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<article-id pub-id-type="doi">10.48207/2317-6660.20260012</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Trabalho, Mulher e Dinheiro na Música Popular Brasileira]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,UFRGS Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317&#45;6660.20260012</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>OPINI&Atilde;O</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>Trabalho,   Mulher e Dinheiro na M&uacute;sica Popular Brasileira</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Ruben George Oliven<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>Professor do Programa de P&oacute;s&#45;Gradua&ccedil;&atilde;o em Antropologia Social   da UFRGS. Seu   livro "Samba, Blues and Jazz: love, money and race in Brazilian and American Music" ser&aacute; publicado em 2026 pela editora Routledge &amp; Kegan Paul.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Em 1933,   Orestes Barbosa e Ant&ocirc;nio N&aacute;ssara gravaram o samba <i>Caixa Econ&ocirc;mica</i>:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Voc&ecirc; quer comprar o seu sossego</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Me vendo morrer num emprego</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Pra depois ent&atilde;o gozar</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Esta vida &eacute; muito c&ocirc;mica</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Eu n&atilde;o sou Caixa Econ&ocirc;mica</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Que tem juros a ganhar</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>E voc&ecirc; quer comprar o qu&ecirc;, hein?</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Voc&ecirc; diz que eu sou moleque</i></font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"><i>porque n&atilde;o vou trabalhar</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>eu n&atilde;o sou livro de cheque</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Pra voc&ecirc; ir descontar</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Se voc&ecirc; vive tranquila</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Sempre fazendo chiqu&ecirc;</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Sempre na primeira fila</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Me fazendo de guich&ecirc;</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>E voc&ecirc; quer comprar o qu&ecirc;, hein?</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Meu av&ocirc; morreu na luta</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>E meu pai, pobre coitado</i></font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"><i>Fatigou&#45;se na labuta</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Por isso eu nasci cansado</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>E pra falar com justi&ccedil;a</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Eu declaro aos empregados</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Ter em mim essa pregui&ccedil;a</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Heran&ccedil;a de antepassado</i></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="verdana">Esta can&ccedil;&atilde;o   condensa, de forma entrela&ccedil;ada, tr&ecirc;s temas centrais da m&uacute;sica popular   brasileira daquela &eacute;poca: trabalho, dinheiro e mulher. O narrador, ao que tudo   sugere, &eacute; neto de um escravizado e filho de um lavrador ou de um oper&aacute;rio. Ele   se refere aos "empregados" &#151; aqueles que trabalhavam em f&aacute;bricas, num per&iacute;odo   em que a industrializa&ccedil;&atilde;o crescia em algumas cidades brasileiras &#151; para dizer   que sua fam&iacute;lia j&aacute; trabalhou o suficiente, a ponto de ele nascer cansado. Ele   se dirige a uma mulher que o acusa de ser vadio e n&atilde;o querer trabalhar. Sua   defesa &eacute; um contra&#45;ataque em que ele a retrata como uma consumista inveterada,   interessada apenas no dinheiro dele.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A primeira   metade do s&eacute;culo XX foi um per&iacute;odo de grandes mudan&ccedil;as sociais e econ&ocirc;micas no   Brasil. A escravid&atilde;o, fundamento da economia e da sociedade do pa&iacute;s, tinha sido   abolida recentemente. Nas d&eacute;cadas de 1930 e 1940, a migra&ccedil;&atilde;o campo&#45;cidade se   intensificou e a industrializa&ccedil;&atilde;o ganhou &iacute;mpeto, acompanhada do trabalho   assalariado.