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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A ciência nas letras da Música Popular Brasileira]]></article-title>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Música Popular Brasileira]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Ciência e tecnologia]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Cultura científica]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Letras de canções]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317&#45;6660.20260009</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>A   ci&ecirc;ncia nas letras da M&uacute;sica Popular Brasileira</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Aldo Jos&eacute; Gorgatti Zarbin<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Professor titular do Departamento de Qu&iacute;mica da Universidade Federal do   Paran&aacute; (UFPR) e vice&#45;presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da   Ci&ecirc;ncia (SBPC). &Eacute; membro titular da Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias, fellow da   Royal Society of Chemistry (UK) e ex&#45;presidente da Sociedade Brasileira de   Qu&iacute;mica (SBQ, 2016&#45;2018).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"><b>Resumo</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O   artigo explora como a M&uacute;sica Popular Brasileira (MPB) incorporou refer&ecirc;ncias &agrave;   ci&ecirc;ncia, &agrave; tecnologia e aos seus impactos sociais ao longo do tempo. A partir   de exemplos de diferentes compositores e per&iacute;odos hist&oacute;ricos, o texto mostra   como temas como telecomunica&ccedil;ões, f&iacute;sica qu&acirc;ntica, energia nuclear, explora&ccedil;&atilde;o   espacial, qu&iacute;mica, biologia e medicina foram transformados em poesia e reflex&atilde;o   cultural nas letras das can&ccedil;ões.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><b>Palavras&#45;chave: </b>M&uacute;sica Popular Brasileira; Ci&ecirc;ncia e tecnologia; Cultura cient&iacute;fica;   Letras de can&ccedil;ões</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em 2023 o   jornalista Franklin Martins demonstrou em seu livro <i>"Quem foi que inventou o   Brasil"</i>, que a hist&oacute;ria do Brasil foi contada (e cantada) pela M&uacute;sica   Popular Brasileira (MPB). De fato, sendo a m&uacute;sica uma manifesta&ccedil;&atilde;o cultural   viva e pulsante, &eacute; absolutamente imposs&iacute;vel dissoci&aacute;&#45;la do ambiente e do   momento hist&oacute;rico pela qual cada can&ccedil;&atilde;o foi concebida. Como bem pontuou o   jornalista, acontecimentos desde o per&iacute;odo imperial, passando pela escravid&atilde;o,   independ&ecirc;ncia, a velha rep&uacute;blica, era Vargas, governos JK, J&acirc;nio e Jango, a odiosa ditadura militar, as Diretas J&aacute;, a   nova rep&uacute;blica e tudo que se sucedeu at&eacute; agora, foram densamente cantados nos   mais diferentes ritmos da MPB. Mas se o ser humano &eacute; fruto do ambiente em que   vive, esse ambiente &eacute; agudamente modificado pela ci&ecirc;ncia, ou mais   especificamente, pelo conhecimento cient&iacute;fico gerado pela humanidade, e pelos   desdobramentos desse conhecimento em tecnologias que impactam em absolutamente   todas as atividades humanas. &Eacute; de se esperar,   portanto, que assim como contam a hist&oacute;ria pol&iacute;tica/econ&ocirc;mica social, as letras   da MPB sejam tamb&eacute;m porta&#45;vozes   da ci&ecirc;ncia, incorporando o conhecimento gerado pela ci&ecirc;ncia em sua estrutura   l&iacute;rica. Esse texto apresenta alguns   exemplos das diferentes formas de apropria&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia, com foco nas ci&ecirc;ncias   exatas e biol&oacute;gicas, pelos letristas da MPB. A exclus&atilde;o das ci&ecirc;ncias humanas   aqui se justifica pelo cabedal enorme de refer&ecirc;ncias &agrave; filosofia, sociologia,   antropologia, hist&oacute;ria, pedagogia, ci&ecirc;ncias sociais e pol&iacute;ticas, dentre outras,   de maneira quase que simbi&oacute;tica com a pr&oacute;pria MPB, fazendo com que sua   identifica&ccedil;&atilde;o seja, de certo modo, j&aacute; enraizada pelos ouvintes.