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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[50 anos do golpe no Chile: cinquentenário do golpe de 1973 é uma oportunidade para refletir sobre os desafios enfrentados na busca por justiça, igualdade e democracia na América Latina]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>50 anos do golpe no Chile: cinquenten&aacute;rio do golpe de 1973 &eacute; uma oportunidade para refletir sobre os desafios enfrentados na busca por justi&ccedil;a, igualdade e democracia na Am&eacute;rica Latina</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Chris Bueno</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Jornalista, escritora, divulgadora de ci&ecirc;ncias, editora-executiva da revista Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura, e m&atilde;e apaixonada por escrever (especialmente sobre ci&ecirc;ncia)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&quot;Enterramos a nossa democracia e enterramos nossa liberdade&quot;. &Eacute; assim que a escritora chilena Isabel Allende relembra o golpe militar de 11 de setembro de 1973 em entrevista <a name="1a"></a><sup>&#91;<a href="#1b">i</a>&#93;</sup> para a Anistia Internacional. O anivers&aacute;rio de 50 anos do golpe reacende o debate sobre uma das ditaduras mais sangrentas da Am&eacute;rica Latina, que deixou mais de tr&ecirc;s mil mortos e desaparecidos, 40 mil presos e torturados, al&eacute;m de for&ccedil;ar cerca de 200 mil chilenos ao ex&iacute;lio – incluindo Isabel Allende. E tamb&eacute;m convida a refletir sobre o impacto que teve sobre toda a Am&eacute;rica Latina.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>&quot;O anivers&aacute;rio de 50 anos do golpe reacende o debate sobre uma das ditaduras mais sangrentas da Am&eacute;rica Latina, que deixou mais de tr&ecirc;s mil mortos e desaparecidos, 40 mil presos e torturados.&quot;</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em um &aacute;udio <a name="2a"></a><sup>&#91;<a href="#2b">ii</a>&#93;</sup> revelado este ano pela CNN Chile, o chanceler chileno Orlando Letelier relatou um almo&ccedil;o com o ent&atilde;o presidente Salvador Allende, no qual discutiram a aposentadoria de generais militares que amea&ccedil;avam se insurgir contra o governo e o an&uacute;ncio de um plebiscito para uma nova Constitui&ccedil;&atilde;o. Os comandantes militares n&atilde;o estavam satisfeitos com o primeiro socialista al&ccedil;ado ao poder pelo voto popular nas Am&eacute;ricas e com os rumos do novo governo. Antes que Allende pudesse convocar o plebiscito popular, o Pal&aacute;cio de La Moneda, sede da Presid&ecirc;ncia do Chile, foi cercado e bombardeado por for&ccedil;as militares. Os militares tomaram o poder, Salvador Allende foi morto, e Augusto Pinochet iniciou a ditadura que duraria at&eacute; 1990.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&quot;A ditadura chilena foi uma das piores da Am&eacute;rica Latina, pela crueldade, n&iacute;veis   de viol&ecirc;ncia e tamb&eacute;m, ou sobretudo, pela aniquila&ccedil;&atilde;o da soberania do pa&iacute;s e pela   imposi&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica que em seguida seria vendida para o mundo ocidental: o   neoliberalismo&quot;, afirma Vin&iacute;cio Carrilho Martinez, professor do Departamento de Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade Federal de S&atilde;o Carlos (UFSCar).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ap&oacute;s o golpe, Pinochet promulgou uma nova Constitui&ccedil;&atilde;o em 1980, que estabeleceu as bases do regime autorit&aacute;rio e limitou a responsabilidade do Estado na promo&ccedil;&atilde;o de direitos sociais e igualdade. Essa Constitui&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m criou mecanismos de autodefesa que dificultaram mudan&ccedil;as pol&iacute;ticas substanciais. No entanto, em 1988, Pinochet perdeu um plebiscito que decidiria se ele poderia continuar como presidente e, em 1990, Patr&iacute;cio Elwin, representando a <i>Concertaci&oacute;n</i>, tomou posse como primeiro presidente eleito ap&oacute;s a ditadura. &ldquo;Mas