<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252026000100013</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.48207/2317-6660.20260013</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Canto coletivo: potência para reflexões e ações contemporâneas]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Piquera]]></surname>
<given-names><![CDATA[Luiz]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Colégio Progresso Araraquara Coro e Osso, Musiarte ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2026</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2026</year>
</pub-date>
<volume>78</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>95</fpage>
<lpage>98</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252026000100013&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252026000100013&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252026000100013&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana">10.48207/2317&#45;6660.20260013</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana"><b>OPINI&Atilde;O</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>Canto   coletivo: pot&ecirc;ncia para reflexões e a&ccedil;ões contempor&acirc;neas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana"> <b>Luiz Piquera<sup>I</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana"><sup>I</sup>M&uacute;sico, compositor, arranjador e regente dos grupos Coro e Osso,   Musiarte &#151; Col&eacute;gio Progresso Araraquara e Sorema Canto Livre e autor da obra "Outro &#151; Su&iacute;te M&uacute;sica Vogal" para dois coros, solista e percuss&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">Quando as   luzes se acendem e o palco do teatro revela o coro que ir&aacute; performar o   repert&oacute;rio, preparado sob crit&eacute;rios est&eacute;ticos espec&iacute;ficos para aquela ocasi&atilde;o,   adentrando, com seus trajes e maquiagens, os pratic&aacute;veis atr&aacute;s da orquestra,   nos concertos sinf&ocirc;nicos, ou o centro do espa&ccedil;o nos concertos <i>a cappella</i> ou nos espet&aacute;culos c&ecirc;nicos, ouviremos, em breve, o canto coletivo de homens e   mulheres (&agrave;s vezes crian&ccedil;as tamb&eacute;m) igual a quando sob determinada luz da lua,   ou do sol, o centro da aldeia &eacute; ocupado por um grupo de homens e mulheres (&agrave;s   vezes crian&ccedil;as tamb&eacute;m) que, com seus trajes e maquiagens, performar&atilde;o um   repert&oacute;rio tamb&eacute;m preparado sob crit&eacute;rios est&eacute;ticos espec&iacute;ficos para aquela   ocasi&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Muita   dist&acirc;ncia separa os exemplos citados, mas talvez nenhuma, exceto o fato de que   no primeiro caso, o palco do teatro pressupõe uma plateia e o centro da aldeia   na floresta n&atilde;o requer audi&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O canto   coletivo n&atilde;o precisa ser um show. Pode ser absoluto em si, como ato vivido no   instante, partilhado e celebrado no tempo presente.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Uso aqui a   express&atilde;o canto coletivo como forma de ampliar o conceito conhecido como coro   (ou coral) que tem sua origem no teatro grego antigo onde o<i> Khoros</i>, formado   por um grupo de dan&ccedil;arinos e cantores, desempenhava importante papel na   narra&ccedil;&atilde;o e coment&aacute;rio das a&ccedil;ões c&ecirc;nicas da trag&eacute;dia. Posteriormente o coro   assume fun&ccedil;&atilde;o importante no ritual crist&atilde;o cat&oacute;lico e protestante com missas,   orat&oacute;rios e cantatas, estendendo&#45;se tamb&eacute;m ao repert&oacute;rio secular para grupos <i>a   cappella</i> ou com acompanhamento instrumental com grande relev&acirc;ncia nas   &oacute;peras.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"O canto   coletivo n&atilde;o precisa ser um show."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Esse coro   organizou&#45;se como um conjunto musical cujos cantores se dividem em naipes:   soprano, contralto, tenor e baixo, de acordo com as caracter&iacute;sticas naturais de   suas vozes. Entretanto, &eacute; preciso dizer que essa organiza&ccedil;&atilde;o formal do coro se   deu nos pa&iacute;ses europeus onde tamb&eacute;m se desenvolveu o tonalismo (sistema musical   tonal caracterizado pela organiza&ccedil;&atilde;o de notas e acordes em torno de um centro   principal, a "t&ocirc;nica", que juntamente com a   "subdominante" e a "dominante" estabelecem hierarquias funcionais que criam   tensões e relaxamentos, utilizando escalas maiores e menores) e toda essa   estrutura da linguagem musical foi levada a tantos outros lugares do planeta   pelo processo de domina&ccedil;&atilde;o e coloniza&ccedil;&atilde;o. &Eacute; importante mencionar, todavia, que outros sistemas de   organiza&ccedil;&atilde;o dos sons n&atilde;o baseados no tonalismo e sim em outros modos (escalas)   musicais, sustentavam a m&uacute;sica de milhares de povos nos demais continentes, e   os grupos vocais que entoavam esses cantos tamb&eacute;m tinham suas organiza&ccedil;ões   pr&oacute;prias.