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">&Eacute; significativo que   aquele que &eacute; considerado o estilo   musical mais identificado com o Brasil tenha, j&aacute; no seu primeiro registro, uma rela&ccedil;&atilde;o   direta e inequ&iacute;voca com a ci&ecirc;ncia. O primeiro samba gravado no Brasil foi "Pelo   Telefone", de   Donga e Mario de Almeida, em 1917, que   come&ccedil;a com os versos: <i>O Chefe da Pol&iacute;cia / Pelo telefone/ Manda me avisar/   Que na Carioca / Tem uma roleta/ Para se jogar</i>. A possibilidade de   comunica&ccedil;&atilde;o &agrave; dist&acirc;ncia atrav&eacute;s do telefone revolucionou os costumes da   popula&ccedil;&atilde;o mundial a partir do final do s&eacute;culo XIX. A novidade   cient&iacute;fico/tecnol&oacute;gica chegou ao Brasil pelas m&atilde;os do Imperador D. Pedro II em   1877, e a concess&atilde;o para que a primeira linha interurbana fosse implementada se   deu em 1890. A dissemina&ccedil;&atilde;o de aparelhos e linhas telef&ocirc;nicas ainda era   rarefeita no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, quando a can&ccedil;&atilde;o de Donga e Mario de Almeida   foi criada, e o h&aacute;bito de se realizar liga&ccedil;ões telef&ocirc;nicas ainda uma novidade   com impacto direto no cotidiano dos cidad&atilde;os. O aviso do chefe da pol&iacute;cia ter   sido dado pelo telefone era extremamente significativo, e evidenciava os novos   tempos que chegavam. (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a09fig01.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Ap&oacute;s "Pelo   Telefone", a tem&aacute;tica cient&iacute;fica relacionada &agrave;s novas formas de comunica&ccedil;&atilde;o &agrave; dist&acirc;ncia esteve temporalmente presente nas letras   da MPB, conforme sua realidade se tornava cotidiana: Chico Buarque, em 1967,   lamentou a chegada da televis&atilde;o, que tirou o povo da rua, acabando com as rodas   de samba: <i>O homem da rua/ Fica s&oacute; por teimosia/ N&atilde;o encontra companhia/ Mas   pra casa n&atilde;o vai n&atilde;o/ Em casa a roda j&aacute; mudou/ Que a moda muda/ A roda &eacute;   triste/ A roda &eacute; muda/ Em volta l&aacute; da televis&atilde;o </i>("A Televis&atilde;o", Chico   Buarque). O mesmo Chico Buarque, na letra que fez para a m&uacute;sica de Roberto   Menescal para o filme de Cac&aacute; Diegues, descreve a telecomunica&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s dos   famosos telefones p&uacute;blicos, onde um aventureiro de um Brasil distante t&ecirc;m sua   conversa pontuada e determinada pelo tempo em que as fichas iam sendo   consumidas: <i>Baby, bye, bye/ Abra&ccedil;os na m&atilde;e e no pai/ Eu acho que vou   desligar/ As fichas j&aacute; v&atilde;o terminar... Agora j&aacute; t&aacute; tudo bem/ Mas a liga&ccedil;&atilde;o t&aacute;   no fim/ Tem um japon&ecirc;s tr&aacute;s de mim... Bye Bye Brasil, a &uacute;ltima ficha caiu.... </i>("Bye   Bye Brasil", Chico Buarque e Roberto Menescal, 1979). A chegada da TV <i>via</i> sat&eacute;lite a comunidades afastadas, que outrora sequer sonhariam com essa   tecnologia, se deu gra&ccedil;as &agrave; populariza&ccedil;&atilde;o das antenas parab&oacute;licas, cujo tema   foi eternizado na bel&iacute;ssima can&ccedil;&atilde;o de Gilberto Gil "Parabolicamar&aacute;" (1991),   sendo um pren&uacute;ncio da globaliza&ccedil;&atilde;o que viria a seguir, com a diminui&ccedil;&atilde;o das   dist&acirc;ncias, uma vez que a informa&ccedil;&atilde;o e as viagens, que antes levavam uma   eternidade, agora acontecem na velocidade das ondas luminosas: <i>Antes mundo   era pequeno/ Porque Terra era grande/ Hoje mundo &eacute; muito grande/ Porque Terra &eacute;   pequena/ Do tamanho da antena Parabolicamar&aacute;... Antes longe era distante/ Perto   s&oacute; quando dava/ Quando muito ali defronte/ E o horizonte acabava... De jangada   leva uma eternidade/ De saveiro leva uma encarna&ccedil;&atilde;o/ Pela onda luminosa/ Leva o   tempo de um raio.</i></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Sendo a   m&uacute;sica uma manifesta&ccedil;&atilde;o cultural viva e pulsante, &eacute; absolutamente imposs&iacute;vel   dissoci&aacute;&#45;la do ambiente e do momento hist&oacute;rico pelo qual cada can&ccedil;&atilde;o foi   concebida."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em 1996   Gilberto Gil emulou o primeiro samba, e comp&ocirc;s "Pela Internet", num momento   hist&oacute;rico em que os h&aacute;bitos e costumes da popula&ccedil;&atilde;o eram drasticamente   modificados pelo advento da rede mundial de computadores, que chegava soberana   com a possibilidade de troca imediata de comunica&ccedil;&atilde;o por e&#45;mails e de coleta de   informa&ccedil;ões atrav&eacute;s de poucos cliques em navegadores, acessando&#45;se websites: <i>Criar   meu web site/ Fazer minha home&#45;page/ Com quantos gigabytes/ Se faz uma jangada/   Um barco que veleje...</i> al&eacute;m da beleza impl&iacute;cita da rela&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica entre o   navegar por corpos aqu&aacute;ticos (jangada) e o navegar pelo ciberespa&ccedil;o, a can&ccedil;&atilde;o   exaltava a possibilidade da internet, ainda n&atilde;o totalmente popularizada &agrave;   &eacute;poca, conectar as pessoas nos diferentes rincões do planeta (<i>Eu quero   entrar na rede para contactar/ Os lares do Nepal, os bares do Gab&atilde;o...