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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O ritmo como fenômeno multidimensional: relações e permanência de elementos musicais africanos no Brasil]]></article-title>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Musicalidade afro-brasileira]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317&#45;6660.20260005</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>O   ritmo como fen&ocirc;meno multidimensional: rela&ccedil;ões e perman&ecirc;ncia de elementos   musicais africanos no Brasil</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Rafael Y Castro<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>P&oacute;s&#45;doutor, doutor, mestre e bacharel em percuss&atilde;o na &aacute;rea de M&uacute;sica   pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). &Eacute; professor colaborador do   Programa de P&oacute;s&#45;Gradua&ccedil;&atilde;o em M&uacute;sica da Unesp.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"><b>Resumo</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O   foco deste trabalho &eacute; apresentar, a partir da influ&ecirc;ncia da di&aacute;spora africana   na musicalidade brasileira, determinados conte&uacute;dos e m&eacute;todos de transmiss&atilde;o de   conhecimentos utilizados na musicalidade brasileira em alguns contextos   espec&iacute;ficos, observando como muitos dos elementos estruturais trazidos via   di&aacute;spora, foram ressignificados nas forma&ccedil;ões musicais dos conjuntos   percussivos dessas tradi&ccedil;ões. A metodologia utilizada foi a participa&ccedil;&atilde;o em   casas de candombl&eacute; e baterias de escolas de samba. A fundamenta&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica &eacute;   composta por: Arom, Fern&aacute;ndez, Pinto e Zerbo. Foi observada a perman&ecirc;ncia de   elementos estruturais identit&aacute;rios na musicalidade afro&#45;brasileira, oriundos da   di&aacute;spora africana.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Palavras&#45;chave: </b>Musicalidade   afro&#45;brasileira; Di&aacute;spora africana; Identidade; Ritmo multidimensional;   Percuss&atilde;o.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">H&aacute; um amplo   saber ancestral em pr&aacute;ticas percussivas oriundas de povos diasp&oacute;ricos no Brasil   &#151; heran&ccedil;as de sabedorias, metodologias e pr&aacute;ticas trazidas da &Aacute;frica. Ap&oacute;s o   per&iacute;odo de escraviza&ccedil;&atilde;o, as bases que fundamentam boa parte da musicalidade   brasileira, e, portanto, afro&#45;brasileira, s&atilde;o fundamentadas em princ&iacute;pios,   conceitos e formas que perpassam locais de origem e chegam a novos ambientes de   ressignifica&ccedil;&atilde;o. Trato isso como fundamento de um pensamento musical que age no   desenvolvimento social, reconhecendo&#45;o como agente cultural essencial que parte   da performance. A transculturalidade &eacute; um dos fen&ocirc;menos respons&aacute;veis pela   ressignifica&ccedil;&atilde;o de identidades, algo que se estabelece na mescla daquilo que se   herda e se utiliza de maneira consciente e inconsciente, com aquilo que se   encontra no local de chegada. Ou seja, &eacute; a performance musical, a partir dos   conjuntos percussivos afro&#45;brasileiros, que permitiu que aquilo trazido via   di&aacute;spora tenha sido reinventado, estabelecendo sentido com base na necessidade   existencial de indiv&iacute;duos escravizados e seus descendentes oriundos dos   processos migrat&oacute;rios. Atualmente, os saberes que tomam o ritmo como fen&ocirc;meno   multidimensional representam a possibilidade de um reencontro e de certa forma   uma nova exist&ecirc;ncia.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="verdana"><i>"Ao     mesmo tempo que a perspectiva transcultural diversifica os conceitos voltados     aos fen&ocirc;menos sonoros, fazendo aumentar substancialmente o leque tipol&oacute;gico dos     mesmos, ela tamb&eacute;m d&aacute; import&acirc;ncia ao ensejo e, portanto, ao fen&ocirc;meno vivo, &agrave;     performance e seu contexto, ambos igualmente dentro de uma perspectiva din&acirc;mica     e processual do acontecimento cultural".