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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Lattes: conhecer, experimentar e mudar o mundo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Patr&iacute;cia Mariuzzo</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Divulgadora de Ci&ecirc;ncia e coordenadora de Comunica&ccedil;&atilde;o do projeto HIDS Unicamp (Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustent&aacute;vel)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quero neste pobre enredo Reviver, glorificando os homens teus Lev&aacute;-los ao panteon dos grandes imortais    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Pois merecem muito mais (Ci&ecirc;ncia e Arte, can&ccedil;&atilde;o de Gilberto Gil em homenagem a C&eacute;sar Lattes, no disco Quanta, 1997)</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1947, as contribui&ccedil;&otilde;es de C&eacute;sar Lattes para a descoberta do m&eacute;son pi mudavam a hist&oacute;ria da f&iacute;sica de part&iacute;culas. Por&eacute;m, na segunda metade do s&eacute;culo XX, sua colabora&ccedil;&atilde;o para a f&iacute;sica brasileira vai muito al&eacute;m. Suas descobertas n&atilde;o apenas deram destaque mundial &agrave; pesquisa brasileira, mas tamb&eacute;m suas colabora&ccedil;&otilde;es internacionais contribu&iacute;ram para o avan&ccedil;o da ci&ecirc;ncia no pa&iacute;s, inclusive estimulando o surgimento de laborat&oacute;rios e centros de pesquisa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O primeiro modelo para descrever como funcionava a for&ccedil;a nuclear foi elaborado, entre os anos 1933 e 1934, pelo f&iacute;sico japon&ecirc;s Hideki Yukawa. A partir de c&aacute;lculos te&oacute;ricos, Yukawa prop&ocirc;s que a intera&ccedil;&atilde;o entre dois n&ecirc;utrons, ou entre um pr&oacute;ton e um n&ecirc;utron acontecia por meio da troca de part&iacute;culas. "E a part&iacute;cula que estava sendo trocada teria uma massa maior do que a massa do el&eacute;tron e menor do que a massa do pr&oacute;ton. Por ter a massa 'entre' as massas do el&eacute;tron e do pr&oacute;ton, a part&iacute;cula hipot&eacute;tica foi batizada de m&eacute;son (<i>'m&eacute;sos'</i> em grego significa 'no meio' ou 'entre')", explica Carola Chinellato, professora do Instituto de F&iacute;sica Gleb Wataghin (IFGW), da Unicamp. "A import&acirc;ncia da descoberta do m&eacute;son pi (ou p&iacute;on, como &eacute; chamado atualmente) por C&eacute;sar Lattes, em 1947, foi exatamente comprovar experimentalmente a exist&ecirc;ncia da part&iacute;cula sugerida teoricamente por Yukawa. O m&eacute;son seria respons&aacute;vel por intermediar as for&ccedil;as nucleares, assim como o f&oacute;ton seria o intermediador das for&ccedil;as eletromagn&eacute;ticas", complementa a pesquisadora da Unicamp.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"O que me chama aten&ccedil;&atilde;o &eacute; a inicia&ccedil;&atilde;o bastante precoce de Lattes na pesquisa, tendo se formado aos 19 anos", destaca Nelson Studard, coordenador acad&ecirc;mico e docente na Escola de Ci&ecirc;ncia Ilum, ligada ao Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). "Lattes teve uma forma&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica em apenas tr&ecirc;s anos com professores do n&iacute;vel de Gleb Wataghin na &aacute;rea te&oacute;rica e de Giuseppe Occhialini na parte experimental. Este foi o respons&aacute;vel direto pela sua ida a Bristol para se engajar no grupo de Cecil Powell que havia desenvolvido a t&eacute;cnica das emuls&otilde;es nucleares para observa&ccedil;&atilde;o de part&iacute;culas elementares. Deve-se ressaltar o talento cient&iacute;fico de Lattes, reconhecido no in&iacute;cio de carreira, em f&iacute;sica te&oacute;rica e que logo abandonou para