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    Ciência e Cultura

    On-line version ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.64 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2012

    http://dx.doi.org/10.21800/S0009-67252012000400025 

     

    MARIA CECILIA GOMES DOS REIS

     

    Da casa ao cerne

     

    A casa estava reformada. Pairava como uma ilha, flutuando em algum mar ambiente. A noite era o que cercava tudo. Minha mãe a havia reformado muito e em nenhum tempo, vale dizer, instantaneamente. Isto era, de fato, prodigioso. O grande salão ocupava e cobria a última laje no familiar paralelepípedo, abrindo-se escancaradamente para fora. E tudo transmitia a ambígua mas agradável sensação de frescor tocando pele e de natureza recheando morna cada um de nós. Janelões em pé direito de villas italianas voltavam-se para o alto e eram penetrados por uma abóbada profunda, de gemas minúsculas e baças. A preciosidade alucinava os olhos noturnos. Nas salas, lustres amarelados pendiam do teto sobre uma mesa de jantar em que conversavam longamente e para sempre parentes próximos e comensais, e eu os reconhecia um a um. O primo mais velho trazia na testa um luminoso anunciando seus êxitos acadêmicos. Eu lembrava as avenidas, o trajeto de uma pizzaria na Mooca, luzes da cidade como flâmulas de Natal.

    Sou a voz de Laura e, por ora ocupo esta sentinela ubíqua e impessoal, da qual eu, tu e ela imaginamos acordar uma única e mesma expressão para o mundo que existe bem antes de mim. Passa um carro. Seu ouvido estereofônico capta novamente um som artificialmente humano, uma buzina que uiva "– E aí, mano?", balbuciando ainda uma frase que toda vez quase compreende, mas escapa-lhe de fininho junto a uma motocicleta cortando em velocidade o corpo desproporcionalmente urbano de onde mora. Ruminações mecânicas abastecem com movimentos o silêncio que não demorará muito a acabar. Laura mergulha na inconsciência de seu corpo inerte e da matéria viva.

    Volto para minha mãe. No início, não havia mundo externo. Talvez ela estivesse esquecida de providenciar uma saída honrosa para os que se vissem obrigados a partir de lá. Mergulho por pura necessidade no lago de sensações que sustentam aquele meio ambiente de ilha, de casa, onde o bem e o mal ainda não se separaram. Por ora, sou uma octópode. Noite. Uma amiga chega com seu bebê menina. É uma criança que se seduz pela festa, sai da zona vigiada e some. Em seguida, aparece no alto de um escorregador, uma espécie de calha da casa. Eu já me tornara uma anfitriã e um gás a preencher os vazios entre convidados. A menina desliza, eu a espero no final. Em meu colo, é um recém-nascido. Menos mal: a mãe não fora avisada do que ocorria na sua ausência. As trajetórias de uns e outros enlaçavam os núcleos humanos perambulando com pulmões, estômagos e palavras entre comidas e bebidas. O ventre vão é a única interioridade do indivíduo. O ar entra e sai, o nutriente. O resto é pura imaginação. Todos servidos, providenciar mais gelo. Fiapos de conversas engancham-se nas pessoas. No que concerne aos adultos, algo dependeria do improviso: caminhariam por canteiros em terra crua e densa como uma borra de café. Seus pés, sem se sujarem, deixariam inscrições naquele chão não plasmado, e partiriam. Volto à tona e respiro fundo. A angústia é a mãe de todos os movimentos. Um livro jaz no criado-mudo. Pensamentos pensados por outros: o que deveríamos ter visto era um meio ambiente transformando-se falsamente em um ser humano, escondendo dentro de si um indivíduo em potencial, e não um bebê. Com cuidado e sorte, o centro de gravidade dessa organização se alojará no centro em vez de na casca.

    Ela muda de posição em seu sono paradoxal; seus olhos se movimentam, mas a respiração revela a vigília suprimida. Laura afasta de si uma ideia. Mais um pouco, é a última vez. Frutas e suas cascas ressecadas sobre uma toalha xadrez. A história conta uma cura. Os meus olhos se abrem debaixo d'água e vejo uma luz à tona, da qual me aproximo. Ainda não preciso de ar. Num quarto real, de uma filha real, a mãe transformará o banco-parapeito da janela, sujeiras reais e uma ameaça real – a morte. Pintará com grafite e fará dele uma lousa que detenha. A criança estará protegida pelo jogo: escolher a cor do giz; começar o desenho da família, da casa e do bicho.

    27...9.8...6...4.3.2.1. Não dá mais, temos de nos separar.

    Ela se ergue da cama. Tateia, acha os óculos buscando com os pés as sandálias. As frestas com luz dirigem-na autômata ao banheiro, enxerga o espelho, o tapete, e não se dá ao trabalho de se ver, nem quer. Está esquecida de si mesma e a ausência do sonho é presente. Seus poros reagem ao xixi morno que a dilata, e ouve a descarga contra uma casa estática, aborrecida pela calcinha um tanto úmida. Um cão corre energicamente, ladra solitário e prepara-se para dormir; um carro, outro carro, uma maritaca grita para o sol. Identifica mal uma louça sendo lavada na cozinha. Pelo vitrô, uma luz nevoenta sugere que não está atrasada. Estrala uma vértebra e outras duas. Espreme pasta sobre as cerdas. Mira novamente em frente, tira os óculos e olhos sem lucidez estão na noite recém finda. Tudo aquilo desapareceu, e uma ideia sem palavras passa-lhe pela cabeça. Passeia por sua imagem amassada. A água corre, e tudo demora e demorará séculos para acontecer. Prefiro escovar os dentes antes do banho. A preguiça deixa um pensamento que não é seu impregnar-lhe a imaginação, enquanto a espuma esfolia as gengivas de seus humores. Um voto de docilidade e um panorama seu aparece no espelho. Cospe a água de estômago vazio, tentando inspirar-se de boa vontade e extrair-se com decisão do corpo relaxado, mas os músculos hesitam entre doer e colaborar. A vida é adaptação: o ajuste de cada um em suas próprias circunstâncias materiais, condições. Nunca encontro a toalha de rosto tão seca quanto gostaria. Isso a deixa ligeiramente deprimida. Linhas de pensamentos inscrevem-se em Laura com nexo, e a incapacidade de sustentar imagens desaparecidas faz experimentar um pouco de angústia por não encontrar a mãe. Olha no espelho e por um momento perdeu a esperança de curar-se. Ouve sem saber os gritos que acompanham o sacrifício de um bode e cantos religiosos: nascem seus primeiros desejos. O mundo está desabrochando, mas não há comida para todos.

     

    Maria Cecilia Gomes dos Reis, nasceu em São Paulo em 1956. É doutora em filosofia pela USP e professora na UFABC. Tradutora, publicou o De Anima de Aristóteles (Editora 34, 2006), recebendo menção honrosa no Prêmio União Latina de Tradução Especializada. Escritora, publicou O mundo segundo Laura Ni (Ed.34, 2008), romance finalista do Prêmio São Paulo deLiteratura, cuja abertura se reproduz aqui, e também A vida obscena de Anton Blau pela mesma editora no início deste ano.