</i>), e   vaticinava que os avisos do chefe da pol&iacute;cia tamb&eacute;m se tornavam mais   tecnol&oacute;gicos, dados agora diretamente pelo celular: <i>O chefe da pol&iacute;cia   carioca avisa pelo celular/Que l&aacute; na Pra&ccedil;a Onze/ Tem um videop&ocirc;quer/Para se   jogar</i>. "Pela Internet" ainda foi respons&aacute;vel por uma grande quebra de   paradigma tecnol&oacute;gica: foi a primeira can&ccedil;&atilde;o brasileira lan&ccedil;ada e transmitida   ao vivo pela internet, em 24 de dezembro de 1996.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em "Nina"   (2010), Chico Buarque fecha o ciclo, descrevendo os namoros e conversas &agrave;   dist&acirc;ncia propiciados pela pr&oacute;pria internet, em uma &eacute;poca que antecedeu o   advento das videochamadas, onde pessoas teclavam atrav&eacute;s dos antigos <i>chats</i> de namoro. A can&ccedil;&atilde;o relata uma paix&atilde;o entre um brasileiro e a Russa Nina,   habitante de Moscou, e destaca a ci&ecirc;ncia e tecnologia dos sat&eacute;lites e do GPS,   que permitia a visualiza&ccedil;&atilde;o das cidades atrav&eacute;s de programas como o Google   maps: <i>Nina diz que se quiser eu posso ver na tela/ A cidade, o bairro, a   chamin&eacute; da casa dela/ Posso imaginar por dentro a casa/ A roupa que ela usa, as   mechas, a tiara/ Posso at&eacute; adivinhar a cara que ela faz/ Quando me escreve</i>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Paix&atilde;o   pela ci&ecirc;ncia</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Gilberto Gil   &eacute; declaradamente apaixonado pela ci&ecirc;ncia, e talvez seja um dos compositores   brasileiros que mais vezes externou, em suas obras, a beleza associada ao   conhecimento. Em "Copo Vazio" (1974) j&aacute; nos avisava que "&Eacute; sempre bom lembrar/ Que um copo vazio/   Est&aacute; cheio de ar." Com o advento de tantas   novidades cient&iacute;fico/tecnol&oacute;gicas em meados dos anos 1970, Gil cobrava, na   linda can&ccedil;&atilde;o "Queremos Saber" (1976), que toda a popula&ccedil;&atilde;o fosse esclarecida   sobre os impactos das novas inven&ccedil;ões em suas vidas. "Queremos Saber" &eacute; um verdadeiro chamado aos cientistas, para que   divulguem os resultados de seu trabalho, e esclare&ccedil;am a popula&ccedil;&atilde;o a respeito   dos benef&iacute;cios (e poss&iacute;veis malef&iacute;cios) das novas descobertas &agrave;quilo que   realmente interessa, que &eacute; o bem estar da popula&ccedil;&atilde;o: <i>Queremos saber/ O que   v&atilde;o fazer/ Com as novas inven&ccedil;ões/ Queremos not&iacute;cia mais s&eacute;ria/ Sobre a   descoberta da antimat&eacute;ria/ E suas implica&ccedil;ões/ Na emancipa&ccedil;&atilde;o do homem/ Das   grandes popula&ccedil;ões/ Homens pobres das cidades/ Das estepes, dos sertões...   Queremos saber/ Quando vamos ter/ Raio laser mais barato... Pois se foi   permitido ao homem/ Tantas coisas conhecer/ &Eacute; melhor que todos saibam/ O que   pode acontecer.</i> Em "A p&iacute;lula de Alho" (composta em 1982 e gravada em 1997),   Gil descreve os poderes antibi&oacute;ticos naturais do alho, processado na forma de   um rem&eacute;dio popular "<i>Voc&ecirc; j&aacute; ouviu falar/ Da p&iacute;lula de alho?/ &Eacute; uma p&iacute;lula   amarela/ C&ecirc; toma uma daquela/ Nem sabe o que &eacute; que sente/ Mas a infec&ccedil;&atilde;o j&aacute; era</i>.... <i>A p&iacute;lula de alho/ Da planta antibi&oacute;tica/ Da velha medicina/ Que desenvolvimento!</i> Em "As Coisas", parceria com Arnaldo Antunes de 1993, d&aacute; uma verdadeira aula   sobre a defini&ccedil;&atilde;o de mat&eacute;ria: <i>As coisas t&ecirc;m peso, massa, volume/ Tamanho,   tempo, forma, cor, posi&ccedil;&atilde;o, textura/ Dura&ccedil;&atilde;o, densidade, cheiro, valor,   consist&ecirc;ncia/ Profundidade, contorno, temperatura, fun&ccedil;&atilde;o.</i> E em 1969, j&aacute;   antevia a tentativa de dom&iacute;nio das m&aacute;quinas e o advento da intelig&ecirc;ncia   artificial, com a can&ccedil;&atilde;o "C&eacute;rebro Eletr&ocirc;nico", onde postula que <i>O c&eacute;rebro   eletr&ocirc;nico faz tudo/ Faz quase tudo/ Quase tudo/ Mas ele &eacute; mudo</i>... e   termina dizendo que as emo&ccedil;ões humanas n&atilde;o ser&atilde;o dominadas por nenhum   eletr&ocirc;nico: <i>S&oacute; eu posso chorar quando estou triste/ S&oacute; eu/ Eu c&aacute; com meus   botões de carne e osso/ Hum, hum/ Eu falo e ou&ccedil;o/ Hum, hum/ Eu penso e posso...   E sei/ Que c&eacute;rebro eletr&ocirc;nico nenhum me d&aacute; socorro/ Em meu caminho inevit&aacute;vel   para a morte.</i></font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Queremos   saber o que v&atilde;o fazer com as novas inven&ccedil;ões."