isso n&atilde;o significou a abertura de uma fase de democracia plena&rdquo;, explica Alberto Aggio, professor da Faculdade de Ci&ecirc;ncias Humanas e Sociais (FCHS) da Universidade Estadual Paulista J&uacute;lio de Mesquita Filho (Unesp). Segundo o pesquisador, depois da derrota no plebiscito de 1988, era preciso fazer reformas na Constitui&ccedil;&atilde;o para que os partidos pudessem voltar a existir e disputar as elei&ccedil;&otilde;es. Nessa r&aacute;pida transi&ccedil;&atilde;o, Pinochet negociou duramente com a <i>Concertaci&oacute;n</i> e imp&ocirc;s, em um novo plebiscito realizado em 1989, o que ficou conhecido como &ldquo;enclaves autorit&aacute;rios&rdquo;: um conjunto de normas que manteve o pinochetismo como uma sombra autorit&aacute;ria sobre a democracia rec&eacute;m-conquistada. &ldquo;Foram necess&aacute;rios v&aacute;rios anos para que se suprimissem esses &lsquo;enclaves autorit&aacute;rios&rsquo;. Assim, o que se tem depois da retomada da democracia s&atilde;o governos submetidos a uma camisa de for&ccedil;a imposta pelo autoritarismo&rdquo;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dessa forma, o novo governo eleito n&atilde;o convocou uma Assembleia Constituinte para invalidar a Carta Magna pinochetista e substitu&iacute;-la por outra mais adequada &agrave; democracia. &ldquo;A reprodu&ccedil;&atilde;o &lsquo;transformista&rsquo; operada pela <i>Concertaci&oacute;n</i> consistiu precisamente na exitosa reciclagem durante a redemocratiza&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es socioecon&ocirc;micas da ditadura, de sua concep&ccedil;&atilde;o despolitizada da pol&iacute;tica e de sua cultura individualista, competitiva e aquisitiva&rdquo;, explica Jales Dantas da Costa, professor no Departamento de Economia da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB). &ldquo;A <i>Concertaci&oacute;n</i> atuou sem questionar as finalidades impostas pela ditadura. Procederam como se o capitalismo neoliberal e sua democracia semi-representativa fossem os espa&ccedil;os naturais do conv&iacute;vio social&rdquo;, pontua.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Nova constitui&ccedil;&atilde;o, velhos problemas</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A redemocratiza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s disfar&ccedil;ava uma s&eacute;rie de problemas sociais que foram se agravando at&eacute; &ldquo;explodirem&rdquo; em um grande levante popular, conhecido como &ldquo;<i>estallido social</i>&rdquo;. O estopim dos eventos foi o aumento da tarifa do sistema de transporte p&uacute;blico de Santiago. Isso desencadeou uma s&eacute;rie de protestos que se iniciaram em outubro de 2019 e continuaram at&eacute; mar&ccedil;o de 2020. Os protestos se espalharam rapidamente por todo o pa&iacute;s, com muitos dist&uacute;rbios violentos. A situa&ccedil;&atilde;o levou o ent&atilde;o presidente Sebasti&aacute;n Pi&ntilde;era a decretar estado de emerg&ecirc;ncia e toque de recolher (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n3/img/a11fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que come&ccedil;ou como um protesto contra o aumento das tarifas do transporte p&uacute;blico na verdade carregava uma longa lista de insatisfa&ccedil;&otilde;es: alto custo de vida (at&eacute; 2019, Santiago era a segunda cidade mais cara da Am&eacute;rica Latina); elevados pre&ccedil;os nos transportes, medicamentos e tratamentos de sa&uacute;de; e uma rejei&ccedil;&atilde;o generalizada de toda a classe pol&iacute;tica e do descr&eacute;dito institucional acumulado nos &uacute;ltimos anos, incluindo a pr&oacute;pria Constitui&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s. O resultado foi uma s&eacute;rie de medidas, denominadas &ldquo;Nova Agenda Social&rdquo;, que inclu&iacute;am provid&ecirc;ncias relacionadas com pens&otilde;es, sa&uacute;de, sal&aacute;rios e administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&quot;Os n&iacute;veis de dessocializa&ccedil;&atilde;o, desconstru&ccedil;&atilde;o do humano – o que tamb&eacute;m se   denomina de estranhamento e de brutaliza&ccedil;&atilde;o – foram t&atilde;o acentuados que a   sociedade chilena est&aacute; repartida em duas&quot;, explica Vin&iacute;cio Martinez. &quot;&Eacute; como se uma parte ainda lutasse por justi&ccedil;a, repara&ccedil;&atilde;o e penaliza&ccedil;&atilde;o dos carrascos – apesar de j&aacute; terem avan&ccedil;ado – e a outra metade (digamos assim) ainda se mantivesse crente nos resultados trazidos por Pinochet&quot;, diz. Para o professor, um exemplo da magnitude da fissura social est&aacute; na recusa do projeto normativo da Constituinte chilena.