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Em   contextos urbanos, as can&ccedil;ões frequentemente abordam questões que surgem   durante per&iacute;odos de mudan&ccedil;a, quando novos comportamentos substituem formas   tradicionais de vida."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A vida urbana   trouxe novas oportunidades que n&atilde;o existiam no campo. Mas ela tamb&eacute;m significou   ter de lidar com a sensa&ccedil;&atilde;o de perdas. Ao passo que as cidades eram vistas como   arautos do progresso, o campo era considerado um para&iacute;so perdido. Viver em   contextos urbanos significava enfrentar novos desafios e lidar com questões que   n&atilde;o existiam no mundo rural, como conseguir moradia, encontrar emprego,   aprender a lidar com novas no&ccedil;ões de tempo, administrar dinheiro e manter a   fam&iacute;lia unida.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">A cidade   tinha um ritmo mais acelerado e apresentava novas formas de vida. Para aqueles   acostumados a contextos menores e a rela&ccedil;ões face a face, ela significava   anonimato e perigo. Junto com as transforma&ccedil;ões socioecon&ocirc;micas, pol&iacute;ticas e   demogr&aacute;ficas, vieram tamb&eacute;m mudan&ccedil;as culturais. Elas eram sentidas de   diferentes maneiras pelos habitantes de cidades: no mundo do trabalho e do   dinheiro e nas rela&ccedil;ões familiares e de g&ecirc;nero. A industrializa&ccedil;&atilde;o imp&ocirc;s a   disciplina fabril a pessoas acostumadas ao trabalho no campo. Ela tamb&eacute;m   significou uma crescente monetiza&ccedil;&atilde;o da vida social, transforma&ccedil;ões nas   rela&ccedil;ões de g&ecirc;nero, quando as mulheres passaram a ter trabalho assalariado, e   uma mudan&ccedil;a de um modelo de fam&iacute;lia mais patriarcal para um modelo nuclear.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A m&uacute;sica   popular desse per&iacute;odo reflete eloquentemente as r&aacute;pidas transforma&ccedil;ões porque o   Brasil passou, sendo uma das fontes mais importantes para compreender o pa&iacute;s.   As can&ccedil;ões populares refletem o cotidiano, captando mudan&ccedil;as nos valores   morais, nos acontecimentos pol&iacute;ticos, nas normas culturais e nas representa&ccedil;ões   econ&ocirc;micas. Em contextos urbanos, as can&ccedil;ões frequentemente abordam questões   que surgem durante per&iacute;odos de mudan&ccedil;a, quando novos comportamentos substituem   formas tradicionais de vida. Durante os anos trinta, quarenta e cinquenta,   houve uma prolifera&ccedil;&atilde;o de can&ccedil;ões que ecoaram o imagin&aacute;rio desse per&iacute;odo.   V&aacute;rias composi&ccedil;ões se tornaram cl&aacute;ssicas e integram o imagin&aacute;rio brasileiro.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O samba   floresceu na d&eacute;cada de 1920 e amadureceu nas d&eacute;cadas de 1930 a 1950. Junto com   o chorinho e a marcha carnavalesca, ele formou o que ficou conhecido como <i>MPB </i>(M&uacute;sica Popular Brasileira). A d&eacute;cada de trinta e quarenta testemunhou uma   prolifera&ccedil;&atilde;o de can&ccedil;ões rejeitando o trabalho e a monotonia do mundo   assalariado como algo positivo e exaltando a malandragem. A maioria dos   compositores de samba desse per&iacute;odo era composta por homens, em geral, de   origem humilde e frequentemente descendentes de escravizados. Suas composi&ccedil;ões   tratavam de temas que repercutiam numa sociedade em mudan&ccedil;a, na qual o   trabalho, o dinheiro e o g&ecirc;nero ocupavam um lugar proeminente. Os m&uacute;sicos   rejeitavam, de forma consciente, o trabalho e a &eacute;tica associados a ele,   elogiando, em vez disso, a malandragem. Eles se assumiam pregui&ccedil;osos e como   tendo coisas mais nobres a fazer do que ocupar&#45;se do dinheiro.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Para   compreender a constitui&ccedil;&atilde;o do Brasil moderno, &eacute; fundamental analisar seu cancioneiro da primeira metade do s&eacute;culo passado."