trabalhar com detec&ccedil;&atilde;o de part&iacute;culas elementares. Esse talento nato o levou &agrave;s suas maiores contribui&ccedil;&otilde;es para a F&iacute;sica que s&atilde;o indubitavelmente a descoberta do m&eacute;son pi (ou p&iacute;on), em 1947, em Bristol (Inglaterra), que valeu o Pr&ecirc;mio Nobel ao l&iacute;der do grupo Cecil Powel e a produ&ccedil;&atilde;o artificial dessa part&iacute;cula, no ano seguinte, em Berkeley (Estados Unidos), com o uso do sincroc&iacute;clotron, ent&atilde;o o mais potente acelerador de part&iacute;culas do mundo", pontua Nelson Studard, que prepara um livro sobre C&eacute;sar Lattes.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Colabora&ccedil;&otilde;es internacionais</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O conhecimento sobre as part&iacute;culas elementares teve uma grande evolu&ccedil;&atilde;o com a descoberta do p&iacute;on. Desde 1947, muitos m&eacute;sons foram descobertos. "Na realidade, hoje conhecemos mais de uma centena de m&eacute;sons. Uma s&eacute;rie de outras part&iacute;culas tamb&eacute;m foram descobertas. Sabe-se hoje que nem o pr&oacute;ton nem o n&ecirc;utron s&atilde;o part&iacute;culas elementares, mas s&atilde;o constitu&iacute;dos por quarks", conta Carola Chinellato.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por&eacute;m, tudo come&ccedil;ou quando Lattes teve a ideia de adicionar boro &agrave; gelatina das placas fotogr&aacute;ficas, o que permitiu utiliz&aacute;-las para estudar os raios c&oacute;smicos. Em 1946, enquanto passava f&eacute;rias nos Pirineus franceses, Occhialini levou dois conjuntos de placas, uma com adi&ccedil;&atilde;o de boro por Lattes e outra sem, a um observat&oacute;rio de 2.877 metros de altura acima do n&iacute;vel do mar, na montanha Pic du Midi. As placas comprovaram a exist&ecirc;ncia do m&eacute;son pi, mas n&atilde;o continham informa&ccedil;&otilde;es suficientes para que determinassem todas as suas propriedades. Assim, Lattes decidiu levar as placas para o monte Chacaltaya, na Bol&iacute;via, que tinha 5.421 metros de altitude. Um m&ecirc;s depois, ele retornou ao Brasil e analisou uma placa revelada com dois completos duplos m&eacute;sons, um m&eacute;son leve e um m&eacute;son pesado, o m&eacute;son pi. Atrav&eacute;s de um microsc&oacute;pio do Departamento de F&iacute;sica do Rio de Janeiro, os pesquisadores conseguiram localizar um terceiro duplo m&eacute;son. Retornando a Bristol com a chapa, foram encontrados mais 30 duplos m&eacute;sons. Essas descobertas foram relatadas em "<i>Processes involving charged mesons</i>", por Muirhead, Occhialini e Powell. No mesmo ano, ele foi respons&aacute;vel pelo c&aacute;lculo da massa da nova part&iacute;cula, em um meticuloso trabalho.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um ano depois, Lattes levou o seu conhecimento de placas fotogr&aacute;ficas para o Laborat&oacute;rio de Radia&ccedil;&atilde;o na Universidade da Calif&oacute;rnia em Berkeley, conhecido hoje como <i>Lawrence Berkeley National Laboratory, </i>que abrigava o maior acelerador de part&iacute;culas do mundo. Em duas semanas trabalhando no novo laborat&oacute;rio, ele conseguiu detectar os m&eacute;sons pi usando o eletro&iacute;m&atilde; do acelerador, junto com o f&iacute;sico norte-americano Eugene Gardner. A experi&ecirc;ncia contribuiu para impulsionar a constru&ccedil;&atilde;o de um acelerador ainda mais potente chamado B&eacute;vatron. Enquanto a descoberta do m&eacute;son pi entrava para a hist&oacute;ria da f&iacute;sica de part&iacute;culas, a detec&ccedil;&atilde;o artificial dos m&eacute;sons criava a era dos aceleradores de part&iacute;culas (<a href="#fig1">Figura 1</a>).