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&quot;Acredito que o <i>estallido social</i> acirrou a polaridade&quot;, explica Jales Costa. &quot;De um lado, o &iacute;mpeto popular de trabalhadores, desempregados, marginalizados, empobrecidos, indignados, estudantes, professores, ind&iacute;genas, representantes dos mais diversos movimentos sociais etc., que imprimiram um rotundo &quot;n&atilde;o&quot; à figura e ao legado de Pinochet – como prova o recha&ccedil;o da Constitui&ccedil;&atilde;o vigente e o plebiscito para elabora&ccedil;&atilde;o de uma nova Constitui&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, fortaleceu o apoio à sua imagem e ao seu legado n&atilde;o apenas por parte de conservadores, reacion&aacute;rios e contrarrevolucion&aacute;rios, como tamb&eacute;m parte de moderados apavorados com a explos&atilde;o social&quot;, pontua.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um acordo transversal entre o Governo e o Congresso acordou a convoca&ccedil;&atilde;o de um plebiscito nacional para definir a elabora&ccedil;&atilde;o de uma nova Constitui&ccedil;&atilde;o. O plebiscito, realizado em 2020, apontou que 78% da popula&ccedil;&atilde;o chilena aprovava a cria&ccedil;&atilde;o de uma nova Carta Magna. No entanto, em outro plebiscito, realizado em 2022, 61,8% da popula&ccedil;&atilde;o rejeitou a primeira proposta dessa Constitui&ccedil;&atilde;o. Um ano ap&oacute;s a derrota da nova constituinte e 50 anos ap&oacute;s o golpe militar de Pinochet, uma nova proposta da Carta Magna est&aacute; sendo elaborada por um &oacute;rg&atilde;o eleito em maio e dominado por uma direita ultraconservadora. A Nova Constitui&ccedil;&atilde;o deve ficar pronta em dezembro deste ano, quando ser&aacute; submetida novamente a voto popular.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Direitos humanos: viola&ccedil;&atilde;o e repara&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&quot;A ditadura chilena legou para a sociedade uma s&eacute;rie de viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos e uma cultura de impunidade&quot;, afirma Caroline Silveira Bauer, professora do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).  Segundo a pesquisadora, a ditadura pinochetista foi caracterizada pela viol&ecirc;ncia aos direitos humanos e por repress&otilde;es sem precedentes. Protestos populares foram combatidos com pris&otilde;es, exonera&ccedil;&otilde;es, tortura, execu&ccedil;&otilde;es, desapari&ccedil;&otilde;es, ex&iacute;lios e censura. A viol&ecirc;ncia sexual era uma parte horr&iacute;vel dessa repress&atilde;o, com a maioria das mulheres sofrendo abusos, incluindo estupro, durante a pris&atilde;o. Muitas delas deram à luz crian&ccedil;as concebidas em meio a essas atrocidades. A Comiss&atilde;o Nacional sobre a Pris&atilde;o Pol&iacute;tica e Tortura registrou que 94% das pessoas detidas sofreram torturas diversas, incluindo choques el&eacute;tricos, simula&ccedil;&atilde;o de fuzilamento e asfixia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas as viola&ccedil;&otilde;es n&atilde;o pararam por a&iacute;. Outras a&ccedil;&otilde;es, mais sutis, tamb&eacute;m tiveram um terr&iacute;vel impacto negativo na popula&ccedil;&atilde;o chilena. Os direitos trabalhistas e sociais conquistados durante o governo de Allende foram desmanteladas sob o regime de Pinochet, com milhares de pessoas sendo demitidas de seus trabalhos ou expulsas de suas terras. &ldquo;Os relat&oacute;rios das Comiss&otilde;es da Verdade (1991, 2001, 2004, 2011) escancaram, al&eacute;m das mortes (3.216 pessoas) e as torturas (38.254), os ex&iacute;lios (cerca de 200 mil pessoas), as demiss&otilde;es em massa (cerca de 230 mil pessoas), o roubo de terras ind&iacute;genas e camponesas (mais de 7 milh&otilde;es de hectares) etc.