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">At&eacute; o final   do s&eacute;culo XIX, o trabalho manual era visto como degradante, a ser realizado por   escravizados. O "horror ao batente" n&atilde;o desapareceu com a aboli&ccedil;&atilde;o e persistiu   no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX. Mesmo com o advento da ind&uacute;stria, o trabalho n&atilde;o   proporcionava oportunidades de mobilidade social significativas, pois a ordem   social permanecia marcada por r&iacute;gidas fronteiras.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Um personagem central nos sambas da &eacute;poca era o malandro, que vivia no   Rio de Janeiro. Ele trajava um terno de linho branco, um chap&eacute;u Panam&aacute; e um   len&ccedil;o no pesco&ccedil;o. Em princ&iacute;pio, n&atilde;o trabalhava e, portanto, para sobreviver ele   lan&ccedil;ava m&atilde;o de expedientes: pedia dinheiro emprestado, jogava, enganava algum   ot&aacute;rio ou era sustentando por sua amante. Embora carregasse uma navalha no   bolso, ele s&oacute; a usava como &uacute;ltimo recurso. Apesar de ser tratado pela pol&iacute;cia   como um vadio, ele era encarado com simpatia por parte de uma parcela da   popula&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A mulher ocupava um espa&ccedil;o central nos sambas dessa &eacute;poca. Em muitas   can&ccedil;ões ela aparece como figura sublime, associada &agrave; dedica&ccedil;&atilde;o, &agrave; estabilidade   emocional e ao cuidado dom&eacute;stico, como em <i>Em&iacute;lia </i>(de Wilson Batista e   Haroldo Lobo) e <i>Ai que Saudades de Am&eacute;lia</i> (de M&aacute;rio Lago e Ataulfo   Alves), ambas gravadas em 1941 (<a href="#fig01">Figura 1</a>):</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a12fig01.jpg"></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="verdana"><b>Em&iacute;lia</b></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Eu     quero uma mulher</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Que     saiba lavar e cozinhar</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Que,     de manh&atilde; cedo,</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Me     acorde na hora de trabalhar</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>S&oacute;     existe uma</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>E sem     ela eu n&atilde;o vivo em paz</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Em&iacute;lia,     Em&iacute;lia, Em&iacute;lia</i></font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"><i>Eu     n&atilde;o posso mais</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Ningu&eacute;m     sabe igual a ela</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Como     preparar meu caf&eacute;</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>N&atilde;o     desfazendo das outras</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Em&iacute;lia     &eacute; mulher</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Papai     do c&eacute;u &eacute; quem sabe</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>A     falta que ela me faz</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Em&iacute;lia,     Em&iacute;lia, Em&iacute;lia</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Eu     n&atilde;o posso mais</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><b>Ai que Saudades da Am&eacute;lia</b></font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"><i>Nunca     vi fazer tanta exig&ecirc;ncia</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Nem     fazer o que voc&ecirc; me faz</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Voc&ecirc;     n&atilde;o sabe o que &eacute; ter consci&ecirc;ncia</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>N&atilde;o     v&ecirc; que eu sou um pobre rapaz</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Voc&ecirc;     s&oacute; pensa em luxo e riqueza</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Tudo     que voc&ecirc; v&ecirc;, voc&ecirc; quer</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Ai,     meu Deus, que saudades da Am&eacute;lia</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Aquilo     sim &eacute; que era mulher</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>&Agrave;s     vezes passava fome a meu lado</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>E     achava bonito n&atilde;o ter o que comer</i></font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"><i>E     quando me via contrariado, dizia</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>"Meu     filho, o que se h&aacute; de fazer?"