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Dada a   supremacia da coloniza&ccedil;&atilde;o, quando m&uacute;sicas de povos com estruturas n&atilde;o tonais   s&atilde;o executadas atualmente em concertos, muitas vezes s&atilde;o apresentadas   como folcl&oacute;ricas, ex&oacute;ticas ou regionais, desqualificando assim sua pot&ecirc;ncia   como express&atilde;o e identidade leg&iacute;tima de seu povo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Seja no   formato dos corais, como muitos de n&oacute;s conhecemos, ou em outras forma&ccedil;ões   vocais, o canto coletivo &eacute; uma das linguagens art&iacute;sticas mais praticadas pela   humanidade e sua presen&ccedil;a &eacute; percebida nas salas de concertos, nos palcos de   &oacute;peras e espet&aacute;culos musicais, nos cultos religiosos, nas festas populares, nas   escolas, nos protestos de rua, nas torcidas de futebol... e sua pr&aacute;tica, por   &oacute;bvio, n&atilde;o se limita aos cantores profissionais e nem tampouco &agrave;queles que se dedicam a uma rigorosa forma&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica.   (<a href="#fig01">Figura 1</a>)</font></p>     <p><a name="fig01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a13fig01.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">Diferentes   grupos com diferentes demandas de conhecimentos pr&eacute;vios compõem a amplitude dos   corpos coletivos que cantam sob uma estrutura formal minimamente organizada   (coros de igrejas, de escolas, universidades, empresas, clubes, grupos   independentes, entre outros). &Eacute; importante destacar que pouqu&iacute;ssimos s&atilde;o os   grupos profissionais que remuneram seus cantores (corpos art&iacute;sticos est&aacute;veis   como coros municipais, coros estaduais, coros de teatros, coros que atuam junto   a orquestras etc.), os quais s&atilde;o contratados mediante comprova&ccedil;&atilde;o de forma&ccedil;&atilde;o   t&eacute;cnica, geralmente com avalia&ccedil;ões em processos seletivos. Faz&#45;se relevante   observar que, na maioria dos casos, o prazer musical, o interesse no   aprendizado e na pr&oacute;pria a&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica, al&eacute;m do conv&iacute;vio com o grupo garantem   a exist&ecirc;ncia dessa arte que se mant&eacute;m viva apesar de toda sorte de dificuldades   financeiras e cujos cantores geralmente assumem as despesas para a manuten&ccedil;&atilde;o   do grupo e elabora&ccedil;&atilde;o dos espet&aacute;culos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Independentemente   do tipo de grupo a que se pertence, os efeitos f&iacute;sicos e psicossociais da   atividade de cantar e, principalmente, cantar junto com outras pessoas, t&ecirc;m sido estudados por   v&aacute;rios campos das ci&ecirc;ncias e os resultados revelam benef&iacute;cios em v&aacute;rias &aacute;reas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Na sa&uacute;de   f&iacute;sica, o trato cardiorrespirat&oacute;rio &eacute; amplamente exercitado, pois a respira&ccedil;&atilde;o   &eacute; a base da emiss&atilde;o vocal e os cuidados com a condu&ccedil;&atilde;o de uma melodia exigem   a&ccedil;ões respirat&oacute;rias espec&iacute;ficas, diferentes das realizadas em outras atividades f&iacute;sicas.</font></p>     <p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"&Eacute; a&iacute; que a m&uacute;sica toca o intang&iacute;vel."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">No ato de   cantar, o ritmo da m&uacute;sica, a tessitura da melodia, a articula&ccedil;&atilde;o do texto e as   varia&ccedil;ões das intensidades sonoras requeridas pela din&acirc;mica da composi&ccedil;&atilde;o ou do   arranjo expõem o cantor a um n&iacute;vel de aten&ccedil;&atilde;o plena para o controle   respirat&oacute;rio, envolvendo toda a estrutura muscular abdominal, diafragm&aacute;tica, a   amplitude pulmonar, al&eacute;m de todo o aparelho fonador e sua complexa   configura&ccedil;&atilde;o, afinal, esse ar, quando expirado, vira som, vira voz, vira   m&uacute;sica, vira arte.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">A organiza&ccedil;&atilde;o   mel&oacute;dica imprime uma situa&ccedil;&atilde;o r&iacute;tmica em que as palavras s&atilde;o articuladas de   maneira diferente da fala. As s&iacute;labas   das palavras (e,   &agrave;s vezes,   uma &uacute;nica   s&iacute;laba) s&atilde;o entoadas   em diferentes notas com dura&ccedil;ões que s&atilde;o definidas por razões pertinentes &agrave; arquitetura da composi&ccedil;&atilde;o ou do   arranjo musical.