&rdquo;, aponta Jales Costa (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v75n3/img/a11fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Embora medidas reparadoras tenham sido tomadas para condenar repressores e reconhecer as v&iacute;timas, a ascens&atilde;o da extrema-direita no cen&aacute;rio pol&iacute;tico chileno tem levado &agrave; relativiza&ccedil;&atilde;o desses abusos, com tentativas de favorecer torturadores por meio de uma legisla&ccedil;&atilde;o controversa. O governo acaba de lan&ccedil;ar o Plano Nacional de Busca de v&iacute;timas de desaparecimento for&ccedil;ado sob o regime Pinochet &ndash; uma demanda hist&oacute;rica. Para Caroline Bauer, &eacute; preciso empregar esfor&ccedil;os para a localiza&ccedil;&atilde;o dos restos mortais dos desaparecidos pol&iacute;ticos, para a elucida&ccedil;&atilde;o de seus assassinatos (principalmente com a disponibiliza&ccedil;&atilde;o dos arquivos da repress&atilde;o) e para a responsabiliza&ccedil;&atilde;o dos implicados. Esses trabalhos devem construir e difundir valores que tornem a viola&ccedil;&atilde;o de direitos humanos e sua apologia incompat&iacute;veis com a ordem democr&aacute;tica. &ldquo;A luta de indiv&iacute;duos e organiza&ccedil;&otilde;es de direitos humanos foi fundamental para a den&uacute;ncia do que acontecia no Chile, e para que fossem tomadas provid&ecirc;ncias no p&oacute;s-ditadura para a investiga&ccedil;&atilde;o do que fora a ditadura pinochetista. Nesse sentido, tamb&eacute;m podemos falar que essas pessoas e esses grupos foram fundamentais para a consolida&ccedil;&atilde;o da democracia, j&aacute; que esse sistema &eacute; fragilizado quando os direitos n&atilde;o s&atilde;o garantidos a todos, e o passado &eacute; tratado com impunidade&rdquo;, enfatiza a pesquisadora.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Cen&aacute;rio latino-americano, ontem e hoje</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O golpe liderado pelo general Augusto Pinochet, em setembro de 1973, no Chile, n&atilde;o foi um incidente isolado na Am&eacute;rica do Sul. Naquele per&iacute;odo, a regi&atilde;o testemunhou uma s&eacute;rie de golpes militares com caracter&iacute;sticas comuns, como o contrarrevolucionarismo declarado, a intensa repress&atilde;o ilegal que resultou em milhares de v&iacute;timas, a coordena&ccedil;&atilde;o entre os regimes militares por meio da chamada &ldquo;Opera&ccedil;&atilde;o Condor&rdquo; e a influ&ecirc;ncia direta dos Estados Unidos na promo&ccedil;&atilde;o e na configura&ccedil;&atilde;o desses governos militares. O Brasil vivia h&aacute; nove anos sob um regime militar que duraria 20 anos. A Bol&iacute;via era governada pelo general Hugo Banzer. No Uruguai, governava Juan Mar&iacute;a Bordaberry, que mais tarde seria preso por crimes contra a humanidade. Na Argentina, as For&ccedil;as Armadas tomariam o poder em 1976.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>&quot;O golpe liderado pelo general Augusto Pinochet, em setembro de 1973, no Chile, n&atilde;o foi um incidente isolado na Am&eacute;rica do Sul.&quot;</b></styled-content>   </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Brasil foi o primeiro pa&iacute;s a reconhecer a nova junta militar do Chile. Documentos revelados posteriormente evidenciam a coopera&ccedil;&atilde;o brasileira nos &ldquo;interrogat&oacute;rios&rdquo;, realizados no Est&aacute;dio Nacional de Santiago, que havia sido convertido em centro de prisioneiros. Isso teve implica&ccedil;&otilde;es geopol&iacute;ticas e de ex&iacute;lio para o pa&iacute;s. &ldquo;O que ocorreu no Chile, da vit&oacute;ria de Allende at&eacute; o golpe de Estado de 1973, impactou toda a esquerda ocidental pelo caminho que o presidente eleito assumiu: construir o socialismo pela democracia&rdquo;, explica Alberto Aggio. &ldquo;Pode-se ver o Chile de Allende, historicamente, como um ponto de inflex&atilde;o na cultura pol&iacute;tica da revolu&ccedil;&atilde;o que marcou o s&eacute;culo XX latino-americano e mundial&rdquo;, diz.