</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Am&eacute;lia     n&atilde;o tinha nenhuma vaidade</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Am&eacute;lia     &eacute; que era mulher de verdade</i></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="verdana">O aspecto   mais destacado desses sambas cl&aacute;ssicos &eacute;, em geral, o car&aacute;ter dom&eacute;stico das   personagens, sua submiss&atilde;o e passividade. Nos dois sambas h&aacute; uma clara proje&ccedil;&atilde;o   da figura materna. Em&iacute;lia executa afazeres bem maternos: acorda seu companheiro   e sabe preparar seu caf&eacute; como ningu&eacute;m. Am&eacute;lia chama o narrador de "meu filho",   refor&ccedil;ando a fus&atilde;o entre companheira e m&atilde;e.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Outro tra&ccedil;o,   entretanto, &eacute; igualmente fundamental: o elemento de seguran&ccedil;a que elas   representam. S&atilde;o mulheres&#45;&acirc;ncora, bem como mulheres&#45;b&uacute;ssola, que assentam o   homem e lhe fornecem um norte. O que caracteriza esse tipo de mulher &eacute;, al&eacute;m de   seu despojamento, sua capacidade de oferecer seguran&ccedil;a emocional e um sentido   de coer&ecirc;ncia identit&aacute;ria num mundo percebido como crescentemente inst&aacute;vel e   desorientado. Os homens, por sua vez, se apresentam na MPB como seres carentes,   v&iacute;timas de perdas irrepar&aacute;veis e em busca de uma figura m&iacute;tica que lhes ofere&ccedil;a   um amor incondicional. Esta seria a subst&acirc;ncia vital (o leite materno?) que   lhes asseguraria a exist&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Tanto Em&iacute;lia   quanto Am&eacute;lia est&atilde;o ausentes. Devido &agrave; morte, &agrave; separa&ccedil;&atilde;o ou &agrave; idealiza&ccedil;&atilde;o   m&iacute;tica, seus desaparecimentos assinalam uma profunda perda. Elas representam um   tipo de mulher que j&aacute; n&atilde;o &eacute; acess&iacute;vel no mundo moderno – um marco em rela&ccedil;&atilde;o ao   qual todas as mulheres contempor&acirc;neas s&atilde;o comparadas desfavoravelmente. No caso   de Em&iacute;lia, isto &eacute; feito de maneira gen&eacute;rica e n&atilde;o agressiva (<i>"S&oacute; existe uma   / e sem ela eu n&atilde;o vivo em paz" e "N&atilde;o desfazendo das outras / Em&iacute;lia &eacute; mulher"</i>).   J&aacute; no caso de Am&eacute;lia, o samba come&ccedil;a por acusar outra mulher: <i>"Nunca vi   fazer tanta exig&ecirc;ncia"</i>. Trata&#45;se de uma mulher ego&iacute;sta e consumidora que,   comparada &agrave; Am&eacute;lia, mulher de   verdade, &eacute; falsa.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A mulher   aparece, assim, de modo ambivalente: fonte de estabilidade e prazer, mas tamb&eacute;m   de amea&ccedil;a, abandono e desordem. Como diz o t&iacute;tulo de um samba de Ataulfo Alves   e Roberto Martins, de 1940: "<i>A mulher faz o homem</i>". A composi&ccedil;&atilde;o e o seu   t&iacute;tulo atribuem claramente &agrave; mulher a faculdade de fazer o homem: ela &eacute; vista   como o motor do movimento masculino. Mas se &eacute; a mulher quem faz o homem, ela   tamb&eacute;m det&eacute;m o poder de desfaz&ecirc;&#45;lo, e &eacute; a&iacute; que reside o perigo. Assim, ela &eacute;,   de fato, percebida como muito poderosa, capaz tanto de ser a subst&acirc;ncia vital   que anima o homem a realizar coisas, a ser corajoso na rua porque &eacute; amado em   casa, quanto de, por sua aus&ecirc;ncia, significar a interrup&ccedil;&atilde;o da energia de que o   homem necessita para se envolver em suas lutas. Simboliza tanto a rotina e a   obriga&ccedil;&atilde;o de trabalhar quanto o prazer. Pode estar associada &agrave; natureza no que   esta tem de mais puro, ou equivalente ao dinheiro, no que este tem de mais vil.   Por isto, alguns dos temas centrais dos sambas dessa &eacute;poca s&atilde;o o medo do abandono,   a trai&ccedil;&atilde;o e a vingan&ccedil;a, ligados &agrave; quest&atilde;o do prazer, do trabalho e do dinheiro.