</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Mas Gil foi   muito al&eacute;m. Uma das maiores revolu&ccedil;ões cient&iacute;ficas da hist&oacute;ria da humanidade,   que abalou os alicerces da f&iacute;sica, da qu&iacute;mica e das ci&ecirc;ncias naturais, foi a   chamada mec&acirc;nica qu&acirc;ntica (tamb&eacute;m conhecida como f&iacute;sica qu&acirc;ntica, qu&iacute;mica   qu&acirc;ntica, mec&acirc;nica ondulat&oacute;ria, dentre outras formas – ou simplesmente   qu&acirc;ntica). A compreens&atilde;o de que as leis que regem part&iacute;culas subat&ocirc;micas s&atilde;o   diferentes das leis newtonianas para corpos massivos, trazida pela qu&acirc;ntica,   acarretou uma nova maneira de se enxergar a natureza, possibilitando a   compreens&atilde;o da estrutura at&ocirc;mica, levando a uma infinidade de revolu&ccedil;ões   tecnol&oacute;gicas que existem na atualidade, incluindo as modernas t&eacute;cnicas de   comunica&ccedil;&atilde;o, computa&ccedil;&atilde;o, e intelig&ecirc;ncia artificial. Sobre esse assunto,   Gilberto Gil n&atilde;o dedicou uma can&ccedil;&atilde;o, mas um &aacute;lbum inteiro – e duplo! O &aacute;lbum   "Quanta" foi lan&ccedil;ado em 1997 com can&ccedil;ões onde essa tem&aacute;tica &eacute; tratada   diretamente, ou de forma mais impl&iacute;cita. Em "Quanta", que abre o &aacute;lbum, Gil   esclarece que estamos falando de uma ci&ecirc;ncia que s&oacute; existe em coisas   infinitamente pequenas, com massa insignificante: <i>Quanta do latim, plural de   quantum/ Quando quase n&atilde;o h&aacute;/ Quantidade que se medir/ Qualidade que se   expressar</i>/ <i>Fragmento infinit&eacute;simo, quase que apenas mental</i>, para   depois usar de poesia no refr&atilde;o <i>C&acirc;ntico dos c&acirc;nticos/ Qu&acirc;ntico dos qu&acirc;nticos</i>;   "O &Aacute;timo de P&oacute;" (Gilberto Gil e Carlos Renn&oacute;), descreve a nossa pequeneza (um   pedacinho de p&oacute;) frente ao Universo: <i>Entre a c&eacute;lula e o c&eacute;u/ O DNA e Deus/ O   quark e a Via&#45;L&aacute;ctea/ A bact&eacute;ria e a gal&aacute;xia... Eu, um cosmos em mim s&oacute;/ Um   &aacute;timo de p&oacute;... Eu e o nada, nada n&atilde;o/ O vasto, vasto v&atilde;o/ Do espa&ccedil;o at&eacute; o spin; </i>em "A Ci&ecirc;ncia em Si", parceria com Arnaldo Antunes, filosofa sobre a   import&acirc;ncia da criatividade e do pensamento cr&iacute;tico para o desenvolvimento da   ci&ecirc;ncia: <i>A ci&ecirc;ncia n&atilde;o se aprende/ A ci&ecirc;ncia apreende/ A ci&ecirc;ncia em si.... A   ci&ecirc;ncia n&atilde;o se ensina/ A ci&ecirc;ncia insemina/ A ci&ecirc;ncia em si... A ci&ecirc;ncia n&atilde;o   avan&ccedil;a/ A ci&ecirc;ncia alcan&ccedil;a/ A ci&ecirc;ncia em si.</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Ci&ecirc;ncia   e arte</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Essa   apaixonante e indissoci&aacute;vel rela&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e arte, que tem a   criatividade como elo, est&aacute; tamb&eacute;m presente em diversas can&ccedil;ões brasileiras,   com Gil, novamente, protagonizando frases como "<i>Sei que a arte &eacute; irm&atilde; da   ci&ecirc;ncia/ Ambas filhas de um Deus fugaz/ Que faz num momento e no mesmo momento   desfaz.</i>", na j&aacute; citada can&ccedil;&atilde;o "Quanta", e tamb&eacute;m em "Ci&ecirc;ncia e Arte",   can&ccedil;&atilde;o de 1976 de Cartola e Carlos Cacha&ccedil;a, que ufanam um pa&iacute;s que se d&aacute; ao   luxo de produzir artistas e cientistas renomados: <i>Tu &eacute;s meu Brasil em toda   parte/ Quer na ci&ecirc;ncia ou na arte/ Portentoso e altaneiro... Cientistas tu tens   e tens cultura/ E neste rude poema destes pobres vates/ H&aacute; s&aacute;bios como Pedro   Am&eacute;rico e C&eacute;sar Lattes. </i>(<a href="#fig02">Figura 2</a>)</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a09fig02.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Alguns   desdobramentos cient&iacute;ficos foram t&atilde;o relevantes e impactantes, que se tornaram   assunto recorrente nas letras de diferentes can&ccedil;ões, de diferentes   compositores, em diferentes &eacute;pocas. Talvez o mais significativo foi o dom&iacute;nio   controlado do processo de fiss&atilde;o do &aacute;tomo, que resultou no ignominioso advento   das bombas at&ocirc;micas (cujo uso pelos Estados Unidos aniquilou as cidades   japonesas de Hiroshima e Nagasaki, matando aproximadamente 200.000 civis e   selando o fim da II Guerra Mundial), mas tamb&eacute;m em diferentes frentes que fazem   o uso pac&iacute;fico da radia&ccedil;&atilde;o nuclear, como na gera&ccedil;&atilde;o de energia limpa nas usinas   nucleares, em medicina nuclear (diagn&oacute;stico por imagem, tratamento de tumores   (radioterapia) e esteriliza&ccedil;&atilde;o de equipamentos m&eacute;dicos), na agricultura, meio   ambiente, etc. O cancioneiro brasileiro est&aacute; repleto de men&ccedil;ões &agrave; era at&ocirc;mica,   olhando para os mais diferentes aspectos detalhados anteriormente, como para o   horror da bomba, para as usinas nucleares ou para os efeitos da radioatividade.   