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A queda e a morte de Salvador Allende no Chile representaram uma virada na hist&oacute;ria da esquerda internacional, marcando a transi&ccedil;&atilde;o entre duas eras. No contexto atual, sua morte ainda ressoa como um lembrete da import&acirc;ncia de lutar por convic&ccedil;&otilde;es e princ&iacute;pios, independentemente das adversidades e dos desafios enfrentados ao longo do caminho. Jales Costa pontua que, para os latino-americanos, se trata tamb&eacute;m de compreender o qu&atilde;o longe p&ocirc;de chegar a experi&ecirc;ncia ao socialismo chileno e os porqu&ecirc;s de sua derrota, e n&atilde;o apenas compreender os tristes anos sombrios. &ldquo;&Eacute; certo que durante o primeiro ano da <i>revolucci&oacute;n</i> chilena, a utopia socialista identificada com &lsquo;os de baixo&rsquo; se fez mais viva que nunca, precisamente porque sonhos se fizeram reais. &Eacute; tamb&eacute;m certo que a ditadura de Pinochet transformou sonhos em pesadelos e enterrou o quanto pode a utopia socialista, que de fato se esboroou. E que o <i>Chile Actual</i> encontra dificuldades para mant&ecirc;-la acesa e irradi&aacute;-la&rdquo;, explica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Vin&iacute;cio Martinez, a ditadura chilena n&atilde;o s&oacute; impactou a Am&eacute;rica Latina como ainda reflete em nossos dias. &ldquo;A ditadura chilena foi um nefasto experimento sociometab&oacute;lico do capital, com requintes de crueldade, vilip&ecirc;ndio humano, de acordo com os piores valores econ&ocirc;micos e sob a &eacute;gide dos piores n&iacute;veis de psicopatia imagin&aacute;veis. Por isso e por tudo que tratamos aqui hoje, &eacute; um alerta m&aacute;ximo de que a luta pol&iacute;tica no combate ao Fascismo renitente (e procriado) deva ser constante, atuando-se nos lares, nos bares, no trabalho, nas ruas, nos grupos sociais, nas escolas&rdquo;, alerta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O cinquenten&aacute;rio do golpe de 1973 no Chile &eacute; um momento de reflex&atilde;o n&atilde;o apenas para os chilenos, mas tamb&eacute;m para toda a Am&eacute;rica Latina. &Eacute; uma oportunidade de compreender a hist&oacute;ria compartilhada da regi&atilde;o e refletir sobre os desafios enfrentados na busca por justi&ccedil;a, igualdade e democracia. A constru&ccedil;&atilde;o de uma nova Constitui&ccedil;&atilde;o chilena e os debates em torno dela s&atilde;o passos cruciais nesse caminho cont&iacute;nuo. &ldquo;Porque estamos diretamente relacionados com as pol&iacute;ticas desenvolvidas na regi&atilde;o nos anos 1960 em diante. Esse passado n&atilde;o se encontra dissociado do presente. As ditaduras podem ter acabado; muitas de suas consequ&ecirc;ncias, ideologias e pr&aacute;ticas, n&atilde;o&rdquo;, conclui Caroline Bauer.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">   <styled-content style="color:#890e10"><b>&quot;O cinquenten&aacute;rio do golpe de 1973 no Chile &eacute; uma oportunidade de compreender a história compartilhada da regi&atilde;o e refletir sobre os desafios enfrentados na busca por justi&ccedil;a, igualdade e democracia.&quot;</b></styled-content>   </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Notas</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1b"></a>&#91;<a href="#1a">i</a>&#93; Entrevista dispon&iacute;vel no endere&ccedil;o: <a href="https://www.amnesty.org/en/latest/news/2013/09/life-under-pinochet-isabel-allende-day-we-buried-our-freedom" target="_blank">https://www.amnesty.org/en/latest/news/2013/09/life-under-pinochet-isabel-allende-day-we-buried-our-freedom</a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="2b"></a>&#91;<a href="#2a">ii</a>&#93; &Aacute;udio dispon&iacute;vel em: <a href="https://open.spotify.com/episode/6koAvZdD0kybkV1k425h08" target="_blank">https://open.spotify.com/episode/6koAvZdD0kybkV1k425h08</a>.</font></p>      ]]></body>
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