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Essa   ambival&ecirc;ncia &eacute; claramente expressa em <i>Oh! Seu Oscar</i> (Wilson Batista e   Ataulfo Alves, 1939), que associa o trabalho masculino ao abandono feminino   (<a href="#fig02">Figura 2</a>):</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a12fig02.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Cheguei     cansado do trabalho</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Logo a     vizinha me falou:</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>&#45; Oh!     Seu Oscar</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>T&aacute;     fazendo meia hora</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Que     sua mulher foi se embora</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>E um     bilhete deixou</i></font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana"><i>O     bilhete assim dizia:</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>"N&atilde;o     posso mais</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Eu     quero &eacute; viver na orgia"</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Fiz de     tudo para ter seu bem&#45;estar</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>At&eacute; no     cais do porto eu fui parar</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Martirizando     o meu corpo noite e dia</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Mas     tudo em v&atilde;o</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>Ela &eacute;,     &eacute; da orgia</i></font></p>       <p><font size="2" face="verdana"><i>&Eacute; ...     parei!</i></font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="verdana">Oscar &eacute; um   personagem que "demonstra" a inutilidade do trabalho. Ele d&aacute; duro e n&atilde;o mede   esfor&ccedil;os para proporcionar um padr&atilde;o de vida &agrave; sua mulher, sacrificando   inclusive o pr&oacute;prio corpo como estivador. Mas todo esse empenho &eacute; in&uacute;til, pois   sua mulher, num exemplo extremo de ingratid&atilde;o, abandona&#45;o "pela orgia",   imobilizando&#45;o (<i>"&Eacute; ... parei!"</i>).   O narrador se transforma, assim, num aut&ecirc;ntico ot&aacute;rio, &agrave; medida que, em   retribui&ccedil;&atilde;o por seu esfor&ccedil;o e trabalho, a mulher o troca pelo prazer fora de   casa.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">As acusa&ccedil;ões   e queixas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; mulher s&atilde;o recorrentes nas letras da &eacute;poca. Com   frequ&ecirc;ncia, elas se centram na quest&atilde;o do trabalho visto como imposi&ccedil;&atilde;o   feminina ao homem. A mulher representa o polo da ordem, lembrando ao homem a   necessidade de se inserir na produ&ccedil;&atilde;o e de ganhar dinheiro.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Expectativas,   frustra&ccedil;ões e ressentimentos s&atilde;o temas abundantes nas composi&ccedil;ões da &eacute;poca. As   can&ccedil;ões mostram tanto o ponto de vista masculino quanto o feminino (por meio da   imagina&ccedil;&atilde;o masculina). Como as rela&ccedil;ões amorosas s&atilde;o feitas de expectativas,   nos deparamos com a tens&atilde;o entre o que se espera ou se solicita do sexo oposto   e o que se obt&eacute;m dele. Tamb&eacute;m est&atilde;o sempre presentes o que foi feito para   atender &agrave;s expectativas do outro e a gratid&atilde;o   ou ingratid&atilde;o gerada pela a&ccedil;&atilde;o. A m&uacute;sica popular dessa &eacute;poca reflete esse mundo   de queixas num registro que, &agrave;s vezes, &eacute; humor&iacute;stico e, em outras, ressentido.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Trabalho,   mulher e dinheiro constituem eixos fundamentais desse repert&oacute;rio, que expressa de forma criativa, as ambiguidades de um pa&iacute;s em transforma&ccedil;&atilde;o."