desse modo, podemos renovar os la&ccedil;os quebrados pela luta de todos contra todos e tornar poss&iacute;vel a aspira&ccedil;&atilde;o universal de se inventar e de assumir o controle da sua pr&oacute;pria vida.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>O desafio educativo</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A educa&ccedil;&atilde;o &eacute; a base da &ldquo;cidadania global&rdquo;. S&atilde;o as nossas crian&ccedil;as que forjar&atilde;o a civiliza&ccedil;&atilde;o global deste s&eacute;culo cidad&atilde;o. &Eacute; a elas que devemos dar os conhecimentos, as compet&ecirc;ncias, o saber-fazer e as chaves para compreender a complexidade do mundo. A nossa miss&atilde;o coletiva foi definida por Jean-Jacques Rousseau no &ldquo;<i>&Eacute;mile</i>&rdquo;: &ldquo;Quero ensinar-lhe a viver&rdquo;. Devemos dar aos nossos filhos os meios para enfrentar os problemas fundamentais e globais com que se confrontam cada indiv&iacute;duo, cada sociedade e toda a humanidade. Esses problemas est&atilde;o atualmente desintegrados em e por disciplinas demasiado compartimentadas. &Eacute; necess&aacute;rio reformar o ensino universit&aacute;rio para o tornar transdisciplinar. Mas, no primeiro extremo da cadeia educativa, &eacute; igualmente necess&aacute;ria uma reforma da educa&ccedil;&atilde;o e dos cuidados na primeira inf&acirc;ncia. Os brilhantes resultados obtidos, por exemplo, em um pa&iacute;s como a Finl&acirc;ndia, mostram-nos a estreita rela&ccedil;&atilde;o entre o bem-estar na escola e o desempenho escolar. Uma vez que a desconfian&ccedil;a que rege as nossas sociedades est&aacute; enraizada na consci&ecirc;ncia dos seres humanos desde a mais tenra idade, &eacute; na consci&ecirc;ncia dos seres humanos que a educa&ccedil;&atilde;o para a autoconfian&ccedil;a e para a confian&ccedil;a nos outros deve enraizar-se desde a mais tenra idade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><b>O desafio da pol&iacute;tica planet&aacute;ria</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A Europa, a &Aacute;frica, a Am&eacute;rica Latina, a China, a &Iacute;ndia etc. n&atilde;o vivem no vazio nem em um mundo est&aacute;tico. Pode influenciar o curso do mundo, tal como s&oacute; pode estar sujeita a ele. Mas a rela&ccedil;&atilde;o problem&aacute;tica que se estabeleceu entre o local e o global, com a impress&atilde;o desencorajadora de que j&aacute; n&atilde;o temos qualquer poder para lutar contra a desordem das coisas, &eacute; acompanhada por uma d&uacute;vida compreens&iacute;vel sobre a capacidade da Uni&atilde;o Europeia (UE) para encorajar a emerg&ecirc;ncia de uma nova pol&iacute;tica da humanidade. A necess&aacute;ria mudan&ccedil;a do atual modelo dominante de desenvolvimento em rela&ccedil;&atilde;o ao paradigma que o sustenta e a continua&ccedil;&atilde;o da transforma&ccedil;&atilde;o das estruturas da sociedade atual exigem uma estrat&eacute;gia social e pol&iacute;tica que nos permita avan&ccedil;ar na dire&ccedil;&atilde;o certa e que ultrapasse as vis&otilde;es anacr&ocirc;nicas que nos trouxeram a esse estado de &ldquo;risco existencial&rdquo;. Comecemos, portanto, ao nosso pr&oacute;prio n&iacute;vel, por escolher uma pol&iacute;tica de humanidade exemplar que tenha um impacto global. Comecemos por aplicar nas nossas pr&oacute;prias latitudes o que recomendamos para o mundo e que muitos outros partilham. Em suma, fa&ccedil;amos corresponder as nossas palavras aos nossos atos para construir outra forma de viver em conjunto, que reconcilie o que durante demasiado tempo foi contrariado por uma cultura colonial ultrapassada, respons&aacute;vel pelas nossas barb&aacute;ries modernas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Em uma altura em que a era planet&aacute;ria atravessa uma grande crise (ou melhor, uma s&eacute;rie de crises concomitantes: ecol&oacute;gica, sanit&aacute;ria, clim&aacute;tica, social, econ&ocirc;mica, energ&eacute;tica, alimentar, &eacute;tica etc.), o futuro nunca pareceu t&atilde;o incerto. As incertezas aumentaram em todo o lado, em tudo. Entramos na &ldquo;era da incerteza&rdquo;. A maioria dos governos v&ecirc;-se confrontada com problemas de tal complexidade que a sua capacidade de os compreender, controlar e, a <i>fortiori</i>, &ldquo;resolver&rdquo;, fica seriamente comprometida. Para os decisores pol&iacute;ticos, essa complexidade torna cada vez mais dif&iacute;cil conceber solu&ccedil;&otilde;es simples que sejam aceit&aacute;veis para todos. Por qu&ecirc;? Porque perdemos a evolu&ccedil;&atilde;o linear, o futuro programado e as perguntas favor&aacute;veis. E cita, como &ldquo;caso t&iacute;pico de governa&ccedil;&atilde;o complexa&rdquo;, a preocupante tempestade viral global que levou