<sup>&#91;1&#93;</sup></i></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="verdana">Analisei como   quest&otilde;es estruturais musicais representam e determinam comportamentos   sociais espec&iacute;ficos em busca de um territ&oacute;rio e de um   reconhecimento social maior, suportado pelo conhecimento ancestral oriundo de   parte do continente africano que &eacute; utilizado nas religi&otilde;es de   matriz afro e apropriado, mantido e transformado nas metodologias art&iacute;stico   pedag&oacute;gicas das Baterias das Escolas de Samba.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"&Eacute; a   performance musical, a partir dos conjuntos percussivos afro&#45;brasileiros, que   permitiu que aquilo trazido via di&aacute;spora tenha sido reinventado."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A metodologia   incluiu: a) visitas de campo e pesquisa participativa, b) entrevistas com   integrantes destas comunidades, c) an&aacute;lise in loco das metodologias e   significados utilizados nos rituais.<sup>&#91;1&#93;</sup> trata das rela&ccedil;&otilde;es   estruturais da r&iacute;tmica afro&#45;brasileira oriundas da di&aacute;spora e da   rela&ccedil;&atilde;o diversificada da transculturalidade como caracter&iacute;stica   que transforma a sonoridade. Arom (1991) <sup>&#91;2&#93;</sup> e Pinto (2015) <sup>&#91;1&#93;</sup> abordam a perspectiva multidimensional sob este prisma, o da melodia de   timbres. Neste sentido, para o estudo dos ritmos tradicionais de influ&ecirc;ncia   africana, fundamentalmente, se faz necess&aacute;rio perceber a am&aacute;lgama entre ritmo e timbre, a circularidade de padr&otilde;es   r&iacute;tmicos e a constru&ccedil;&atilde;o polif&ocirc;nica a partir da   polirritmia e da melodia de timbres. Fernand&eacute;z (1986) <sup>&#91;3&#93;</sup> observa que "entre os tra&ccedil;os musicais que os africanos contribu&iacute;ram   na forma&ccedil;&atilde;o da m&uacute;sica americana, em particular a da Am&eacute;rica   Latina, o ritmo possui uma import&acirc;ncia especial" que,<sup>&#91;3&#93;</sup> no   contexto do samba, ocupa ao mesmo tempo uma fun&ccedil;&atilde;o de organiza&ccedil;&atilde;o   temporal e de execu&ccedil;&atilde;o de "'configura&ccedil;&otilde;es t&iacute;mbricas'   que muitos m&uacute;sicos chamam de 'melodias'".<sup>&#91;1&#93;</sup></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Consideramos   que as Escolas de Samba s&atilde;o utilizadas como ve&iacute;culo de transmiss&atilde;o   dos saberes oriundos anteriormente da di&aacute;spora para os terreiros, e   sequencialmente dos terreiros para as Baterias e outros setores. Em busca de   uma compreens&atilde;o mais abrangente dos significados analisados na rela&ccedil;&atilde;o   entre os elementos do Candombl&eacute; e das Baterias das Escolas de Samba aqui   investigados, partimos da necessidade em analisar como os reflexos do movimento   da di&aacute;spora poderiam determinar ou influenciar essa compreens&atilde;o, visto que os   indiv&iacute;duos respons&aacute;veis pela troca destes elementos convivem nestes   locais considerados como reprodutores de um conhecimento herdado e transformado   mas, nem sempre, reconhecido de forma clara ou em sua totalidade. Tamb&eacute;m nos   interessamos em analisar quais seriam os reflexos sociais de tudo isso, de que   maneira isto tamb&eacute;m &eacute; classificado   (status), ou reconhecido no ambiente externo ao contexto e que tamb&eacute;m   poderia influenciar ou determinar poss&iacute;veis compreens&otilde;es equivocadas ou   tendenciosas sobre o pr&oacute;prio fen&ocirc;meno – a migra&ccedil;&atilde;o de pessoas que trazem   uma cultura identit&aacute;ria transformada de diversas maneiras.