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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Músicas indígenas no Brasil: sonoridades, escuta e modos de existir]]></article-title>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Músicas indígenas]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317&#45;6660.20260006</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>M&uacute;sicas   ind&iacute;genas no Brasil: sonoridades, escuta e modos de existir</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Magda Dourado Pucci<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Doutora em Performance and Creative Arts pela Leiden   University (Holanda), mestre em Antropologia pela Pontif&iacute;cia Universidade   Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo (PUC&#45;SP) e graduada em Reg&ecirc;ncia pela Escola de   Comunica&ccedil;&otilde;es e Artes da Universidade de S&atilde;o Paulo (ECA&#45;USP). Sua pesquisa   dedica&#45;se &agrave;s musicalidades do mundo e dos povos ind&iacute;genas, com &ecirc;nfase em   projetos interculturais que articulam pesquisa, cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica e educa&ccedil;&atilde;o   musical. Desenvolve cursos e oficinas e publica livros destinados a crian&ccedil;as e   educadores, sendo respons&aacute;vel por projetos de educa&ccedil;&atilde;o musical como Cantos   da Floresta &#151; uma inicia&ccedil;&atilde;o ao universo musical ind&iacute;gena. &Eacute; cantora,   arranjadora, compositora e diretora musical, fundadora do grupo Mawaca, que h&aacute;   mais de 30 anos realiza pesquisas em m&uacute;sicas do mundo e desenvolve projetos   art&iacute;sticos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"><b>Resumo</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Este artigo propõe uma reflex&atilde;o sobre as m&uacute;sicas ind&iacute;genas   no Brasil a partir da no&ccedil;&atilde;o de sonoridades e da escuta como pr&aacute;tica de   conhecimento. Em diferentes contextos ind&iacute;genas, cantar, tocar, nomear ou   fabricar instrumentos n&atilde;o constituem apenas expressões art&iacute;sticas, mas modos de   agir sobre o mundo, produzir rela&ccedil;ões e sustentar cosmologias. Dialogando com   autores como Steven Feld, Anthony Seeger, Rafael Menezes Bastos, Deise   Montardo, Ros&acirc;ngela de Tugny e pensadores ind&iacute;genas Ailton Krenak, Davi   Kopenawa e Kak&aacute; Jekup&eacute;, o texto discute o som como operador de mem&oacute;ria,   territorialidade, ag&ecirc;ncia e ponte entre humanos e outros seres. Exemplos   etnogr&aacute;ficos envolvendo povos Kaingang, Timbira, Bororo, Guarani, Huni Kuin,   Ikolen&#45;Gavi&atilde;o, Tikm&#361;'&#361;n e Wauj&aacute; evidenciam a diversidade dos sistemas   sonoros ind&iacute;genas e desafiam categorias ocidentais consolidadas, como obra,   autoria individual e m&uacute;sica como objeto isolado. Ao enfatizar o car&aacute;ter   relacional do som, o artigo aponta para um deslocamento epistemol&oacute;gico presente   nos debates contempor&acirc;neos sobre m&uacute;sica, ci&ecirc;ncia e modos plurais de existir.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Palavras&#45;chave:</b> M&uacute;sicas ind&iacute;genas; Sonoridades;   Escuta; Cosmologia; Etnomusicologia.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em muitas   culturas ind&iacute;genas, o som n&atilde;o &eacute; apenas um fen&ocirc;meno f&iacute;sico a ser medido, nem a   m&uacute;sica um objeto est&eacute;tico destinado &agrave; contempla&ccedil;&atilde;o. Cantar ou tocar, nos   diferentes contextos dos quase quatrocentos povos no Brasil, s&atilde;o formas de agir   sobre o mundo, produzir conhecimento e estabelecer rela&ccedil;ões entre humanos,   territ&oacute;rios e outros seres. O som possui inten&ccedil;&atilde;o, mem&oacute;ria e efic&aacute;cia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Ao aproximar   as musicalidades ind&iacute;genas das discussões contempor&acirc;neas sobre m&uacute;sica, som e   ci&ecirc;ncia, este texto propõe um descentramento do olhar: menos interessado em   analisar a m&uacute;sica ind&iacute;gena como dado ac&uacute;stico e mais atento &agrave; escuta de   sonoridades como pr&aacute;tica de conhecimento.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em di&aacute;logo   cr&iacute;tico com a no&ccedil;&atilde;o de<i> sonoridades</i>, "m&uacute;sica ind&iacute;gena" &eacute; entendida aqui   como a&ccedil;&atilde;o situada, isto &eacute;, uma pr&aacute;tica relacional insepar&aacute;vel de corpo e   territ&oacute;rio. Essa perspectiva dialoga com Donna Haraway (1995),<sup>&#91;1, 2&#93;</sup> para quem o conhecimento &eacute; sempre situado e encarnado, e com Tim Ingold (2015),<sup>&#91;2&#93; </sup>que propõe pensar o ambiente como um campo de rela&ccedil;ões em cont&iacute;nuo   processo de habitar. As sonoridades, assim, constituem modos de existir e   produzir mundos<a name="tx01"></a><a href="#nt01"><sup>i</sup></a>.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"No &acirc;mbito   acad&ecirc;mico, as musicalidades ind&iacute;genas no Brasil v&ecirc;m sendo cada vez mais   compreendidas n&atilde;o apenas como express&otilde;es art&iacute;sticas, mas como pr&aacute;ticas que   articulam conhecimento, territ&oacute;rios e seres vis&iacute;veis e invis&iacute;veis, como   mem&oacute;ria, cosmologia, corpo e vida coletiva."</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Essa   abordagem torna&#45;se ainda mais necess&aacute;ria diante da enorme diversidade   lingu&iacute;stica ind&iacute;gena no pa&iacute;s. Segundo o Censo do IBGE (2022),<sup>&#91;3&#93;</sup> s&atilde;o 391 povos   e 295 l&iacute;nguas faladas   no Brasil. Cada universo lingu&iacute;stico implica tamb&eacute;m formas pr&oacute;prias de   organizar a voz, a mem&oacute;ria, de classificar o mundo, de nomear os seres, formas   espec&iacute;ficas de nomear os astros, as plantas, os animais, sistemas de contagem e   de produzir conhecimento por meio do som. Trata&#45;se de uma pluralidade que   desafia qualquer no&ccedil;&atilde;o universalizante de "m&uacute;sica" como categoria &uacute;nica e   est&aacute;vel: cada l&iacute;ngua abriga um modo singular de classificar o mundo, de nomear   os seres e de produzir conhecimento por meio do som.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Escutar   como forma de conhecer</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Steven Feld,   ao estudar os processos sonoros do povo Kaluli (Bosavi, Papua&#45;Nova Guin&eacute;),   propõe compreender o som como modo de conhecer &#151; um <i>habitus </i>&#151; no sentido   de Bourdieu<a name="tx02"></a><a href="#nt02"><sup>ii</sup></a> (2009) <sup>&#91;4&#93;</sup> &#151; que orienta a forma como os   povos se situam f&iacute;sica e emocionalmente em seus ambientes. Em sua etnografia, a   floresta n&atilde;o &eacute; um "cen&aacute;rio natural", mas um meio ac&uacute;stico vivo, atravessado   pelas vozes de p&aacute;ssaros, insetos, r&atilde;s, quedas d'&aacute;gua e reverbera&ccedil;ões, compondo   um campo sensorial fundamental para a experi&ecirc;ncia kaluli. Essas sonoridades n&atilde;o   s&atilde;o ru&iacute;dos de fundo: elas participam da produ&ccedil;&atilde;o de sentidos, afetos, mem&oacute;rias   e rela&ccedil;ões com o territ&oacute;rio. Para Feld, escutar &eacute; sempre uma pr&aacute;tica   culturalmente aprendida, e a musicalidade kaluli emerge justamente dessa   aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s presen&ccedil;as multiesp&eacute;cies que ressoam na floresta.<sup>&#91;5&#93;</sup></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em "<i>A   queda do c&eacute;u</i>", Davi Kopenawa – l&iacute;der Yanomami &#151; insiste que a floresta n&atilde;o   &eacute; um cen&aacute;rio externo, mas uma condi&ccedil;&atilde;o de exist&ecirc;ncia compartilhada: humanos,   esp&iacute;ritos, animais, ventos e cantos compõem juntos um mesmo mundo vivo. Essa   no&ccedil;&atilde;o de que "<b>somos floresta gente</b>" expressa precisamente essa   indissociabilidade. Quando a floresta &eacute; destru&iacute;da, n&atilde;o se perde apenas um   recurso natural, mas um tecido de rela&ccedil;ões vitais &#151; e com ele desaparecem   tamb&eacute;m modos de vida, de escuta e de conhecimento.<sup>&#91;6&#93;</sup></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Entre os   povos <b>Timbira</b><a name="tx03"></a><a href="#nt03"><sup>iii</sup></a>, cantar &eacute; compreendido como um saber que   emerge da garganta. Essa concep&ccedil;&atilde;o se expressa no termo <i>hõkrep&ouml;</i>j,   formado por <i>hõkre</i> (garganta) e <i>p&ouml;j</i> (surgir, aparecer), indicando   que voz e saber s&atilde;o a mesma coisa, como observou a etnomusic&oacute;loga Kilza Setti   (2004).<sup>&#91;7&#93; </sup>O termo refere&#45;se tamb&eacute;m ao coro de mulheres que atua em   rituais e ocasiões coletivas importantes. Trata&#45;se de uma pr&aacute;tica de   transmiss&atilde;o e aprendizado, na qual cantoras mais experientes ensinam os   repert&oacute;rios &agrave;s mais jovens, garantindo a continuidade das formas rituais e da   mem&oacute;ria sonora. O <i>hõkrep&ouml;j </i>acompanha delega&ccedil;ões femininas em encontros   interculturais e se faz presente em momentos de celebra&ccedil;&atilde;o, troca de saberes e   reafirma&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas cerimoniais, como o<i> Amj&oacute;kin</i>. Assim, mais do que   "m&uacute;sica", o<i> hõkrep&ouml;j</i> constitui um espa&ccedil;o de articula&ccedil;&atilde;o social e   pol&iacute;tica das mulheres Timbira, onde o canto se afirma como conhecimento,   presen&ccedil;a coletiva e modo de exist&ecirc;ncia<a name="tx04"></a><a href="#nt04"><sup>iv</sup></a>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No Brasil,   diferentes povos ind&iacute;genas compartilham concep&ccedil;ões em que o som &eacute; evid&ecirc;ncia de   vitalidade e meio de exist&ecirc;ncia.