O exemplo mais significativo &eacute; a can&ccedil;&atilde;o "Rosa de Hiroshima", poema de Vinicius   de Moraes escrito em 1946 (logo ap&oacute;s o lan&ccedil;amento das bombas) e musicado por   Gerson Conrad em 1973 (durante a guerra fria, onde as preocupa&ccedil;ões com uma   guerra nuclear entre EUA e a antiga URSS estavam no auge), que se tornou um   sucesso imediato na voz de Nei Matogrosso, no in&iacute;cio do grupo Secos e Molhados   em 1973; <i>Pensem nas crian&ccedil;as mudas, telep&aacute;ticas/ Pensem nas meninas cegas,   inexatas/ Pensem nas mulheres, rotas alteradas/ Pensem nas feridas como rosas   c&aacute;lidas/ Mas, &oacute;, n&atilde;o se esque&ccedil;am da rosa, da rosa/ Da rosa de Hiroshima, a rosa   heredit&aacute;ria/ A rosa radioativa, est&uacute;pida e inv&aacute;lida/ A rosa com cirrose, a   anti&#45;rosa at&ocirc;mica/ Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada.</i> A can&ccedil;&atilde;o &eacute; um   retrato cruel do p&oacute;s&#45;bomba, dos efeitos delet&eacute;rios da radia&ccedil;&atilde;o sobre os   sobreviventes do bombardeio em Hiroshima, com uma l&iacute;rica que nos remete a   imagens cruas e impactantes, tornando&#45;se um hino pacifista contra a   prolifera&ccedil;&atilde;o das armas nucleares.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O fim do   mundo decorrente de uma guerra nuclear &eacute; um tema abundante, principalmente em   can&ccedil;ões compostas durante a guerra fria. Em "Eva", can&ccedil;&atilde;o de Umberto Tozzi e   Giancarlo Bigazzi gravada pelo conjunto Radio Taxi em 1983 (e posteriormente   pela banda Eva em 1997), descreve&#45;se o amor de um casal que sobrevive em uma   aeronave sobre o planeta destru&iacute;do pelas armas nucleares: <i>Meu amor, olha s&oacute;   Hoje o Sol n&atilde;o apareceu/ &Eacute; o fim da aventura humana na Terra... Toda a Terra   reduzida A nada, a nada mais/ Minha vida &eacute; um flash/ De controles Botões   anti&#45;at&ocirc;micos;</i>" Arnaldo Batista relata o instante ap&oacute;s o fim, em "Bomba H   Sobre S&atilde;o Paulo (1981): <i>Foi depois que a luz passou/ E o calor nos assolou/   Depois do grito, o escuro, assombrado/ Primevo at&eacute;/ Foi quando ent&atilde;o, numa   onda, a morte/ Desintegrante e por vezes feliz/ Passou por mim</i>. E Arrigo   Barnab&eacute; e Mario Manga levantam uma quest&atilde;o filos&oacute;fica que est&aacute; terrivelmente   atual, na can&ccedil;&atilde;o "O Dedo de Deus" (1987), sobre o ser humano que tem o poder de   apertar o bot&atilde;o para iniciar uma guerra nuclear: <i>Porque, pra bomba explodir/   Algu&eacute;m tem que apertar o bot&atilde;o/ Ser&aacute; que &eacute; homem? Ser&aacute; que &eacute; mulher?/ Ser&aacute; que   aperta a hora que quiser?/ Como ser&aacute; o dedo da m&atilde;o de quem vai apertar o   bot&atilde;o?/ Ser&aacute; que ele faz a unha pro dedo ficar bonito/ Antes de apertar o bot&atilde;o;   antes de afundar o Jap&atilde;o</i>? A met&aacute;fora da can&ccedil;&atilde;o &eacute; fant&aacute;stica &#45; se o dedo de   algu&eacute;m pode fazer o Planeta desaparecer, poder atribu&iacute;do pelos crentes somente   a Deus, ent&atilde;o esse dedo &eacute; o dedo de Deus: <i>Olha o dedo de Deus apontando pra   mim/ O dedo de Deus apertando o fim/ Olha o dedo na m&atilde;o, olha o dedo no bot&atilde;o/   Olha o dedo de Deus dizendo sim pro n&atilde;o</i>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">As usinas   nucleares s&atilde;o fonte de energia limpa, sem gera&ccedil;&atilde;o de gases poluentes, mas   sempre estiveram envoltas em grandes cuidados e enormes preocupa&ccedil;ões com   rela&ccedil;&atilde;o &agrave; seguran&ccedil;a, com possibilidade de vazamento de radia&ccedil;&atilde;o ou falha em   seus reatores. Exemplos de grandes acidentes em reatores nucleares como os da   usina de Chernobyl na Ucr&acirc;nia em 1986, ou de Fukushima no Jap&atilde;o em 2011, foram   combust&iacute;veis para essas preocupa&ccedil;ões. No Brasil, as &uacute;nicas usinas nucleares em   atividade est&atilde;o na cidade de Angra dos Reis, no RJ, constru&iacute;das ainda durante o   regime militar, fruto de um acordo nuclear entre o Brasil e a Alemanha. A MPB   esteve atenta a isso tudo. Renato Russo, Renato Rocha e Marcelo Bonf&aacute;   compuseram "Angra dos Reis" em 1987: <i>Vamos brincar/ Perto da usina/ Deixa   pra l&aacute;/ A Angra dos Reis/ Por que se explicar/ Se n&atilde;o existe perigo</i>; O   retrato desolador de um poss&iacute;vel acidente nuclear foi o mote de "Angra", de   Jo&atilde;o Bosco e Aldir Blanc (1973): <i>Angra desolada, dia que n&atilde;o raia/ Barcos   submersos, rochas de atalaia/ Redes agonizam pelo ch&atilde;o da praia/ Lemes   submissos, dia que n&atilde;o raia azul/ Nuvens de amea&ccedil;a, lua prisioneira/ &Aacute;guas   assassinas, chuva carpideira</i>; o tema foi explorado no humor escrachado do   grupo L&iacute;ngua de Trapo, na can&ccedil;&atilde;o "Romance em Angra", de Carlos Mastrodom&ecirc;nico e   Laert Sarrumor, de 