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Nesse ponto,   a mem&oacute;ria se apresenta como um elemento fundamental, pois todas estas   informa&ccedil;ões precisam acionar movimentos num corpo que agora &eacute; um instrumento   musical.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Tudo isso   ocorre no corpo/instrumento de cada cantor, mas no canto coletivo se torna   ainda mais intenso, pois tudo precisa ser sincronizado e, numa obra polif&ocirc;nica,   cada naipe entoa diferentes melodias, ou seja, o cantor precisa estar seguro no   que deve cantar, pois ouvir&aacute; simultaneamente outros colegas entoando outras   melodias com poss&iacute;veis diferen&ccedil;as r&iacute;tmicas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font size="2" face="verdana"><b>"Os grupos   de canto coletivo s&atilde;o potenciais escolas vivas de m&uacute;sica, de arte, e tamb&eacute;m de hist&oacute;ria, filosofia, sociologia e cidadania."</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">E agora o   processo da percep&ccedil;&atilde;o torna&#45;se a atividade maior, que buscar&aacute; observar e   entender o que est&aacute; ocorrendo no tempo real da execu&ccedil;&atilde;o musical – a afina&ccedil;&atilde;o   geral, por exemplo, ou a pulsa&ccedil;&atilde;o r&iacute;tmica entre todos os cantores. Na   performance musical vocal a percep&ccedil;&atilde;o se amplia partindo do   sujeito&#45;corpo&#45;instrumento, suas aten&ccedil;ões pr&oacute;prias: fisiol&oacute;gicas (respira&ccedil;&atilde;o),   musculares, articulat&oacute;rias, mem&oacute;ria; e gerais: ritmo, polifonia, harmonia,   afina&ccedil;&atilde;o, din&acirc;mica, express&atilde;o, orienta&ccedil;ões da reg&ecirc;ncia (quando houver), etc.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Mas tudo isso   &eacute; permeado por um elemento absolutamente fundamental e indiz&iacute;vel: a emo&ccedil;&atilde;o. Um   territ&oacute;rio subjetivo que ocorre a cada um de maneira particular. &Eacute; a&iacute; que a   m&uacute;sica toca o intang&iacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">E todo esse   movimento se faz em grupo, o que implica a percep&ccedil;&atilde;o de si e a percep&ccedil;&atilde;o e o   reconhecimento do outro. E aqui reside um ponto de relev&acirc;ncia essencial: o   outro como extens&atilde;o de si.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Cada naipe   emite uma nota. Sem o outro naipe, sem as outras vozes, n&atilde;o se formam acordes   (mistura de v&aacute;rios sons), n&atilde;o se estabelece a harmonia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Por tudo   isso, a pr&aacute;tica do canto coletivo tem sido objeto de estudo de v&aacute;rias ci&ecirc;ncias   m&eacute;dicas ligadas ao processo f&iacute;sico e neurol&oacute;gico de emiss&atilde;o da voz, produ&ccedil;&atilde;o da   fala e intera&ccedil;&atilde;o com a linguagem musical, como tamb&eacute;m nos campos da psicologia,   antropologia e sociologia, no que diz respeito &agrave; produ&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica afetiva,   constru&ccedil;ões identit&aacute;rias e organiza&ccedil;ões sociais.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Poss&iacute;veis   reflexões</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Por instalar   o indiv&iacute;duo em um grupo cuja atividade requer sua prontid&atilde;o para a intera&ccedil;&atilde;o   com os outros numa constru&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica por meio do aprendizado e   desenvolvimento da arte musical, o canto coletivo traz em si a oportunidade de   reconhecer&#45;se como pot&ecirc;ncia para ativar reflexões sobre o seu pr&oacute;prio fazer   art&iacute;stico e poss&iacute;veis desdobramentos e entendimentos que atualizem sua posi&ccedil;&atilde;o   no cen&aacute;rio art&iacute;stico e social contempor&acirc;neo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O que canta o   canto? Pode ser uma primeira pergunta para come&ccedil;armos a reflex&atilde;o. Canta o que   quer cantar. Pode ser a resposta imediata, justa e acertada. Mas a aus&ecirc;ncia do   questionamento pode nos levar, por exemplo, &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o de um repert&oacute;rio   can&ocirc;nico e &agrave; rever&ecirc;ncia e divulga&ccedil;&atilde;o de um acervo da heran&ccedil;a colonizadora   quando executamos a produ&ccedil;&atilde;o musical europeia sem contextualizarmos   historicamente o que de fato ocorreu para que esta m&uacute;sica, este repert&oacute;rio, se   preservasse por s&eacute;culos em nosso pa&iacute;s como refer&ecirc;ncia &uacute;nica de excel&ecirc;ncia   art&iacute;stica e a m&uacute;sica de outros povos, assim como esses pr&oacute;prios povos, fossem   colocados numa posi&ccedil;&atilde;o inferior. &Eacute; importante destacar que o ensino da   disciplina Hist&oacute;ria da M&uacute;sica nas universidades brasileiras baseia&#45;se predominantemente   na hist&oacute;ria da m&uacute;sica produzida no continente europeu.