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Partindo do pressuposto de que o objeto central investigado est&aacute;   inserido em ambientes caracterizados pelas pr&aacute;ticas realizadas dentro dos   conceitos da cultura popular, ou seja, pela oralidade, um dos aspectos mais   marcantes &eacute; o processo da transmiss&atilde;o de conhecimento de um l&iacute;der para os   iniciantes atrav&eacute;s da imita&ccedil;&atilde;o e repeti&ccedil;&atilde;o. Este processo &eacute;   comum em ambientes coletivos diversos, pela necessidade de transmiss&atilde;o de   conhecimento de gera&ccedil;&atilde;o para gera&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A tradi&ccedil;&atilde;o   oral foi definida como <i>um testemunho transmitido oralmente de uma gera&ccedil;&atilde;o a   outra</i>. Suas caracter&iacute;sticas particulares s&atilde;o o verbalismo e sua   maneira de transmiss&atilde;o, na qual difere das fontes escritas. Devido &agrave;   sua complexidade, n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil encontrar uma defini&ccedil;&atilde;o   para a tradi&ccedil;&atilde;o oral que d&ecirc; conta de todos os seus aspectos.<sup>&#91;4&#93;</sup></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Nas Baterias   das Escolas de Samba e nos terreiros, a metodologia utilizada &eacute; a pr&aacute;tica   de alguns padr&otilde;es estruturais (toques e levadas) que devem ser   reproduzidos pelos novos interessados em participar destes grupos, e pelos que   j&aacute; apresentam familiaridade com os conte&uacute;dos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Muitos   conhecimentos foram, de uma forma ou de outra, preservados como algo que n&atilde;o   poderia ser esquecido, servindo de base para a perman&ecirc;ncia destas pessoas   em um novo local. Seria assim uma maneira de manter algo identit&aacute;rio como   forma de resist&ecirc;ncia e reconex&atilde;o com seus locais de origem, na   tentativa de ressignific&aacute;&#45;los estrategicamente como ferramenta de   sobreviv&ecirc;ncia. Todos os pontos de converg&ecirc;ncia entre elementos   africanos, utilizados principalmente no Candombl&eacute;, relacionam&#45;se com um   comportamento enraizado em tra&ccedil;os culturais &eacute;tnicos que se mant&eacute;m   e se transformam dentro das Escolas de Samba em geral e nas Baterias em   particular. De forma geral, esses elementos s&atilde;o os espa&ccedil;os   reservados a orix&aacute;s dentro de algumas agremia&ccedil;&otilde;es, a   proximidade entre c&eacute;lulas r&iacute;tmicas em diferentes instrumentos   utilizados nos dois contextos, a exist&ecirc;ncia daquilo chamado de timeline   ou clave que resulta em certa fun&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla do ritmo,   algumas formas de ensinamento de padr&otilde;es em diferentes instrumentos e a   enorme proximidade entre toques executados nos atabaques no Candombl&eacute; e   figuras r&iacute;tmicas apresentadas na caixa – instrumento este que representa   a pr&oacute;pria identidade de cada Bateria, entre outros. Estes elementos,   decorrentes da di&aacute;spora negra no Brasil, s&atilde;o transformados e   mantidos nas Baterias de Escola de Samba de forma consciente, como sinal de   resist&ecirc;ncia e elemento identit&aacute;rio, mas s&atilde;o tamb&eacute;m   reproduzidos de maneira natural quando os coletivos est&atilde;o em performance.   (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a05fig01.jpg"></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Cada um   desses grupos – Baterias e Casas de Candombl&eacute; – tem seu pr&oacute;prio   estilo, respons&aacute;vel para que a identidade de cada um deles seja   reconhecida pelo "Outro". Apesar de compartilharem muitos aspectos em comum,   alguns detalhes fazem a diferen&ccedil;a e criam a marca de cada um. No caso das   Baterias, por exemplo, o naipe de caixa &eacute; o respons&aacute;vel pela   identidade sonora considerada mais marcante de todo o conjunto. A utiliza&ccedil;&atilde;o   deste conhecimento, em prol de uma tentativa de reconex&atilde;o com um local de   origem <i>imaginado</i>, de reconstru&ccedil;&atilde;o de uma identidade, ocorre   