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Som,   corpo e vitalidade</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Entre os <b>Kaingang</b><a name="tx05"></a><a href="#nt05"><sup>v</sup></a>,   o som atravessa a experi&ecirc;ncia do mundo como princ&iacute;pio existencial. Tudo o que &eacute;   vivo emite som; aquilo que n&atilde;o soa &eacute; compreendido como morto. Terra, &aacute;gua,   animais, vento e fogo possuem esp&iacute;rito, e &eacute; justamente por isso que produzem   som &#151; cada qual com sua musicalidade pr&oacute;pria. O som, aqui, &eacute; &iacute;ndice de   exist&ecirc;ncia. Segundo Freitas, tamb&eacute;m os nomes pessoais dos Kaingang s&atilde;o dotados   de sonoridade e efeito: no nascimento de uma crian&ccedil;a, o <i>kof&aacute;</i> – idoso   detentor dos saberes Kaingang &#45; enuncia repetidamente seu nome, fazendo ressoar   o som que contribui para fixar o esp&iacute;rito no corpo. Como observa o <i>kof&aacute;</i> Sr. Z&iacute;lio, a enuncia&ccedil;&atilde;o dos chamados "nomes do mato" constitui uma forma de   capturar, pelo som, a for&ccedil;a das madeiras, das pedras, da &aacute;gua, das sementes e   dos animais, incorporando essas pot&ecirc;ncias &agrave; pessoa Kaingang.<sup>&#91;8&#93;</sup> Assim como em outros contextos ind&iacute;genas, o som aparece menos como   representa&ccedil;&atilde;o e mais como rela&ccedil;&atilde;o: ele faz existir, conecta corpos e sustenta   modos espec&iacute;ficos de habitar o mundo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Ailton Krenak<a name="tx06"></a><a href="#nt06"><sup>vi</sup></a> entende que o canto &eacute; como uma tecnologia ancestral de produ&ccedil;&atilde;o e transmiss&atilde;o   de conhecimento, capaz de atravessar gera&ccedil;ões e sustentar a continuidade da   vida. Em suas reflexões, pr&aacute;ticas como cantar, narrar e escutar n&atilde;o operam no   registro da nostalgia, mas como pot&ecirc;ncias ativas de cria&ccedil;&atilde;o e de rela&ccedil;&atilde;o com a   natureza.<sup>&#91;9, 10&#93; </sup>O autor destaca ainda que os cantos ind&iacute;genas atuam   como formas de reencantamento do mundo, articulando dimensões est&eacute;ticas, &eacute;ticas   e espirituais, em contraste com a m&uacute;sica entendida como mercadoria.<sup>&#91;11&#93;</sup> Para Krenak, quando o c&eacute;u parece "baixo demais", pressionando a terra, "&eacute;   preciso dan&ccedil;ar e cantar para suspend&ecirc;&#45;lo… Quando fazemos o <i>taru and&eacute;</i>,   esse ritual, &eacute; a comunh&atilde;o com a teia da vida que nos d&aacute; pot&ecirc;ncia."<sup>&#91;10&#93;</sup></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Falar de   'm&uacute;sicas ind&iacute;genas' implica, antes de tudo, reconhecer uma pluralidade de   sistemas sonoros e regimes de escuta que desafiam categorias consolidadas da   m&uacute;sica ocidental, como obra, autoria individual e fixa&ccedil;&atilde;o do som."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Entre os   povos de l&iacute;ngua <b>Tupi&#45;Guarani</b>, o som ocupa igualmente um lugar fundador.   Falar, cantar ou entoar n&atilde;o s&atilde;o atos neutros: s&atilde;o gestos cosmol&oacute;gicos, pois   nessas cosmologias, a voz n&atilde;o apenas comunica: ela conecta planos de   exist&ecirc;ncia, convoca presen&ccedil;as e participa da cria&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua do mundo. Kak&aacute;   Wer&aacute; Jekup&eacute; destaca que, na cultura Tupi&#45;Guarani, conhecer &eacute; escutar. O saber   n&atilde;o se acumula por escrita ou registro externo, mas pela escuta atenta dos sons   da mata, do vento, da &aacute;gua, dos p&aacute;ssaros e dos mais velhos. Segundo a   cosmologia tupi, o universo e a humanidade emergem a partir do som e do sopro   divino. A palavra n&atilde;o &eacute; apenas meio de comunica&ccedil;&atilde;o, mas palavra&#45;alma (<i>ayvu</i>),   dotada de pot&ecirc;ncia criadora. O pr&oacute;prio termo tupy pode ser compreendido como   "som em p&eacute;", indicando a indissociabilidade entre ser, linguagem e sonoridade.   A cria&ccedil;&atilde;o do mundo, associada &agrave; figura de Tup&atilde; &#151; o som do trov&atilde;o &#151; revela uma   concep&ccedil;&atilde;o em que existir &eacute; vibrar e ressoar.<sup>&#91;12&#93;</sup></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Voz,   ritual e media&ccedil;&atilde;o entre mundos</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O choro   ritual dos <b>Bororo</b><a name="tx07"></a><a href="#nt07"><sup>vii</sup></a> exemplifica de forma contundente essa   amplia&ccedil;&atilde;o do entendimento do som. No contexto funer&aacute;rio<a name="tx08"></a><a href="#nt08"><sup>viii</sup></a>, o   pranto ocupa lugar central na elabora&ccedil;&atilde;o coletiva da morte e integra um   complexo cerimonial estruturado por uma organiza&ccedil;&atilde;o social dualista, isto &eacute;,   uma sociedade dividida em duas grandes metades que constituem polos que   estruturam rela&ccedil;ões de casamento, ritual e circula&ccedil;&atilde;o de responsabilidade   coletiva. Assim que a morte &eacute; reconhecida, as mulheres iniciam vocaliza&ccedil;ões   intensas, compostas por gritos agudos e choros prolongados. Longe de   constitu&iacute;rem uma rea&ccedil;&atilde;o individual e espont&acirc;nea, essas expressões vocais   correspondem a pr&aacute;ticas socialmente elaboradas e esperadas, por meio das quais   a comunidade manifesta o luto, reafirma v&iacute;nculos afetivos e desencadeia   processos de reorganiza&ccedil;&atilde;o social e cosmol&oacute;gica. O som, nesse contexto, atua   como elemento indispens&aacute;vel para a recomposi&ccedil;&atilde;o dos equil&iacute;brios abalados pela   morte<a name="tx09"></a><a href="#nt09"><sup>ix</sup></a>.<sup>&#91;13&#93;</sup></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Os estudos   sobre as pr&aacute;ticas sonoras dos <b>Guarani</b><a name="tx10"></a><a href="#nt10"><sup>x</sup></a>, realizados por Deise   Lucy Montardo, tratam os cantos desse povo em sua profunda vincula&ccedil;&atilde;o com o   xamanismo e com a vida ritual cotidiana. Longe de se restringirem a eventos   excepcionais, os rituais de canto, dan&ccedil;a e movimento corporal &#151; conhecidos por diferentes   nomes entre Kaiow&aacute;, Nhandeva, Mby&aacute; e Chirip&aacute; &#151; estruturam a comunica&ccedil;&atilde;o com as   divindades, a manuten&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de e o equil&iacute;brio do mundo. Nesses contextos, a   m&uacute;sica n&atilde;o &eacute; apenas express&atilde;o simb&oacute;lica, mas esfor&ccedil;o corporal e espiritual   cont&iacute;nuo, eixo central de pr&aacute;ticas coletivas que articulam cosmologia,   mitologia, cura, territ&oacute;rio e temporalidade. Assim, como sugere Montardo,<sup>&#91;14,   15&#93;</sup> compreender a musicalidade guarani implica reconhec&ecirc;&#45;la como caminho   privilegiado para o entendimento de sua cultura, em que som, corpo e   comunica&ccedil;&atilde;o com o cosmos s&atilde;o insepar&aacute;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O ritual com   os cantos de <i>Nixi Pae</i><a name="tx11"></a><a href="#nt11"><sup>xi</sup></a> &#45; nome <b>Huni Kuin</b><a name="tx12"></a><a href="#nt12"><sup>xii</sup></a> para a bebida ritual <i>ayahuasca</i> evidencia o car&aacute;ter mediador da palavra   cantada na experi&ecirc;ncia ritual. Entoados pelo <i>txana</i>, figura especializada   no uso do canto e das plantas como formas de cuidado, orienta&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o   com outros seres, esses cantos<a name="tx13"></a><a href="#nt13"><sup>xiii</sup></a>revelam uma modalidade de   percep&ccedil;&atilde;o simultaneamente corporal e sinest&eacute;sica, frequentemente descrita como   "cantos&#45;imagem" (<i>huni&#45;meka</i>), marcada pelas "mira&ccedil;ões" que emergem ao   longo da cerim&ocirc;nia. (<i><a href="#fig01">Figura 1</a></i>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a06fig01.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Nesse   contexto, audi&ccedil;&atilde;o e vis&atilde;o tornam&#45;se intensificadas e interdependentes:   percebe&#45;se um ritmo pr&oacute;prio das imagens, enquanto o canto orienta e modula os   diferentes momentos da experi&ecirc;ncia ritual, instaurando um estado ampliado de   percep&ccedil;&atilde;o. O <i>txana</i>, ao cantar, "chama a for&ccedil;a", sustenta&#45;a e,   progressivamente, conduz sua diminui&ccedil;&atilde;o, permitindo que a pessoa retorne ao   estado ordin&aacute;rio. O som da voz, ritmado pelas palavras, n&atilde;o apenas acompanha a   experi&ecirc;ncia, mas atua diretamente na condu&ccedil;&atilde;o do ver e do ouvir.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Como destaca   Els Lagrou, cantar n&atilde;o &eacute; apenas expressar ou acompanhar a experi&ecirc;ncia   vision&aacute;ria, mas participar ativamente de um processo de tornar&#45;se outro (<i>devir</i>),   no qual conhecer implica ver atrav&eacute;s dos olhos de outros seres e cantar atrav&eacute;s   de suas vozes.<sup>&#91;16&#93;</sup> Assim, os cantos dos <i>txana</i> n&atilde;o funcionam como   elementos acess&oacute;rios do ritual, mas como formas especializadas de comunica&ccedil;&atilde;o   entre humanos e outros seres &#151; animais, esp&iacute;ritos, entidades da floresta &#151; permitindo   a circula&ccedil;&atilde;o de perspectivas e a passagem de sensa&ccedil;ões entre diferentes modos   de vida. O som n&atilde;o representa   a experi&ecirc;ncia: ele a constitui.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Esses   exemplos apontam para a necessidade de compreender o som n&atilde;o como objeto   isolado, pass&iacute;vel apenas de mensura&ccedil;&atilde;o ou an&aacute;lise ac&uacute;stica, mas como rela&ccedil;&atilde;o   viva, situada e culturalmente constitu&iacute;da.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>M&uacute;sica   como a&ccedil;&atilde;o social e performance</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No &acirc;mbito   acad&ecirc;mico, as musicalidades ind&iacute;genas no Brasil v&ecirc;m sendo cada vez mais   compreendidas n&atilde;o apenas como expressões art&iacute;sticas, mas como pr&aacute;ticas que   articulam conhecimento, territ&oacute;rios e seres vis&iacute;veis e invis&iacute;veis, como   mem&oacute;ria, cosmologia, corpo e vida coletiva. Estudos desenvolvidos nas &uacute;ltimas   d&eacute;cadas mostram que cantar, tocar e escutar s&atilde;o a&ccedil;ões que produzem rela&ccedil;ões   sociais, organizam o tempo ritual e conectam humanos, n&atilde;o humanos e mundos   espirituais. Falar de "m&uacute;sicas ind&iacute;genas" implica, antes de tudo, reconhecer   uma pluralidade de sistemas sonoros e regimes de escuta que desafiam categorias   consolidadas da m&uacute;sica ocidental, como obra, autoria individual e fixa&ccedil;&atilde;o do   som.