muita gente a afirmar que estamos todos no mesmo barco &#91;34&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">A urg&ecirc;ncia das situa&ccedil;&otilde;es atuais n&atilde;o deve nos fazer esquecer de que as solu&ccedil;&otilde;es n&atilde;o existem enquanto tais. Nem deve nos fazer esquecer de que a capacidade das sociedades humanas para darem conta das quest&otilde;es globais depender&aacute; de uma capacidade geral de partilhar diagn&oacute;sticos, certamente, de debater propostas, certamente, mas, mais ainda, de assumir uma s&eacute;rie de desafios que implicam uma s&eacute;rie de reformas. Essa perspectiva deve ter como objetivo definir condi&ccedil;&otilde;es de conviv&ecirc;ncia com o ambiente, a &eacute;tica, a pol&iacute;tica etc. Qualquer abordagem que seja mais fundamental do que investir em poss&iacute;veis reformas de estruturas, sistemas ou circuitos espec&iacute;ficos, ou institui&ccedil;&otilde;es que s&oacute; podem ser consequ&ecirc;ncias do primeiro ato acima previsto (desafios). Reforma, outra palavra cujo significado n&atilde;o escapou &agrave; lament&aacute;vel simplifica&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. Onde havia complexidade, havia simplicidade. Lamentar esse fato &eacute; uma coisa, mas criar as condi&ccedil;&otilde;es para uma revis&atilde;o profunda dessa terminologia exige tamb&eacute;m um trabalho aprofundado (Pena-Vega, 2009) &#91;35&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif">Encontramo-nos agora em uma encruzilhada. H&aacute; dois caminhos que se abrem para n&oacute;s, mas n&atilde;o s&atilde;o igualmente belos. Aquele que continua a trajet&oacute;ria que j&aacute; seguimos h&aacute; demasiado tempo &eacute; enganadoramente perigoso. &Eacute; o caminho onde tudo se desmorona no in&iacute;cio deste s&eacute;culo &#91;36&#93;, no momento em que nos prometem todas as velocidades, o imediato, mas tamb&eacute;m a falta de uma compreens&atilde;o profunda da hist&oacute;ria e da coletividade humana e n&atilde;o humana, que conduz diretamente ao desastre. O segundo caminho n&atilde;o &eacute; de modo algum uma vit&oacute;ria garantida, mas oferece-nos &ndash; quem sabe &ndash; a nossa &uacute;ltima e &uacute;nica hip&oacute;tese de chegar a um destino que garanta a preserva&ccedil;&atilde;o da nossa &ldquo;civiliza&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Essa reflex&atilde;o apenas d&aacute; uma ideia da imensid&atilde;o desse trabalho, das lutas, das tomadas de posse e, al&eacute;m disso, oculta o fato que existe realmente uma escolha: n&atilde;o o <i>happy end</i> de uma solu&ccedil;&atilde;o discursiva, mas um <i>happy beginning</i> por meio da a&ccedil;&atilde;o, por meio de uma poss&iacute;vel transforma&ccedil;&atilde;o social radical &#91;37&#93;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. QUAMMEN, D. The ongoing mystery of Covid&rsquo;s origin. <i>The New York Times Magazine</i>, New York, 2023.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. KLENERT, D.; FUNKE, F.; MATTAUCH, L.; O&rsquo;CALLAGHAN, B. Five lessons from Covid-19 for advancing climate change mitigation. <i>Environmental and Resource Economics</i>, n. 76, p. 751-778, 2020.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. GOUDIE, S. A. <i>Human impact on the natural environment</i>: pass, present and future. Oxford: Wiley Blackwell, 2019.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. SETTELE, S.; CORTNIE, S. Lives or livelihoods? Perceived trade-offs and policy views. <i>The Economic Journal</i>, Oxford, v. 132, n. 643, p. 1150-1178, 2022.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. LATOUR, B. <i>O&ugrave; suis-je?</i> Le&ccedil;ons du confinement &agrave; l&rsquo;usage des terrestres. Les emp&ecirc;cheurs de penser en rond. Paris: La D&eacute;couverte, 2021.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. DAVOS. <i>World Economic Forum</i>. Davos, 2021. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.weforum.org" target="_blank">https://www.weforum.org</a>. Acesso em: 13 maio 2021.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. MEADOWS, D.; MEADOWS, D.; RANDERS, J. <i>Les limites &agrave; la croissance (dans un monde fini)</i>: 30 ans apr&egrave;s. Paris: Rue de l&rsquo;&eacute;chiquier, 2004.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. PECCEI, A. Agenda for the end of the century. In: <i>Conference Bogota</i>: development in a world of peace. Bogota: Club of Rome, 1983.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. AUDIER, S. <i>La cit&eacute; &eacute;cologique</i>: pour une &eacute;co-r&eacute;publicanisme. Paris: La D&eacute;couverte, 2020.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. MORIZOT, B. <i>Mani&egrave;res d&rsquo;&ecirc;tre vivant</i>. Paris: Actes Sud, 2020.