</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n1/a09fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nos anos seguintes e principalmente a partir da d&eacute;cada de 1960, Lattes se envolveu em um experimento em colabora&ccedil;&atilde;o com f&iacute;sicos japoneses a fim de estudar intera&ccedil;&otilde;es de part&iacute;culas na atmosfera utilizando os raios c&oacute;smicos. A Colabora&ccedil;&atilde;o Brasil-Jap&atilde;o (CBJ) come&ccedil;ou a ser planejada ainda em 1959, como mostra carta de Yukawa para Lattes.&nbsp;Nessa &eacute;poca, no Jap&atilde;o, o grupo de pesquisa em raios c&oacute;smicos liderado por Yoichi Fujimoto e Jun Nishimura desenvolveu uma nova forma de usar emuls&otilde;es nucleares&nbsp;para detectar raios c&oacute;smicos. Essas c&acirc;maras tinham a vantagem de n&atilde;o s&oacute; reduzir o tamanho das emuls&otilde;es nucleares, mas tamb&eacute;m de aumentar a precis&atilde;o na determina&ccedil;&atilde;o da natureza dos tra&ccedil;os criados por raios c&oacute;smicos nessas chapas.&nbsp;Lattes se interessou pela ideia de usar as c&acirc;maras de emuls&atilde;o nuclear no observat&oacute;rio de Chacaltaya. O lado do Jap&atilde;o ficou respons&aacute;vel em fornecer as emuls&otilde;es nucleares e o material da c&acirc;mara. A parte do Brasil, por arrecadar recursos para a viagem e montagem das c&acirc;maras naquela montanha. Os primeiros grandes resultados da parceria com o Jap&atilde;o aconteceram quando Lattes estava na Unicamp, cujo Instituto de F&iacute;sica ele ajudou a organizar. "Foram identificados os estados discretos da mat&eacute;ria que Lattes batizou como <i>Mirim, A&ccedil;u</i> e, um pouco depois, o estado <i>Gua&ccedil;u</i>, alus&atilde;o aos diferentes conte&uacute;dos energ&eacute;ticos desses estados em homenagem ao idioma dos habitantes primevos do Brasil", afirmou Alfredo Marques (<a href="#fig2">Figura 2</a>).</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n1/a09fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"O conhecimento sobre as part&iacute;culas elementares teve uma grande evolu&ccedil;&atilde;o com a descoberta do p&iacute;on."</b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Chacaltaya, ali&aacute;s, pode ser considerado um dos grandes legados de Lattes. O<b></b> Observat&oacute;rio Astrof&iacute;sico Chacaltaya (Observat&oacute;rio de F&iacute;sica C&oacute;smica) pertence &agrave; Universidade Mayor de San Andr&eacute;s (UMSA) e trabalha em colabora&ccedil;&atilde;o com universidades de todo o mundo, mantendo la&ccedil;os hist&oacute;ricos especiais com laborat&oacute;rios de f&iacute;sica brasileiros e japoneses. &Eacute; um local importante para pesquisas de raios gama e tamb&eacute;m &eacute; usado para pesquisas m&eacute;dicas em grandes altitudes. Em 2008, passou a colaborar com o novo projeto do Observat&oacute;rio Gigante da Am&eacute;rica Latina (LAGO). Desde 2009, o laborat&oacute;rio tamb&eacute;m inclui uma esta&ccedil;&atilde;o de medi&ccedil;&atilde;o de gases. Em 2016, foi anunciada a constru&ccedil;&atilde;o de um novo observat&oacute;rio de raios c&oacute;smicos (projeto ALPACA) (<a href="#fig3">Figura 3</a>).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v76n1/a09fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Durante muitas d&eacute;cadas, esse laborat&oacute;rio foi um lugar singular na hist&oacute;ria da f&iacute;sica mundial. Chacaltaya tem uma proje&ccedil;&atilde;o mundial e teve um impacto enorme para a hist&oacute;ria da f&iacute;sica no continente. Tem que pensar que, pela primeira vez, nos anos 1950, um laborat&oacute;rio na Am&eacute;rica do sul estava desenvolvendo e estava envolvido em pesquisas e descobertas fundamentais que estavam na fronteira da f&iacute;sica mundial", destaca Ulisses Barres de Almeida, pesquisador associado do Centro Brasileiro de Pesquisas F&iacute;sicas (CBPF) e vice-diretor do Centro Latino-Americano de F&iacute;sica (CLAF). "Isso quer dizer que, pela primeira vez, abre-se a oportunidade para haver uma integra&ccedil;&atilde;o da comunidade latino-americana de f&iacute;sica. Tanto isso &eacute; verdade que levou a colabora&ccedil;&otilde;es internacionais muito duradouras, como, por exemplo, a colabora&ccedil;&atilde;o Brasil e Jap&atilde;o", finaliza.