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Cantar,   chorar, nomear ou entoar s&atilde;o modos de criar mundos, nos quais corpo, som e   escuta se articulam de forma indissoci&aacute;vel."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Anthony   Seeger, em seus estudos sobre os <b>K&#297;s&ecirc;dj&ecirc;</b><a name="tx14"></a><a href="#nt14"><sup>xiv</sup></a>, propõe deslocar o foco da   an&aacute;lise da arte oral na cultura para a compreens&atilde;o da vida social como   performance. Mais do que repert&oacute;rios musicais isolados, interessa observar como   diferentes modos vocais &#151; rituais e n&atilde;o rituais &#151; se alternam e estruturam a   experi&ecirc;ncia coletiva. Muitos desses g&ecirc;neros vocais n&atilde;o se enquadram na   defini&ccedil;&atilde;o ocidental de canto, mas constituem formas essenciais de articular a   vida social. Cantar, para os <i>K&#297;s&ecirc;dj&ecirc;</i>, &eacute; um modo de produzir o   mundo social, no qual a performance ritual desempenha papel central na   constru&ccedil;&atilde;o da pessoa, das rela&ccedil;ões e da pr&oacute;pria coletividade.<sup>&#91;17&#93;</sup> Seeger destaca, assim, que o canto participa diretamente da constru&ccedil;&atilde;o da   pessoa e da coletividade, do movimento e da performance. Seus estudos   demonstram que aspectos musicais da fala &#151; como timbre, entona&ccedil;&atilde;o, ritmo e   m&eacute;trica &#151; s&atilde;o fundamentais para a efic&aacute;cia simb&oacute;lica e para a distin&ccedil;&atilde;o entre   g&ecirc;neros discursivos<a name="tx15"></a><a href="#nt15"><sup>xv</sup></a>, como narrativas ou di&aacute;logos cerimoniais.<sup>&#91;18&#93;</sup> A m&uacute;sica, nesse contexto, n&atilde;o &eacute; um objeto, mas uma a&ccedil;&atilde;o situada no tempo e no   espa&ccedil;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Sistemas   sonoros e pensamento cosmol&oacute;gico</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Essa   compreens&atilde;o encontra resson&acirc;ncia nas formula&ccedil;ões de Rafael Menezes Bastos, que   propõe pensar as m&uacute;sicas ind&iacute;genas como verdadeiros sistemas de pensamento. Em   seus trabalhos com o povo <b>Kamayur&aacute;</b><a name="tx16"></a><a href="#nt16"><sup>xvi</sup></a>, no <b>Xingu</b>, o som   n&atilde;o aparece como mero ornamento ritual, mas como operador cosmol&oacute;gico, capaz de   articular narrativas m&iacute;ticas, rela&ccedil;ões sociais e concep&ccedil;ões de mundo. Ao   deslocar o foco da an&aacute;lise musical para os pr&oacute;prios conceitos nativos, Menezes   Bastos contribui para uma cr&iacute;tica profunda &agrave;s categorias anal&iacute;ticas ocidentais   aplicadas de forma autom&aacute;tica a contextos ind&iacute;genas. Ao discutir o estado da   arte dos estudos sobre m&uacute;sica nas sociedades ind&iacute;genas das terras baixas da   Am&eacute;rica do Sul, Bastos argumenta que, em muitos contextos rituais, a m&uacute;sica n&atilde;o   atua como mero acompanhamento, mas sim como eixo organizador da experi&ecirc;ncia   ritual.<sup>&#91;19&#93;</sup> O autor destaca ainda que os repert&oacute;rios musicais da   regi&atilde;o &#151; frequentemente integrados a complexas articula&ccedil;ões entre canto,   instrumentos, gesto e dan&ccedil;a, nas quais diferentes formas de express&atilde;o atuam   conjuntamente na produ&ccedil;&atilde;o ritual do sentido. Essas sequencialidades n&atilde;o apenas   estruturam a execu&ccedil;&atilde;o musical, mas se articulam aos ciclos temporais do dia e   da noite, podendo igualmente organizar ciclos mais amplos &#151; meses, esta&ccedil;ões ou   per&iacute;odos rituais espec&iacute;ficos &#151; configurando verdadeiros calend&aacute;rios musicais.   Assim, a m&uacute;sica participa ativamente da produ&ccedil;&atilde;o do tempo social e cosmol&oacute;gico,   reafirmando seu papel central na organiza&ccedil;&atilde;o da vida ritual ind&iacute;gena.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Cantos   como mem&oacute;ria e presen&ccedil;a territorial</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">H&aacute; tamb&eacute;m   evid&ecirc;ncias de que os cantos funcionam como formas de mem&oacute;ria territorial,   articulando deslocamentos, experi&ecirc;ncias e a presen&ccedil;a ancestral nos espa&ccedil;os. O   rigor observado em muitos g&ecirc;neros rituais contribui para sustentar rela&ccedil;ões   duradouras entre humanos, outros seres e territ&oacute;rios, possibilitando sua   ocupa&ccedil;&atilde;o continuada.<sup>&#91;20&#93;</sup></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Na pesquisa   de Ros&acirc;ngela de Tugny junto aos <b>Tikm&#361;'&#361;n</b><a name="tx17"></a><a href="#nt17"><sup>xvii</sup></a>, os   cantos s&atilde;o como enciclop&eacute;dias, pois eles remetem a lugares e seres que muitas   vezes n&atilde;o existem mais fisicamente, devido &agrave; devasta&ccedil;&atilde;o territorial<a name="tx18"></a><a href="#nt18"><sup>xviii</sup></a>.   A varia&ccedil;&atilde;o nos cantos permite que a mem&oacute;ria desses lugares seja preservada e   atualizada na Mata Atl&acirc;ntica imaginada. Esses cantos ocupam um lugar central   nas rela&ccedil;ões estabelecidas com os povos&#45;esp&iacute;ritos <i>y&atilde;m&#297;yxop</i>,   entidades que se manifestam por meio de imagens, corpos e sons. Esses encontros<a name="tx19"></a><a href="#nt19"><sup>xix</sup></a> ocorrem em diferentes contextos &#151; processos de cura, rela&ccedil;ões de parentesco,   diplomacias, festas e conflitos &#151; e d&atilde;o origem a conjuntos espec&iacute;ficos de   cantos, cada qual associado a modos particulares de enuncia&ccedil;&atilde;o. Tugny   identifica dez grandes conjuntos de cantos evidenciando a diversidade e a   complexidade desse sistema sonoro. Compreender essas pr&aacute;ticas exige afastar&#45;se   da no&ccedil;&atilde;o de m&uacute;sica como forma abstrata ou representa&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica, pois os   cantos dos povos&#45;esp&iacute;ritos s&atilde;o materialidades e acontecimentos: existem no   tempo e no espa&ccedil;o como experi&ecirc;ncias efetivas de rela&ccedil;&atilde;o, conhecimento e troca   com outros mundos.<sup>&#91;20&#93;</sup></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Entre os <b>Guarani   Kaiow&aacute;</b>, o canto est&aacute; profundamente ligado   ao territ&oacute;rio e ao modo de existir coletivo. A no&ccedil;&atilde;o de <i>teko</i><a name="tx20"></a><a href="#nt20"><sup>xx</sup></a> &#151; o "modo de viver" &#151; s&oacute; se realiza plenamente em um <i>tekoha</i><a name="tx21"></a><a href="#nt21"><sup>xxi</sup></a>,   isto &eacute;, no lugar onde a vida guarani pode acontecer em sua dimens&atilde;o espiritual,   social e cosmol&oacute;gica. Nesse contexto, cantar n&atilde;o &eacute; apenas uma pr&aacute;tica ritual,   mas uma forma de afirmar v&iacute;nculos com esse lugar sagrado, onde se encontram as   divindades e os ancestrais.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Um espa&ccedil;o   central dessa experi&ecirc;ncia &eacute; a <i>opy</i>, a casa de reza, considerada o cora&ccedil;&atilde;o   da vida comunit&aacute;ria. Mais do que um espa&ccedil;o f&iacute;sico, a <i>opy</i> &eacute; um centro de   irradia&ccedil;&atilde;o espiritual: &eacute; ali que os cantos s&atilde;o entoados, que a comunica&ccedil;&atilde;o com   os seres divinos se atualiza e que se sustenta a for&ccedil;a que protege o   territ&oacute;rio. Os cantos realizados na <i>opy</i> n&atilde;o apenas expressam uma cosmologia &#151; eles   contribuem para mant&ecirc;&#45;la viva, produzindo continuidade entre corpo, palavra,   terra e mundo invis&iacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Essa dimens&atilde;o   territorial do canto aparece de modo particularmente contundente nas retomadas   Kaiow&aacute;<a name="tx22"></a><a href="#nt01"><sup>xxii</sup></a>. Quando comunidades realizam processos de reocupa&ccedil;&atilde;o de   seus territ&oacute;rios tradicionais, a reconstru&ccedil;&atilde;o da casa de reza e o in&iacute;cio dos   cantos figuram entre os primeiros atos coletivos. Cantar, nesse caso, &eacute; tamb&eacute;m   marcar presen&ccedil;a, afirmar que aquele espa&ccedil;o &eacute; ind&iacute;gena e restabelecer rela&ccedil;ões   interrompidas pela viol&ecirc;ncia hist&oacute;rica da expropria&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &eacute; por acaso que   ataques &agrave;s comunidades frequentemente incluem o inc&ecirc;ndio de <i>opy</i>:   trata&#45;se de destruir n&atilde;o apenas uma constru&ccedil;&atilde;o material, mas um dos principais   eixos de sustenta&ccedil;&atilde;o da vida Kaiow&aacute;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Esses   diferentes exemplos evidenciam que, em contextos ind&iacute;genas, a voz n&atilde;o &eacute; apenas   meio de express&atilde;o, mas lugar de passagem de for&ccedil;as, saberes e rela&ccedil;ões. <b>Cantar,   chorar, nomear ou entoar s&atilde;o modos de criar mundos, nos quais corpo, som e   escuta se articulam de forma indissoci&aacute;vel</b>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Circula&ccedil;&atilde;o,   varia&ccedil;&atilde;o e transforma&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Embora   profundamente enraizadas em contextos espec&iacute;ficos, as m&uacute;sicas ind&iacute;genas no   Brasil revelam tamb&eacute;m intensos processos de circula&ccedil;&atilde;o, varia&ccedil;&atilde;o e   transforma&ccedil;&atilde;o. Repert&oacute;rios, cantos e modos de fazer m&uacute;sica atravessam   fronteiras entre povos, mantendo continuidades formais ao longo do tempo. Ao   mesmo tempo, adaptam&#45;se a novos contextos hist&oacute;ricos e sociais. A tradi&ccedil;&atilde;o,   nesse sentido, n&atilde;o se opõe &agrave; mudan&ccedil;a, mas se realiza por meio dela.