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    Ciência e Cultura

    On-line version ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.54 no.1 São Paulo June/Sept. 2002

     

     

    TRABALHO

    Doenças ocupacionais afetam saúde dos músicos

     

    O Brasileirinho de Waldir Azevedo é um bom exemplo. Para chegar ao grau de preciosismo do chorinho, é preciso dedos rápidos e muitas horas de exercícios que expõem músicos a problemas graves de saúde, afetando seus músculos, articulações, ouvidos e cordas vocais. Tais males atingem esses profissionais de maneiras diferentes, dependendo do instrumento utilizado, tamanho e peso, horas de dedicação, exposição a ruídos e pressão sonora.

    Um dos principais sintomas ocupacionais é o chamado DORT, ou Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho, líder no ranking de doenças notificadas à Previdência Social e que afeta, principalmente, músicos de cordas em decorrência de microtraumas que vão se acumulando, movimentos manuais repetitivos, contínuos, rápidos e vigorosos durante longas horas de prática.

    A vulnerabilidade de músicos de cordas, especialmente os violinistas, já foi objeto de estudo pela Universidade do Texas, nos Estados Unidos: em 1989, a pesquisa realizada na instituição apontou, em um grupo de 2.122 membros da Conferência Internacional de Músicos da Sinfônica e Ópera, 75% afetados por algum tipo de problema ocupacional. No Brasil, 88% dos músicos de cordas reclamam de desconforto físico relacionado a sua atividade, segundo pesquisa de Edson Queiroz de Andrade e João Gabriel, fisioterapeutas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Os 419 instrumentalistas de 13 Estados brasileiros entrevistados para o trabalho queixam-se principalmente de desconfortos nas costas, pescoço e ombro esquerdo.

     

     

    As cordas vocais são expostas a horas de ensaio em ambientes barulhentos e poluídos, empregadas de forma inadequada, por tempo prolongado e em ambientes ressecados. Pior: as cordas vocais são sensíveis às variações bruscas de temperatura, o que pode afetar a voz, além de poderem sofrer inflamações devido ao consumo de cigarro e álcool. Mara Behlau, fonoaudióloga da Escola Paulista de Medicina (Unifesp), acrescenta que, entre os problemas mais comuns de voz, estão os edemas (inchaços) e calos das pregas vocais.

    Ouvidos apurados e sensíveis são exigências básicas para afinadores, regentes e músicos em geral. Conseguir discernir os tons e semitons de uma orquestra requer um apuro fundamental e a exposição aos decibéis gerados em uníssono pelo conjunto de violinos, flautas, da percussão e dos metais pode ser risco igual ao que sofrem trabalhadores de uma metalúrgica. Foi o que verificou Iêda Russo, fonoaudióloga e docente titular da PUC-SP, em pesquisas que realiza há 30 anos sobre a audição de músicos. Iêda Russo, que também é pianista, diz que a maior causa desses problemas é a amplificação da música que nos anos 60 estava na ordem de 100 watts de potência, “o som dos Beatles”, e saltou para cerca de 500 mil watts no início dos anos 90. O nível normal de audição é de cerca de 20db (decibéis); atinge 116db em shows de rock ou trios-elétricos durante o carnaval.

    É o que mostra sua pesquisa realizada em 1995 quando mediu os níveis de pressão sonora de dois trios-elétricos em Recife (PE) e seus efeitos nos músicos antes e depois dos ensaios e show. Dados do Ato de Saúde e Segurança de Ontário, no Canadá, indicam que a dose diária de ruído está em torno de 90dB durante 8 horas diárias e caso a pressão sonora eleve para 100dB a exposição deve ser reduzida para 2 horas diárias.

    São pouco os profissionais que se dedicam a saúde do músico. Carolina Valverde Alves, fisioterapeuta, percussionista e saxofonista amadora, e João Gabriel Fonseca, médico clínico e pianista, fundaram em 1999 o Exerser, Núcleo de Atenção Integral à Saúde do Músico com outros seis profissionais da saúde. Entre outros estudos na área, destacam-se pesquisas desenvolvidas na USP, Unifesp, PUC do Rio e São Paulo e a Universidade de Brasília.

     

    Germana Barata