1982: <i>O nosso amor foi arrasado/ Depois Que o reator foi   instalado/ E nesse pesadelo nuclear/ Na mais torpe afli&ccedil;&atilde;o/ Passo o tempo a   suplicar: N&atilde;o explode cora&ccedil;&atilde;o</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O termo   "Bomba at&ocirc;mica", ou simplesmente o adjetivo "at&ocirc;mico(a)", foi (e &eacute;) ainda   associado a algo com alta intensidade, recurso extremamente utilizado em nossas   can&ccedil;ões. Algo que se deseja mostrar muito forte, muito intenso, al&eacute;m do   convencional, se tornou algo at&ocirc;mico, ou algo de efeito similar a uma bomba   at&ocirc;mica. Assim nos mostraram Jorge Mautner e Nelson Jacobina, em "Cinco Bombas   At&ocirc;micas" (1974), onde usam de uma met&aacute;fora relacionando a intensidade das   emo&ccedil;ões decorrentes de um desejo &agrave; intensidade de cinco bombas at&ocirc;micas: <i>Cinco   bombas at&ocirc;micas/ Em cima do meu c&eacute;rebro/ Quando eu era pequeno/ Saudades   eletr&ocirc;nicas/ Cinco bombas at&ocirc;micas/ De manh&atilde; muito cedo/ Da janela do quarto eu   vejo/ Voc&ecirc;, meu grande desejo/ Que eu quero engolir/ Nesse pr&oacute;ximo beijo</i>;   em "Essa &eacute; pra Acabar" (1992), Luiz Tatit explica que a can&ccedil;&atilde;o que se ouve foi   feita pra que o show acabe, pra que n&atilde;o se pe&ccedil;a mais Bis, pra interromper   drasticamente como se fosse uma bomba at&ocirc;mica: &Eacute;   pra acabar com   a hist&oacute;ria/ Que esse show t&aacute;   meio chocho/   &Eacute; bom   acabar com isso/ Que d&aacute;   &oacute;dio, deixa roxo/ Isso n&atilde;o &eacute;   orquestra/ N&atilde;o &eacute; uma filarm&ocirc;nica/   Temos que acabar como se fosse bomba at&ocirc;mica; o cantor popular Amado Batista descreve o efeito   devastador da perda do grande amor na can&ccedil;&atilde;o "Bomba At&ocirc;mica", de 1994<i>: Voc&ecirc;   detonou sobre mim/ O efeito de uma bomba at&ocirc;mica/ Eu fui o alvo perfeito/ E   nessa guerra perdi seu amor</i>.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"A ci&ecirc;ncia   n&atilde;o se aprende / A ci&ecirc;ncia apreende."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A explora&ccedil;&atilde;o   espacial, os primeiros voos espaciais, a descoberta que a terra era azul, a   chegada do homem &agrave; lua, em Plena Guerra fria no final da d&eacute;cada de 1960,   inspirou muitos compositores brasileiros. Caetano Veloso comp&ocirc;s a bel&iacute;ssima   "Terra", gravada em 1978, e baseada nas fotos divulgadas pela tripula&ccedil;&atilde;o da   nave Apolo 8: <i>Quando eu me encontrava preso/ Na cela de uma cadeia/ Foi que   eu vi pela primeira vez/ As tais Fotografias/ Em que apareces inteira/ Por&eacute;m l&aacute;   n&atilde;o estavas nua/ E sim coberta de nuvens/ Terra/ Terra/ Por mais distante/ O   errante Navegante/ Quem jamais/ Te esqueceria</i>; em 1968, Tom Z&eacute; e Rita Lee   compuseram "2001", uma can&ccedil;&atilde;o com vis&atilde;o futurista, recheada de men&ccedil;ões &agrave;   ci&ecirc;ncia, daquilo que a pr&oacute;pria ci&ecirc;ncia poderia nos trazer ap&oacute;s a explora&ccedil;&atilde;o   espacial: <i>Astronarta" libertado/ Minha vida me ultrapassa/ Em qualquer rota   que eu fa&ccedil;a/ Dei um grito no escuro/ Sou parceiro do futuro/ Na reluzente   gal&aacute;xia/ Eu quase posso "palpar"/ A minha vida que grita/ Emprenha e se   reproduz/ Na velocidade da luz/ A cor do c&eacute;u me compõe/ O mar azul me dissolve/   A equa&ccedil;</i>&atilde;<i>o me propõe/ Computador me resolve/   Amei a velocidade/ Casei com sete planetas</i>; a necessidade da conquista espacial &eacute; questionada   por Jorge Ben (atualmente Jorge Benjor) em 1974, na can&ccedil;&atilde;o "Errare Humanum   est": <i>Tem uns dias que eu acordo/ Pensando e querendo saber/ De onde vem o   nosso impulso/ De sondar o espa&ccedil;o</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A medicina, a   biologia, a ecologia, e seus avan&ccedil;os, sempre foram assuntos fartos nas nossas   can&ccedil;ões. M&eacute;dico psiquiatra de forma&ccedil;&atilde;o, Aldir Blanc usou e abusou de seu   conhecimento na &aacute;rea para abordar o tema, a partir de diferentes pontos de   vista, em diferentes can&ccedil;ões: na estonteante "Altos e Baixos", parceria com   Sueli Costa de 1979 que contou com grava&ccedil;&atilde;o ic&ocirc;nica de Elis Regina no &aacute;lbum   "Essa mulher", cita a mistura bomb&aacute;stica entre o medicamento ansiol&iacute;tico   Dienpax e u&iacute;sque: <i>Foram discos demais/ Desculpas demais/ J&aacute; v&atilde;o tarde essas   tardes e mais tuas aulas/ Meus t&aacute;xis, u&iacute;sque/ Dietil Dienpax</i>; Em Bai&atilde;o de   Lacan, parceria com Guinga de 1983, descreve a receita ministrada por um   seguidor do grande psiquiatra/psicanalista franc&ecirc;s: <i>Tanto sofri nesse af&atilde;/   Que um seguidor de Lacan/ Diagnosticou estresse/ E me