de v&aacute;rias maneiras. Nos casos aqui estudados a pr&oacute;pria linguagem se   faz presente nesta reconex&atilde;o, mantendo&#45;se como base de uma apropria&ccedil;&atilde;o   evidenciada atrav&eacute;s da utiliza&ccedil;&atilde;o de determinados termos nos   terreiros de Candombl&eacute;. Termos como Angola, Bantu, Rainha Ginga, Orix&aacute;s   e Candombl&eacute; apontam para a conflu&ecirc;ncia entre pr&aacute;ticas,   saberes e sentidos, num processo aqui denominado de "circularidade" entre   terreiros e Baterias de Escolas de Samba. Ao mesmo tempo, estas pessoas tratam   esses locais como extens&otilde;es de suas pr&oacute;prias casas, o que   representa uma certa reconex&atilde;o com uma identidade e um local perdido pela   di&aacute;spora em um novo territ&oacute;rio, utilizado como ressignifica&ccedil;&atilde;o   cultural.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Alguns aspectos que determinam rela&ccedil;&otilde;es entre os conjuntos   percussivos do Candombl&eacute; e das Baterias:</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"As   Escolas de Samba s&atilde;o utilizadas como ve&iacute;culo de transmiss&atilde;o   dos saberes oriundos anteriormente da di&aacute;spora para os terreiros, e   sequencialmente dos terreiros para as Baterias e outros setores."</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Flexibilidade e similaridade do timeline</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">H&aacute;   diversas denomina&ccedil;&otilde;es para determinar certas sequ&ecirc;ncias r&iacute;tmicas   estruturais que normalmente remetem o ouvinte a um reconhecimento identit&aacute;rio.   Esses padr&otilde;es r&iacute;tmicos s&atilde;o geralmente chamados de clave,   timeline, estrutura esquel&eacute;tica ou padr&atilde;o estrutural. Alguns   instrumentos, como o agog&ocirc; e o tamborim, por exemplo, s&atilde;o centrais   para este reconhecimento. Neste sentido, os padr&otilde;es c&iacute;clicos   utilizados nos timelines na &Aacute;frica teriam derivado, por exemplo, o pr&oacute;prio   teleco teco no Brasil – timeline referencial ao samba. Evidenciam&#45;se tamb&eacute;m   diversas variantes desses timelines, o que chamamos de redu&ccedil;&otilde;es,   simplifica&ccedil;&otilde;es. Ou seja, retiram&#45;se partes das notas de um   determinado padr&atilde;o sem que seja afetada a estrutura central dele,   contribuindo assim para que seja poss&iacute;vel a realiza&ccedil;&atilde;o de um   n&uacute;mero de varia&ccedil;&otilde;es, de acordo com a criatividade dos l&iacute;deres   – alab&ecirc;s, Mestres, primeiros repiniques. O fato de que o timeline se   apresente de forma vari&aacute;vel &eacute; essencial pois, didaticamente, &eacute;   importante que o aprendiz o assimile de forma compactada (em blocos), come&ccedil;ando   com simplifica&ccedil;&otilde;es do mesmo, reproduzindo assim parte da estrutura   com menor um n&uacute;mero de notas, mas dentro da linguagem. Em geral, h&aacute;   um enorme cuidado em se respeitar a tradi&ccedil;&atilde;o, de maneira a   determinar o que pode, ou n&atilde;o pode, ser modificado dentro da totalidade   do padr&atilde;o. A utiliza&ccedil;&atilde;o do casco do instrumento em   determinados momentos para a realiza&ccedil;&atilde;o do timeline &eacute; tamb&eacute;m   uma pr&aacute;tica bastante comum entre os ritmistas de ambos os conjuntos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>C&eacute;lulas r&iacute;tmicas comuns &agrave;s duas tradi&ccedil;&otilde;es   analisadas</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">H&aacute; uma significativa proximidade entre c&eacute;lulas r&iacute;tmicas   realizadas no <i>agog&ocirc; e tamborim </i>no Samba e no <i>g&atilde; </i>no   Candombl&eacute;. O uso dessas c&eacute;lulas tamb&eacute;m chama aten&ccedil;&atilde;o   pela fun&ccedil;&atilde;o assumida dentro da gira (no caso do<i> g&atilde;</i>) e   no samba, j&aacute; que elas apresentam um tipo de estrutura r&iacute;tmica que   representa a soma de batidas com dura&ccedil;&otilde;es