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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.54 n.2 São Paulo out./dez. 2002

     

     

    FINITUDE, MUTAÇÕES E GOZO

    Ronilda Iyakemi Ribeiro

     

    Cada qual enxerga o meio dia da porta de sua casa, diz o adágio africano. Fato sobejamente conhecido é esse: a experiência social ou cultural interfere na concepção de tempo. Goldschmidt (1) observa que as definições de mundo são distintas, não apenas pelo fato de serem diferentes os costumes e as crenças dos povos: "É, antes, que os mundos de povos diferentes têm formas diferentes. Os próprios pressupostos metafísicos variam: o espaço não se conforma à geometria euclidiana, o tempo não constitui um fluxo contínuo de sentido único, as causas não se conformam à lógica aristotélica... como no nosso mundo".

    Quanto ao tempo, se pretendemos conceituá-lo, temos que considerar seus aspectos de tempo histórico, cronológico, físico, psicológico, entre outros. O tempo histórico, passível de divisão em intervalos curtos ou longos, pode ser concebido como um processo de ritmo variável e não uniforme. As direções desse tempo variam segundo diferentes padrões culturais, que exprimem atitudes valorativas: o processo temporal representado como um percurso linear progressivo, característico da representação cristã de tempo, tem contraponto no percurso cíclico, que reúne fases ou períodos recorrentes, característico, por exemplo, das representações negro-africana e chinesa. O tempo cronológico, que regula nossa existência cotidiana, pode ser considerado tempo socializado ou público. Opondo o tempo físico, natural ou cósmico ao tempo psicológico ou tempo vivido, temos que o primeiro, pode ser entendido como a medida do movimento, como a expressão de relação entre anterior e posterior e, ainda, como o próprio processo das mutações, que independe da consciência do sujeito. O tempo psicológico ou tempo vivido (duração interior), por sua vez, não coincide com as medidas temporais objetivas. Variando de indivíduo para indivíduo, sendo subjetivo e qualitativo, sujeita-se apenas ao registro de momentos imprecisos, que se aproximam ou tendem a fundir-se, numa organização determinada por sentimentos e lembranças, que definem "intervalos heterogêneos incomparáveis" (2).

    Na clepsidra escoa a água e na ampulheta, a areia, marcando intervalos de tempo, durações menores, em cada dia solar. Uma vez constatado que os fatos ocorrem em dada ordem, configurando unidades orgânicas, com princípio, meio e fim, temos uma relação entre o começo e o fim de movimentos que se sucedem no vasto continuum temporal, como que preenchendo o tempo de conteúdos. Essa representação, segundo a qual os eventos preenchem um continente temporal do mesmo modo que objetos preenchem continentes espaciais, não é pouco freqüente. Berthelot (3) assinala que a ordenação do tempo costuma proceder da ordenação do espaço, em especial a da semana. A ordem no tempo se originaria da consideração de sete direções espaciais – duas para a largura, duas para o comprimento e duas para a altura, mais o centro. Correspondendo o sábado ao centro e, expressando o centro a imobilidade, define-se esse dia como o de descanso e os demais como dias dinâmicos. E, pela relação que une entre si todos os centros e estes ao Centro Primordial, à origem divina, tem esse dia um caráter sagrado. A idéia de que o tempo – a semana – provém da organização do espaço pode ser substituída pela noção de que ambos resultam de um mesmo princípio. Nesse caso, o espaço pode ser considerado conjuntamente com o tempo e neles se produzem as fases que constituem o ciclo da vida: não-manifestação / manifestação / não-manifestação.

    "... primeiramente apresenta-se em geral aquilo que preenche uma fase do tempo e não a própria fase temporal correspondente em si mesma. Só a apresentação daquilo que preenche o tempo, conduz então à apresentação do tempo assim preenchido (4)."

    Nunes (5) observa que os diversos conceitos de tempo compartilham as noções de ordem, duração e direção, interligadas pelo conceito mais geral de mudança – mutação – ao qual não se pode reduzir a natureza do tempo, questão filosófica mais radical. E sobre esse conceito nos detemos a seguir.

     

    MUTAÇÕES SEGUNDO A CONCEPÇÃO CHINESA

    Não há dois lugares, nem talvez duas horas, em parte alguma,
    exatamente iguais. Quão diferente é o cheiro do meio-dia do
    da meia-noite, o cheiro do outono do cheiro do inverno, o de um momento de brisa de outro de calma!
    O mundo é na verdade um festim da vida!
    Walt Whitman

    As mudanças ou mutações, entendidas como passagem ou transição entre estados que perduram, constituíram o fator central da visão de mundo consolidada na China no período imediatamente anterior à Dinastia Chou (1150-29 a.C.). A observação do mundo, em torno de si e em seu próprio interior, levou o homem chinês a constatar um fluir contínuo do qual nada escapa e a constatar que, embora incontáveis e distintos uns dos outros, todos os fenômenos, em suas tendências de mudança, são regidos pelos mesmos e constantes princípios. Uma vez apreendidos tais princípios, descobre-se o simples por detrás do complexo, e fácil se torna o percurso de tudo o que acompanha o ciclo em vigência pois, segundo o pensamento taoísta, fluindo em acordo com as circunstâncias encontra-se um caminho fácil, duradouro e espontâneo, como o da água que, "descendo a montanha, diante de nada recua, diante de nada insiste: mergulha, desvia, contorna, adapta-se sem resistência e chega, pois, infalivelmente, ao que lhe corresponde (6)."