mandou pra ro&ccedil;a descansar</i>;   a vulnerabilidade humana &eacute; visceralmente exposta em "O Pulso", de Arnaldo   Antunes, Marcelo Fromer e Tony Bellotto (1989c), que evidenciam que a vida   continua (e o pulso, ainda pulsa) em detrimento de uma sequ&ecirc;ncia de 48 doen&ccedil;as   e condi&ccedil;ões emocionais citadas na letra: <i>Peste bub&ocirc;nica/ C&acirc;ncer, pneumonia/   Raiva, rub&eacute;ola/ Tuberculose e anemia/ Rancor, cisticercose/ Caxumba, difteria/   Encefalite, faringite/ Gripe e leucemia/ E o pulso ainda pulsa</i>; o encontro   entre pai e filha, confirmado pelo exame de paternidade propiciado pela an&aacute;lise   gen&eacute;tica atrav&eacute;s da mol&eacute;cula em forma de espiral do &aacute;cido desoxirribonucleico   (DNA), &eacute; delicadamente descrito na can&ccedil;&atilde;o "DNA", de Jos&eacute; Miguel Wisnik (2003): <i>DNA,   DNA/ Dan&ccedil;a sua dan&ccedil;a, dan&ccedil;a em espirais/ DNA, DNA Ponte indecifr&aacute;vel, onde nos   levais?/ Seja onde for, onda do mar/ m&aacute;gica t&atilde;o fr&aacute;gil, ser e nada mais/ DNA,   DNA, DaNielA</i>; em "Spyro Gyro" (1991), Jorge Ben Jor se refere aos pl&acirc;nctons   como <i>um bichinho bonito que d&aacute; na &aacute;gua</i>; a ecologia e preocupa&ccedil;&atilde;o com o   meio ambiente talvez seja um dos temas mais recorrentes, utilizado por   compositores diversos. Para citar somente alguns: Roberto Carlos e Erasmo   Carlos, com "As Baleias" (1981): <i>Seus netos v&atilde;o te perguntar em poucos anos/   Pelas baleias que cruzavam oceanos/ Que eles viram em velhos livros/ Ou nos   filmes dos arquivos/ Dos programas vespertinos de televis&atilde;o/ O gosto amargo do   sil&ecirc;ncio em sua boca/ Vai te levar de volta ao mar e a f&uacute;ria louca/ De uma cauda   exposta aos ventos/ Em seus &uacute;ltimos momentos/ Relembrada num trof&eacute;u em forma de   arp&atilde;o</i>; Tom Jobim, com Passarim (1987): <i>Passarim quis pousar, n&atilde;o deu,   voou/ Porque o tiro feriu mas n&atilde;o matou... o mato que &eacute; bom, o fogo queimou/   Cad&ecirc; o fogo? A &aacute;gua apagou/ E cad&ecirc; a &aacute;gua? O boi bebeu/ Cad&ecirc; o amor? O gato   comeu/ E a cinza se espalhou/ E a chuva carregou/ Cad&ecirc; meu amor que o vento   levou?; </i>"O Sal da Terra", de Berto Guedes e Ronaldo Bastos (1981): <i>Terra, </i>&Eacute;s o mais bonito   dos planetas<i>/ T&atilde;o   te maltratando por dinheiro/ Tu que &eacute;s a nave, nossa irm&atilde;</i>; "Xote Ecol&oacute;gico", de Luiz Gonzaga   e Aguinaldo Batista, j&aacute; falava dos efeitos da polui&ccedil;&atilde;o em 1989: <i>Cad&ecirc; a flor   que tava aqui? Polui&ccedil;&atilde;o comeu/ O peixe que &eacute; do mar? Polui&ccedil;&atilde;o comeu/ O verde   onde &eacute; que est&aacute;? Polui&ccedil;&atilde;o comeu/ Nem o Chico Mendes sobreviveu</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A MPB tamb&eacute;m   est&aacute; repleta de refer&ecirc;ncias diretas a ramos espec&iacute;ficos do conhecimento, como,   por exemplo, a   qu&iacute;mica, que aparece de forma recorrente em   alguns trabalhos de Jorge Ben, principalmente no cl&aacute;ssico &aacute;lbum "T&aacute;bua de   Esmeralda" (1974), que faz men&ccedil;&atilde;o ao texto de mesmo nome escrito por Hermes   Trismegisto, considerado por muitos o propulsor da Alquimia, que por sua vez &eacute;   a antecessora da Qu&iacute;mica moderna. Can&ccedil;ões como "Hermes Trismegisto E Sua   Celeste T&aacute;bua De Esmeralda" (<i>Hermes Trismegisto escreveu/ Com uma ponta de   diamante em uma l&acirc;mina de esmeralda/ O que est&aacute; embaixo &eacute; como o que est&aacute; no   alto/ E o que est&aacute; no alto &eacute; como o que est&aacute; embaixo</i>) e "Os alquimistas   est&atilde;o chegando" (<i>Os alquimistas est&atilde;o chegando/ Eles s&atilde;o discretos e   silenciosos/.../ S&atilde;o pacientes, ass&iacute;duos e perseverantes/ Executam segundo as   regras herm&eacute;ticas/ Desde a tritura&ccedil;&atilde;o, a fixa&ccedil;&atilde;o/ A destila&ccedil;&atilde;o e a coagula&ccedil;&atilde;o/   Trazem consigo cadinhos/ Vasos de vidro, potes de lou&ccedil;a/ Todos bem e iluminados</i>)   s&atilde;o duas das can&ccedil;ões representativas desse &aacute;lbum; ainda em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; qu&iacute;mica,   em 2015 Lenine lan&ccedil;a o &aacute;lbum intitulado "Carbono", em homenagem ao elemento   qu&iacute;mico que d&aacute; sustenta&ccedil;&atilde;o &agrave; vida na terra. O fasc&iacute;nio causado pelos dois   al&oacute;tropos mais famosos do carbono, o grafite e o diamante, que t&ecirc;m a mesma   composi&ccedil;&atilde;o qu&iacute;mica com propriedades t&atilde;o diferentes, foi a for&ccedil;a motriz do   projeto. Segundo suas palavras, "essa capacidade de se associar a infinitas   coisas e gerar novas subst&acirc;ncias, de alguma maneira, define um pouco sobre o   que eu