diferentes realizadas de   forma constante do in&iacute;cio ao fim de uma execu&ccedil;&atilde;o, ou seja, a <i>timeline </i>ou <i>clave</i>. H&aacute; pontos de converg&ecirc;ncia, por exemplo, entre   o aguer&ecirc; de Ox&oacute;ssi – ou Od&eacute; – e a levada de caixa da Portela,   assim como levadas de caixa herdadas de toques de atabaques (como as do GRCES   Unidos de Vila Isabel, oriundas do fundamento do atabaque <i>l&eacute; </i>no   Kabula). Nesse sentido, podemos afirmar que todas as Baterias possuem a mesma   influ&ecirc;ncia – a heran&ccedil;a do toque dos atabaques – j&aacute; que as   mudan&ccedil;as nas levadas de caixa de uma para outra Escola s&atilde;o sutis e   normalmente mantem a mesma frase r&iacute;tmica em comum com os atabaques. Fern&aacute;ndez   (1986) tamb&eacute;m discorre sobre como h&aacute; um processo de binariza&ccedil;&atilde;o dos   ritmos tern&aacute;rios africanos na Am&eacute;rica Latina, uma transforma&ccedil;&atilde;o da   origem dos padrões at&eacute; a chegada via di&aacute;spora. Um timeline ou clave que   apresenta uma subdivis&atilde;o tern&aacute;ria em colcheias &eacute; transformado   em uma subdivis&atilde;o quatern&aacute;ria em semicolcheias, mudando a subdivis&atilde;o   de um sub&#45;pulso &iacute;mpar para par, em um mesmo espa&ccedil;o no compasso e   com um pulso comum entre as duas possibilidades. (<a href="#fig02">Figura 2</a>)</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a05fig02.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Sistematiza&ccedil;&atilde;o   de breques/conven&ccedil;&otilde;es&#45;conceito de pergunta e resposta</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O conceito e   a pr&aacute;tica da chamada &#45; pergunta e resposta, &eacute; uma ferramenta   bastante did&aacute;tica e art&iacute;stica nos conjuntos de percuss&atilde;o. A   musicalidade brasileira, em grande parte, utiliza deste recurso, o que para n&oacute;s   seria uma marca muito caracter&iacute;stica do que foi produzido inicialmente na   &Aacute;frica. Esta influ&ecirc;ncia &eacute; um fato t&iacute;pico da consci&ecirc;ncia   musical herdada e reproduzida nos terreiros e nas Baterias, principalmente   naquilo que se refere &agrave; cria&ccedil;&atilde;o dos chamados <i>breques</i>.   Ou seja, um instrumentista realiza um discurso musical reconhecido pelos outros   e estes o respondem sonoramente, com a execu&ccedil;&atilde;o de padr&otilde;es   tamb&eacute;m reconhecidos. Estes padr&otilde;es s&atilde;o repetidamente imitados   por cada um dos integrantes, at&eacute; ficarem estabelecidos em um arranjo. No   caso do Candombl&eacute;, a imita&ccedil;&atilde;o se d&aacute; pela necessidade de   cantar as cantigas, seguindo o modelo de um   zelador ou og&atilde; mais velho que as cante com mais flu&ecirc;ncia. Al&eacute;m   dos mais novos precisarem aprender tais cantigas, tamb&eacute;m h&aacute;   necessidade de resposta pelos outros, no mesmo sentido dos breques de Bateria.   A diferen&ccedil;a entre as Baterias e os terreiros &eacute; que no primeiro esse   processo de imita&ccedil;&atilde;o se d&aacute; pela execu&ccedil;&atilde;o r&iacute;tmica   e no segundo pelo canto.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"H&aacute; uma   tentativa de apagamento deste conhecimento por meio da domina&ccedil;&atilde;o de   outras culturas e etnias, que desconhecem as complexidades musicais existentes   nesses grupos."</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Transmiss&atilde;o   de conhecimentos com base na oralidade</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A metodologia   utilizada nestes locais &eacute; desenvolvida a partir do referencial africano,   cujas principais estrat&eacute;gias s&atilde;o intr&iacute;nsecas &agrave;   oralidade: imita&ccedil;&atilde;o e repeti&ccedil;&atilde;o. Uma sociedade oral   reconhece a fala n&atilde;o apenas como um meio de comunica&ccedil;&atilde;o   di&aacute;ria, mas tamb&eacute;m como um meio de preserva&ccedil;&atilde;o da sabedoria dos ancestrais, venerada no que   poder&iacute;amos chamar elocu&ccedil;&otilde;es&#45;chave, isto &eacute;, a tradi&ccedil;&atilde;o oral. A tradi&ccedil;&atilde;o pode ser definida, de fato, como um   testemunho transmitido verbalmente de uma   gera&ccedil;&atilde;o para outra.