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"As colabora&ccedil;&otilde;es internacionais desempenharam um papel crucial nas pesquisas de C&eacute;sar Lattes, proporcionando acesso a recursos, conhecimentos e t&eacute;cnicas avan&ccedil;adas."</b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As colabora&ccedil;&otilde;es internacionais desempenharam um papel crucial nas pesquisas de C&eacute;sar Lattes, proporcionando acesso a recursos, conhecimentos e t&eacute;cnicas avan&ccedil;adas que impulsionaram significativamente seus estudos sobre raios c&oacute;smicos e part&iacute;culas elementares. Essas colabora&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&oacute; ampliaram o alcance de suas investiga&ccedil;&otilde;es, mas tamb&eacute;m evidenciaram a import&acirc;ncia da coopera&ccedil;&atilde;o global na expans&atilde;o do conhecimento cient&iacute;fico.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O homem certo, na hora certa</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nos anos seguintes, Lattes continuou a impulsionar a expans&atilde;o do programa brasileiro de f&iacute;sica experimental. Por sua atua&ccedil;&atilde;o institucional, ele ajudou a abrir novos horizontes para a F&iacute;sica como um todo e para a ci&ecirc;ncia no Brasil e na Am&eacute;rica Latina. E esta a&ccedil;&atilde;o era motivada pela cren&ccedil;a de que seria poss&iacute;vel ter uma na&ccedil;&atilde;o desenvolvida e independente por meio da pr&aacute;tica cient&iacute;fica. Em 1949, foi criado, no Rio de Janeiro, o Centro Brasileiro de Pesquisas F&iacute;sicas (CBPF), coordenado por C&eacute;sar Lattes e o f&iacute;sico Jos&eacute; Leite Lopes. O CBPF foi importante pela cria&ccedil;&atilde;o de novos laborat&oacute;rios, pela moderniza&ccedil;&atilde;o dos curr&iacute;culos e pela forma&ccedil;&atilde;o de novos pesquisadores e professores. Al&eacute;m disso, possibilitou o surgimento de novas institui&ccedil;&otilde;es, como o Instituto de Matem&aacute;tica Pura e Aplicada, a Escola Latino-Americana de F&iacute;sica e o Centro Latino-Americano de F&iacute;sica. Outra importante institui&ccedil;&atilde;o, criada apenas dois anos depois, foi o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico (CNPq), cujo objetivo era contribuir para o desenvolvimento industrial, cient&iacute;fico e tecnol&oacute;gico do pa&iacute;s. &Eacute; o que os pesquisadores Her&aacute;clio Duarte Tavares, da USP, e Antonio Augusto Passos Videira, da UERJ, chamam de nacionalismo cient&iacute;fico. "O nacionalismo de Lattes emerge de um contexto espec&iacute;fico e de condi&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas que possibilitaram capitalizar simbolicamente o nacionalismo daquela &eacute;poca e ressignific&aacute;-lo de acordo com suas voca&ccedil;&otilde;es", escreveram os pesquisadores em artigo de 2020, publicado na <i>Revista de Hist&oacute;ria</i>, da USP.