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Pesquisas   realizadas entre os <b>Wauj&aacute;</b> do Alto Xingu revelam que a varia&ccedil;&atilde;o &eacute; um   princ&iacute;pio central na cria&ccedil;&atilde;o musical. A partir do trabalho de Ac&aacute;cio Piedade   sobre a m&uacute;sica instrumental desse povo,   torna&#45;se evidente que a composi&ccedil;&atilde;o das chamadas "flautas sagradas" (<i>kawok&aacute;</i>)   n&atilde;o se baseia na repeti&ccedil;&atilde;o fixa de uma melodia, mas na transforma&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua   de ideias musicais.<sup>&#91;21&#93;</sup> Esses elementos &#151; os motivos &#151; funcionam   tanto como marcas de pe&ccedil;as individuais quanto como sinais que identificam   conjuntos maiores de m&uacute;sicas organizadas em sequ&ecirc;ncias. As varia&ccedil;ões podem   ocorrer de diversas formas, como alongar ou encurtar frases, mudar a altura dos   sons ou reorganizar seus contornos, produzindo novas versões a partir de um   mesmo material.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Maria Ignez   Mello mostrou que esse mesmo princ&iacute;pio da varia&ccedil;&atilde;o est&aacute; tamb&eacute;m presente na   m&uacute;sica vocal feminina Wauj&aacute; performada durante o ritual <i>Yamurikum&atilde;</i><a name="tx23"></a><a href="#nt23"><sup>xxiii</sup></a>.   Esses cantos<a name="tx24"></a><a href="#nt24"><sup>xxiv</sup></a> constituem versões vocais das m&uacute;sicas das flautas,   tradicionalmente tocadas pelos homens, uma vez que, na tradi&ccedil;&atilde;o xinguana, as   mulheres n&atilde;o podem toc&aacute;&#45;las &#151; e, em alguns casos, sequer v&ecirc;&#45;las &#151;, restri&ccedil;&atilde;o   vinculada a formas espec&iacute;ficas de organiza&ccedil;&atilde;o ritual, rela&ccedil;ões de g&ecirc;nero e   circula&ccedil;&atilde;o controlada de conhecimentos e poderes cosmol&oacute;gicos. Assim, a   varia&ccedil;&atilde;o atravessa n&atilde;o apenas os g&ecirc;neros musicais, mas tamb&eacute;m as divisões de   g&ecirc;nero, articulando repert&oacute;rios distintos a partir de um mesmo princ&iacute;pio   composicional.<sup>&#91;22&#93;</sup> Nesse contexto, a varia&ccedil;&atilde;o n&atilde;o organiza apenas   cada m&uacute;sica individualmente, mas tamb&eacute;m as sequ&ecirc;ncias musicais que compõem   esses repert&oacute;rios.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Instrumentos   e cosmologias do som</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Esse   princ&iacute;pio de varia&ccedil;&atilde;o, central na organiza&ccedil;&atilde;o dos repert&oacute;rios musicais,   estende&#45;se tamb&eacute;m ao universo instrumental. Assim como as m&uacute;sicas se constroem   por transforma&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua, os instrumentos participam de processos semelhantes   de circula&ccedil;&atilde;o, adapta&ccedil;&atilde;o e recria&ccedil;&atilde;o, tanto em sua forma sonora quanto em sua   materialidade e nos contextos em que s&atilde;o ativados. Trata&#45;se de um deslocamento   de meio, n&atilde;o de regime: <i>o som continua produzindo mundos</i>. Assim como os   cantos, os instrumentos ind&iacute;genas n&atilde;o se organizam segundo sistemas fixos ou   universalizantes, mas a partir de concep&ccedil;ões locais que articulam forma sonora,   fun&ccedil;&atilde;o ritual, materialidade e cosmologia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Embora a   literatura etnomusicol&oacute;gica recorra frequentemente &agrave; classifica&ccedil;&atilde;o de   Hornbostel&#45;Sachs<a name="tx25"></a><a href="#nt25"><sup>xxv</sup></a> &#151; distinguindo aerofones, idiofones,   membranofones e cordofones &#151;, essa tipologia revela&#45;se limitada para   compreender os modos ind&iacute;genas de pensar e usar os instrumentos.<sup>&#91;23&#93;</sup> Em diferentes povos, sopros, percussões e cordas circulam entre contextos   rituais, festas, pr&aacute;ticas xam&acirc;nicas e situa&ccedil;ões cotidianas, podendo assumir   nomes, fun&ccedil;ões e significados distintos conforme o grupo, o momento e a a&ccedil;&atilde;o   envolvida.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Como aponta   Seeger, mais do que a forma ac&uacute;stica ou construtiva, s&atilde;o crit&eacute;rios como <i>quem   fabrica, quem toca, quando, onde, como e por que se toca</i> que estruturam o   sentido desses instrumentos, evidenciando que varia&ccedil;&atilde;o e transforma&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m   s&atilde;o princ&iacute;pios centrais na organiza&ccedil;&atilde;o instrumental ind&iacute;gena.<sup>&#91;24&#93;</sup> O   pesquisador observa que "o significado dos materiais para o grupo que fabrica   os instrumentos &eacute; certamente uma das informa&ccedil;ões mais relevantes", uma vez que   a feitura instrumental obedece a regras que variam de povo para povo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No noroeste   amaz&ocirc;nico, entre os povos do <b>Alto Rio Negro</b><a name="tx26"></a><a href="#nt26"><sup>xxvi</sup></a>, os   instrumentos de sopro ocupam lugar central nos sistemas musicais e rituais.   Flautas como o <i>cari&ccedil;o</i> e a <i>japurutu</i> constituem n&atilde;o apenas   dispositivos sonoros, mas verdadeiros operadores cosmol&oacute;gicos que acontecem   durante as festas de <i>Dabucuri</i>. Associadas a narrativas de origem,   regimes espec&iacute;ficos de escuta e regras de acesso &#151; muitas vezes restritas a   determinados grupos ou g&ecirc;neros &#151;, essas flautas ativam rela&ccedil;ões entre humanos,   ancestrais e outros seres do cosmos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Um aspecto   central dos sistemas de flautas do Alto Rio Negro &eacute; sua organiza&ccedil;&atilde;o musical   alternada<a name="tx27"></a><a href="#nt27"><sup>xxvii</sup></a>, na qual uma mesma melodia &eacute; distribu&iacute;da entre dois   grupos de tocadores, de modo que a linha completa s&oacute; se realiza na   complementaridade sonora. Esse princ&iacute;pio enfatiza a coordena&ccedil;&atilde;o coletiva e a   escuta atenta como condi&ccedil;ões de produ&ccedil;&atilde;o musical em que interdepend&ecirc;ncia e   rela&ccedil;&atilde;o entre partes constituem a exist&ecirc;ncia do todo.<sup>&#91;23&#93;</sup> O sistema   alternado n&atilde;o &eacute; exclusivo do Alto Rio Negro. Formas semelhantes de sistema   alternado tamb&eacute;m aparecem em outros contextos, como na forma de tocar as   taquaras no Xingu<a name="tx28"></a><a href="#nt28"><sup>xxxviii</sup></a> e a dupla de flautas <i>kunh&atilde; mimby pu</i><a name="tx29"></a><a href="#nt29"><sup>xxix</sup></a>,   tocada pelas mulheres Guarani.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A escolha dos   materiais &#151; como determinadas madeiras, sementes ou fibras &#151; n&atilde;o &eacute; arbitr&aacute;ria,   mas profundamente vinculada a concep&ccedil;ões cosmol&oacute;gicas, frequentemente   explicadas por mitos de origem que estabelecem rela&ccedil;ões entre o instrumento, os   seres da natureza e os dom&iacute;nios do invis&iacute;vel.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Materialidade   e adapta&ccedil;&atilde;o dos instrumentos</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Entre os <b>Ikolen&#45;Gavi&atilde;o</b><a name="tx30"></a><a href="#nt30"><sup>xxx</sup></a>,   em Rond&ocirc;nia, instrumentos de sopro feitos de bambu devem ser descartados ap&oacute;s o   ritual, pois se acredita que podem reter pot&ecirc;ncias perigosas associadas aos <i>Goj&aacute;n&eacute;hj</i>,   "esp&iacute;ritos das &aacute;guas", donos dos peixes e respons&aacute;veis por chuvas e enchentes,   capazes de provocar doen&ccedil;as e desequil&iacute;brios quando desrespeitados.<sup>&#91;23&#93;</sup> Invis&iacute;veis aos humanos comuns, esses seres s&atilde;o percebidos pelo paj&eacute;, que,   segundo a tradi&ccedil;&atilde;o, aprendeu com eles as t&eacute;cnicas de constru&ccedil;&atilde;o e afina&ccedil;&atilde;o das   flautas durante uma inicia&ccedil;&atilde;o no mundo subaqu&aacute;tico. Essa rela&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima com os   esp&iacute;ritos aqu&aacute;ticos explica por que os Ikolen entendem que uma   transforma&ccedil;&atilde;o dr&aacute;stica no ambiente aqu&aacute;tico afetaria profundamente os <i>Goj&aacute;n&eacute;hj</i> enquanto coletivo, por duas razões principais. Em primeiro lugar, porque   poderia provocar a morte de muitos peixes, considerados pertencentes a esses   seres e por eles domesticados. Em segundo, porque desestabilizaria a pr&oacute;pria   organiza&ccedil;&atilde;o do mundo subaqu&aacute;tico, rompendo seu equil&iacute;brio e instaurando uma situa&ccedil;&atilde;o   de desordem e caos cosmol&oacute;gico.<sup>&#91;25&#93;</sup> (<i><a href="#fig02">Figura 2</a></i>)</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a06fig02.jpg"></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Nesses   sistemas de pensamento, os instrumentos n&atilde;o s&atilde;o concebidos como objetos   inertes, mas como corpos sonoros investidos de ag&ecirc;ncia, capazes de incorporar   poderes associados a esp&iacute;ritos da natureza, seres sobrenaturais, animais ou   mesmo a coletividades humanas espec&iacute;ficas. Assim, fabricar, tocar e descartar   um instrumento constitui um processo ritual complexo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em diferentes contextos hist&oacute;ricos e territoriais, instrumentos podem   ser adaptados a novas geografias, seja pela aus&ecirc;ncia de determinados materiais,   seja pela necessidade de reformular t&eacute;cnicas construtivas, timbres e usos. Um   exemplo dessa adapta&ccedil;&atilde;o material &eacute; a <i>japurutu</i><a name="tx31"></a><a href="#nt31"><sup>xxxi</sup></a> &#151; flauta   longa sem furos usada por diversos povos do Alto Rio Negro. A japurutu   atualmente tem sido confeccionada com tubo de PVC em contextos urbanos, como na   periferia de Manaus, onde o tipo de bambu tradicionalmente utilizado n&atilde;o est&aacute;   dispon&iacute;vel. A substitui&ccedil;&atilde;o do material n&atilde;o implica perda de sentido ritual ou   musical, mas evidencia a capacidade de atualiza&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica dos instrumentos,   preservando sua fun&ccedil;&atilde;o sonora e relacional. (<i><a href="#fig03">Figura 3</a></i>)</font></p>     <p><a name="fig03"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a06fig03.