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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.54 n.1 São Paulo jun./set. 2002

     

     

    Bizarra, não?*

    HILDA HILST

     

     

    Aí é assim: você resolve escrever, de verdade, faz toda uma opção de vida de caráter definitivo, rejeita frivolidades, vai morar no mato, sim porque antes era mata, gado, pastagem, há pouco é que virou “zona de expansão urbana” e com aquele IPTU que te aniquila, bem, mas continuando, você se entrega totalmente a essa absurda tarefa de escrever num país com milhões e milhões de analfabetos (sim, a opção foi sua, coda-se), os vietnamitas por exemplo tinham a maior paixão pela literatura, e segundo a biografia de Marguerite Duras eram cultos, refinados e ficaram escravos dos franceses (isso lá pelos idos de 1930), os brancos eram os reis do Vietnã, eram os patrões, a elite, e os vietnamitas eram os párias, esfarrapados, miseráveis, sim, mas já estou tentada a enveredar pelos caminhos daquela cólera sagrada, silêncio, calma Hilda! Então continuando, aí, depois de trinta anos você consegue lá algum renome, aí as pessoas praticamente suplicam para te conhecer, você fica a princípio acanhada, receosa, depois fica encantada, nossa! não é mesmo que me querem bem? Aí eles vêm, os supostos amantes do teu trabalho, e você se delicia, conta aos poucos teus medos, que você também é de carne e osso, que muitas vezes chora muito, horrorizada com toda a crueldade da Terra, aí você alguns dias se descabela, fica bêbada, sim queridos, porque um escritor se é muito bom escritor, tem mesmo que beber, porque (é bom ser didática) se ele é muito bom, ele sente muito diferente do açougueiro da esquina, do príncipe boboca também, ele, esse bom escritor, sente fundo e dilatado, sofre de compaixão e impotência, vê todos os canalhas do Planeta cometendo atrocidades, conhece todos os métodos do Poder para aniquilar esperanças, métodos os mais ignóbeis (agora me lembrei de um cara que tinha um irmão que se chamava Nobel, eu disse: foi em homenagem ao Nobel do prêmio Nobel? ele respondeu: não, mamãe achou a palavra “ignóbil” e o apelido dele ficou Nobel quando a mãe soube o significado da palavra). Continuando: aí o escritor que se pensava amado, fica íntimo daqueles que amavam o texto dele, e então só faltam cuspir nele quando ele se descabela, bebe, chora, arrota, quando ele se mostra derrotado diante das grandes perguntas, perplexo diante do mistério da vida e da morte, diante da maldade, do simiesco fútil da maior parte da humanidade. Então, os amiguelhos que te amavam, a essa altura já te acham um lixo e dizem pros outros que ainda te amam: é, vai conviver com o gênio e aí você vai ver como ele é. “Bizarro?” “Põe bizarro nisso, bicho!” E como é que vocês queriam que fosse, esse que escreve coisas geniais? Certinho, arrumadinho, abstêmio, fino, dissimulado, pactuando com elegância com todos os ignóbeis donos da miséria e do Poder?

     

    P.S. Consta que Shakespeare era “normal”(!!!).

     

     

    Hilda Hilst é uma das principais escritoras brasileiras. Sua vasta obra, que inclui prosa de ficção, poesia, teatro e crônica, está sendo reeditada pela Editora Globo. Entre seus títulos mais conhecidos estão A Obscena Senhora D, Cartas de um Sedutor, Bufólicas, Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão.

     

    *Texto publicado como colaboração dominical no jornal Correio Popular, de Campinas (SP), em 2 de abril de 1995. Não é parte do volume de crônicas de Hilda reunidos e publicados em Cascos e Carícias, embora referente ao mesmo período de sua colaboração.