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1952, o CBPF assinou um acordo com a Universidade de San Andr&eacute;s, na Bol&iacute;via, para construir no pico do Monte Chacaltaya um laborat&oacute;rio onde os cientistas pudessem estudar os raios c&oacute;smicos. O laborat&oacute;rio deu origem a novos grupos de pesquisa na Bol&iacute;via e em toda a Am&eacute;rica do Sul. Entre tantas reverbera&ccedil;&otilde;es que aconteceram a partir das pesquisas de Lattes, certamente uma das mais duradouras foi a consolida&ccedil;&atilde;o da &aacute;rea de estudos sobre raios c&oacute;smicos. "O Brasil &eacute; um dos expoentes nesta &aacute;rea at&eacute; os dias de hoje, com dezenas de cientistas envolvidos no estudo n&atilde;o apenas dos raios c&oacute;smicos de alt&iacute;ssimas energias, mas tamb&eacute;m nas intera&ccedil;&otilde;es entre as part&iacute;culas elementares", afirmou Carola Chinellato. O trabalho e a reputa&ccedil;&atilde;o de Lattes abriram o caminho para o desenvolvimento da f&iacute;sica experimental no Brasil e na Am&eacute;rica Latina.&nbsp;Hoje, o Brasil tem tradi&ccedil;&atilde;o no estudo de raios c&oacute;smicos e em outras &aacute;reas da f&iacute;sica com importantes n&uacute;cleos de pesquisa nas universidades e centros, como o Laborat&oacute;rio Nacional de Luz S&iacute;ncrotron de Campinas, o &uacute;nico com esse tipo de equipamento no hemisf&eacute;rio sul, utilizado para analisar os &aacute;tomos e as mol&eacute;culas.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><styled-content style="color:#890e10"><b>"Por sua atua&ccedil;&atilde;o institucional, ele ajudou a abrir novos horizontes para a F&iacute;sica como um todo e para a ci&ecirc;ncia no Brasil e na Am&eacute;rica Latina."</b></styled-content></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A op&ccedil;&atilde;o de Lattes de permanecer no Brasil ap&oacute;s a grande repercuss&atilde;o da descoberta do p&iacute;on e os projetos nos quais se envolveu, incluindo a organiza&ccedil;&atilde;o do Instituto de F&iacute;sica na rec&eacute;m-criada Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), denotam sua esperan&ccedil;a no futuro do pa&iacute;s e confian&ccedil;a nos brasileiros como capazes de superar as grandes lacunas da &eacute;poca na forma&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e tecnol&oacute;gica. Ele nutria uma firme cren&ccedil;a no papel pedag&oacute;gico da ci&ecirc;ncia para a forma&ccedil;&atilde;o das novas gera&ccedil;&otilde;es, defendendo e impulsionando, desde os primeiros anos, a inser&ccedil;&atilde;o sist&ecirc;mica da pesquisa cient&iacute;fica no ensino superior e a flexibiliza&ccedil;&atilde;o das posturas burocr&aacute;ticas destinadas a sustentar essas pr&aacute;ticas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Amigo pessoal de Lattes, Alfredo Marques o descrevia como um ser humano complexo que precisou conciliar sua natureza simples, despojada, linear, com o peso da enorme fama que o seguia. S&atilde;o v&aacute;rias as hist&oacute;rias de Lattes percorrendo os corredores do Instituto de F&iacute;sica da Unicamp de chinelos e acompanhado do seu cachorro, o perdigueiro "Ga&uacute;cho". Conforme conta Marques, certa vez, discutiu com a funcion&aacute;ria da biblioteca do CBPF para inscrever seu cachorro, o perdigueiro Ga&uacute;cho, como leitor da biblioteca. Foi a forma que escolheu para protestar contra a opini&atilde;o de um professor que sugeriu bloquear o acesso dos estudantes aos livros para evitar danos e roubos. "Nem sempre a conviv&ecirc;ncia com ele foi pac&iacute;fica, dependendo do interlocutor, e fez-se acompanhar algumas vezes de explos&otilde;es e rompimentos com pessoas ou com as institui&ccedil;&otilde;es que representavam. Quem conviveu com ele provou de seu bom humor e de amizade calorosa e irrestrita; quem trabalhou com ele sentiu seu grande apre&ccedil;o pela liberdade de pensamento e a&ccedil;&atilde;o em ci&ecirc;ncia, garantindo condi&ccedil;&otilde;es de trabalho mesmo quando divergia das ideias de seus associados. Jamais trabalhou para a edifica&ccedil;&atilde;o de pedestais que aumentassem sua visibilidade e propiciassem sua adora&ccedil;&atilde;o", detalha o ex-diretor do CBPF.</font></p>      ]]></body>

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