    Dois estados opostos e fundamentais de ser são expressos na China pelo Wu Chi, representado por um círculo dividido em luz e escuridão – yang e yin, significando yin, o nebuloso, o sombrio e yang (literalmente estandartes tremulando ao sol), algo que brilha, ou o luminoso, que também são interpretáveis como o firme e o maleável. Entendida a mutação como a contínua alternância entre essas forças opostas e, simultaneamente, como um ciclo fechado de acontecimentos complexos conectados entre si e sujeitos ao Tao (Lei Universal), têm-se os estados da existência como decorrentes da mutação e da interação dessas forças.

    Considerando o fato de ser a existência finita, cabe perguntar: ao longo do processo de contínuas mutações ocorridas ao longo do tempo de vida individual, que lugar é reservado ao gozo? E aqui, novamente, nos defrontamos com múltiplas respostas possíveis, dependendo dos pressupostos metafísicos adotados. Dentre eles recortaremos o enfoque chinês tal qual é apresentado por Lin Yutang (7), filósofo e romancista da década de 40.

     

    FINITUDE E GOZO

    Até a feira mais gloriosa, com suas tendas estendendo-se sobre
    mil milhas, mais cedo ou mais tarde, deve chegar a seu fim
    (Adágio popular chinês)

    A consciência a respeito da mutação contínua e da finitude da existência pode favorecer uma atitude de busca da felicidade. Lin Yutang aborda o tema da felicidade enfatizando que o sentimento da evanescência do tempo – somos "colocados nessa linda terra como hóspedes transitórios" – favorece uma postura existencial caracterizada pela busca do gozo. Recorrendo a outras metáforas, o autor refere-se a nós humanos como viajantes que navegam sobre o eterno rio do tempo, embarcando em certo ponto e desembarcando em outro, a fim de deixar lugar aos que, rio abaixo, esperam sua vez de subir a bordo. Refere-se à vida como um palco em que os atores, que raramente se dão conta de estarem representando papéis, a eles se apegam em demasia e, esquecidos do ato de estarem apenas representando, confundem-se com a personagem.

    Considera que, sendo limitado o prazo de vida, seu conteúdo deva ser ordenado tendo em vista a obtenção da maior felicidade possível o que, a seu ver, envolve antes uma questão de ordem prática, semelhante ao planejamento das atividades de um sábado, por exemplo, do que uma proposição metafísica atinente ao propósito místico de nossa vida no plano geral do universo. Observa, por exemplo, que mesmo se a vida fosse um sombrio calabouço, teríamos que fazer o possível para torná-lo mais cômodo para nele habitar durante um certo tempo. No entanto, como em lugar de um calabouço "temos essa terra tão linda para habitar durante boa parte de um século", por quê não usufruir, do modo mais prazeroso possível, essa estadia?

    Considerando que o gozo da vida abrange o gozo de nós mesmos, da vida social e cultural, das mil e uma coisas da Natureza, "de tudo o que, sob uma forma ou outra, vem a ser a comunhão dos espíritos" e entendendo que a felicidade humana é primordialmente sensória, o autor sugere que se resgate a capacidade para o gozo das alegrias da vida no fluir contínuo e ao longo das sucessivas mutações. E que isso se realize a partir do despertar ou reavivar da sensibilidade.

    Não se pense, entretanto, que haja aqui uma proposta de exaltação narcísica e individualista de busca contínua de um prazer exclusivo para si. A importância atribuída à corrente geracional e ao sentido do fluir do tempo através das múltiplas gerações, característica do pensamento chinês, supõe a obtenção de gozo associada à felicidade de outros, tanto da geração presente como das vindouras:

     

    Junto à colina, que lindos campos de ouro!
    Outros lavraram o que colhe agora o recém-chegado.
    Oh! Não te alegres somente com a colheita,
    Que outro recém-chegado, por detrás espera.
    (poeta chinês. Citação de Lin Yutang)

     

    Ronilda Iyakemi Ribeiro é doutora em Psicologia e Antropologia; docente e pesquisadora da USP e da UNIP; presidente da ONG Instituto Guatambu de Cultura.

     

     

    Notas e Referências

    1 Goldschmidt, W. Prefácio. In: Castañeda, C. A erva do diabo, São Paulo: Círculo do Livro, 1976.

    2 Pomian, K. L' ordre du Temps. Paris: Gallimard, 1984, p. 220, citado por Nunes, B. – O tempo na narrativa. São Paulo: Editora Ática, 1995. Série Fundamentos, p. 19.

    3 Citado por Cirlot, Juan-E.. Dicionário de símbolos. São Paulo: Editora Moraes, 1984, Trad. Frias, R. E.

    4 Ingarden, R. A obra de arte literária. Fundação Calouste Gulbenkian, 1973, p. 259 citado por Nunes, B. obra citada, p. 25.

    5 Nunes, B. O tempo na narrativa. São Paulo: Editora Ática, 1995. Série Fundamentos.

    6 I Ching - O Livro das mutações. São Paulo: Pensamento, 1970.

    7 Yutang, L. A importância de viver: a arte de ser feliz revelada pela profunda sabedoria chinesa. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1963, caps. 1, 5 e 6.