<sup>&#91;4&#93;</sup> A oralidade reflete uma sabedoria   em particular, sendo, portanto, necess&aacute;ria e determinante para a   transmiss&atilde;o de conhecimento nos seguintes pontos observados: a)   transmiss&atilde;o de toques (atabaques) e levadas (caixa, repinique),   especificamente para os aprendizes, b) conceitos diversos baseados nos   fundamentos, c) memoriza&ccedil;&atilde;o de determinados padr&otilde;es em   levadas e toques, d) transmiss&atilde;o do passo a passo para a montagem de   determinados breques ou do pr&oacute;prio vocabul&aacute;rio do alab&ecirc; no   rum, e) transmiss&atilde;o das varia&ccedil;&otilde;es realizadas nos instrumentos   e utilizadas em momentos de solo ou em conjunto, f) combinados diversos em a&ccedil;&otilde;es   estrat&eacute;gicas, g) memoriza&ccedil;&atilde;o de letras diversas (sambas) e   cantigas para orix&aacute;s espec&iacute;ficos ou do roteiro do xir&ecirc;, h)   variedade de sonoridades desejada dos instrumentos e i) memoriza&ccedil;&atilde;o   de hinos (alusivo) e rezas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Considera&ccedil;ões   finais</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Ap&oacute;s   identificar conex&otilde;es entre os territ&oacute;rios analisados, foi observado que   as pr&aacute;ticas africanas nos conjuntos percussivos, representam a   continuidade de uma cultura herdada, mantida e transformada que, atrav&eacute;s   da performance musical, servem de preserva&ccedil;&atilde;o de uma cultura que possibilita   oferecer certo sentido existencial e de pertencimento aos participantes. Por   outro lado, ainda h&aacute; uma tentativa de apagamento deste conhecimento por meio da   domina&ccedil;&atilde;o de outras culturas e etnias, que desconhecem as   complexidades musicais existentes nesses grupos, na tentativa de sobrepor algo   que pode ser considerado como uma cultura mais refinada e mais desenvolvida. As   Casas de religi&otilde;es afro e as Escolas de Samba tamb&eacute;m foram considerados   ambientes corriqueiramente tidos como alvo de persegui&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tico   &#45; religiosa. Nesse sentido, este conhecimento ficou afastado socialmente,   diminuindo o alcance da sabedoria oriunda destes territ&oacute;rios e o   desconhecimento da pr&oacute;pria hist&oacute;ria do Brasil.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">&#91;1&#93;   PINTO, Tiago de Oliveira. A est&eacute;tica transcultural na Universidade Latino   Americana: novas pr&aacute;ticas contempor&acirc;neas. UFF, 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143606&pid=S0009-6725202600010000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">&#91;2&#93;   AROM, Sinha. African polyphony and polyrhythm: musical structure and   methodology. New York: Cambridge University Press, 1991.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143608&pid=S0009-6725202600010000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">&#91;3&#93;FERN&Aacute;NDEZ,   Rolando Antonio P&eacute;rez. La Binarizaci&oacute;n de los Ritmos Tern&aacute;rios   Africanos en America Latina. Havana: Casa de Las Americas, 1986.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143610&pid=S0009-6725202600010000500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana">&#91;4&#93;   ZERBO, Joseph Ki. Hist&oacute;ria geral da &Aacute;frica, I: Metodologia e pr&eacute;&#45;hist&oacute;ria   da &Aacute;frica. 2 ed. rev. Bras&iacute;lia: UNESCO, 2010, 992 p. Bras&iacute;lia.   ISBN: 978&#45;85&#45;7652&#45;123&#45;5.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143612&pid=S0009-6725202600010000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      ]]></body>
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