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Desde cedo, o   samba registra a tens&atilde;o entre a crescente import&acirc;ncia do dinheiro numa   sociedade mercantilizada e a dificuldade de obt&ecirc;&#45;lo por meio do trabalho. O   dinheiro permeia as rela&ccedil;ões de g&ecirc;nero da m&uacute;sica popular brasileira. Em 1918,   Sinh&ocirc;, o "Rei do Samba", lan&ccedil;ou <i>Quem S&atilde;o Eles, </i>seu primeiro sucesso de   carnaval. Uma das estrofes diz: <i>"N&atilde;o precisa pedir / Que eu vou dar /   Dinheiro n&atilde;o tenho / Mas vou roubar"</i>. Nessa can&ccedil;&atilde;o, o tema do dinheiro   aparece de passagem, intercalado entre outros motivos, como se fosse algo   menor. O sujeito n&atilde;o tem dinheiro e, para consegui&#45;lo, n&atilde;o vai utilizar o   trabalho, considerado indigno, mas o roubo. Ele se apresenta como desligado das   preocupa&ccedil;ões materiais, ao mesmo tempo, em que deixa impl&iacute;cito que &eacute; uma mulher   quem lhe pede dinheiro e que ela n&atilde;o &eacute; indiferente &agrave;s questões financeiras.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Em 1920,   Sinh&ocirc; gravou um de seus maiores sucessos, a marcha carnavalesca <i>O P&eacute; de Anjo</i>, em que diz: "<i>A mulher e a galinha / S&atilde;o dois bichos interesseiros: / A galinha   pelo milho / E a mulher pelo dinheiro</i>".   A mulher, comparada &agrave; galinha que est&aacute; sempre bicando, &eacute; vista como uma   criatura gananciosa. Fica j&aacute; presente a ideia de que, enquanto o homem est&aacute;   acima dos interesses materiais, a mulher est&aacute; constantemente trazendo &agrave; baila o   dinheiro, esse tema t&atilde;o desprez&iacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Na marcha <i>Amor   sem Dinheiro</i>, grande &ecirc;xito do carnaval de 1926, Sinh&ocirc; discute a rela&ccedil;&atilde;o   entre dinheiro e amor, mostrando a impossibilidade de viver plenamente o &uacute;ltimo   sem condi&ccedil;ões financeiras adequadas, ao afirmar que <i>"Amor, sem dinheiro n&atilde;o   tem valor / &Eacute; fogo de palha / &Eacute; casa sem dono / Em que mora a canalha"</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">&Eacute; significativo, entretanto, que o   mesmo Sinh&ocirc; tenha lan&ccedil;ado em 1928 um samba de partido alto, <i>Que Vale a Nota   sem o Carinho da Mulher, </i>que vai no sentido oposto aos tr&ecirc;s anteriores,   pois, na primeira estrofe, ele proclama a supremacia do amor sobre o dinheiro: <i>"Amor!   Amor! / N&atilde;o &eacute; para quem quer / De que vale a nota, meu bem / Sem o puro carinho   da mulher? / (quando ela quer)"</i>. O t&iacute;tulo resume o significado da can&ccedil;&atilde;o. A   can&ccedil;&atilde;o ressalta que o amor &eacute; muito mais importante do que o dinheiro e que este nada   vale sem o carinho da mulher. Na &eacute;poca, essa &eacute; uma tens&atilde;o constante nas m&uacute;sicas   que tratam de dinheiro. Por um lado, todos sabem que numa sociedade cada vez   mais mercantilizada, como a brasileira daquele per&iacute;odo, &eacute; preciso dinheiro para   conseguir as coisas que se deseja. Por&eacute;m, como &eacute; dif&iacute;cil para o pobre ganhar o   suficiente com seu trabalho, h&aacute; uma esp&eacute;cie de mentalidade de "desprezo pelas   uvas verdes", que se traduz em afirmar que o afeto &eacute; muito mais importante que   a riqueza. Essa contradi&ccedil;&atilde;o aparece, &agrave;s vezes, em m&uacute;sicas de um mesmo   compositor, como o de Sinh&ocirc;. O que se observa nas composi&ccedil;ões do come&ccedil;o do   s&eacute;culo passado &eacute; a simultaneidade entre a no&ccedil;&atilde;o da crescente   import&acirc;ncia do dinheiro e a proposta de solu&ccedil;ões afetivas e m&aacute;gicas que   minimizam sua escassez.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Para   compreender a constitui&ccedil;&atilde;o do Brasil moderno, &eacute; fundamental analisar seu   cancioneiro da primeira metade do s&eacute;culo passado. Trabalho, mulher e dinheiro   constituem eixos fundamentais desse repert&oacute;rio, que expressa de forma criativa,   as ambiguidades de um pa&iacute;s em transforma&ccedil;&atilde;o. Embora a ind&uacute;stria cultural ainda   estivesse num est&aacute;gio embrion&aacute;rio, essas composi&ccedil;ões alcan&ccedil;aram sucesso   impressionante, o que indica que tiveram forte repercuss&atilde;o no imagin&aacute;rio   popular. Esses sambas permanecem como documentos privilegiados do imagin&aacute;rio   social e da constru&ccedil;&atilde;o da identidade nacional.</font></p>      ]]></body>

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