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11. TAINTER, J. <i>The collaphe of complex societies</i>. Cambridge: Cambridge University Press, 1988.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">12. CYRULNIK, B. <i>Des &acirc;mes et des saisons</i>. Paris: Odile Jacob, 2021.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">13. GORZ, A. <i>&Eacute;cologica</i>. Paris: Galil&eacute;e, 2008.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">14. GUATTARI, F. <i>Qu&rsquo;est-ce que l&rsquo;Ecosophie?</i> Paris: Editions Lignes, 2013.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">15. TRUONG, N. &laquo; L&rsquo;Inexplor&eacute; &raquo;, une invitation &agrave; red&eacute;couvrir ce qui nous relie &agrave; nos milieux de vie. <i>Le Monde</i>, Paris, 2023.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">16. MORIN, E. <i>La m&eacute;thode, tome 2</i>: la vie de la vie. Paris: &Eacute;ditions du Seuil, 1980.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">17. NOOR, D. Biden announces new measures to protect Americans from extreme heat. <i>The Guardian</i>, London, 2023.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">18. ORD, T. <i>The precipice</i>: existential riskan the future of humanity. London: Bloomsbury Publishing, 2020.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">19. DUPUY, J. P. <i>La catastrophe ou la vie</i>: pens&eacute;es par temps de pand&eacute;mie. Paris: &Eacute;ditions du Seuil, 2021.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">20. DESCOLA, P.; PIGNOCCHI, A. <i>Ethnographies des mondes &agrave; avenir</i>. Paris: &Eacute;ditions du Seuil, 2022.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">21. MORIN, E. France&rsquo;s crisis must be situated in the complexity of multiple global crises and in the context of the decline of democracies. <i>Le Monde</i>, Paris, 2023.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">22. PASSET, R. <i>Eloge du mondialisme par un &ldquo;anti&rdquo; pr&eacute;sum&eacute;</i>. Paris: Fayard, 2001.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">23. BALLANTYNE, N. The significance of unpossessed evidence. <i>The Philosophical Quarterly</i>, Oxford, v. 65, n. 260, p. 315-335, 2015.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">24. PENA-VEGA, A. Dialoguer avec l&rsquo;incertitude. Quand le doute est une chose s&ucirc;re et les connaissances incertaines. <i>Gazeta de antropolog&iacute;a</i>, Granada, n. 33/2, 2017.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">25. ANDERS, G. <i>Hiroshima est partout</i>. Paris: &Eacute;ditions du Seuil, 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">26. MORIN, E. <i>Terre-Patrie (avec Anne-Brigitte Kern)</i>. Paris: &Eacute;ditions du Seuil, 1993.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">27. MORIN, E. <i>Le paradigme perdu</i>: la nature humaine. Paris: &Eacute;ditions du Seuil, 1973.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">28. SECOND MANIFESTE CONVIVIALISTE. <i>Pour un monde post-n&eacute;olib&eacute;ral</i>. Paris: Actes Sud, 2020.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">29. CAILLE, A. <i>El&eacute;ments d&rsquo;une politique convivialiste</i>. Paris: Le Bord de l&rsquo;eau, 2016.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">30. MORIN, E. <i>O paradigma perdido</i>: a natureza humana. 4. ed. Portugal: Publica&ccedil;&otilde;es Europa-Am&eacute;rica, 1988.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">31. MORIN, E.; KERN, A. B. <i>Terra-p&aacute;tri</i>a. Tradu&ccedil;&atilde;o: Paulo Azevedo Neves da Silva. Porto Alegre: Sulina, 1980.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">32. CRUTZEN, P. Geology of mankind. <i>Nature</i>, v. 415, n. 23, 2002.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">33. ZALASIEWICZ, J. Pr&eacute;face. <i>In</i>: GEMENNE, F.; RANKOVIC, A. <i>Atlas de l&rsquo;Anthropoc&egrave;ne</i>. Paris: Les Presses de Sciences Po, 2019.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">34. ZIZEK, S. <i>Dans la temp&ecirc;te virale</i>. Paris: Actes Sud, 2020.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">35. MORIN, E.; PENA-VEGA, A.; FAROULT, E. <i>Pour une politique de l&rsquo;humanit&eacute;?</i> Paris: &Eacute;ditions Atlantique, 2009.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">36. VIRILIO, P. <i>The art of the motor</i>. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1995.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">37. PENA-VEGA, A. <i>Terre-Patrie (sous la direction, Martin Hebert, Francine Saillant, Sarah Bourdages)</i>. Paris: Acte-Sud, 2023.    </font></p>      ]]></body><back>
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