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Tamb&eacute;m se   observa a assimila&ccedil;&atilde;o criativa de instrumentos de origem ex&oacute;gena, que passam a   integrar sistemas musicais ind&iacute;genas segundo l&oacute;gicas pr&oacute;prias.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Entre os <b>Guarani   Mby&aacute;</b>, por exemplo, instrumentos como a rabeca (<i>rav&eacute;</i>) e o viol&atilde;o (<i>mbarak&aacute;</i><a name="tx32"></a><a href="#nt32"><sup>xxxii</sup></a>),   de origem ib&eacute;rica<a name="tx33"></a><a href="#nt33"><sup>xxxiii</sup></a>, foram incorporados &agrave;s pr&aacute;ticas musicais n&atilde;o   como simples empr&eacute;stimos, mas como elementos transformados e plenamente   inseridos em circuitos rituais espec&iacute;ficos. Hoje, essa dupla instrumental   configura um n&uacute;cleo fundamental da musicalidade Mby&aacute;, sustentando o canto e a   coletividade sonora<a name="tx34"></a><a href="#nt34"><sup>xxxiv</sup></a>, especialmente em contextos de <i>mborai</i><a name="tx35"></a><a href="#nt35"><sup>xxxv</sup></a> (cantos&#45;reza), assim como em performances do <i>xondaro</i><a name="tx36"></a><a href="#nt36"><sup>xxxvi</sup></a>. A   pr&oacute;pria denomina&ccedil;&atilde;o do viol&atilde;o como <i>mbarak&aacute; </i>&eacute; particularmente reveladora:   ao marcar o pulso e sustentar o canto, ele assume o papel an&aacute;logo ao de um   instrumento de percuss&atilde;o ampliada &#45; um "chocalho grande" &#45; enquanto o chocalho   de caba&ccedil;a &eacute; chamado de <i>mbarak&aacute; mir&#297;</i>, "chocalho pequeno". No modo   guarani de pensar os instrumentos, o viol&atilde;o n&atilde;o &eacute; apenas um instrumento de   cordas: ele marca o pulso do canto e se aproxima do papel do chocalho. (<i><a href="#fig04">Figura   4</a></i>)</font></p>     <p><a name="fig04"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a06fig04.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Esses processos evidenciam que a transforma&ccedil;&atilde;o &#151; no sentido proposto   por L&eacute;vi&#45;Strauss (2004) <sup>&#91;26&#93;</sup> em seus estudos sobre os mitos &#151; n&atilde;o   deve ser entendida como simples ruptura ou substitui&ccedil;&atilde;o, mas como um princ&iacute;pio   estrutural pelo qual formas culturais se reinventam preservando rela&ccedil;ões   fundamentais. Assim, tamb&eacute;m no campo instrumental ind&iacute;gena, a incorpora&ccedil;&atilde;o de   novos materiais ou instrumentos n&atilde;o implica abandono do sistema anterior, mas a   reconfigura&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua de fun&ccedil;ões, sentidos e ag&ecirc;ncias sonoras. &Eacute; nesse   movimento que se funda a din&acirc;mica musical ind&iacute;gena: n&atilde;o na oposi&ccedil;&atilde;o entre   perman&ecirc;ncia e mudan&ccedil;a, mas na transforma&ccedil;&atilde;o como modo de continuidade.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O instrumento amplamente disseminado entre diferentes povos ind&iacute;genas &eacute; o   chocalho, mais conhecido como marac&aacute; (<i>mbarak&aacute;</i>), cuja denomina&ccedil;&atilde;o varia   conforme cada povo<a name="tx37"></a><a href="#nt37"><sup>xxxvii</sup></a>. Em diferentes contextos ind&iacute;genas, o   marac&aacute; constitui um objeto multiss&ecirc;mico, pois concentra m&uacute;ltiplas camadas de   significado: &eacute; simultaneamente instrumento sonoro, dispositivo ritual, signo de   autoridade e meio de comunica&ccedil;&atilde;o com dimensões n&atilde;o humanas. Em l&iacute;nguas   tupi&#45;guarani, <i>mbarak&aacute;</i> nomeia n&atilde;o apenas um chocalho, mas um artefato de   media&ccedil;&atilde;o ritual, frequentemente associado a cantos, cura e comunica&ccedil;&atilde;o com   outros seres em diferentes territ&oacute;rios. Pode ser confeccionado a partir de   diferentes materiais e produzir sonoridades variadas. Mais do que um simples   instrumento de percuss&atilde;o, &eacute; frequentemente compreendido como portador da voz   dos ancestrais, na forma de seres espirituais, animais ou entidades   cosmol&oacute;gicas. Seu uso est&aacute; profundamente associado a pr&aacute;ticas rituais,   xam&acirc;nicas e narrativas, nas quais o som n&atilde;o apenas acompanha o canto, mas atua   como agente de comunica&ccedil;&atilde;o entre mundos. Sua materialidade e seu som operam   como modos de rela&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o como simples acompanhamento musical. Viveiros de   Castro formula uma ideia que sintetiza esse pensamento: "O chocalho do xam&atilde; &eacute;   um acelerador de part&iacute;culas".<sup>&#91;27&#93;</sup> Nesse sentido, o marac&aacute; n&atilde;o &eacute; um   objeto inerte, seu som ativa rela&ccedil;ões entre humanos, esp&iacute;ritos e animais,   tornando poss&iacute;vel a comunica&ccedil;&atilde;o entre diferentes dimensões do mundo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Aprender   a escutar: considera&ccedil;ões finais</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Ao reunir   essas diferentes etnografias e formula&ccedil;ões te&oacute;ricas, este artigo buscou   evidenciar que as musicalidades ind&iacute;genas no Brasil n&atilde;o podem ser compreendidas   apenas como expressões art&iacute;sticas ou repert&oacute;rios sonoros circunscritos a   contextos rituais espec&iacute;ficos. Elas constituem modos de conhecimento, formas de   rela&ccedil;&atilde;o e tecnologias sens&iacute;veis de produ&ccedil;&atilde;o de mundos, nas quais som, corpo,   territ&oacute;rio e escuta se articulam de maneira indissoci&aacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Nesses   contextos, cantar, tocar, chorar, nomear ou fabricar instrumentos n&atilde;o s&atilde;o a&ccedil;ões   acess&oacute;rias &agrave; vida social, mas pr&aacute;ticas centrais de exist&ecirc;ncia. Para Beaudet   (1997),<sup>&#91;28&#93;</sup> o som n&atilde;o &eacute; apenas representa&ccedil;&atilde;o do mundo, mas um modo   de faz&ecirc;&#45;lo acontecer. Vozes e instrumentos operam como mediadores entre humanos   e outros seres, organizando temporalidades, redistribuindo perspectivas e   sustentando continuidades territoriais e cosmol&oacute;gicas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Levar a s&eacute;rio   essas musicalidades implica um deslocamento epistemol&oacute;gico para os estudos   sobre m&uacute;sica, som e ci&ecirc;ncia. Mais do que ampliar repert&oacute;rios ou categorias   anal&iacute;ticas, trata&#45;se de reconhecer a escuta como pr&aacute;tica fundamental de   conhecimento &#151; uma escuta situada, relacional e aprendida, capaz de desafiar a   separa&ccedil;&atilde;o moderna entre natureza e cultura, sujeito e objeto, arte e ci&ecirc;ncia.Em   um contexto marcado pela crise ambiental, pela homogeneiza&ccedil;&atilde;o cultural e pela   mercantiliza&ccedil;&atilde;o da m&uacute;sica, as musicalidades ind&iacute;genas oferecem n&atilde;o um modelo a   ser apropriado, mas uma provoca&ccedil;&atilde;o &eacute;tica e epistemol&oacute;gica. Elas nos lembram que   conhecer &eacute;, antes de tudo, aprender a escutar: escutar o outro, o territ&oacute;rio,   os ritmos do mundo e os modos plurais de exist&ecirc;ncia que nele ressoam.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;1&#93; HARAWAY, Donna. Saberes    situados: a quest&atilde;o da ci&ecirc;ncia   para o feminismo e o privil&eacute;gio   da perspectiva parcial. Cadernos   Pagu, n. 5, p. 7&#151;41, 1995.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143724&pid=S0009-6725202600010000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;2&#93; INGOLD, Tim. Estar vivo:   ensaios sobre movimento,   conhecimento e descri&ccedil;&atilde;o.   Petr&oacute;polis: Vozes, 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143726&pid=S0009-6725202600010000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;3&#93; INSTITUTO BRASILEIRO DE   GEOGRAFIA E ESTAT&Iacute;STICA   (IBGE). O Brasil Ind&iacute;gena: Censo   Demogr&aacute;fico 2022. Rio de Janeiro:   IBGE, 2022. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.ibge.gov.br/brasil&#45;indigena/" target="_blank">https://www.ibge.gov.br/brasil&#45;indigena/</a>.   Acesso em: 29 jan. 2026.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143728&pid=S0009-6725202600010000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;4&#93; BOURDIEU, Pierre. O senso   pr&aacute;tico. Petr&oacute;polis: Vozes, 2009.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143730&pid=S0009-6725202600010000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;5&#93; FELD, Steven. Sound and   sentiment: birds, weeping, poetics,   and song in Kaluli expression. 3.   ed. Durham: Duke University Press,   2012.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143732&pid=S0009-6725202600010000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;6&#93; KOPENAWA, Davi; ALBERT,   Bruce. A queda do c&eacute;u: palavras   de um xam&atilde; yanomami. S&atilde;o Paulo:   Companhia das Letras, 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143734&pid=S0009-6725202600010000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;7&#93; SETTI, Kilza. Amj&oacute;kin: m&uacute;sica   dos povos Timbira Canela&#45;Apaniekr&aacute;, Krikati, Canela&#45;Ramkokamekr&aacute;, Gavi&atilde;o&#45;Pykopj&ecirc;,   Apinaj&eacute; e Krah&ocirc;. Encarte de CD.   S&atilde;o Paulo, 2004.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143736&pid=S0009-6725202600010000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;8&#93; FREITAS, Ana Elisa. Mrur Jykre   &#45; a cultura do cip&oacute;: territorialidade   Kaingang na margem leste do   Lago Gua&iacute;ba. Tese de Doutorado   no PPGAS/ UFRGS. Porto Alegre,   2005</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143738&pid=S0009-6725202600010000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;9&#93; KRENAK, Ailton. Ideias para   adiar o fim do mundo. S&atilde;o Paulo:   Companhia das Letras, 2019.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143739&pid=S0009-6725202600010000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;10&#93; KRENAK, Ailton. A vida n&atilde;o  &eacute; &uacute;til. S&atilde;o Paulo: Companhia das   Letras, 2020.