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">N&atilde;o se trata   aqui de negarmos a beleza e a riqueza da produ&ccedil;&atilde;o musical europeia e da   import&acirc;ncia e necessidade de mantermos vivos os interesses nos seus estudos e   execu&ccedil;ões, afinal, s&atilde;o exemplos bel&iacute;ssimos da tradi&ccedil;&atilde;o que nos constitui. Mas   sem o questionamento e a devida contextualiza&ccedil;&atilde;o nossa a&ccedil;&atilde;o pode tornar&#45;se   reprodutora do gesto colonizador. (<a href="#fig02">Figura 2</a>)</font></p>     <p><a name="fig02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v78n1/a13fig02.jpg"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana">E se   convers&aacute;ssemos mais sobre isso?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Pouco   cantamos do repert&oacute;rio dos povos origin&aacute;rios. Pouco sabemos da riqueza da sua   m&uacute;sica. Mas quando paramos para escut&aacute;&#45;las com aten&ccedil;&atilde;o percebemos que nos   faltam ferramentas para acessarmos os c&oacute;digos musicais destes cantores que   praticam seu canto coletivo desde muito antes da domina&ccedil;&atilde;o estrangeira. E o   mesmo se d&aacute; com a m&uacute;sica dos povos africanos que aqui chegaram pela escravid&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">E se   convers&aacute;ssemos mais sobre isso?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">O estudo da t&eacute;cnica vocal &eacute; fundamental para um bom desempenho art&iacute;stico   e, principalmente, para a sa&uacute;de vocal. Mas &eacute; frequente nos depararmos, nos   cursos oferecidos, com sistemas de ensino que modelam nossas vozes para a   est&eacute;tica europeia ou estadunidense, sem nos perguntarmos pelas diferentes   possibilidades do cantar, mas isso vem a reboque da aceita&ccedil;&atilde;o e da reafirma&ccedil;&atilde;o   do repert&oacute;rio do <i>mainstream</i> comercial da ind&uacute;stria cultural estrangeira   e que tamb&eacute;m recheia os programas de concerto dos coros no Brasil.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">N&atilde;o queremos   aqui propor o estreitamento das aten&ccedil;ões para a produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica   internacional, ao contr&aacute;rio, a proposta &eacute; conhecer, pensar e avaliar melhor   para que a rela&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica seja ainda mais valiosa e consciente.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana">E se   convers&aacute;ssemos mais sobre isso?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Os grupos de   canto coletivo chegam a seus p&uacute;blicos pela emo&ccedil;&atilde;o, e &eacute; pela emo&ccedil;&atilde;o que tamb&eacute;m   constroem seu dia a dia, e esse cotidiano constitui&#45;se um importante territ&oacute;rio   para o envolvimento em reflexões e estudos acerca do que se canta. Por exemplo,   ao cantar sobre uma rela&ccedil;&atilde;o amorosa &eacute; poss&iacute;vel refletir sobre como rela&ccedil;ões   afetivas t&oacute;xicas t&ecirc;m elevado o crescimento do feminic&iacute;dio e da viol&ecirc;ncia   dom&eacute;stica; ao cantar sobre a f&eacute; &eacute; poss&iacute;vel refletir sobre pluralidade e   toler&acirc;ncia religiosas; ao cantar as belezas naturais ou louvar a Deus pela obra   da cria&ccedil;&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel refletir sobre a crise clim&aacute;tica e nossas   responsabilidades para a preserva&ccedil;&atilde;o ambiental; ao cantar sobre a virtude da   caridade &eacute; poss&iacute;vel refletir sobre o nosso papel na promo&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a social.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana">Os grupos de   canto coletivo s&atilde;o potenciais escolas vivas de m&uacute;sica, de arte, e tamb&eacute;m de   hist&oacute;ria, filosofia, sociologia e cidadania. Trazem na sua forma&ccedil;&atilde;o a polifonia   social de seus pr&oacute;prios integrantes com suas hist&oacute;rias, seus conte&uacute;dos, seus   sentimentos e seus desejos. Trazem a pot&ecirc;ncia de reflexões e a&ccedil;ões   contempor&acirc;neas.</font></p>      ]]></body>

</article>