fa&ccedil;o." Essa dualidade, esse quase contr&aacute;rio, foi expressa na can&ccedil;&atilde;o   "Grafite Diamante", que retrata os desencontros em um relacionamento: <i>Se eu   meto bala, voc&ecirc; me fuzila/ Se eu ergo a espada, voc&ecirc; j&aacute; se lan&ccedil;a/ Se eu vou de   cacho, voc&ecirc; vem de penca/ Se eu te encho e vazo, voc&ecirc; me estanca</i>; em "A   Causa e o P&oacute;", temos a refer&ecirc;ncia ao elemento da vida: <i>Sou de estrelas a   causa e o p&oacute;/ Sou de estrelas e s&oacute;/ Do ser ao p&oacute;, &eacute; s&oacute; Carbono/ Solene,   terreno, imenso</i>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Liberdade   po&eacute;tico/cient&iacute;fica</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em   se tratando de arte, independente do tema abordado, &eacute; fundamental que o produto   sensibilize o p&uacute;blico. E n&atilde;o h&aacute; nada mais belo que a descri&ccedil;&atilde;o de manifesta&ccedil;ões   ou fatos ou eventos cient&iacute;ficos com liberdade po&eacute;tica, dentro dos enredos   peculiares de cada can&ccedil;&atilde;o, se utilizando de met&aacute;foras ou imagens &uacute;nicas,   capazes de gerar mosaicos po&eacute;tico/cient&iacute;ficos tamb&eacute;m &uacute;nicos. Cito tr&ecirc;s exemplos   magistrais da ci&ecirc;ncia &agrave; luz da poesia, em tr&ecirc;s can&ccedil;ões da nossa MPB:</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">1) O   ciclo hidrol&oacute;gico, popularmente conhecido por ciclo da &aacute;gua, envolve a   circula&ccedil;&atilde;o continuada da &aacute;gua entre a terra e a atmosfera, nas etapas de   evapora&ccedil;&atilde;o (dos oceanos, rios, etc.), a condensa&ccedil;&atilde;o na atmosfera na forma de   nuvens, a precipita&ccedil;&atilde;o na forma de chuva sobre os oceanos ou no solo, onde pode   ser absorvida para o interior da terra, para iniciar tudo novamente. O ciclo da   &aacute;gua foi descrito da seguinte maneira por Guilherme Arantes, na can&ccedil;&atilde;o "Planeta   &Aacute;gua", de 1987: &Aacute;gua   dos igarap&eacute;s/ Onde   Iara, m&atilde;e d›&aacute;gua, &eacute; misteriosa can&ccedil;&atilde;o/ &Aacute;gua que   o Sol evapora/ Pro c&eacute;u vai   embora virar nuvens de algod&atilde;o/ Gotas de &aacute;gua da chuva/ Alegre arco&#45;&iacute;ris sobre a planta&ccedil;&atilde;o/ Gotas   de &aacute;gua da   chuva/ T&atilde;o tristes,   s&atilde;o l&aacute;grimas na   inunda&ccedil;&atilde;o/ &Aacute;guas   que movem moinhos; S&atilde;o as   mesmas &aacute;guas que   encharcam o ch&atilde;o/   E sempre voltam humildes/ Pro fundo da terra;</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">2) A   decomposi&ccedil;&atilde;o da luz branca em seus componentes fundamentais, um fen&ocirc;meno de   dispers&atilde;o da luz policrom&aacute;tica por prismas ou gotas de &aacute;gua, &eacute; o fen&ocirc;meno que   d&aacute; origem ao arco&#45;&iacute;ris, gerando o espectro de luz vis&iacute;vel caracter&iacute;stico, com   as sete cores dominantes &#45; vermelho, alaranjado, amarelo, verde, azul, anil e   violeta. Na estonteante can&ccedil;&atilde;o "Luiza" (1981), Tom Jobim nos diz: <i>um raio de   sol/ Nos teus cabelos/ Como um brilhante que partindo a luz/ Explode em sete   cores/ Revelando ent&atilde;o os sete mil amores/ Que eu guardei somente pra te dar,   Luiza</i>;</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">3) Uma das rea&ccedil;ões qu&iacute;micas mais   lindas, um dos fen&ocirc;menos biol&oacute;gicos mais fascinantes, diretamente respons&aacute;vel   pela manuten&ccedil;&atilde;o da vida na Terra, a fotoss&iacute;ntese &eacute; o processo que fornece   "alimento" para as plantas e algas, transformando g&aacute;s carb&ocirc;nico e &aacute;gua em   glicose. A fotoss&iacute;ntese &eacute; promovida pela luz solar, que &eacute; absorvida pela   clorofila (sendo o pigmento respons&aacute;vel pela colora&ccedil;&atilde;o verde das folhas), e   gera como produto glicose e oxig&ecirc;nio. O texto anterior &eacute; quimicamente   representado pela seguinte rea&ccedil;&atilde;o:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="verdana">6 CO<sub>2</sub> (g) + 6 H<sub>2</sub>O     (l) + luz &#8594; C<sub>6</sub>H<sub>12</sub>O<sub>6 </sub>(s) + 6 O<sub>2</sub> (g)</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="verdana">na can&ccedil;&atilde;o   "Luz do Sol" (1982), Caetano Veloso n&atilde;o economiza na met&aacute;fora e na liberdade   po&eacute;tica, para nos trazer a fotoss&iacute;ntese com   essas palavras: <i>Luz do sol/ Que a folha traga e traduz/ Em verde novo/ Em   folha, em gra&ccedil;a, em vida, em for&ccedil;a, em luz</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">E como diria   o pr&oacute;prio Caetano Veloso, em parceria com Chico Buarque na can&ccedil;&atilde;o "Festa   Imodesta", de 1974: <i>Viva o Compositor Popular</i>!</font></p>      ]]></body>

</article>