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143741&pid=S0009-6725202600010000600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;11&#93; KRENAK, Ailton. Futuro   ancestral. S&atilde;o Paulo: Companhia   das Letras, 2022.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143743&pid=S0009-6725202600010000600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;12&#93; JECUP&Eacute;, Kak&aacute; Wer&aacute;. Tup&atilde;  Tenond&eacute;: a cria&ccedil;&atilde;o do Universo,   da Terra e do Homem segundo a   tradi&ccedil;&atilde;o oral Guarani. 2. ed. S&atilde;o   Paulo: Peir&oacute;polis, 2011.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143745&pid=S0009-6725202600010000600012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;13&#93; KELMER, Jo&atilde;o. Fazendo   parentesco com os mortos no   Brasil Central: luto, mem&oacute;ria   e ritual entre os Boe (Bororo).   Mana, Rio de Janeiro, v. 31, n. 1,   e202501, 2025. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.scielo.br/j/mana/a/gdsbQF9gLd439Lny4ZKFVWb/" target="_blank">https://www.scielo.br/j/mana/a/gdsbQF9gLd439Lny4ZKFVWb/</a>.   Acesso em: 28 jan. 2026.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143747&pid=S0009-6725202600010000600013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;14&#93; MONTARDO, Deise Lucy.   Atrav&eacute;s do mbaraka: m&uacute;sica e   xamanismo guarani. 2002. Tese   (Doutorado em Antropologia   Social) &#151; Universidade de S&atilde;o   Paulo, S&atilde;o Paulo, 2002.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143749&pid=S0009-6725202600010000600014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;15&#93; MONTARDO, Deise Lucy   Oliveira. Uma antropologia da   m&uacute;sica Guarani. Tellus, &#91;S. l.&#93;, n. 7,   p. 73&#151;91, 2014. DOI: 10.20435/tellus.v0i7.87. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://tellusucdb.emnuvens.com.br/tellus/article/view/87" target="_blank">https://tellusucdb.emnuvens.com.br/tellus/article/view/87</a>. Acesso   em: 26 jan. 2026.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143751&pid=S0009-6725202600010000600015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;16&#93; LAGROU, Els. Anacondabecoming:   Huni Kuin image&#45;songs,   an Amerindian relational aesthetics.   Horizonte. antropol. 24 (51) May&#45;Aug 2018 <a href="https://doi.org/10.1590/S0104&#45;71832018000200002" target="_blank">https://doi.org/10.1590/S0104&#45;71832018000200002</a></font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143753&pid=S0009-6725202600010000600016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;17&#93; SEEGER, Anthony. Why Suy&aacute;  sing: a musical anthropology of an   Amazonian people. Cambridge:   Cambridge University Press, 1987.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143754&pid=S0009-6725202600010000600017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;18&#93; SEEGER, Anthony. Os &iacute;ndios   e n&oacute;s: estudos sobre sociedades   tribais brasileiras. Rio de Janeiro:   Campus, 1980.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143756&pid=S0009-6725202600010000600018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;19&#93; MENEZES BASTOS, Rafael   Jos&eacute; de. M&uacute;sica nas sociedades   ind&iacute;genas das terras baixas da   Am&eacute;rica do Sul: estado da arte.   Mana: Estudos de Antropologia   Social, Rio de Janeiro, v. 13, n. 2, p.   293&#151;316, out. 2007. DOI: 10.1590/S0104&#45;93132007000200001.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143758&pid=S0009-6725202600010000600019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> &#91;20&#93; TUGNY, Ros&acirc;ngela Pereira   de. Reverbera&ccedil;&otilde;es entre cantos e   corpos na escrita Tikm&#361;&rsquo;&#361;n. TRANS  &#151; Revista Transcultural de M&uacute;sica,   n. 15, 2011.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;21&#93; PIEDADE, Ac&aacute;cio Tadeu de   Camargo. As flautas sagradas   Wauja do Alto Xingu. Mana:   Estudos de Antropologia Social,   Rio de Janeiro, v. 10, n. 2, p.   337&#151;366, out. 2004. DOI: 10.1590/S0104&#45;93132004000200005.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143761&pid=S0009-6725202600010000600021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;22&#93; MELLO, Maria Ign&ecirc;s Cruz.   M&uacute;sica e mito entre os Wauja do   Alto Xingu. 1999. Disserta&ccedil;&atilde;o   (Mestrado em Antropologia Social)  &#151; Universidade Federal de Santa   Catarina, Florian&oacute;polis, 1999.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143763&pid=S0009-6725202600010000600022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;23&#93; PUCCI, Magda; ALMEIDA,   Berenice. Cantos da floresta:   inicia&ccedil;&atilde;o ao universo musical   ind&iacute;gena. S&atilde;o Paulo: Peir&oacute;polis,   2017.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143765&pid=S0009-6725202600010000600023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;24&#93; SEEGER, Anthony. Novos   Horizontes na Classifica&ccedil;&atilde;o dos   Instrumentos Musicais. In: RIBEIRO,   Berta. (Coord.) Arte &Iacute;ndia &#151; Suma   Etnol&oacute;gica Brasileira &#151; Vol 3.   Petr&oacute;polis: Vozes/FINEP/Darcy   Ribeiro, 1986.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143767&pid=S0009-6725202600010000600024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;25&#93; INSTITUTO   SOCIOAMBIENTAL (ISA). Povos   Ind&iacute;genas no Brasil: base de dados   e enciclop&eacute;dia digital. S&atilde;o Paulo:   ISA, s.d. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://pib.socioambiental.org/" target="_blank">https://pib.socioambiental.org/</a>. Acesso em:   29 jan. 2026.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143769&pid=S0009-6725202600010000600025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;26&#93; L&Eacute;VI&#45;STRAUSS, Claude. O cru   e o cozido. Tradu&ccedil;&atilde;o de Beatriz   Perrone&#45;Mois&eacute;s. S&atilde;o Paulo: Cosac   Naify, 2004. (Mythologiques I,   1964).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143771&pid=S0009-6725202600010000600026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana"> &#91;27&#93; VIVEIROS DE CASTRO,   Eduardo. in: SZTUTMAN, Renato   (org.). Encontros: Eduardo Viveiros   de Castro. Rio de Janeiro: Azougue   Editorial, 2007.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=143773&pid=S0009-6725202600010000600027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"> &#91;28&#93; BEAUDET, Jean&#45;Michel. Souffles d&rsquo;Amazonie: les orchestres  &ldquo;tule&rdquo; des Way&atilde;pi. Nanterre:   Soci&eacute;t&eacute; d&rsquo;Ethnologie, 1997</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Notas</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Como   a escuta &eacute; parte central das quest&otilde;es discutidas, est&atilde;o inclusas nas notas   refer&ecirc;ncias registros sonoros e audiovisuais que exemplificam alguns dos   repert&oacute;rios citados.    <br>   <a name="nt01"></a><a href="#tx01"><sup>i.</sup></a>Ao abordar as musicalidades   ind&iacute;genas, &eacute; crucial diferenci&aacute;&#45;las desde o in&iacute;cio de paradigmas consolidados   no estudo de outras tradi&ccedil;&otilde;es. Pode parecer, &agrave; primeira vista, que seus   princ&iacute;pios &#151; como a transmiss&atilde;o oral e a liga&ccedil;&atilde;o com um coletivo &#151; assemelham&#45;se   aos das chamadas m&uacute;sicas folcl&oacute;ricas ou da cultura popular, frequentemente   veiculadas por teorias rom&acirc;nticas. Teorias como a do Volkslied (&quot;voz do   povo&quot;), de Johann Gottfried Herder, e seus desdobramentos nos trabalhos   dos irm&atilde;os Grimm e de Cecil Sharp, opunham&#45;se &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es culturais sob o   argumento de que uma &quot;pureza&quot; origin&aacute;ria expressaria a alma nacional.   Tal postura era sustentada por uma nostalgia de um passado rural idealizado e   pelo receio da perda de autenticidade diante da modernidade industrial. As   musicalidades ind&iacute;genas, contudo, n&atilde;o se enquadram nesse paradigma. Sua   finalidade primordial n&atilde;o &eacute; a preserva&ccedil;&atilde;o de uma identidade &eacute;tnica est&aacute;tica,   mas a manuten&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es c&oacute;smicas que sustentam o mundo vivo. Elas n&atilde;o constituem   uma rea&ccedil;&atilde;o &agrave; modernidade, pois operam a partir de l&oacute;gicas temporais e   ontol&oacute;gicas que lhe s&atilde;o anteriores e posteriores. Por fim, e de modo   fundamental, n&atilde;o s&atilde;o um objeto de estudo a ser decifrado, mas sistemas de   conhecimento vivos e complexos, com os quais se pode e deve estabelecer   di&aacute;logo.    <br>   <a name="nt02"></a><a href="#tx02"><sup>ii.</sup></a>Habitus, termo conceituado   por Pierre Bourdieu, &eacute; o conjunto de disposi&ccedil;&otilde;es dur&aacute;veis e incorporadas &#151;   formas de perceber, sentir e agir &#151; que adquirimos ao longo da vida por meio da   experi&ecirc;ncia social. Ele orienta nossas pr&aacute;ticas e escolhas de maneira muitas   vezes inconsciente, reproduzindo modos de estar no mundo ligados &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es   sociais em que vivemos.    <br>   <a name="nt03"></a><a href="#tx03"><sup>iii.</sup></a>Os Timbira formam um   conjunto de povos ind&iacute;genas falantes de l&iacute;nguas do tronco Macro&#45;J&ecirc;, que   compartilham semelhan&ccedil;as culturais e habitam, predominantemente, o Cerrado no   Maranh&atilde;o e Tocantins. Os principais povos que comp&otilde;em esse grupo, tamb&eacute;m   conhecidos por realizarem atividades conjuntas como o movimento pan&#45;Timbira,   incluem: Gavi&atilde;o&#45;Pykopj&ecirc;, Canela&#45;Ramkokamekr&aacute;, Canela&#45;Ap&atilde;ni&ecirc;kr&aacute;, Apinaj&eacute;, Krah&ocirc;   e Krikat&iacute;.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="nt04"></a><a href="#tx04"><sup>iv.</sup></a>Exemplo audiovisual (Gavi&atilde;o   Pykopj&ecirc;). Wyty: Os cantos de resist&ecirc;ncia Gavi&atilde;o Pykopj&ecirc; (document&aacute;rio em v&iacute;deo,   Festival Ind&iacute;genas.BR, 2023), dire&ccedil;&atilde;o de Djuena Tikuna, Diego Janat&atilde; e Vinicius   Berger. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://youtu.be/VY4Gj5sYyCA" target="_blank">https://youtu.be/VY4Gj5sYyCA</a>    <br>   <a name="nt05"></a><a href="#tx05"><sup>v.</sup></a>O povo Kaingang &eacute; um dos   principais povos ind&iacute;genas do sul do Brasil, pertencente ao tronco lingu&iacute;stico   Macro&#45;J&ecirc;. Vive principalmente nos estados do Paran&aacute;, Santa Catarina, Rio Grande   do Sul e S&atilde;o Paulo, em terras ind&iacute;genas distribu&iacute;das por diferentes regi&otilde;es. Os   Kaingang possuem uma longa hist&oacute;ria de resist&ecirc;ncia, marcada pela defesa de seus   territ&oacute;rios e pela manuten&ccedil;&atilde;o de seus modos de vida.    <br>   <a name="nt06"></a><a href="#tx06"><sup>vi.</sup></a>O povo Krenak &eacute; um povo   ind&iacute;gena origin&aacute;rio do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, cuja hist&oacute;ria &eacute;   marcada por intensos processos de viol&ecirc;ncia territorial, deslocamentos e   resist&ecirc;ncia. Ailton Krenak, como lideran&ccedil;a e intelectual desse povo,   frequentemente retoma a rela&ccedil;&atilde;o vital com o rio &#151; chamado Watu, "av&ocirc;" em sua   l&iacute;ngua &#151; como express&atilde;o de uma cosmologia em que territ&oacute;rio, mem&oacute;ria e   exist&ecirc;ncia s&atilde;o insepar&aacute;veis.    <br>   <a name="nt07"></a><a href="#tx07"><sup>vii.</sup></a>Os Bororo &#45; autodenominados   Boe &#45; s&atilde;o um povo ind&iacute;gena que vive principalmente no estado de Mato Grosso, na   regi&atilde;o Centro&#45;Oeste do Brasil, reconhecido por sua complexa organiza&ccedil;&atilde;o social   e por elaboradas tradi&ccedil;&otilde;es rituais, especialmente os funerais, nos quais canto   e dan&ccedil;a t&ecirc;m papel central.    <br>   <a name="nt08"></a><a href="#tx08"><sup>viii.</sup></a>O choro ritual e as   lamenta&ccedil;&otilde;es funer&aacute;rias bororo constituem um dos temas cl&aacute;ssicos da etnologia do   Brasil Central, descrito desde os primeiros registros do s&eacute;culo XX (Reis 1917;   Baldus 1937), passando pelas interpreta&ccedil;&otilde;es estruturalistas de L&eacute;vi&#45;Strauss   (1955) e pelas descri&ccedil;&otilde;es detalhadas de Koz&aacute;k (1963), at&eacute; an&aacute;lises   contempor&acirc;neas que enfatizam luto, mem&oacute;ria e refigura&ccedil;&atilde;o do mundo (Novaes 2006;   Kelmer 2025).    <br>   <a name="nt09"></a><a href="#tx09"><sup>ix.</sup></a>Exemplo sonoro   (Bororo/Boe). Bororo Vive (LP, selo Ideia Livre, 1985) re&uacute;ne registros   realizados na aldeia de C&oacute;rrego Grande (MT), incluindo cantos funer&aacute;rios e   vocaliza&ccedil;&otilde;es de choro ritual. Ver especialmente as faixas 1 e 15, com exemplos   do pranto cerimonial. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://youtu.be/&#45;u7UUlrkY94" target="_blank">https://youtu.be/&#45;u7UUlrkY94</a>.    <br>   <a name="nt10"></a><a href="#tx10"><sup>x.</sup></a>Os Guarani s&atilde;o um dos   maiores povos ind&iacute;genas da Am&eacute;rica do Sul, vivendo no Brasil, Paraguai,   Argentina e Bol&iacute;via. Conhecidos por sua forte espiritualidade, baseada na busca   pela &quot;Terra sem Males&quot; e na conex&atilde;o com a natureza, organizam&#45;se em   grupos como Kaiow&aacute;, Mbya e &Ntilde;andeva. Enfrentam graves conflitos de terras, luta   por demarca&ccedil;&atilde;o e vulnerabilidade social.    <br>   <a name="nt11"></a><a href="#tx11"><sup>xi.</sup></a>O Nixi Pae, nome dado pelos   Huni Kuin &agrave; ayahuasca, &eacute; uma bebida ritual preparada principalmente a partir do   cip&oacute; Banisteriopsis caapi (nixi) e das folhas de Psychotria viridis (ou outras   plantas afins, conforme a tradi&ccedil;&atilde;o). A combina&ccedil;&atilde;o dessas esp&eacute;cies produz   efeitos psicoativos e corporais intensos, envolvendo altera&ccedil;&otilde;es da percep&ccedil;&atilde;o,   imagens vision&aacute;rias e estados ampliados de sensibilidade, frequentemente   acompanhados de cantos e orienta&ccedil;&otilde;es xam&acirc;nicas. Em contextos ind&iacute;genas   amaz&ocirc;nicos, tais experi&ecirc;ncias s&atilde;o compreendidas como formas de cura,   aprendizado e comunica&ccedil;&atilde;o com dimens&otilde;es espirituais e com outros seres do   cosmos.    <br>   <a name="nt12"></a><a href="#tx12"><sup>xii.</sup></a>Os Huni Kuin &#151; tamb&eacute;m   conhecidos como Kaxinaw&aacute; &#151; s&atilde;o um povo ind&iacute;gena de l&iacute;ngua pano que vive   principalmente no estado do Acre, no Brasil, e em regi&otilde;es de fronteira no Peru.    <br>   <a name="nt13"></a><a href="#tx13"><sup>xiii.</sup></a>Exemplo audiovisual   ((Huni&#45;Kuin) Ind&iacute;genas.BR 2025 &#151; Apresenta&ccedil;&atilde;o imersiva: Cantos Huni Kuin. Ib&atilde;   Sales, mestre dos cantos do povo Huni Kuin (AC), apresenta repert&oacute;rios do Huni   Meka, em di&aacute;logo com proje&ccedil;&otilde;es visuais de Trajano (MA) e com as pinturas do   MAHKU (Movimento dos Artistas Huni Kuin). Evento realizado no &acirc;mbito do   festival Ind&iacute;genas.BR. Curadoria: Djuena Tikuna e Magda Pucci. Ind&iacute;genas.BR,   2025. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://youtu.be/7HvKi4ppYMw?si=4D4kOn5o9HpOe5zo" target="_blank">https://youtu.be/7HvKi4ppYMw?si=4D4kOn5o9HpOe5zo</a>. Acesso   em: 30 jan. 2026.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="nt14"></a><a href="#tx14"><sup>xiv.</sup></a>Os Kis&ecirc;dj&ecirc;, antes como   conhecidos como Suy&aacute;, vivem atualmente na Terra Ind&iacute;gena Wawi, adjacente ao   Parque Ind&iacute;gena do Xingu, no Mato Grosso. Um marco diferencial do grupo s&atilde;o os   grandes discos labiais e auriculares que, mais do que ornamentos, apontavam a   import&acirc;ncia do cantar e do ouvir para esse povo.    <br>   <a name="nt15"></a><a href="#tx15"><sup>xv.</sup></a>Exemplo sonoro (K&#297;s&ecirc;dj&ecirc;/Suy&aacute;)   LP M&uacute;sica ind&iacute;gena: a arte vocal dos Suy&aacute;. Grava&ccedil;&atilde;o realizada por Judith e   Anthony Seeger na aldeia Suy&aacute; (K&#297;s&ecirc;dj&ecirc;), no Parque Nacional do Xingu (MT).   Produ&ccedil;&atilde;o: Comunidade Suy&aacute; e Anthony Seeger. Edi&ccedil;&otilde;es Tacape, Brasil, 1982.   Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.sonsdasvertentes.ufsj.edu.br/tacape/m%C3%BAsica&#45;ind%C3%ADgena&#45;&#45;&#45;a&#45;arte&#45;vocal&#45;dos&#45;suy%C3%A1" target="_blank">https://www.sonsdasvertentes.ufsj.edu.br/tacape/m%C3%BAsica&#45;ind%C3%ADgena&#45;&#45;&#45;a&#45;arte&#45;vocal&#45;dos&#45;suy%C3%A1</a>.   Acesso em: 30 jan. 2026.    <br>   <a name="nt16"></a><a href="#tx16"><sup>xvi.</sup></a>Os Kamayur&aacute; s&atilde;o um povo   ind&iacute;gena de l&iacute;ngua pertencente &agrave; fam&iacute;lia tupi&#45;guarani que vive no Alto Xingu,   em Mato Grosso, reconhecido por sua forte vida ritual e musical. Entre as   cerim&ocirc;nias centrais da regi&atilde;o destacam&#45;se o Kuarup, ritual funer&aacute;rio e comemorativo   que homenageia os mortos e refor&ccedil;a alian&ccedil;as inter&eacute;tnicas, e o Jawari, uma   celebra&ccedil;&atilde;o competitiva associada a desafios guerreiros e performances   cerimoniais, ambos fundamentais para a cosmologia e as rela&ccedil;&otilde;es sociais   xinguanas.    <br>   <a name="nt17"></a><a href="#tx17"><sup>xvii.</sup></a>Os Tikm&#361;'&#361;n,   mais conhecidos como Maxacali, s&atilde;o um povo ind&iacute;gena que vive principalmente em   Minas Gerais e fala uma l&iacute;ngua da fam&iacute;lia Maxakali, distinta das l&iacute;nguas J&ecirc;.   Sua vida ritual &eacute; marcada pela presen&ccedil;a dos y&atilde;m&#297;y, esp&iacute;ritos cantores   centrais em suas cerim&ocirc;nias.    <br>   <a name="nt18"></a><a href="#tx18"><sup>xviii.</sup></a>Como habitantes do Vale do   Mucuri e Jequitinhonha, no nordeste de Minas Gerais, esse povo enfrenta um   processo cont&iacute;nuo de coloniza&ccedil;&atilde;o violenta, descrito por pesquisadores e l&iacute;deres   ind&iacute;genas como um genoc&iacute;dio lento e renovado. Historicamente, essa viol&ecirc;ncia &eacute;   caracterizada pela espolia&ccedil;&atilde;o de terras, destrui&ccedil;&atilde;o ambiental e persegui&ccedil;&atilde;o   f&iacute;sica, configurando um conflito fundi&aacute;rio cr&ocirc;nico.    <br>   <a name="nt19"></a><a href="#tx19"><sup>xix.</sup></a>Exemplo audiovisual (Tikm&#361;'&#361;n):   Encontro de paj&eacute;s Tikm&#361;'&#361;n (Maxakali) na aldeia Vila Nova do Pradinho   (Bert&oacute;polis&#151;MG). Filme realizado no &acirc;mbito do Prodocson &#151; Programa de   Documenta&ccedil;&atilde;o de Sonoridades Ind&iacute;genas (Museu do &Iacute;ndio/Funai), registrando   cantos e a presen&ccedil;a dos povos&#45;esp&iacute;ritos Y&atilde;m&#297;yxop. Dire&ccedil;&atilde;o: Josemar   Maxakali, Marilton Maxakali e Bruno Vasconcelos. Coordena&ccedil;&atilde;o: Ros&acirc;ngela de   Tugny. YouTube, 2021. Dispon&iacute;vel em <a href="https://youtu.be/POjs4dCrRYY?si=VlTaxk788VRis0lq" target="_blank">https://youtu.be/POjs4dCrRYY?si=VlTaxk788VRis0lq</a>. Acesso em: 30 jan. 2026.    <br>   <a name="nt20"></a><a href="#tx20"><sup>xx.</sup></a>Teko   pode ser traduzido como "modo de vida", e tekoha como "o lugar onde esse modo   de ser guarani se realiza". O termo expressa a ideia de que uma aldeia s&oacute; se   constitui plenamente como territ&oacute;rio quando h&aacute; continuidade entre espa&ccedil;o,   presen&ccedil;a dos ancestrais, pr&aacute;ticas culturais e condi&ccedil;&otilde;es materiais que sustentam   a vida coletiva (Chamorro, 2022).    <br>   <a name="nt21"></a><a href="#tx21"><sup>xxi.</sup></a>Exemplo sonoro (Guarani   Kaiowa) &#151; Mamo oim&#7869; nde rory.    <br>   Esse   canto integra o repert&oacute;rio da comunidade Kaiow&aacute; de Itay, vinculada &agrave; casa de   reza Merenciana, nas proximidades de Dourados (MS), disponibilizada no site   Cantos da Floresta. A letra remete diretamente ao tekoha, entendido como   territ&oacute;rio vivido e sustentado pela presen&ccedil;a ancestral, pelo canto e pelas   pr&aacute;ticas rituais cotidianas. Dispon&iacute;vel em <a href="https://www.cantosdafloresta.com.br/audios/mamo&#45;oime&#45;nde&#45;rory/" target="_blank">https://www.cantosdafloresta.com.br/audios/mamo&#45;oime&#45;nde&#45;rory/</a>. Acesso em: 30   jan. 2026.    <br>   <a name="nt22"></a><a href="#tx22"><sup>xxii.</sup></a>Os Guarani Kaiow&aacute;, no Mato   Grosso do Sul, vivem hoje uma das situa&ccedil;&otilde;es mais graves de conflito territorial   no Brasil. H&aacute; d&eacute;cadas, comunidades t&ecirc;m sido expulsas de seus tekoha em meio &agrave;   expans&atilde;o do agroneg&oacute;cio, &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria e &agrave; demora na demarca&ccedil;&atilde;o de   terras ind&iacute;genas. Muitas fam&iacute;lias permanecem em acampamentos &agrave; beira de   estradas ou em territ&oacute;rios retomados sob constante amea&ccedil;a de viol&ecirc;ncia.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="nt23"></a><a href="#tx23"><sup>xxiii.</sup></a>Yamurikum&atilde; &eacute; um ritual   tradicional dos povos do Alto Xingu, no Mato Grosso, em que as mulheres ocupam   coletivamente o centro da cena cerimonial. Durante v&aacute;rios dias, elas se   organizam em grupo, cantam de forma cont&iacute;nua e percorrem a aldeia, visitando casa   por casa. No ritual, usam ornamentos associados ao universo masculino &#151;   cocares, bra&ccedil;adeiras, arcos e flechas &#151; e realizam performances que suspendem   temporariamente a divis&atilde;o cotidiana de pap&eacute;is de g&ecirc;nero. Nesse contexto, as   mulheres assumem o controle fazem v&aacute;rias provoca&ccedil;&otilde;es com os homens, cobrando   deveres, encenando amea&ccedil;as e participando de lutas como o huka&#45;huka,   normalmente restrita aos homens. Exemplo audiovisual (Kuikuro) &#151; As Hiper   Mulheres (2011). Dire&ccedil;&atilde;o: Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takum&atilde; Kuikuro.   Dispon&iacute;vel em: <a href="https://youtu.be/7tsxxfHVvvE" target="_blank">https://youtu.be/7tsxxfHVvvE</a>. Acesso em: 30 jan. 2026.    <br>   <a name="nt24"></a><a href="#tx24"><sup>xxiv.</sup></a>Exemplo audiovisual   (Wauj&aacute;) Cantos das mulheres Waur&aacute; Xingu. Dispon&iacute;vel em <a href="https://youtu.be/VVFOYfe7IbA?si=eazn1vV9d68Cn9v0" target="_blank">https://youtu.be/VVFOYfe7IbA?si=eazn1vV9d68Cn9v0</a>. Acesso em: 30 jan. 2026.    <br>   <a name="nt25"></a><a href="#tx25"><sup>xxv.</sup></a>O sistema   Hornbostel&#151;Sachs, proposto em 1914 pelos music&oacute;logos Erich von Hornbostel e   Curt Sachs, &eacute; uma das classifica&ccedil;&otilde;es organol&oacute;gicas mais difundidas na   etnomusicologia. Baseado no princ&iacute;pio ac&uacute;stico da fonte geradora do som,   distingue grandes categorias instrumentais &#151; idiofones, membranofones,   cordofones, aerofones e, posteriormente, eletrofones &#151; organizadas por meio de   um c&oacute;digo num&eacute;rico decimal.    <br>   <a name="nt26"></a><a href="#tx26"><sup>xxvi.</sup></a>A regi&atilde;o do Noroeste   Amaz&ocirc;nico, que abrange a bacia do Alto Rio Negro, &eacute; habitada h&aacute; pelo menos dois   mil anos por cerca de 27 povos ind&iacute;genas &#151; entre eles Tukano, Baniwa, Desana e   Bar&eacute; &#151;, formando um mosaico sociocultural singular. Estima&#45;se uma popula&ccedil;&atilde;o de   aproximadamente 35.000 pessoas, falantes de 19 l&iacute;nguas pertencentes a tr&ecirc;s fam&iacute;lias   lingu&iacute;sticas: Aruak, Maku e Tukano (ISA, 2022). Esses povos compartilham   mitologias, formas de organiza&ccedil;&atilde;o social e cosmologias rituais, como o   cerimonial de reciprocidade do Dabucuri, al&eacute;m do uso de instrumentos de sopro   como a japurutu e as flautas cari&ccedil;o.    <br>   <a name="nt27"></a><a href="#tx27"><sup>xxvii.</sup></a>Exemplo sonoro (Alto Rio   Negro) &#151; Cari&ccedil;o. Grava&ccedil;&atilde;o realizada na Comunidade Bayaro&aacute; em Manaus. Dispon&iacute;vel   em <a href="https://www.cantosdafloresta.com.br/audios/carico/" target="_blank">https://www.cantosdafloresta.com.br/audios/carico/</a>. Acesso em: 30 jan. 2026.    <br>   <a name="nt28"></a><a href="#tx28"><sup>xxviii.</sup></a>Exemplo sonoro (Alto Rio   Negro) &#151; Japurutu. Grava&ccedil;&atilde;o realizada na Comunidade Bayaro&aacute; em Manaus. Acervo   do projeto Cantos da Floresta. Dispon&iacute;vel em <a href="https://www.cantosdafloresta.com.br/audios/japurutu/" target="_blank">https://www.cantosdafloresta.com.br/audios/japurutu/</a>. Acesso em: 30 jan. 2026   Obs.: Ambos os exemplos seguem a estrutura do sistema alternado, em que a   melodia se realiza pela complementaridade entre dois grupos.    <br>   <a name="nt29"></a><a href="#tx29"><sup>xxix.</sup></a>Exemplo sonoro   (Yudj&aacute;/Juruna) &#151; Taratararu (Takuara). Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.cantosdafloresta.com.br/audios/taquara&#45;taratararu/" target="_blank">https://www.cantosdafloresta.com.br/audios/taquara&#45;taratararu/</a>. Acesso em: 30   jan. 2026.    <br>   <a name="nt30"></a><a href="#tx30"><sup>xxx.</sup></a>Exemplo sonoro (Guarani   Mby&aacute;) &#151; Xe'ko Xondaro (m&uacute;sica instrumental de flauta). Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.cantosdafloresta.com.br/audios/xeko&#45;xondaro/" target="_blank">https://www.cantosdafloresta.com.br/audios/xeko&#45;xondaro/</a>. Acesso em: 30 jan.   2026.    <br>   <a name="nt31"></a><a href="#tx31"><sup>xxxi.</sup></a>Os Ikolen, tamb&eacute;m   conhecidos como Gavi&atilde;o de Rond&ocirc;nia, s&atilde;o um povo ind&iacute;gena falante de uma l&iacute;ngua   da fam&iacute;lia Tupi&#45;Mond&eacute;. Eles habitam o estado de Rond&ocirc;nia, especificamente na   Terra Ind&iacute;gena Igarap&eacute; Lourdes, pr&oacute;ximo &agrave; bacia do rio Machado.    <br>   <a name="nt32"></a><a href="#tx32"><sup>xxxii.</sup></a>Exemplo audiovisual   (japurutu) A m&uacute;sica Baniwa de Seu Lareano. Disponivel em <a href="https://youtu.be/dLIYJFF&#45;RB4?si=TraEvAm6w04FSTr4" target="_blank">https://youtu.be/dLIYJFF&#45;RB4?si=TraEvAm6w04FSTr4</a>. Acesso em: 30 jan. 2026    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="nt33"></a><a href="#tx33"><sup>xxxiii.</sup></a>Os Guarani Mby&aacute; costumam   retirar a sexta corda do viol&atilde;o, configurando&#45;o com cinco cordas. Segundo   Giordani (2009, apud Pucci, 2017), essa escolha n&atilde;o &eacute; apenas t&eacute;cnica, mas   cosmol&oacute;gica: cada uma das cinco cordas se relaciona a uma das cinco divindades   do pante&atilde;o Guarani, associadas a regi&otilde;es celestes espec&iacute;ficas, transpostas ao   instrumento pela afina&ccedil;&atilde;o: 1&ordf; corda (D&oacute;#) Taku&aacute; Wer&aacute;; 2&ordf; corda (L&aacute;) &Ntilde;anderu   Jakair; 3&ordf; corda (Mi) &Ntilde;anderu Kara&iacute;; 4&ordf; corda (L&aacute;) &Ntilde;anderu Tup&atilde;. Exemplo sonoro   (Guarani Mby&aacute;): &Ntilde;ande mbaraete'i katu ("Vamos nos fortalecer"). Grava&ccedil;&atilde;o do   grupo Kyringue Arandu Mir&#297; (Aldeia Rio Silveira, SP). Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.cantosdafloresta.com.br/audios/nande&#45;mbaraetei&#45;katu/" target="_blank">https://www.cantosdafloresta.com.br/audios/nande&#45;mbaraetei&#45;katu/</a>. Acesso em: 30   jan. 2026.    <br>   <a name="nt34"></a><a href="#tx34"><sup>xxxiv.</sup></a>Durante o per&iacute;odo   colonial, especialmente no contexto das miss&otilde;es jesu&iacute;ticas e dos processos de   catequiza&ccedil;&atilde;o, instrumentos europeus como violas, rabecas e outros cordofones   al&eacute;m de sopros, foram introduzidos em territ&oacute;rios guarani, integrando pr&aacute;ticas   musicais ligadas &agrave; liturgia e ao ensino religioso (Holler, 2006).    <br>   <a name="nt35"></a><a href="#tx35"><sup>xxxv.</sup></a>Exemplo audiovisual   (Guarani Mby&aacute;): Dan&ccedil;a Xondaro. Depoimento de Valdeci Benites (Aldeia Boa Vista,   Ubatuba&#151;SP), registro do Projeto Povos. YouTube, s.d. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://youtu.be/ETzND&#45;uxZ50" target="_blank">https://youtu.be/ETzND&#45;uxZ50</a>. Acesso em: 30 jan. 2026.    <br>   <a name="nt36"></a><a href="#tx36"><sup>xxxvi.</sup></a>Mborai (ou mborahei) &eacute; o   termo guarani para cantos&#45;reza, entoados sobretudo na opy (casa de reza),   articulando m&uacute;sica, palavra e comunica&ccedil;&atilde;o cosmol&oacute;gica. Exemplo audiovisual   (Guarani Mby&aacute;): Mborai Mirim &#151; O canto ind&iacute;gena Guarani. Dire&ccedil;&atilde;o de Felipe Scapino.   Apresenta&ccedil;&atilde;o: Coral Xondaro Mirim Mborai (Aldeia Boa Vista, Ubatuba&#151;SP) e Coral   Guarani Tenonder&atilde; (Aldeia Sapukai, Angra dos Reis&#151;RJ). Realiza&ccedil;&atilde;o: Observat&oacute;rio   de Territ&oacute;rios Saud&aacute;veis e Sustent&aacute;veis da Bocaina (Fiocruz) e F&oacute;rum de   Comunidades Tradicionais. YouTube, 2023. Dispon&iacute;vel em <a href="https://youtu.be/qDHdFH5v6AQ?si=silgt1bxLLFDSFNz" target="_blank">https://youtu.be/qDHdFH5v6AQ?si=silgt1bxLLFDSFNz</a>.    <br>   <a name="nt37"></a><a href="#tx37"><sup>xxxvii.</sup></a>O xondaro &eacute; uma pr&aacute;tica de   canto, dan&ccedil;a e treinamento corporal realizada sobretudo por jovens, associada &agrave;   prote&ccedil;&atilde;o da comunidade, &agrave; disciplina coletiva e &agrave; forma&ccedil;&atilde;o da pessoa guarani.    <br>   <a name="nt38"></a><a href="#tx38"><sup>xxxviii.</sup></a>O marac&aacute; pode ser   confeccionado com diferentes materiais, como caba&ccedil;a, coco, madeira, cer&acirc;mica,   ovos de ema, conchas de caracol, cr&acirc;nio de macaco, carapa&ccedil;a de filhote de   tartaruga, entre outros. Seu som &eacute; produzido pelo preenchimento interno com   sementes de frutos secos, pedrinhas, gr&atilde;os de milho, caro&ccedil;os de pequi, dentes   ou outros objetos. Esses instrumentos podem ser ornados com penas e decorados   com desenhos geom&eacute;tricos, pirogravados ou pintados com jenipapo e urucum. As   denomina&ccedil;&otilde;es variam de povo para povo: entre os Tukano, chama&#45;se y&atilde;s&aacute;; entre os   Bororo, bapo; entre os Kalapalo, ankg&eacute;; entre os Mby&aacute; Guarani, mbaraka miri;   entre os Suru&iacute; Aikewara, wapus&aacute;; entre os Timbira, koit&eacute;; e entre os Kayap&oacute;,   ngoti (Cam&ecirc;u, 1979, apud Pucci, 2017).</font></p>      ]]></body>
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